Esportes

São Caetano chegou ao limite
na derrota para o São Paulo

  DANIEL LIMA - 21/03/2018

Ultrapassar o desafio das quartas de final da Série A do Campeonato Paulista para um time que na metade da competição era lanterninha entre os 12 concorrentes seria sonhar demais. Por isso a derrota do São Caetano contra o São Paulo ontem à noite no Morumbi por dois a zero não deve causar nenhum trauma. Exceto ao goleiro Paes, responsável pelo primeiro gol do adversário aos 19 minutos do segundo tempo. Paes presenteou o atentíssimo centroavante Trellez. 

A falha de Paes foi escancarada, mas houve também a repetição de um equívoco fatal pouco identificado: o técnico Pintado, responsável pela grande recuperação da equipe, entregou de bandeja o controle tático do jogo ao adversário no segundo tempo. 

Pintado deu ao São Caetano tudo o que o antecessor Luiz Carlos Martins foi incapaz. O time passou a jogar de forma competitiva, mais organizado no sistema defensivo e incômoda no ataque. Fez tudo conforme cartilha de quem sabe que futebol é ocupação de espaço, posse de bola produtiva, combate incessante sem a bola, variedade de opções ofensivas e tantos outros requisitos. 

Insistindo em erro 

Entretanto, Pintado insistiu em trocar o certo pelo inoperante nos dois jogos. No primeiro, no Anacleto Campanella, a vitória de um a zero resistiu à incipiente recuperação são-paulina. No segundo, no Morumbi, custou caro. Paes foi apenas o instrumento prático de um tropeço normal mesmo diante de um São Paulo que está à procura de um sistema tático e de jogadores que se encaixem nos compartimentos funcionais. 

Nos dois jogos a saída do meia de armação Nonato, possivelmente a maior revelação das divisões de base, causou avarias. Sobretudo porque foi substituído por Niltinho. A diferença entre eles é abissal. Tanto no aspecto tático quanto técnico. 

Nonato é um desses meio-campistas que enchem os olhos. Mesmo quando não está no melhor dos dias, como ontem à noite, é imprescindível ao equilíbrio do setor. Sem contar que de vez em quando arrisca finalizações. O único chute a gol do São Caetano no primeiro tempo de ontem à noite, rente à trave, foi de Nonato. É verdade que a melhor oportunidade foi de um Ermínio nos piores: ele perdeu o tempo da bola quando sobrou livre num rápido contragolpe e finalizou contra o corpo de um zagueiro. 

Niltinho é um atacante pelas extremidades de campo que já jogou como ponta de lança, mas não tem talento para dar harmonia à equipe. Veloz, Niltinho é pouco inteligente como peça de engrenagem coletiva. Ou seja: não decifra o entorno, não se aplica na recomposição e atrapalha-se com a possibilidade de fazer da bola ferramenta letal nas proximidades da área adversária. 

Perda de terreno 

É claro que o São Caetano só poderia perder terreno ao trocar Nonato por Niltinho. E foi o que mais uma vez se deu ontem à noite. Nonato não sentiu cansaço ou câimbra para ser trocado no intervalo. Sem Nonato no meio de campo, o São Caetano ao ser dominado de forma muito mais incisiva por um São Paulo atrapalhado, mas claramente mais agressivo com as substituições no tempo derradeiro.

Foram poucos os momento em que o São Caetano quebrou o ritmo de jogo que interessava ao adversário. De modo geral, passou por constante assédio defensivo. Faltava uma válvula de escape, um temporizador técnico. Faltava Nonato. 

Talvez o grande equívoco de Pintado tenha sido desprezar o pragmatismo que a vantagem de um a zero construída no Estádio Anacleto Campanella oferecia. Traduzindo: o São Caetano voltou para o segundo tempo com o placar a favor, mas preferiu intensificar o poderio ofensivo com Niltinho ao invés de valorizar a posse de bola, o equilíbrio setorial e tudo o mais com Nonato. Mesmo um Nonato muito marcado, opressivamente marcado, mas sempre lúcido e insinuante. 

Transformar o goleiro Paes em vilão da eliminação do São Caetano não seria justo, embora o erro infantil tenha aberto o caminho para a classificação tricolor. A eliminação foi consumada aos 39 minutos, quando a individualidade de Nenê, numa jogada de craque, deixou a defesa do São Caetano à mercê do cabeceio de um Diego Souza que entrara pouco antes na função que sabe, mas que treinadores personalistas demais lhe sonegam, enfiando-o entre os zagueiros. 

Saldo positivo 

O São Caetano perdeu para um São Paulo confuso, mas voluntarioso, porque não conta com um reserva para posição-chave. Chiquinho, que supostamente seria uma opção, manteve-se como titular como espécie de meia-atacante, não como organizador da equipe. É difícil encontrar alguém com as características de Nonato, mas um meio-campista que saiba valorizar a bola e o conjunto tático está no portfólio de agentes especializados. É claro que sem a perspectiva e as especificidades de Nonato. 

Ao lançar novamente mão de Niltinho o técnico Pintado exagerou na dose de um erro cometido anteriormente, do qual se safou apenas porque as circunstâncias eram outras. 

O saldo positivo do São Caetano na principal competição estadual do País não pode ser negado. Deve mesmo é ser valorizado. A oxigenação do clube depois de vários anos de ostracismo na Série B Paulista e fora do circuito nacional pode ter continuidade com mais tranquilidade numa recomposição de forças que só fará bem ao futebol brasileiro. Pintado tem saldo positivo elevadíssimo nesse processo. Mas também teve sua porção, em versão discretíssima, de Paes na derrota de ontem. 

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