Esportes

Santo André está com um pé
na cova rasa do rebaixamento

  DANIEL LIMA - 05/03/2018

A cronologia e os títulos provam que em nenhum instante as duas equipes que representam a região na Série A do Campeonato Paulista me levaram a conjecturar algo muito diferente do que a briga para fugir do rebaixamento. O Santo André confirmou a desconfiança. A derrota em casa de um a zero diante do Botafogo de Ribeirão Preto na noite de sábado foi mais que um placar adverso. Por outro lado, gostaria de ser desmentido pelo São Caetano, que enfrenta o Palmeiras esta noite na Capital. Se vencer, entra na briga por uma vaga nas quartas de final. Qualquer outro resultado (mais provável) manterá o time de Pintado na briga para fugir do rebaixamento. O consolo é que a situação pós-Pintado é muito melhor.  

Vamos ao caso do Santo André. O time de Sérgio Soares só ganhou do Corinthians até agora e tudo indica que será rebaixado. Tudo indica não significa que será, mas carrega carga pesadíssima de possibilidade. Perder para o Botafogo em casa com um futebol que repetiu outras jornadas não foi novidade. Os maiores males do Santo André são inapetência à transpiração e obviedade de inspiração treinada e por isso mesmo sujeita a antídotos.  

Problema estrutural  

Inapetência à transpiração é a falta de percepção de que além de tática bem definida e treinada (pouco importam as individualidades, desde que não cometam barbaridades) é preciso empenhar-se fisicamente. O Santo André tentou ganhar pontos na competição acreditando que um futebol clássico, bem organizado, bastaria. Quando percebeu que a vaca estava indo para o brejo, caso do jogo com o Botafogo, partiu para a agressividade física. Nos primeiros 15 minutos colecionava dois cartões amarelos e outros dois foram generosamente omitidos pela arbitragem. Quando resolveu jogar apenas futebol fez pouco.  

E não fez pouco porque necessariamente não soube fazer. Também fez pouco por isso, mas igualmente porque o Botafogo fez o que todo time visitante de forças semelhantes à dos mandantes deveria fazer se pretender algum resultado satisfatório: desaqueceu o jogo, tirou o ambiente emocional como elemento de definição do resultado.  

Além disso, o time de Ribeirão Preto montou sistema defensivo sólido, com três volantes a fechar espaços laterais e centrais. Buscou o contragolpe de forma suficiente a ter o controle tático durante quase todo o jogo. O Santo André foi um mandante formal. Deixou o adversário sair com liberdade ao campo de ataque. Raramente marcou a saída de bola no campo ofensivo. Não se impôs. Não foi um candidato inconformado ao rebaixamento.  

Manter o Santo André sem pontuação ou com pontuação mínima em 90 minutos se tornou rotina na competição. O time de Sérgio Soares raramente aproveita a função de pivô do centroavante Lincom. Os meio-campistas não aparecem frequentemente para incomodar os zagueiros e volantes. As extremidades do campo são as preferidas do time, sobretudo a esquerda. Mas o individualismo impera nos pés de Hugo Cabral e Walterson. Até mesmo porque eles não têm dinamismo tático-coletivo. Jogam à moda antiga, como destinatários de passes e lançamentos. Guilherme Garré, Joãozinho e Aloisio têm mais mobilidade. O time ganha certo dinamismo com eles. Hugo Cabral e Walterson participam pouco da elaboração de jogadas. A deficiência sobrecarrega a criação e a destruição de jogadas no meio de campo. O time se torna óbvio no ataque.  

Defensivismo neutralizador  

O defensivo Botafogo soube neutralizar os poucos pontos fortes do Santo André, de transposições laterais. Raramente o time de Sérgio Soares incomodou o goleiro adversário. A recíproca é verdadeira, mas o Botafogo foi menos indolente no ataque. O gol num momento em que o Santo André expunha um buraco na defesa, com a contusão do zagueiro Domingos, foi a brecha que o Botafogo não encontrara com facilidade ao optar por privilegiar o sistema defensivo. 

Houve quem torcesse o nariz quando escrevi em 16 de fevereiro que o Santo André deveria se preocupar também com a possibilidade de rebaixamento. Faltavam cinco rodadas e o site Chance de Gol atribuía ao time de Sérgio Soares apenas 8% de possibilidades de cair. Por isso, o título daquela matéria (“Santo André pode tudo nas últimas rodadas. Inclusive cair”) foi visto por alguns como injustificado.  

Reproduzo alguns trechos da matéria para melhor entendimento. Acho que vale a pena contextualizar aquela afirmativa: 

 O futuro do Santo André é uma intrigante interrogação ao faltarem cinco jogos para o encerramento (...) depois da derrota de anteontem diante da Ferroviária por dois a um em Araraquara. Estaria o time de Sérgio Soares habilitado a disputar o mata-mata ou terminaria a competição fora da próxima etapa, mas também longe do rebaixamento? Ainda há a alternativa de que possa ser assombrado pelo descenso. Tudo isso se deve aos limites técnicos da equipe e ao contexto classificatório tanto do grupo do qual faz parte quanto da classificação geral. (...) Como se observa, mais que os três pontos a separar as duas equipes na classificação geral (que definirá os rebaixados) o que pesa na equação favorável ao Santo André (na comparação com o rival) são as peculiaridades da competição e, também, o amadurecimento tático mais rápido. Enquanto o São Caetano passa o que passa (mostramos isso num texto publicado ontem), o Santo André parece ter atingido o limite possível de rendimento.  

O que está faltando  

 O Santo André só decepcionou em Araraquara quem ainda não se deu conta de que já teria atingido padrão de rendimento coletivo e individual que dificilmente será elevado de forma a surpreender. A vitória diante do Corinthians foi o ápice entre outras razões porque times grandes sempre despertam empenho acima da média. Em condições normais de tempo e temperatura, como o confronto com a Ferroviária que passou e do Bragantino neste sábado à tarde no Estádio Bruno Daniel, a lógica do jogo normal prevalece. O maior problema do Santo André não é necessariamente de ordem tática. O time está bem mecanizado para executar boa parte das lições repassadas pelo técnico Sérgio Soares. Entretanto, há ingrediente que dificilmente será contemplado: a equipe não tem o que chamaria de junção de intensidade e força física para chegar a algo mais, mesmo se considerando que a classificação ao mata-mata não é improvável porque o grupo que ocupa tem baixo desempenho. Tudo é possível, portanto.  

Destino matemático  

 Ainda falta ao Santo André acabamento técnico ao meio de campo que, além de marcar com razoável poder, deveria servir de opção mais constante ao ataque. Nenhum dos jogadores escolhidos por Sérgio Soares para as penetrações centrais tem rendido o necessário. Tinga está discreto demais e mesmo o segundo volante Dudu Vieira não repete as incursões como antes. (...) Mesmo após terem sido consumidas sete rodadas da competição – o que parece pouco, mas é mais de 50% do itinerário classificatório ou de rebaixamento – o Santo André não é um time que possa ser definitivamente avaliado em termos de destino matemático. Justamente porque tem fortes condicionantes no arranjo coletivo e individual, tudo pode acontecer. Se valesse a classificação dos oito primeiros colocados, independentemente de agrupamento, a equipe não teria futuro tendo o mata-mata como alvo. Entretanto, o regulamento favorece a obtenção de uma vaga mesmo em situação de desvantagem numérica geral. Tanto que a equipe de Sérgio Soares é a 13ª colocada entre os 16 participantes. (...) Fica, portanto, a impressão de que o Santo André poderá, apesar das vantagens relativas à classificação, ficar fora de uma disputa subsequente que daria mais visibilidade e prestígio. Possivelmente nos dois próximos jogos, contra o Bragantino e, em seguida, o Santos na Vila Belmiro, as contradições sobre o futuro próximo do Santo André prevalecerão. O rebaixamento estaria praticamente descartado se vencer o Bragantino, ao mesmo tempo em que a perspectiva à primeira fase de mata-mata poderia se fortalecer. Uma derrota ou empate no Estádio Bruno Daniel serviria de alerta como indicativo de que cuidar da queda viraria prioridade. 

São Caetano joga hoje

O São Caetano que enfrenta o Palmeiras hoje à noite na Capital sabe que os três pontos podem fazer toda a diferença nas duas rodadas subsequentes e finais. Se ganhar, o que é improvável, estará habilitado a sonhar com uma vaga nas quartas de final do campeonato. Se perder, o que é mais que possível, tomará consciência coletiva de que a decisão para valer para continuar na Série A Paulista são os três pontos que disputará em casa nesta quinta-feira com o Botafogo de Ribeirão Preto. Com imaginados 13 pontos e quatro vitórias o São Caetano estaria praticamente livre do rebaixamento. O jogo na rodada final com o Bragantino no Interior deixaria de ser um passaporte ao desespero. 

As duas últimas rodadas foram redentoras ao São Caetano. Além de deixar a zona de rebaixamento viu possibilidades matemáticas de rebaixamento desabarem, segundo estudos do Chance de Gol. Mas, também nesse ponto, convém desconfiar. 

Os especialistas do site dominam um diagnóstico essencialmente pontual, no aqui e agora, embora, contraditoriamente, tenham a probabilidade construída com base no conjunto temporal da disputa como mantra. Há duas semanas o São Caetano tinha a alma do rebaixamento encomendada com 80,5% de risco. Agora são apenas 18,8%. Uma derrota para o Palmeiras, que está na conta do Chance de Gol, não faria muita diferença. 

Inversamente à situação do São Caetano, o Santo André desabou no Chance de Gol. No mesmo período saltou de 6,0% para os atuais 62,4% de risco de queda. O Santo André, vice-lanterna da competição, só é superado pelo Linense, que, derrotado ontem por um a zero pelo São Caetano, reúne 91,5% risco de rebaixamento. O Mirassol é a equipe que ocupa a quarta colocação quando se vira de cabeça para baixo a previsão do Chance de Gol, com 16,9% de risco. 

Tudo isso não deve ser contabilizado no terreno da precariedade. Até prova em contrário. O vencedor do confronto direto entre Linense e Santo André deverá dar um salto significativo para amenizar o drama em que vivem. Principalmente se os diretos concorrentes ao rebaixamento não pontuarem na rodada do de semana.  

Cronologia e títulos

02/03/2018 - Agora vamos saber quem tem garrafa para vender 

26/02/2018 - Série A vira balaio-de-gato contra queda e classificação 

23/02/2018 - São Caetano e Santo André correm para melhorar posições 

19/02/2018 - Vitória reduz bastante risco de rebaixamento do São Caetano 

16/02/2018 - Santo André pode tudo nas últimas rodadas. Inclusive cair 

15/02/2018 - São Caetano vai decidir tudo nos três jogos como mandante 

14/02/2018 - Santo André e São Caetano jogam para mudar o rumo 

07/02/2018 - São Caetano pode acertar na mosca com novo treinador 

05/02/2018 - São Caetano e Santo André na corda bamba do rebaixamento 

30/01/2018 - Santo André aumenta risco da região na Série A Paulista 

29/01/2018 - São Caetano tem dois jogos para sair do sufoco e ganhar fôlego 

26/01/2018 - Santo André mostra a cara de Soares, mas é prejudicado 

25/01/2018 - São Caetano ganha jogo com futebol-força e dois reforços 

24/01/2018 - São Caetano e Santo André correm para fugir de crise 

19/01/2018 - São Caetano e Santo André bem diferentes e preocupantes 

18/01/2018 - São Caetano perde e tabela vira um grande complicador 

15/01/2018 - Região pronta para Série A. Já imaginaram bolsa de apostas? 

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