Sociedade

Destrinchamos manchetíssima
do Diário de hoje há 16 anos

  DANIEL LIMA - 28/02/2018

O Diário do Grande ABC publica na edição de hoje, como manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) um tema sobre o qual nos debruçamos tantas vezes que perdi a conta. Vou reproduzir abaixo alguns trechos da análise que fiz na edição de novembro de 2002 para a revista LivreMercado, antecessora de CapitalSocial. 

A diferença entre o Diário do Grande ABC de hoje e do passado, quando se referia a roubo e furto de veículos, é que agora acertou o alvo. Mesmo assim sem chegar à pontuação mais elevada porque esteriliza a prevalência do ambiente criminal na definição das apólices das companhias seguradoras. 

No passado, o mesmo passado no qual interferi com textos contrários aos pressupostos do Diário do Grande ABC, a publicação mais tradicional da região insistia em afirmar de forma triunfalista e típica de Complexo de Gata Borralheira que a região era discriminada pelas companhias de seguros de veículos. 

Teria a região custos maiores das apólices por conta de perseguição comercial, por assim dizer. Explicamos todas as vezes que se tratava de lógica econômica que vale para tudo, inclusive para o mercado de seguros de veículos: quanto maior o risco, maior o prêmio, no caso, o custo da apólice. 

Na edição de hoje o Diário do Grande ABC afirma corretamente e sem mania de perseguição que o seguro de veículos na região, em média, é 30% mais caro que na Capital. A matéria não dá o peso adequado à principal razão da diferença: a incidência de roubos e furtos aqui é muito maior. Somos um campo de atração de meliantes. 

Agora, repassamos um terço da análise que fizemos há mais de uma década e meia. Selecionei os trechos aleatoriamente. Escrevi o artigo em novembro de 2002, sob o título “Grande ABC é líder absoluto em roubo e furto de veículos”. 

Aqueles que nos chamavam de derrotistas abrem espaço à realidade nada agradável, mas indispensável para que a sociedade tenha conhecimento amplo do ambiente em que vive. E que, por conta disso e de tantas coisas igualmente valiosas na definição mais ampla de qualidade de vida, observe com mais atenção o agregado de valores pífios de quem manda e desmanda na região. Mandachuvas e mandachuvinhas, como todos sabem. 

Liderança absoluta 

 Você que anda sobre rodas no Grande ABC, prepare-se para informação nada agradável: os 20.115 furtos e roubos de veículos registrados pela polícia nos primeiros nove meses deste ano colocam a região na liderança absoluta desse tipo de criminalidade no Estado de São Paulo. Vou repetir a informação com valor agregado: além de espezinhada pela administração do governo federal ao longo da última década, ou principalmente por isso, o Grande ABC chega ao topo da criminalidade no quesito roubo e furto de veículos, superando inclusive a vizinha e mais automotiva Capital.

Números fluminenses 

 (...) Isso posto, preparem-se para notícia que também ajuda a explicar por que o custo das apólices de seguros de veículos no Grande ABC é semelhante ao do Rio de Janeiro e Baixada Fluminense. A comparação com a vizinha Capital é francamente desfavorável à região: o proprietário de veículo no Grande ABC corre risco 18% superior de roubo ou furto em relação à cidade de São Paulo. Nos nove primeiros meses deste ano, a Capital acumulou 73.243 casos de furtos e roubos, contra 20.115 do Grande ABC. Como temos 2,350 milhões de habitantes contra 10,4 milhões da Capital, a diferença na aferição de casos por 100 mil habitantes é desfavorável à região.

Economia e criminalidade 

 A perda da competição para a Capital e tantos outros municípios da Região Metropolitana de São Paulo e do Interior é emblemática da indiscutível queda da qualidade de vida do Grande ABC na última década, escancarada também no rebaixamento da participação relativa e absoluta da economia regional no Estado de São Paulo. Aliás, a economia em declínio ajuda a explicar o restante.

Números crescentes  

 No período de 1991 a 2000, segundo dados oficiais da Fundação Seade, organismo do governo do Estado, o Grande ABC passou de 41,85 para 54,42 homicídios por 100 mil habitantes. Santo André deu salto de 35,66 para 54,52. Sem contar que há 20 anos sua marca estava rigidamente em oito assassinatos para 100 mil moradores, como lembrou Celso Daniel poucos meses antes de ser assassinado. Apenas Campinas — com um milhão de habitantes e centro de uma Região Metropolitana de população equivalente à do Grande ABC — chega perto da média de roubos e furtos de veículos, com 80,23 por 100 mil moradores, ou seja, 6,26% menos que a região. Osasco e Guarulhos, no cinturão da Grande São Paulo e tão próximas da Capital quanto vários municípios do Grande ABC, oferecem números bem mais palatáveis: Guarulhos de 1,1 milhão de habitantes registra 40,13 roubos e furtos de veículos por 100 mil moradores, contra 49,30 de Osasco. São José dos Campos, Capital do Vale do Paraíba, apresenta média de 34,37, próxima aos 34,23 de Santos.

Ganhando da vizinhança  

 Comparando: o Grande ABC tem incidência de roubo e furto de veículos 53% superior a Guarulhos, 18% a São Paulo, 60% a São José dos Campos, 6,26% a Campinas e 42,39% a Osasco. (...) A situação de Santo André e de São Caetano é alarmante no interior do quadro já por si só delicadíssimo do Grande ABC. São Caetano tem a segunda maior taxa de roubos e furtos do Estado, com 125,35 casos para cada 100 mil habitantes, enquanto Santo André ocupa a liderança absoluta, com 133,86 casos — praticamente o dobro do anotado na Capital e quatro vezes mais que a média do Interior paulista.

Custo ABC evidente 

 (...) É evidente que em situação como a que está impressa nessa numerologia toda especial, o chamado Custo ABC deixa de ser expressão supostamente vazia para se consolidar como verdade inquietante. As companhias de seguro não têm vocação para Madre Tereza de Calcutá e, por isso mesmo, analisam a fundo o perfil de sinistralidade nas praças em que atuam. 

Prosperidade se esvai 

 (...) A fama de prosperidade e riqueza que o Grande ABC cultivou com méritos durante mais de três décadas ainda prevalece em mentes descuidadas ou deliberadamente triunfalistas, escondendo, portanto, o quadro de exclusão social crescentemente alarmante. As imagens de miséria que as emissoras de TV flagram no Norte/Nordeste poderiam lhes poupar tempo e dinheiro com o registro das periferias do Grande ABC e da Grande São Paulo. A diferença é que na Região Metropolitana de São Paulo o choque entre excluídos e incluídos induz à criminalidade. O tráfico de drogas está consolidado não apenas em bairros da periferia, mas também e descaradamente nos redutos de classe média.

Vulnerabilidade evidente 

 Enquanto alguns tolos filosóficos pensam com seus botões algo como o efeito-Tostines, numa pendular dúvida se o Grande ABC seria criminalmente cada vez mais preocupante porque é economicamente cada vez mais vulnerável ou se o Grande ABC seria cada vez mais vulnerável economicamente porque é cada vez mais preocupante criminalmente, as estatísticas inflam e nos remetem a todos para o purgatório. Iremos para o inferno da sociedade fragmentada ou para o céu do capital social?

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