Sociedade

Clube dos Prefeitos virou
farra do boi de politicagens

  DANIEL LIMA - 21/02/2018

Após um ano de comando político da Província dos Sete Anões, outrora Grande ABC, não existe dúvida: os tucanos da região fazem um trabalho descomprometido com a sociedade regional. A bordo do Clube dos Prefeitos e da Agência de Desenvolvimento Econômico, destruíram o que minimamente se identificava como encaminhamento de regionalidade. Eles estão nadando de braçadas (mas nem sempre em direção correta) no patrocínio de politicagens no sentido mais sórdido da expressão. Politicagem é quando a política deixa o campo de jogo da moralidade à vista de todos e entra no túnel das obscuridades. 

Logo abaixo desse texto que preparei já faz uma semana, vou pegar carona na informação do jornalista Samuel Boss, do site “Bastidor Político”, que dá conta de que o Clube dos Prefeitos abriu e fechou uma licitação para, vejam só, contratar uma empresa jornalística interessada em prestar serviços de publicação de Atos Oficiais. Fosse apenas isso, tudo dentro da normalidade formal. 

O problema é que a empresa vencedora da licitação teria de se submeter ao cabresto de publicar em forma de noticiário convencional tudo o que o Clube dos Prefeitos entender que deva ser publicado como informação. Mas a trambicagem ética não deu certo. Tenho informações que explicam o golpe furado. 

Sabotagem regional 

Vamos voltar à origem deste texto, anterior ao abalroamento da licitação espúria. Trata-se do fato de que Orlando Morando e Paulinho Serra, titulares dos paços de São Bernardo e Santo André, estão na linha de frente de sabotadores do regionalismo. 

Cada vez aparecem mais que vestígios, provas materiais e subjetivas que os associam ao sacrilégio de atirar na lata do lixo tudo de positivo que tenha vindo do passado, mesmo que não seja muito, para tentar imprimir marcas próprias. Estão perdidos. 

Lançam-se a aventuras como a da Casa do Grande ABC em Brasília, desperdício desde o princípio porque se organizou algo sem saber exatamente com que deveria lidar, e politizam estruturas institucionais regionais com deslavado interesse eleitoral. 

Nossos piores tempos 

Vivemos coletivamente os piores tempos da regionalidade. Nada indica que haverá mudanças significativas. O quadro macroeconômico e macropúblico nacional não nos favorece. Somos cada vez menos importantes política e economicamente para o Estado de São Paulo e para o Brasil, apesar das jogadas de marketing que, inclusive, pretenderam fazer de Orlando Morando candidato ao governo do Estado. Economicamente descemos ladeira abaixo, com queda acumulada de participação no PIB Nacional desde 1970 da ordem de 59,30%. 

Não vou reproduzir dados econômicos fartamente conhecidos por quem acompanha esta revista digital. O mais importante a destacar mesmo é que não existe nada com organização e planejamento regional para estancar o processo de decadência.

E, pior que isso, teremos mais sobressaltos nos próximos tempos, mesmo com a recuperação da indústria automobilística que nos sustenta e nos escraviza. Há nuvens a anunciar que o protecionismo federal à elite industrial do País começa a ruir. O Estado parece cansado de sustentar, à custa de desequilíbrios sociais e econômicos uma atividade que há mais de 60 anos vive de regalias, com desdobramentos que, no campo trabalhista, fomentam abismos entre trabalhadores de primeira classe e os demais, longe de qualquer atenção do Estado. 

Agenda sem lideranças 

É gigantesca a agenda econômica da região. Entretanto, não existe na praça um prefeito sequer, e, principalmente, o Clube dos Prefeitos como soma de supostos interesses, disposto a destrinchar o que é inadiável. 

Em todas as configurações-padrão em que se acrescentam dados regionais como suprimento a testar nova etapa de desenvolvimento econômico, nada se encontrará com volume e massa suficientes para mudar o rumo dos acontecimentos. Perdemos competitividade para todos os adversários mais bem organizados e logisticamente mais atualizados na Região Metropolitana de São Paulo. Fora dessa geografia, então, derrotas são compulsórias. 

Com certo conformismo que não se recomenda a jornalistas que têm por obrigação representar interesses da sociedade, mas nem por isso negligente à imperiosidade de opor-se ao estado de desmonte contínuo da estrutura econômica da região, Norberto Luiz Perrela assinou outro dia artigo no Diário do Grande ABC, jornal que pouco espaço concede à iniciativa privada. Prefeito sempre e sempre o sindicalismo trabalhista. 

O artigo de Perrela 

Perrela, novo dirigente máximo do Ciesp de Santo André (que abrange Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra), usou apenas um quarto do espaço disponível para revelar certa dose de indignação. Leiam o trecho que selecionei: 

 O ano de 2017 foi de dificuldades, mas o indicador do nível de atividades da indústria paulista já tem mostrado variações positivas, consolidando o viés de crescimento, apesar da absurda indefinição da reforma da Previdência. Regionalmente, nos últimos anos, tivemos dificuldades na interlocução com os gestores públicos. A indústria regional foi colocada de lado, ficou exposta às pressões sindicais, tornando a região nada estratégica para muitas empresas, que resolveram se transferir, levando nossa riqueza par outros locais do Estado.

Água com açúcar 

Considerando-se a realidade histórica de destruição da indústria de pequeno porte da região, o trecho mais apimentado do artigo do novo dirigente do Ciesp é água com açúcar. Fossem captadas declarações sem filtro dele e de tantos outros pequenos empresários industriais da região, possivelmente seria necessário utilizar alguns asteriscos.

Num outro trecho do artigo, Norberto Perrela lembra uma das marcas mais indeléveis do esvaziamento econômico da região citadas inúmeras vezes por este jornalista. Leiam:

 Quem ainda não aceita a tendência de sermos cidade dormitório e só acompanhar o movimento em nossas principais vias de acesso. A Anchieta e as estações ferroviárias absorvem grande massa de pessoas que saem da região para trabalhar, que almoçam, fazem compras, se utilizam do serviço bancário em outros locais e movimentam a economia fora daqui. 

Que horizonte é esse? 

Mas o dirigente do Ciesp não encerrou aquele parágrafo sem amenizar a barra dos políticos: “Começamos a vislumbrar futuro diferente com a recepção que nos foi dada pelo diálogo aberto com os gestores municipais”. Quando se tem o IPTU de Santo André como referencial destes tempos, seria dispensável o complemento amenizador. 

Resta saber, portanto, que tipo de encontro foi esse com a Administração Paulinho Serra num período dos últimos três meses em que o setor produtivo de Santo André, além de todos os demais, foram contemplados com o assalto à mão armado do aumento estratosférico do IPTU e não se registrou qualquer movimento que insinuasse ataque vigoroso ou mesmo displicente contra os mata-burros que desaconselham investimentos no Município. 

Sobre a licitação

Completando a informação sobre a licitação natimorta do Clube dos Prefeitos para oficializar o encabrestamento da Imprensa mais dócil da região a pretexto de publicar atos oficiais, sabe-se de fonte segura que toda a engrenagem foi preparada com objetivos político-eleitorais. O secretário-executivo Fabio Palacio, candidato derrotado a prefeito em São Caetano nas últimas eleições, quando entrou na disputa para valorizar o passe, viu desbaratada a tentativa de uma operação que desagradou a terceiros mais próximos do prefeito dos prefeitos do Clube dos Prefeitos, Orlando Morando. 

Sabe-se, sem o menor risco de equívoco, que tudo estava delineado para que os atos oficiais e a consequente e patética oficialização do manejo da Imprensa mais permissiva passavam por condicionalidades ao futuro próximo eleitoral. 

Já ouviram falar em reciprocidade? Já ouviram falar em reciprocidade política? Já ouviram falar em reciprocidade política com terceiras intenções? Pois é dessa última alternativa que se trata o modelo de transparência do Clube dos Prefeitos. 

Rebuliços interesseiros 

Fabio Palacio deu com os burros nágua. As restrições ao comando prático do dia a dia do Clube dos Prefeitos publicadas nos últimos dias por alguns veículos de comunicação da região foi a senha do descontentamento com os rumos do que seria um simulacro de licitação dirigida por Fabio Palacio.  Interesses foram feridos. Rebuliços nos bastidores motivaram a suspensão da licitação garantidamente de cartas marcadas. Agora vai ser necessário recompor as peças de um tabuleiro nada republicano. O Clube dos Prefeitos entrou em parafuso político, como se não bastasse o fracasso institucional a partir da morte do seu criador, o então prefeito Celso Daniel. O PT pós-Celso Daniel jamais foi tão ostensivamente partidário no comando do Clube dos Prefeitos. 

Nem durante a gestão de Luiz Marinho que, sabiamente, reforçou o orçamento da agremiação. Orlando Morando encontrou no discurso falso de contração financeira uma maneira rastaquera de minar o Clube dos Prefeitos. Contava com a opção de dar novo direcionamento ao organismo, transformando-o num organismo tecnicamente profissional desde a cabeceira, ou seja, da direção executiva. Preferiu a política partidária recheada de marketing mais que manjado.  

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