Sociedade

Quantos estariam prontos para
dinamitar mesmices da região?

  DANIEL LIMA - 16/02/2018

Se tenho 20 nomes de gente que poderia formar um pelotão para reformar a Província dos Sete Anões, e se cada um dos indicados listasse outros 20 nomes, e assim sucessivamente, quantos seriam, afinal, os potenciais integrantes daquela que seria a maior mobilização pela reforma econômica da história regional, com profundas intervenções sociais? 

Tenho todas as dúvidas sobre a capacidade de multiplicação de participantes. É mais provável que os 20 indicados iniciais caiam na armadilha da redundância, ou seja, não teriam como nadar de braçadas com novas indicações.  Estaríamos todos presos a um redemoinho de escassez de matéria-prima em forma de cidadania. 

Acho até que, para uma segunda etapa do processo (ou seja, uma lista de 20 indicados além dos 20 indicados inicialmente por este jornalista) teríamos algo mais próximo do que chamaria de encalacramento da pirâmide social. O que seria encalacramento da pirâmide social? 

Respondo já: trata-se da impossibilidade de se reproduzirem novas listas de gente de qualidade com disposição para seguir em frente num projeto de interesse social. Pirâmide financeira é algo semelhante. O norte-americano Bernard Madoff, espécie de ícone da malandragem, está na cadeia, após rombo milionário contra milhares de investidores incautos.   

Roteiro conceitual básico 

Pensem comigo os leitores. Uma segunda rodada de 20 indicados por este jornalista para compor um batalhão de elite suficientemente pronto para eliminar velharias institucionais da Província significaria que contaríamos ao final dessa etapa com 400 indicações. É um baita exagero, convenhamos. Desconfio de que provavelmente não preencheríamos essa etapa. Não estão disponíveis, com as condicionalidades necessárias, 400 pessoas que integrariam um movimento de reconfiguração institucional da região.

É lamentável, mas não existe massa crítica regional para sequer completar a lista da segunda etapa de indicações. Não chegaríamos, repito, a 400 nomes. Quem duvida dessa perspectiva certamente cairá em si quando apontar assim de bate-pronto algumas das premissas essenciais à empreitada, sem as quais o movimento daria com os burros nágua. 

 Disposição para vestir a camisa da regionalidade em primeiro, em segundo e em terceiro lugares.

 Desembaraço de relações com agremiações partidárias.

 Desprezo a conflagrações ideológicas. 

 Disposição em dedicar determinado número de horas semanais a questões prioritárias.

 Independência nas relações com Administrações Públicas Municipais. 

 Determinação para enfrentamentos compulsórios à recuperação econômica da região. 

 Conscientização de que instituições da região estão desaparelhadas para se tornarem parceiras.

 Concentração total e absoluta nos pontos de desenvolvimento econômico que definirão as ações.  

 Dinamismo de atuação similar à discrição para caracterizar o movimento como ação coletiva. 

 Comprometimento com as etapas posteriores à consolidação do movimento. 

Corrupção fora do programa

O que fazer, então, diante do possível impasse relacionado às limitações de participantes? Já tentei montar um grupo há poucos mais de três anos e caí do cavalo. O Defenda Grande ABC chamou a atenção de interessados, muitos interessados, até que se descobriu que o imperativo a balizar a atuação seria a caça aos corruptos da região, sobremaneira os incrustrados nas administrações municipais. 

Como essa barreira é intransponível num primeiro momento, o mais sensato e pragmático seria a escolha dos primeiros 20 convidados tendo como mote principal a recuperação econômica da região. Não se tocariam em feridas éticas e morais. O robustecimento coletivo é mais importante. Acho que poderia juntar duas dezenas de voluntários sob o guarda-chuva da lista inicial dos 10 pontos explicitados acima. À falta de uma Operação Lava Jato local, a melhor fórmula de combater os bandidos sociais é enfraquecê-los institucionalmente. 

Fórum pedagógico 

Sonho com uma assembleia geral para a composição desse nicho de sensibilidade econômica e social como matriz de algo muito maior, mas não necessariamente grande demais como foi o Fórum da Cidadania do Grande ABC. 

Naquele movimento faltaram e sobraram muitos pontos que autofagicamente o inviabilizaram. No nosso caso, do Grupo dos 20+ Não-Sei-Quantos, a longevidade e a efetividade dos ideais caminhariam de forma mais concentrada num gueto temático que, pela capacidade de capilarização, alcançaria os objetivos de forma mais contundente e produtiva, além de motivadora. 

Já conhecemos uma lição preciosa definida na possibilidade de o esfarelamento do movimento caminhar na mesma raia miúda da dispersão dos objetivos. Foi assim que o Fórum da Cidadania se deu mal, após emergir como a reunião mais potencialmente revolucionária na região. O pavonismo asfixiou a objetividade. Pretendeu-se consertar o País com pautas que nem os congressistas velhos de guerra, de então e de hoje, dão conta. 

Os vinte voluntários iniciais seriam a alma do movimento, portanto, mas apenas uma fração de algo muito mais denso para que as metas sejam alcançadas. Faço essa especulação numa terça-feira de Carnaval. Só agora revelo publicamente. Precisaria escolher os voluntários a dedo.  

Seriam esses 20 primeiros os contribuintes à conceituação mais detalhada dos 10 quesitos listados. Ou mesmo para eventuais alterações que não infrinjam a cláusula pétrea da proposta de mitigar na Província dos Sete Anões tudo que significa quinquilharia institucional – ou seja, transformar em peças praticamente irrelevantes as entidades que ocupam o cenário regional sem comprometimento algum com grandes e pequenos reformas, entre outras razões porque a maioria exerce o poder paralelo em comunhão com políticos de plantão.

Dosando o entusiasmo

Sinto que talvez tenha sido otimista demais quando, mesmo com restrições, afirmo que não preencheríamos integralmente o segundo grupo de convidados para chegar a 400 no total. Exceto se algo de extraordinário ocorrer, com o auxílio indispensável de aplicativos de comunicação, se chegarmos num primeiro ensaio geral a 100 nomes já seria extraordinário. Mereceria comemoração. 

O poder de fogo e de influência seria bastante significativo.  Redes sociais bem orquestradas podem fazer a diferença entre a indiferença e a inquietação de prefeitos e vereadores, por exemplo. O caso IPTU em Santo André, embora excepcional, deixou um rastilho à mostra. Inclusive sobre os limites de avançar e de parar para refletir e se reorganizar. 

Nas redes sociais que frequento por causa da patetice do IPTU proporcionada pelo prefeito de Santo André, Paulinho Serra, notei que há vários representantes da sociedade a ganhar um lugar no movimento sugerido neste artigo. Mas também há muitas tranqueiras ideológicas que, exatamente por serem tranqueiras ideológicas, inviabilizam qualquer ação. Tê-los num movimento descontaminado de chavões seria estabelecer compromisso com o caos. 

Teste de excessos 

Não existe remédio que combata a obsessão ideológica-partidária. Há um teste fatal para identificar os enfermos: basta enviar mensagens condenatórias envolvendo políticos de agremiações antagônicas metidos em encrencas. Reações unilaterais são um atestado de reprovação a movimentos suprapartidários. Doentes partidários estão sempre prontos para dar o bote. Eles desprezam evidências em contrário, quando não as subvertem.

Jamais em toda a história da região houve campo tão propício a uma jornada reformista para valer e que tenha como lastro um grupo inconformado como o modelo que fracassou ao longo dos tempos. 

Por isso, basta seguir o roteiro previamente estabelecido (mas sujeito a reconfigurações que não maltratem o conceito central) para que ganhe corpo e dinamite inclusive ou principalmente as supostas fortalezas de mandachuvas e mandachuvinhas que emperram a vida regional há dezenas e dezenas de anos. 

Simples assim. Complexo assim.  

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