Regionalidade

Quantos Pablo Escobar temos
de tirar do caminho regional?

  DANIEL LIMA - 06/02/2018

Calma, calma. Até prova em contrário não tivemos nenhum contraventor do tamanho do delinquente colombiano a destruir nossa reputação e a economia naquelas proporções. Mas contamos com uma montanha de problemas que, juntos e metaforicamente, poderiam ser espécies de Pablo Escobar regional. São nossos maiores obstáculos. Destruí-los seria um bom começo para uma reação espetacular. 

Quem teria coragem de enfrentar o desafio de desativar uma boa quantidade de armadilhas, uma a uma? Primeiro é preciso listá-las? Não, prefiro explicar a razão de rebocar à nossa regionalidade aquele marginal internacional. Depois, se tiver tempo, faço uma relação breve e incompleta do que devemos extirpar da vida regional para uma reação coordenada que nos devolva a qualidade de vida em conjunção com a mobilidade social, suprassumos de desenvolvimento econômico. 

Legado pernicioso 

Minha inspiração de trazer Pablo Escobar a estas páginas veio da reportagem desta quinzena da revista Exame sobre a estupenda recuperação econômica de Medellín, na Colômbia, terra de Pablo Escobar. Começo pelo final da reportagem para chegar aonde pretendo. Transcrevo os últimos parágrafos da entrevista que, no conjunto de informações, deveria servir de desafio aos prefeitos da região. Leiam a declaração do prefeito colombiano Federico Gutiérrez, entusiasta da participação de empresários na vida pública: 

 O legado do Escobar parece ser reverenciado. A antiga residência dele, hoje em ruínas, virou um ponto turístico. O maior desafio da cidade hoje é mostrar para quem é de fora, seja investidor, seja turista, que a Medellín real não é a Medellín da Netflix. Nos próximos meses, espero poder finalizar um projeto de lei para demolir essa residência. Quero enviar uma mensagem sobre como podemos derrubar os símbolos da ilegalidade. Nesse espaço, vamos erguer um memorial para as vítimas dos narcotraficantes. Chega de engrandecer o outro lado – disse o prefeito. 

Clube dos Prefeitos 

Agora chego aonde pretendia desde o início. Quando o Clube dos Prefeitos que está cada vez mais à deriva, sem foco e politizado desde o secretário-geral sem conhecimento algum sobre regionalidade, passando pelos prefeitos que não dão à instituição a dedicação necessária, quando o Clube dos Prefeitos, dizia, vai destruir miniaturas de Pablo Escolar que, somadas, transformam a região em anticlímax de investimentos? 

Quando o conservadorismo triunfalista da região, a incensar velharias que já não respondem ao interesse social, vai ser derrubado num processo que reúna autoridades públicas eleitas pela população e representantes dessa mesma população que não sejam extensão dos interesses mútuos em relação aos poderosos de plantão como nestes tempos?

Querem alguns exemplos de dinamitações que fariam muito bem à região e nos remeteriam à profilaxia do prefeito de Meddelín para acabar com os estragos de Pablo Escobar? Vamos lá então:

 Cobrar do governo do Estado ações efetivas para fazer de fato do trecho sul do Rodoanel não necessariamente a melhor esquina do Brasil, como ele a proclamou, mas uma serpentina logística que não nos coloque em permanente desvantagem no confronto com outras geografias, notadamente a Região Oeste da Grande São Paulo, com Osasco, Barueri e vizinhança a nadarem de braçadas. 

 Quem topa desenvolver série de pesquisas e estudos para determinar até que ponto as montadoras de veículos instaladas na região sufocam empreendimentos de menor porte pelo fato de estabelecerem nas relações trabalhistas espécie de dumping social, porque protegidas ao longo de décadas principalmente pelo governo federal? 

 Quem terá coragem de pressionar para valer o governo do Estado a reavaliar a Avenida dos Estados, outrora centro nervoso-econômico de Santo André? Aquele endereço em permanente prova de destruição pelo tempo e pela incúria dos administradores públicos exige reestruturação física completa para devolver aos municípios da região, sobre os quais exerce influência logística, alguma porção de competitividade econômica. 

 Quando o Clube dos Prefeitos sairá do casulo corporativista e comodista que o identifica desde o primeiro suspiro de regionalidade formal e abrirá as portas para agentes da sociedade independentes a ponto de passar por inteiro redirecionamento diretivo?

 Quando a região vai se mobilizar para impedir que o traçado do monotrilho, chamado de metrô pelos subservientes de sempre, não seja réplica em concreto elevado do esvaziamento econômico provocado pelo Rodoanel? Pesquisas já provaram que, assim que a porteira do monotrilho for aberta (ou seja, quando vier a ser colocado à disposição do público), teremos uma evasão de consumo monumental em direção à Cinderelesca capital. 

Estoque dispensável  

Sem grande esforço poderia listar pelo menos 30 miniaturas de Pablo Escobar que azucrinam a vida da região desde muito tempo. Mas é melhor parar por aqui para não me tornar repetitivo em relação ao estoque acumulado ao longo dos anos.  

Convém lembrar que a iniciativa do prefeito de Medellín em preparar o desmonte da residência do delinquente que estigmatizou a cidade colombiana é apenas o corolário de uma ação reestruturante relatada em entrevista à revista Exame. 

Virando do avesso  

Diz a reportagem que Medellín virou do avesso os ônus que carregava como endereço a ser evitado. Leiam alguns trechos da entrevista que selecionei: 

 O engenheiro colombiano Federico Gutiérrez, de 43 anos, é um entusiasta da participação de empresários na vida pública. Em 2015, Gutiérrez venceu a eleição para a prefeitura de Medellín, segunda maior cidade da Colômbia e, no passado, palco de uma epidemia de violência causada pelo narcotráfico. No pior momento, em 1991, houve 380 homicídios por 100.000 mil habitantes em Medellín, quase três vezes a média da cidade mais violenta do mundo hoje, a salvadorenha San Salvador. Desde então os homicídios em Medellín caíram 90%, resultado de políticas nacionais de combate ao narcotráfico e de iniciativas locais para o aumento de investimentos na cidade. Em 2003, foi criada uma coalizão de empresários, universidades e gestores públicos, os quais se reúnem periodicamente para discutir o futuro da cidade.  

Agora, as principais respostas à entrevista de Exame. Vejam o que declarou o prefeito: 

 Em vez de ir embora por causa da violência, boa parte dos empresários permaneceu mesmo nos piores momentos. Hoje, seis das dez maiores empresas listadas na bolsa colombiana têm sede em Medellín. A iniciativa privada é parte importante de um comitê que funciona há 14 anos.  

 O debate com o empresariado dá clareza sobre desafios e prioridades da cidade. Um exemplo: há alguns anos, chegamos à conclusão no comitê de que o crescimento econômico futuro viria de indústrias inovadoras. Por isso, em 2010 criamos a Ruta N, uma incubadora de startups 100% pública. O resultado é a ampliação dos investimentos públicos e privados em inovação. 

 Não basta o governo criar instituições de apoio à ciência e tecnologia. Para funcionar, o investimento precisa estar articulado com o empresariado. (...) Outra saída é firmar parcerias na educação. Há dois meses firmamos alianças com empresas para que apadrinhem escolas públicas de pior desempenho.  

 É claro que o empresário sempre levará adiante os interesses econômicos de sua empresa. Mas, quando nos sentamos, a regra é que eles nunca falem de seus negócios. Nunca. (...) Sindicatos e universidades participam das discussões também, o que dá transparência. Se houver divórcio entre o setor privado e o setor público, os mais afetados serão os cidadãos.  

 Combatemos a ineficiência com um código de boas práticas que vem sendo melhorado ao longo dos 60 anos da empresa (a estatal EPM, que fornece sérvios públicos, como água, luz e coleta de lixo), um exemplo de governança para quem acredita que empresas públicas são sempre ineficientes.  

 O conselho da EPM atua com independência do Executivo municipal. Além disso, há bases técnicas muito fortes. Caso ocorram mudanças no Conselho, a estrutura continua a mesma. Além de prestar bons serviços, a EPM dá dinheiro.  

 Tivemos que chegar ao fundo do poço da violência em 1991 para entendermos a necessidade de trabalhar juntos pelo desenvolvimento da cidade. Desde então, estamos tendo a maturidade política de continuar os programas que funcionam, independente do partido que esteja no comando da Prefeitura. 

 Hoje temos uma taxa de 21 homicídios por grupo de 100 mil habitantes. Precisamos baixar mais essa taxa. Um desafio da cidade e da América Latina é passar de uma cultura de ilegalidade para outra de legalidade. Por esse motivo, mantivemos uma luta tão forte contra os criminosos. 

Esperando, esperando 

O que as autoridades públicas e as representações econômicas e sociais da Província do Grande ABC ainda não perceberam é que a derrocada regional expressa em qualquer indicador que meça o tamanho da encrenca da quebra da mobilidade social está na baixa competitividade econômica. O resto – inclusive a luta insana para impedir que o prefeito Paulinho Serra cometesse um crime de lesa-contribuintes – é consequência. Não causa. 

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