Economia

PT fracassa em 13 anos: PIB da
região supera estragos de FHC

  DANIEL LIMA - 08/01/2018

A gestão de 13 anos do PT no governo federal, de janeiro de 2003 a dezembro de 2015 (faltam os dados de 2016 que serão conhecidos somente em dezembro deste ano) conseguiu proeza que parecia impossível: a participação da Província dos Sete Anões, outrora Grande ABC, foi ainda mais comprometida quando em confronto com o desempenho nacional. 

Quando FHC deixou o governo federal e a região prostrava-se diante de uma abertura industrial apressada e pouco ajuizada, a participação do PIB dos Municípios da região no PIB Nacional era de 2,63%. Nos 13 anos já contabilizados dos petistas, a participação caiu para 1,86%, o menor nível nas últimas cinco décadas quase completas analisadas por este jornalista, primeiramente na revista LivreMercado, da qual foi fundador e comandante editorial. 

A queda relativa do PIB da Província entre 2002 e 2015 chegou, portanto, a 0,77 ponto percentual ou a 29,28%. Anteriormente, entre 1996 e 2002, período quase todo tomado pelos dois mandatos de FHC (que começou em janeiro de 1995) a perda do PIB regional chegou a 0,22 ponto percentual e a 7,72% -- praticamente um por cento a cada temporada. Eram 2,85% em 1996. O desemprego de 85 mil trabalhadores com carteira assinada no setor industrial é um dado mais agressivo do período fernandohenriquista. Já a perda do PIB da região nas gestões petistas chegou à média de 2,30% ao ano.  

Entre 1970, quando se iniciam estudos do comportamento do PIB da Província, com participação de 4,57% no PIB Nacional, e 2015, último ano medido pelo IBGE, a queda é de 59,30% -- 4,57% na origem e 1,86% na ponta extrema. Se alguém der a essa transformação outra marca que não seja fracasso retumbante é ruim da cabeça ou dissimulador compulsivo. 

Decadência de meio século

Vou deixar para os próximos dias uma avaliação mais abrangente dessa prova mais que provada de que a Província é um fracasso anunciado do qual não escapam governos federais, estaduais e municipais. Nesses quase 50 anos de decadência da economia regional apenas um prefeito pode ser retirado do balaio de gatos de incompetências que caracterizam a região. É claro que estamos nos referindo a Celso Daniel. E mesmo assim o petista morto em janeiro de 2002 já havia jogada a toalha da regionalidade num canto qualquer. Os parceiros de mandatos na região não tiravam o umbigo dos respectivos municípios, fingindo-se de regionalistas. 

A primeira grande análise que publiquei na revista LivreMercado sobre a cronologia da derrocada econômica regional (antecedida de tantas outras menos detalhistas) ocupou inúmeras páginas da edição de abril de 2001sob o título “A queda do nosso PIB”. Todos sabem ou deveriam saber que LivreMercado tornou-se a melhor publicação regional do País por causa de muitos fatores, mas as análises econômicas foram, sem dúvida, o carro-chefe. Escrevemos com nossa equipe o que as demais mídias, inclusive da Capital, ainda não perceberam: a região tão decantada como berço de metalúrgicos supostamente politizados (na verdade, corporativistas, apenas corporativistas) dava sinais evidentes de rebaixamento de riqueza. Projetamos uma queda gradual e temerosamente consistente que o tempo provou corretíssima. 

Surpresa desagradável

De qualquer modo – e é preciso preservar a sinceridade como medida de credibilidade e de ética – o desempenho petista na presidência da República acabou surpreendendo. Achávamos, ou tínhamos certeza,  que seria muito difícil repetir o histórico de oito anos de empobrecimento regional provocado pela política econômica de Fernando Henrique Cardoso neste território. Demos com os burros nágua. 

É verdade que o segundo mandato de Lula da Silva significou intervalo no precipício regional que Dilma Rousseff, sua sucessora e herdeira de políticas econômicas excessivamente generosas, tratou de desmantelar. Até porque não havia outra saída depois que as commodities que garantiram balanços comerciais confortáveis passaram por desvalorização nas trocas comerciais, entre tantos erros, sobretudo de farras fiscais. 

Mas, voltando à matéria que preparei àquela edição de abril de 2001 de LivreMercado, a recuperação de alguns parágrafos mostra a diferença entre um trabalho jornalístico comprometido com o futuro da região e a farra geral de mentiras e dissimulações do ambiente regional proporcionado por oportunistas de plantão. Vamos a alguns trechos: 

 Que tipo de mensagem lhe faz bem: a) ouvir e ler boas notícias sobre o Grande ABC; b) ouvir e ler notícias realísticas sobre o Grande ABC. Se optou pela primeira alternativa, você está certo. Não há quem não queira ouvir e ler boas novas sobre a região. Se prefere a segunda alternativa, está corretíssimo, porque não é possível ignorar a realidade quando se tem responsabilidade. Por isso temos dois tipos de notícias aos leitores. Primeiro, o PIB (Produto Interno Bruto), que é a soma de todas as riquezas com produção e serviços, segue como prova eloquente de que o Grande ABC é poderoso. Afinal, esse território de apenas 740 quilômetros quadrados de área e 2,3 milhões de habitantes supera, individualmente, 19 Estados brasileiros e o Distrito Federal. Isso mesmo. Está à frente de quase todos os entes federativos. Só perde para São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Bahia e Santa Catarina. É uma pena que a boa notícia sobre o Grande ABC ser o oitavo PIB do País se limite exatamente à exuberância econômica construída a partir da chegada da indústria automobilística e também do Polo Petroquímico de Capuava.

Análises premonitórias 

Essa matéria publicada em 2001 apontava os resultados exclusivos que colhemos nos organismos federais sobre o comportamento da economia regional a partir de 1970. Trouxemos os resultados a dezembro de 1996, atualizando os números com base no valor médio do dólar naquele ano. Muito antes disso, em março de 1990, portanto há quase 28 anos, publicamos na mesma LivreMercado, uma análise inédita sobre uma realidade que todos procuravam esconder. O título “Esvaziamento industrial da região compromete poderio econômico” foi tratado pelos mandachuvas e mandachuvinhas locais como obra de herege. Leiam alguns dos trechos que selecionamos. E reflita sobre a importância de cada parágrafo, levando-se em conta a passagem do tempo: 

 O Grande ABC não está com a bola toda, como muitos imaginam, ou como considera uma parcela razoável de investidores nas áreas de comércio e de serviços. Se é verdade que nos últimos anos descobriu-se o filão dos grandes shoppings centers e das lojas de departamentos e as principais representações de serviços deslocaram baterias principalmente para o A e o B do ABC, não é menos real que o esvaziamento industrial, ditado pelo crescente êxodo de grandes e médias empresas, acentua-se discreta e perigosamente. Mais grave que as perdas econômicas estrategicamente enrustidas pelas representações empresariais e contundentemente sentidas pelos trabalhadores, é a política suicida de ignorar ou mascarar os fatos. O Grande ABC está empobrecendo a olho nu. É verdade que a situação macroeconômica do País esparrama diretamente sobre a região uma onda de desalento. Mas é inconcebível que as autoridades dos mais diversos setores e calibres permaneçam praticamente imobilizadas. O ABC perde cada vez mais sua face industrial, situação que poderá empalidecer seus indicadores econômicos e sociais.

Mais análise de 1990 

 Embora faltem estatísticas na região, como de resto ao Brasil, os poucos números coletados e distribuídos por algumas instituições são elucidativos. Reduz-se a força industrial da região e tolos são aqueles que acreditam que os setores comercial e de serviços assumirão automaticamente os espaços que se abrem e, desse modo, evitarão o pior. Sem produção, já está provado no grande palco do capitalismo, os Estados Unidos, não há resistência do comércio e dos serviços. O que mais assusta é a falta de unidade entre as representações políticas, empresariais e sociais no Grande ABC. Se organizar de forma conjunta os sete Municípios do Grande ABC parece tarefa impossível para os políticos, sobretudo quanto às questões da produção industrial, porque há bloqueios naturais do ponto de vista doutrinário a desestimular tal proposta, pelo menos as bases empresariais da região poderiam unir-se para uniformizar gestões junto às prefeituras, de modo a que surgisse algo como um plano industrial.

Mais análise de 1990 

 Se, dada a falta de união empresarial, essa proposta fosse avaliada como absolutamente irrealizável, então que se limite o empresariado a trabalhar em seu Município. Quem sair na frente provavelmente forçará os demais municípios a deixarem o berço esplêndido em que estão enfiados. Afinal, o esvaziamento industrial e econômico do Grande ABC atinge a todos, indistintamente. Há particularidades em cada cidade, mas globalmente existe forte semelhança: ninguém ainda se deu conta de que o sucateamento que se junta ao esvaziamento levará a região a ser apenas lembrança de passado poderoso. Se a ciclotímica crise econômica brasileira serve de atenuante ao empresariado regional que insistentemente se mostra arredio a formulações coletivas, o mesmo não se pode dizer das autoridades públicas, como prefeitos e vereadores. Eles só raciocinam em termos eleitorais, com raras exceções. E voto significa imediatismo de ações, porque quatro anos passam rapidamente e quem descuidar fica a ver navios. Assuntos econômicos ligados à produção raramente são debatidos. A falta de projeto econômico para cada cidade da região e para o ABC como um todo é algo tão acintoso que a simples sugestão de que se pense no assunto pode chocar.

Mais análise de 1990 

 (...) Se estivesse, pois, em qualquer posição geográfica do País, a grande maioria das indústrias do ABC teria um quadro de infortúnio a açoitá-las. No ABC, então, agrava-se o desconforto, porque as grandes indústrias são referencial obrigatório das reivindicações trabalhistas. Nos últimos 12 anos, o setor de pequenas e médias empresas, principalmente das unidades dirigidas de forma convencional, passou o sufoco do enfrentamento com a Central Única dos Trabalhadores – CUT -que, todos sabem, não é exatamente compreensiva com os empresários. Máquinas e equipamentos da maioria das empresas estão obsoletos, sem condições de dar respostas aos anseios de produtividade do Governo Federal. Aliás, nem as montadoras de veículos escapam desse aniquilamento. Chamados de carroça pelo próprio presidente Collor, os veículos aqui produzidos não perdem para a concorrência internacional apenas quanto à qualidade. Perdem de goleada para os japoneses, americanos e europeus na classificação de produtividade. Gastam-se nas montadoras brasileiras 48 horas para se fazer um carro, contra 17 no Japão e 25 nos Estados Unidos. Se dentro das fábricas e nos gabinetes oficiais e empresariais o quadro é de Terceiro Mundo, qualquer análise que se faça da economia regional tem de levar em conta também as crateras sociais criadas pela bomba do centralismo federal. A reforma constitucional de 1988 permitiu aos municípios forte incremento de arrecadação de tributos, mas as duas décadas e meia em que o governo federal mandou e desmandou no dinheiro público feriram de morte a topografia regional, bem como de todas as regiões metropolitanas do País. O cinturão de indigência social que cerca os bairros mais antigos da região é um retrato sem retoque dos erros cometidos.

Análise continua amanhã 

Na edição de amanhã vamos mostrar em detalhes como a economia da Província se comportou nas últimas cinco décadas a ponto de merecer, com lamentação, o rótulo de fracasso retumbante sem perspectiva de alteração da rota. Tudo porque as instituições locais estão descoladas do mínimo necessário para desatar os nós da degringolada. Do jeito que chegou – fortuitamente, sem planejamento regional ou municipal – o desenvolvimento econômico da região segue em permanente fuga. Impostores não faltam a proclamarem medidas que não passam de oratória vazia. Quando não irresponsável. Coisa típica de província.

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