Economia

Apertar parafuso já era

  MALU MARCOCCIA - 05/09/1997

Prevista para 1998, a reforma do ensino profissionalizante e também do Segundo Grau regular encontrará o Grande ABC mergulhado numa frenética busca por qualificação da mão-de-obra. Não só empresas, mas também a Câmara Regional elegeu a capacitação dos trabalhadores questão de fundo para o Grande ABC. A região dá mão à palmatória e reconhece que foi à nocaute na briga com outras localidades e países em se tratando de boa formação dos quadros.

O que está em teste não é só o aparato tecnológico, que pode e está sendo adquirido, mas a qualidade de quem opera esse arsenal cada vez mais avançado. Não é à toa, pois, que vários acontecimentos, no mês passado, trouxeram o tema para a ordem do dia.

Em São Bernardo, a Mercedes-Benz virou o jogo e foi às escolas mostrar o que as empresas esperam e precisam dos futuros trabalhadores. Através de palestras em endereços como Colégio Pentágono e FEI (Faculdade de Engenharia Industrial), abriu uma picada inusitada nesse terreno irregular da educação brasileira, que soma baixa escolaridade com currículos inadequados de ensino. A Mercedes tem planos até de abrigar uma Faculdade de Tecnologia em suas instalações, em 1998. Já a Kolynos, também de São Bernardo, fez seu batismo no quesito profissionalização ao fechar a primeira turma de mecatrônica com a ETE Lauro Gomes.

Em Mauá, o inquieto Abraham Kasinski, que ergueu o império Cofap, deu o ponta-pé inicial em mais uma grande aposta empresarial: a construção da Universidade do Trabalhador. A finalidade é formar exclusivamente tecnólogos para um Grande ABC que ele chama de Tecnópolis, prognosticando sua transformação em pólo concentrador e difusor de altas tecnologias a partir da base industrial consolidada.

A idéia inusitada de Kasinski começa pela carga horária, distribuída em turnos de funcionamento sincronizados com os das fábricas. Em Santo André, a Rhodia também mostrou onde está um dos gargalos da deficiência da competitividade brasileira e inaugurou um centro de aprimoramento profissional com 215 metros quadrados, dotado de salas de aula, biblioteca e videoteca. É o Espaço de Aprendizagem e Empregabilidade, que terá cursos de formação e reciclagem e cujo projeto-piloto será reeditado em mais de uma dezena de unidades Rhodia no Brasil.

Mas veio de Washington a provavelmente mais importante notícia sobre como se pode içar do poço um exército de brasileiros obreiros mas despreparados para a competitividade que a globalização econômica impõe. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) vai liberar US$ 500 milhões para a reforma do ensino profissionalizante que o Ministério da Educação e Desportos promoverá e cujo principal eixo está em separar o ensino acadêmico do destinado exclusivamente à formação profissional nas escolas técnicas. Por serem ilhas de excelência, há muito as escolas técnicas federais e estaduais funcionam apenas como trampolim para cursos de Terceiro Grau, e não como formadoras de especialistas.

Segundo o chefe da Divisão de Programas Sociais do BID, o economista mineiro Cláudio de Moura Castro, dois terços dos técnicos diplomados nessas unidades entram nas melhores universidades públicas e acabam inflacionando profissões liberais ou já saturadas. A mão-de-obra intermediária de bom nível de que tanto o Brasil necessita, como mostra a intensidade do remodelamento dos quadros promovido no Grande ABC, acaba ficando num grande hiato.

Juntar-se a esse novo modelo das escolas técnicas pode facilitar o esforço que a Câmara do Grande ABC pretende empreender em torno do plano regional de qualificação profissional, integrando ações das Prefeituras com universidades, as próprias escolas técnicas, empresas e Sindicatos, a princípio de olho nos recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), geridos pelo Ministério do Trabalho. A bolada do BID, mesmo que direcionada a endereços específicos, não pode ser desprezada.

O Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) em São Paulo pode ser tomado como pulso sobre o xeque-mate que a globalização impôs às empresas em torno da profissionalização dos quadros. Dilatou em 50% o número de alunos em apenas três anos, passando de 864 mil formandos em 1993 para 1,253 milhão em 1996. Mais da metade são calendários de treinamento, ou seja, cursos e programas encomendados por empresas ou sindicatos patronais. Foram 701 mil matrículas no ano passado. Outras 551 mil vagas foram preenchidas diretamente nas escolas ou órgãos técnicos do Senai. Só os treinamentos destinados às empresas representaram 372,4 mil matrículas no ano passado, um crescimento de 9% sobre 1995.

Alguns cursos do Senai são inéditos, como o de especialização em manutenção de equipamento odonto-médico-hospitalar. Outros dispararam na procura, casos de mecânica e de eletricidade/eletrônica, que abrigaram 60% dos alunos nos cursos de formação em 1996. Segundo o balanço do Senai-SP, as maiores demandas ficaram por conta de segmentos que respondem por um terço da mão-de-obra empregada no parque industrial paulista: mecânica, eletricidade/eletrônica, construção civil e vestuário/calçados.

O mundo moderno já provou que não haverá trégua ao trabalhador que não tenha novas e diferentes qualificações. A revolução tecnológica fez desaparecer inúmeras atividades e emergir outras.

Não foi por outro motivo que o secretário de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado, Emerson Kapaz, sacou nos cursos técnicos profissionalizantes uma solução alternativa à reivindicada Universidade Pública do ABC, outra proposta da Câmara Regional. Num momento de escassos recursos e levando em conta a existência de três universidades paulistas (USP, Unesp e Unicamp), o secretário prefere contrapor à UABC a ampliação das escolas técnicas e a transferência dos cursos da Politécnica da USP à região. Uma providência sem dúvida emergencial, mas providencial. A demanda por ensino de nível médio técnico está estourando. Só na rede Senai há cinco candidatos por vaga entre cursos de aprendizagem industrial e uma em 10 entre os cursos técnicos.

É por isso que o ministro Paulo Renato empenha-se na cruzada pela reforma do Segundo Grau. Pelas perspectivas da economia brasileira, ele calcula uma demanda futura de 250 mil novos técnicos por ano, o que exigiria quadro de pelo menos um milhão de alunos nas escolas técnicas. É esse universo, por sinal, que os Estados Unidos embalam atualmente para enfrentar os anos desafiadores da progressão tecnológica com a virada do milênio. No Brasil, as escolas técnicas federais somam 10% disso, ou seja, 100 mil alunos. O ministro acha que, separando-se o ensino técnico do regular, haveria aumento imediato de 50% na disponibilidade de vagas para aqueles efetivamente interessados em se preparar para o mercado de trabalho.

Além disso, a flexibilização do Segundo Grau regular, em que o aluno poderá eleger 25% da grade curricular para se preparar melhor para o mercado ou para a faculdade, é encarada como pré-profissionalização. O diploma de Segundo Grau, neste caso, não será de técnico, mas sem dúvida habilitará melhor os jovens, na medida em que um quarto da carga horária será preenchido com matérias optativas que aprofundem conhecimentos mais específicos voltados à profissão desejada. Quem sabe, um atrativo fundamental para chamar e, mais importante, reter a juventude nas escolas.

A escolaridade média da população ativa do Brasil não passa de 3,2 anos, abaixo da do Paraguai e comparável à do Haiti, diz o MEC. Segundo o professor Eduardo Gianetti da Fonseca, da Faculdade de Economia da USP, apenas 39% da população brasileira jovem conclui o curso secundário, contra 88% na Coréia, 72% no Chile e 55% no México.

É olhando para o acostamento onde há anos trafega o ensino brasileiro, sobretudo o profissionalizante, que o empresário Abraham Kasinski criou há 10 anos o Colégio Barão de Mauá. Ele pretende agora dar continuidade a essa cadeia de trabalhadores especializados oferecendo a alternativa de uma universidade vocacionada. Serão quatro cursos num primeiro momento: tecnólogo eletromecânico, tecnólogo em química fina, práticas comerciais e secretariado executivo, num total de 450 vagas e duração de três anos. Do alto de 46 anos à frente da maior autopeças da América Latina, Kasinski diz que o Brasil está abarrotado de doutores e anêmico de tecnólogos.

Moveo-o nesse sentido também a nova vocação que prevê para o Grande ABC como pólo concentrador e difusor de altas tecnologias, “o que ressalta o papel da Universidade do Trabalhador como fonte de geração de mão-de-obra inovadora”. Pontos fundamentais, segundo a Fundação Abraham Kasinski, entidade que administrará a empreitada, serão a atualização constante dos currículos às necessidades do mercado e inovações tecnológicas, além da interação escola-comunidade.

Ao lado dos cursos, serão oferecidos às empresas da região serviços de pesquisa e desenvolvimento de produtos. A novidade é a carga horária do ensino, dividida em até três turnos. “Num País onde menos de 10% dos jovens entre 19 e 24 anos iniciam curso de Terceiro Grau e, desse total, 80% estudam em cursos noturnos, é um desafio a opção de proporcionar estudo em horários compatíveis com a jornada de trabalho” – relata o prospecto enviado ao Conselho Nacional de Educação.

O encontro da equipe da Fundação Abraham Kasinski com o prefeito de Mauá, Osvaldo Dias, entusiasta do projeto até por ser um educador, “foi um namoro que começou bem” – diz o diretor Roberto Adabo. Dias vai estudar com sua assessoria como agir para a cessão de área de 400 mil metros quadrados do Parque Guapituba, defronte à estação ferroviária. A Universidade do Trabalhador exigiria pelo menos 150 mil metros quadrados de construção e a Fundação compromete-se a preservar o restante da imensa área arborizada.

Se num mundo globalizado ganha quem tiver menor custo, não há mais dúvidas de que a competitividade das empresas tem relação direta com a qualidade da mão-de-obra. Mesmo jogando no time das multinacionais, só há quatro anos, quando foi adquirida pela Colgate, a Kolynos começou a tomar forma de empresa corporativa. Há menos de um ano, em outubro de 1996, deslanchou o programa interno Manutenção Total Produtiva (MTP), focado basicamente na capacitação e profissionalização dos 1.850 funcionários. Iniciou com o Sesi (Serviço Social da Indústria) um programa de educação básica para que 250 funcionários concluam o Primeiro Grau.

No mês passado, mirou no pessoal de nível técnico ao fechar com o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem) nove turmas para cursos de profissionalização básica, envolvendo outros 250 trabalhadores. Paralelamente, criou com a Escola Técnica Estadual (ETE) Lauro Gomes a primeira turma Kolynos do curso de mecânica com ênfase em mecatrônica (aplicação conjunta da mecânica e eletrônica). São mais 32 funcionários preparados em nível maior de especialização.

“Temos de tornar o trabalhador mais abrangente. Além de operar, deve conservar e regular sua máquina e, ainda, interferir no processo de produção. Enfim, um funcionário eficaz e autônomo. Melhorando a formação dos quadros, transmitimos qualidade para o processo e, naturalmente, para o produto” – comenta Fábio Luiz Zopello, gerente de Produtividade da Kolynos. Ele diz que a capacitação com conhecimentos técnicos vai envolver todos os quadros da manufatura, de gerentes e supervisores a operadores e auxiliares, pré-requisito do programa MTP.

A empresa de São Bernardo, que, comprada pela Colgate, passou a deter 80% do mercado de cremes dentais, investirá este ano US$ 2,9 milhões em educação e treinamento. Serão 194 mil horas/treinamento no chão de fábrica e 278 mil horas envolvendo também o setor administrativo. Isso significará, ao final de 1997, exatos 14,4 dias de treinamento por funcionário, algo inédito na Kolynos, que se dedicava até então a esforços isolados de capacitação. Tanto que não dispõe de perfil de escolaridade e profissionalização dos quadros. Segundo Zopello, a média cursou até a 7ª ou 8ª séries. A partir deste ano, o pré-requisito para admissões é o Segundo Grau completo.

As empresas vão dando, assim, demonstrações de que aprenderam: chegou a era do talento e da competência no mundo do trabalho e o futuro será implacável para quem não for competitivo.

A Mercedes-Benz radicalizou na busca por melhor qualificação. Além de custear supletivo de Primeiro e Segundo Graus para os quadros semi-alfabetizados e cursos técnicos de Segundo Grau em dobradinha com o Senai, achou uma forma diferenciada de preparar futuros profissionais para o mercado e para si própria: vai até as escolas mostrar o que há de mais moderno em processo produtivo e como lidar com essas evoluções.

Foi assim no mês passado, quando promoveu em parceria com a FEI dois dias inteiros de palestras em torno do tema Engenharia de Manutenção – Qualidade e Produção. “Nem sempre os currículos escolares estão adequados às nossas necessidades. Além disso, as tecnologias e processos mudam com muita rapidez e é essa experiência prática que pretendemos levar aos acadêmicos” – explica Milton Galvão Zen, supervisor de manutenção da fábrica de eixos da Mercedes em São Bernardo.

Os conhecimentos transmitidos não tratam apenas de novas técnicas de lubrificação de equipamentos ou da consagrada metodologia kaizen de melhoria contínua. Tangenciam assuntos pontuais como perfil do líder moderno e espiritualidade nas empresas. “Desenvolver o eu do trabalhador é importante fator para motivá-lo às mudanças” – diz Zen.

Sintonizar escolas e futuros profissionais com as demandas da empresa, unindo as pontas da teoria e da prática, é preocupação que teve início há um ano e já rendeu frutos, além de agregar conhecimentos aos estudantes: a Faculdade de Engenharia de Guaratinguetá chegou a alterar a grade curricular do último ano, introduzindo a matéria Atividade de Gerenciamento de Manutenção.

Cerca de dois mil estudantes foram ou estarão envolvidos nos workshops da Mercedes, que começaram no Colégio Pentágono de Santo André e ETE Jorge Street de São Caetano, passaram por Guaratinguetá no Vale do Paraíba e FEI em São Bernardo, além de já constarem da agenda as faculdades de engenharia Santa Cecília (Santos), de Piracicaba, da Faap e do Mackenzie, na Capital, e Instituto Mauá de Tecnologia, em São Caetano.

Desde 1992, a Mercedes Benz de São Bernardo unificou todos os programas internos de qualidade numa só engrenagem para chegar ao estágio atual da Manutenção Produtiva Total (MPT). Estarão envolvidos no objetivo único da eficiência e produtividade não só a manufatura, mas todos os departamentos administrativos, vendas inclusive. Para chegar a esse degrau, investe pesadamente no homem. Há 10 anos, só 20% dos mestres tinham Segundo Grau. Hoje, são 69%. No balanço de 1996, dos 11 mil funcionários (9,8 mil em São Bernardo), 52% cursavam ou tinham o Primeiro Grau completo, 24% o Segundo Grau e 21% o superior. No ranking da qualificação, 30% estavam graduados como especializados, 34% como qualificados e 26% como semi-qualificados. Apenas 2,6% eram aprendizes. Foram 3.203 cursos, que consumiram investimentos de US$ 5 milhões.

Sem incluir a escolaridade básica, entregue ao Sesi e à Fundação Bradesco com salas de aula dentro da fábrica, os treinamentos profissionais vão dobrar este ano em relação a 1994: serão 100 horas/homem, contra 48 horas/homem naquele ano.

A Mercedes é exemplo clássico de como a formação e o saber melhoram a capacidade de produção. Do início do ano passado para cá ganhou 8.760 metros quadrados, dos quase 65 mil, de área útil na fábrica de eixos, retirando 350 toneladas de material sem serventia. Os estoques sofreram lipoaspiração: emagreceram de US$ 54,1 milhões em 1994 para US$ 15,1 milhões hoje. As horas paradas das máquinas são outro demonstrativo de ganhos de produtividade decorrentes de técnicas como kaizen, just-in-time e manutenção preventiva com formação profissional: foram 27.600 horas/mês de máquinas paradas em 1994, ou 100 a 120 homens sem nada fazer mensalmente, para a meta de 5 mil horas/mês em 1997, ou apenas 38 a 40 homens parados por problemas em equipamentos.

Funcionário mais esclarecido e, sobretudo, mais conhecedor é mesmo palavra de ordem da atualidade. A globalização apertou o modelito tradicional de emprego, colocando na saia justa da multifuncionalidade o empregado com vínculos formais, mas esgarçou as possibilidades de trabalho propriamente dito. Empregos estão diminuindo, mas trabalho há de sobra para quem se capacita a empreender em carreira solo.

Não foi outra a razão que levou a Rhodia a criar, há dois anos, o Projeto Rhodia de Desenvolvimento da Empregabilidade, com aporte de US$ 1 milhão entre equipamentos e criação de cursos. O objetivo é atirar em dois coelhos ao mesmo tempo: formar quadros com alto grau de profissionalização para si própria e deixá-los preparados para o mercado.

No mês passado, na usina química de Santo André, a idéia se materializou com a inauguração do primeiro Espaço de Aprendizagem e Empregabilidade do grupo, com a presença do ministro do Trabalho, Paulo Paiva. Entusiasmado, Paiva solicitou o software do projeto para multiplicá-lo por outras empresas. Cursos de formação e reciclagem se sucederão conforme os desafios que a Rhodia abraçar e as inovações que a tecnologia impuser. Além, naturalmente, dos conhecimentos que habilitem a uma nova profissão, como destaca o presidente da Rhodia, José Carlos Grubisich.

Dos 500 funcionários da unidade química, já saíram 15 turmas de 30 alunos. Os primeiros cursos serão nas áreas de informática e línguas (inglês e espanhol). A Rhodia Química desfruta, aliás, de um quadro de escolaridade invejável. Dos chefes de área para cima, não há ninguém com escolaridade inferior ao Segundo Grau. Diploma de Primeiro Grau é conquista de 88% dos quadros.

Não se pense, entretanto, que profissionalização é coisa de gigantes. Pequenas empresas também descobriram que boa formação dos colaboradores é a única chance para atravessar a porta da cozinha e integrar a classe mundial dos produtores. A Regional Diadema do Centro das Indústrias do Estado (Ciesp) dá o tom desse turbilhão de treinamentos que envolve micro e pequenas organizações com até 100 funcionários, que formam 84% do parque local. Foram 921 empresas inscritas no calendário de 1993 e o triplo, 2952, no ano passado, informa o diretor Dario Sanches.

Dois setores despontam como mais procurados: normas de qualidade em nível de ISO e QS (a ISO para fornecedores de montadoras de veículos) e cursos no campo de recursos humanos. “As pequenas empresas estão no fogo cruzado, de um lado com a chegada de concorrentes estrangeiros e, de outro, com o forte movimento de fusões e aquisições. A incorporação das pequenas por grandes grupos internacionais faz com que corram atrás da qualidade a qualquer custo” – enfatiza Dario.

Diadema é peculiar no Grande ABC, onde comércio e serviços avançam nas atividades e na absorção da mão-de-obra. Em Diadema, a maioria da força de trabalho (68%) está empregada na indústria e os quatro grandes setores que predominam são os que integram a linha de tiro da globalização: metal/mecânico (incluindo autopeças, máquinas e equipamentos), químico, plástico e borracha.

É por causa desse perfil que o Ciesp Diadema procura antecipar no calendário temas sobre futuras tendências do processo produtivo. Foi assim em 89/90, quando a ISO ainda era ilustre desconhecida e o Ciesp local já oferecia programas de estruturação. Foi também assim em 94/95 com a introdução do curso QS, quando as montadoras já mandavam sinais cifrados de que afunilariam a quantidade e a qualidade dos fornecedores.

Houve também oferta de aulas de espanhol antes que o Mercosul tomasse corpo. Isso se repete agora com o foco da atenção no homem e no trabalho em equipe. A bola da vez está no Gerenciamento Coach, espécie de gerente-educador que lidera e motiva os subordinados para as vantagens do trabalho em conjunto. É um nível acima de outro hit dos cursos do Ciesp Diadema, Técnica de Chefia, que forma lideranças intermediárias.

Aliás, apostar no operacional, ou seja, no pessoal de nível técnico, e não apenas na equipe estratégica de alta gerência, vendas e atendimento, foi a principal recomendação do Prêmio Nobel em Economia de 1992 Gary Becker, que esteve no Brasil no final do ano passado. Ele foi enfático ao apontar o crescimento da desigualdade entre pobres e ricos nos últimos 20 anos sobretudo porque trabalhadores especializados passaram a ganhar mais que os não-especializados. A única saída que vê para reverter o quadro é melhorar a qualidade do treinamento e da escolaridade nos graus mais baixos, para que possam avançar e reduzir o gap com escalas superiores, melhorando seus ganhos.

O Prêmio Nobel estudou e concluiu que o investimento na qualificação de pessoal proporciona o dobro do retorno para uma empresa do que em máquinas e equipamentos. E provocou: “Se os trabalhadores não forem suficientemente capacitados, dedicados e treinados para usar efetivamente o capital físico, as máquinas vão quebrar, não serão consertadas e tudo pára”.

A velocidade de trem-bala das mudanças tecnológicas e igual ritmo com que correm o mundo econômico sem fronteiras já despertaram a Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho de São Paulo. O Estado brasileiro que mais produz e, portanto, maior alvo da competição internacional acaba de criar o Observatório Permanente de Situações de Emprego e Formação Profissional. Trata-se de um espaço que vai rastrear as novidades no mercado de trabalho e tentar formar gente para as profissões do futuro. O secretário Walter Barelli antecipou, inclusive, que também o currículo das escolas mudará. Novas tecnologias poderão ser aprendidas em 48 ou 240 horas, calculou.

Prefeituras mobilizadas

A reestruturação industrial do Grande ABC, o avanço do setor terciário e a consequente necessidade de novas habilitações da mão-de-obra levaram as prefeituras a embarcar numa onda comum: capacitar trabalhadores para gerar renda em conjunto com o desenvolvimento sustentado. Praticamente todas as Prefeituras da região apostam em convênios com entidades empresariais e trabalhistas para alfabetizar e treinar a mão-de-obra, sobretudo o contingente de desempregados da indústria que precisa ser reciclado. Não é à toa que a entidade mais debruçada sobre esse movimento é a Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM), através do Projeto Integrar.

Em Santo André já foram fechados convênios para treinamento e reciclagem de pessoal com a Caixa de Pensões, mantida pelo funcionalismo público, com a CNM através da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e com o Sindicato da Indústria da Construção Civil (SindusCon). Estão prontas para decolar parcerias também com a Associação Comercial e Industrial (Acisa) e Sindicato das Costureiras. “A região tem mais dificuldade em empregar bons profissionais em comparação com outros pólos emergentes porque nosso profissional tem experiência, mas falta qualificação. Muitas vezes se quer contratar trabalhador com determinado salário até 1º Grau e não se consegue. Somos obrigados, então, a baixar o nível de escolaridade” — explica o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Emprego, Nelson Tadeu Pereira.

A Secretaria acaba de criar a Comissão Municipal de Emprego. Além de funcionar como órgão que vai atender ao trabalhador e, assim, conseguir cadastrar quem entra e sai do mercado, a Comissão terá em mãos pesquisa que será feita pela Fundação Seade para detectar a necessidade de requalificação em cada empresa. No caso da Caixa de Pensões, o convênio abrangerá os 9,2 mil funcionários públicos cadastrados e também trabalhadores da iniciativa privada. Segundo Dalmir Ribeiro, diretor da Caixa de Pensões, três salas do prédio da entidade serão destinadas às aulas de qualificação profissional. A Secretaria de Educação e Formação Profissional de Santo André entrará com a equipe de ensino.

A parceria com a CNM começou com a idéia de unir os recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), a Secretaria Estadual de Emprego e Relações do Trabalho e as Prefeituras. Segundo Heiguiberto Guiba Navarro, presidente da CNM, os convênios atingem 13 Prefeituras. “A receptividade tem sido ótima porque os prefeitos entendem que o momento é difícil para a região: empresas indo embora, automação crescente e maior exigência de formação profissional” – diz. Especificamente neste convênio, o conteúdo corresponde ao 1º Grau. O certificado é o primeiro no País nestes moldes a ser reconhecido pelo Ministério da Educação. Guiba explica que as aulas têm novo currículo, já adaptado às necessidades dos processos de qualidade exigidos pelas empresas. Pelo projeto, que já atende a 64 alunos, a Prefeitura fornece o espaço das aulas, lanche e transporte. Os professores são bancados pela CNM.

O SindusCon também é veterano em treinamento. Tem perto de 100 centros de formação em 30 cidades. É a primeira vez que fecha convênio na região, segundo o presidente Sérgio Antonio Monteiro Porto. Nos últimos cinco anos, a entidade ensinou 38 mil pessoas. “Mesmo na construção civil é preciso aprimoramento porque a maioria se forma dentro do canteiro de obras” – diz Porto. A idéia é passar ao trabalhador ensinamentos básicos da profissão para que se interesse pelo estudo do 1º e 2º Graus. Segundo Porto, 50% dos empregados no setor são analfabetos. A coordenação dos trabalhos será do SindusCon, o treinamento do Senai e o espaço para aulas será destinado pela Prefeitura.

O diretor do Departamento de Educação do Trabalhador da Secretaria Municipal de Educação e Formação Profissional, Carlos Kopcak, espera alcançar mil alunos no primeiro ano de convênios. “O mote não é só a economia da Prefeitura. Quando se melhora a qualidade da mão-de-obra, se reduz custo. Em médio prazo virão os resultados” – diz o diretor.

Em Ribeirão Pires o convênio com o Projeto Integrar da CNM irá certificar com o 1º Grau, ainda este ano, 70 trabalhadores que estão fora do mercado. O projeto atende tanto aos desempregados metalúrgicos como de outras áreas. Segundo Angelina Cervino Sapiensa, gerente de Educação da Secretaria de Educação, Cultura, Esporte e Lazer, os módulos passam pelo aprendizado tradicional do curso primário, além de informática. Mas têm também o objetivo de reportar o trabalhador para a realidade da reestruturação industrial. “A fase fordista já acabou. Temos de pensar em uma escola que ultrapasse a especialização e que traga iniciativa e criatividade ao trabalhador”.

Para Angelina, o programa, além de requalificar, também cria uma demanda para o Ensino Médio. “Os alunos passam a ter auto-estima e, assim, se sentem motivados a continuar os estudos e a voltar ao mercado de trabalho” – diz. No programa da CNM, a Prefeitura oferece vale-transporte através de parceria com duas empresas de ônibus da cidade que doam os passes, além de merenda e do prédio para as aulas. A sala para ensino de informática foi cedida por comerciantes do Município.

Outra aproximação em Ribeirão Pires é com o Comitê de Democratização da Informática, organização não-governamental do Rio de Janeiro. Pelo projeto, a alfabetização de adultos se daria juntamente com o aprendizado da informática. Os primeiros contatos estão sendo feitos com indústrias do setor químico e metalúrgico para trazer um núcleo do Comitê à cidade. Esses projetos de Ribeirão fazem parte das discussões do Fórum de Desenvolvimento Sustentado, que neste mês estará finalizando as propostas que vão compor uma agenda para a cidade.

Em Mauá, a CNM já faz contatos para implantar o Integrar. Por enquanto, a Prefeitura negocia com o Senai parceria para atender desempregados. Neste caso, o objetivo não é requalificar somente. Trata-se de ensinar um ofício. A Casa da Juventude, habitualmente utilizada por adolescentes, também começará a ser aproveitada pela Prefeitura no horário noturno para que adultos façam cursos de eletricista residencial, padeiro e confeiteiro. Os equipamentos de marcenaria estão sendo recuperados para uso em curso que começa em novembro.

Cerca de 60 trabalhadores em Diadema também estão participando do projeto da CNM. A novidade é que os cursos passaram a acontecer na Fundação Municipal Florestan Fernandes. A Fundação nasceu justamente para abrigar programas de reciclagem e requalificação de trabalhadores, segundo José Paulo Correia de Menezes, secretário de Educação, Cultura, Esporte e Lazer. Além do curso da CNM, também o SindusCon formalizou parceria com a Prefeitura para capacitação nos canteiros de obras. Há ainda parceria com a indústria de panificação, voltada aos que querem começar a aprender o ofício e aos que já atuam no mercado.

Diadema também é a primeira cidade do Grande ABC a receber verba do programa Comunidade Solidária, do governo federal, para profissionalização de jovens de 15 a 21 anos. O Município participou de seleção do programa com o projeto para panificação, confeitaria e pedreiros, realizado com a supervisão pedagógica da Universidade Metodista de São Bernardo. O Comunidade Solidária repassará R$ 53 mil ao Município.

Em São Caetano e São Bernardo ainda não há convênios formalizados. De acordo com Jerson Ourives, diretor de Desenvolvimento Econômico de São Caetano, a Comissão Municipal de Emprego ainda fará primeira reunião e, a partir daí, lançará projetos de parcerias. O mesmo espera Fernando Longo, secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de São Bernardo, que pretende enviar em breve à Câmara projeto de lei que estabelece acordos entre entidades sindicais, o Município e a Secretaria Estadual de Relações do Trabalho, através do uso de recursos do FAT.

Embora São Bernardo ainda não tenha convênios com entidades para treinamento e requalificação, há trabalhos voltados à profissionalização ligados à Promoção Social. Recentemente, a Empresa de Transportes Coletivos (ETC) doou ao Fundo Social de Solidariedade dois ônibus que foram transformados em Unidade Móvel Profissionalizante, onde há aulas de cabeleireiro, manicure e pedicure exclusivamente para desempregados.

Toda essa movimentação dos municípios em promover parcerias tende a se intensificar com o efetivo trabalho das Comissões Municipais de Emprego, que estão sendo ou foram empossadas recentemente. Por meio das Comissões, será possível discutir políticas de qualificação e requalificação profissional nas cidades. Essas instâncias permitirão obter recursos para aperfeiçoamento das pequenas empresas, por exemplo, que poderão apresentar projetos e receber financiamentos. Além disso, as Comissões são as operadoras nos municípios do Programa de Geração de Emprego e Renda (Proger) do governo do Estado e supervisionam o Sistema Nacional de Emprego (Sine), responsável pela liberação do dinheiro do FAT para esses programas.

O projeto de lei da Prefeitura de Santo André que autoriza convênio com a Acisa foi enviado à Câmara dia 4 de agosto e tem por objetivo organizar e realizar profissionalização no comércio e em serviços. Os treinamentos focarão trabalhadores com idade mínima de 17 anos e desempregados. Outro projeto visa a cooperação técnica com o Ministério do Trabalho para ter acesso a dados como a RAIS — Relação Anual de Informações Sociais e o Caged – Cadastro Geral de Empregos e Desempregados. Com essas informações, a Prefeitura quer acompanhar e analisar o mercado por ramo de atividade, grau de escolaridade, região, remuneração, tipo de vínculo e de estabelecimento, entre outros, com vistas a estabelecer treinamentos específicos.

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