Economia

Santo André descobre glamour
e diversidade da Avenida Portugal

  DA REDAÇÃO - 05/07/1997

Requintada, charmosa, nervosa, eclética, bonita e gostosa de se ver. É difícil encontrar adjetivo para a mais tradicional das avenidas de Santo André, a Portugal, ladeada por árvores frondosas que lhe conferem ar de alameda e que foi berço de renomadas instituições como o Hospital Beneficência Portuguesa – daí a origem do nome – e sede de ícones do esporte local, como o Primeiro de Maio Futebol Clube. Isso sem falar no cartão postal formado pelo conjunto de prédios que compõem o Centro Cívico do Paço Municipal, antes Chácara Bastos. Assim como as primas burguesas da Capital, Angélica no bairro de Higienópolis ou a frenética Paulista nos Jardins, a Portugal vem sofrendo mutações. Seus nobres casarios, antes residências de tradicionais nomes da sociedade local, têm recebido, além de modernos e coloridos luminosos na fachada, novos inquilinos, a maioria jovens empresários que apostam na Portugal como ponto de referência e parada obrigatória para realização de bons negócios.

O vai-e-vem denso e constante dos carros nesse que é um dos maiores corredores de tráfego da cidade — quase dois mil metros de extensão, por onde chegam a passar cerca de 2.500 veículos nos horários de maior movimento — é analisado pelo consultor imobiliário Juarês de Marcos Jardim como fator de valorização do ponto para pequenos negócios: “Quanto mais baixa e constante a velocidade dos veículos que cortam uma avenida, maior a densidade” – explica. Quer dizer, um número maior de pessoas terá mais oportunidade de enxergar um letreiro fixado em porta comercial. Isso não ocorre, por exemplo com avenidas como a Pereira Barreto, via característica de alta velocidade: “Quando você vê, já passou. Portanto, na Pereira Barreto é suicídio abrir uma padaria, por exemplo” — explica o consultor.

Para alguns comerciantes, a segurança dos pedestres na Portugal mereceria mais atenção do Poder Público, embora não existam tantos registros de acidentes graves de trânsito: “Temos congestionamento nos horários de pico e os pedestres não têm vez” – opina o proprietário da Pharma & Cia, Francisco Caravante Júnior, que há três anos mapeou Santo André e elegeu a Portugal para instalar sua farmácia, que não se limita a vender remédios: “Não pratico a empurroterapia” — avisa o jovem de 28 anos. Sua proposta é dar atendimento globalizado aos cerca de 150 clientes que diariamente passam pelo estabelecimento entre 8h e 22h, horário em que permanece de portas abertas de segunda à sexta, sempre com um farmacêutico formado de plantão. “Não fico aberto 24 horas porque a Portugal ainda não tem vida noturna” – justifica.

Mas é justamente o conceito de assistência farmacêutica, um diferencial junto à concorrência, que Francisco faz questão de frisar. A Pharma & Cia comercializa medicamentos industrializados, inclusive importados, e realiza manipulação de receituários em geral. Caravante cita como ponto alto o serviço de orientação sobre uso racional dos medicamentos. Ele crê que a Portugal tem destino próspero como prestadora de serviços, pois é dotada de boa infra-estrutura como normatização de estacionamento e semáforos para pedestres.

Santo André possui malha viária, segundo o consultor Juarês Jardim, com avenidas com metro quadrado bastante valorizado pelo mercado imobiliário, como os dois primeiros quarteirões da D. Pedro II, ou os quatro primeiros da Portugal, onde o preço é aferido conforme a procura: “Quem quiser se instalar hoje nessa região da Portugal paga o que o proprietário pedir, porque ali não existem ofertas” – explica.

Nessa área, por exemplo, está localizada uma das maiores lojas de decoração do Grande ABC, a Hanna Decorações, com sofisticado showroom de 500 metros quadrados. Quem passa por ali, nem imagina que esse foi o antigo Caminho do Pilar que interligava o Município de São Bernardo da Borda do Campo à zona leste de São Paulo, trecho do que hoje se conhece como Estrada do Oratório.

A proprietária, Hanna Prochazka, uma tcheca que iniciou vida profissional há mais de 20 anos costurando cortinas, também escolheu a dedo o ponto para instalar a loja: “A Portugal continua sendo passagem obrigatória de quem atravessa a cidade” — diz a decoradora, que apreciaria se a avenida fosse habitada por mais empresas do porte da franquia de vídeos Blockbuster, localizada vários quarteirões acima de seu endereço: “Acho que um comércio mais pesado, mais forte, alavancaria também os menores” — comenta. Sua loja comercializa mix de produtos importados que não ficam nada a dever às grandes do ramo, entre os quais itens da holandesa Hubter Douglas e da italiana Mottura, além das principais grifes nacionais como Lunaflex, Formatex, Donatelli São Gabriel e Empório Beraldine.

O destaque é para produtos fabricados a partir de fibras naturais como carpete de sizal e cortinas de palha de seda. A Hanna Decorações representa com exclusividade no Grande ABC a marca Tropitoni de móveis para jardim e terraço, fabricados em alumínio duplo, pintados com as cores da moda e com garantia de 15 anos: “É a linha top de móveis para jardim, no mundo” — assegura a decoradora tcheca.

Outro endereço referência da Portugal num trecho onde ainda se pode encontrar alguma oferta de terreno, segundo o consultor Juarês, ao preço mínimo de R$ 400,00 o metro quadrado, é o Instituto de Arte Coreográfica, considerado a maior escola do gênero no Grande ABC, com 400 alunos. A arrojada construção em estilo neoclássico chama à atenção principalmente à noite, sob a iluminação especial da fachada, por trás da qual estão cinco colossais salas, com capacidade para 100 alunos cada.

Para a gerente de marketing e professora Vivian Pereira, a localização do Instituto é privilegiada sob vários aspectos: “Estamos vendo uma seleta vizinhança comercial crescer ao redor e isso é muito bom” – avalia. Além da famosa parceria com o coreógrafo global Jaime Arôcha, que uma vez por mês recicla os professores — na maioria premiados em importantes festivais –, a escola de dança está abrindo aulas para grupos fechados formados por funcionários de uma mesma empresa, por exemplo, que podem ser dadas tanto no Instituto quanto no local de trabalho.

A presença de professores convidados também é uma constante. Em maio e junho últimos desfilaram pela passarela da Portugal o bailarino francês Estephanie Massaru, que deu aulas de rocky-and-roll, e a dupla pernambucana Jô e Milaide, que mostraram que nem só de passinho pra lá, passinho, pra cá vive o pagode. Em agosto o IAC costuma abrir novas turmas e a professora Vivian, que estará retornando de curso intensivo de duas semanas de especialização na academia novaiorquina Steps on Broadway, vai poder passar as últimas novidades em sapateado norte-americano aos alunos.

Do outro lado da Portugal e em frente ao IAC está a Servehouse Informática, que há 10 anos assiste à virada de vocação da avenida, de prestadora de serviços a forte eixo comercial do Município. “No início fazíamos apenas manutenção e assistência técnica de computadores porque não se podia abrir lojas aqui. A maioria da vizinhança era formada por clínicas médicas” — conta o diretor Paulo Romano, que tem o pai Nelson como braço direito nos negócios. “De três anos para cá, com a mudança na lei de zoneamento, aconteceu a explosão da Portugal e pudemos abrir também a loja onde comercializo todo tipo de equipamento e acessórios para informática” — detalha o jovem empresário, que frequentemente viaja para o Exterior em busca de novidades, além de participar de todas as versões da Feira de Informática do Grande ABC como forma garantida de divulgar a empresa e alavancar as vendas para dezembro, já que o evento acontece em novembro.

As instalações aparentemente modestas da Servehouse não denunciam a existência de mais de mil clientes em carteira de todos os portes e ramos, desde autarquias, passando por Prefeituras e outros órgãos públicos, até empresas como a rede Le Postiche, com mais de 150 unidades espalhadas pelo País e informatizadas pela empresa de Santo André. A Servehouse possui 10 funcionários e representa marcas consagradas no setor como Itautec e Compaq.

Ponto vital da Portugal, a praça Allan Kardec enfeixa cruzamento de vias que levam a diferentes bairros interligando Santo André e São Bernardo. Nessa área nobre instalou-se confortavelmente, em 350 metros quadrados, a franquia americana Toning System, que se notabilizou pelo uso de aparelhos de ginástica passiva, ideais para quem não gosta de suar a camisa enquanto perde as incômodas gordurinhas e modela as formas.

A unidade possui mix de opções para estética corporal que inclui ultra-som, eletrolipoforese e mesoterapia, entre outros. Para intensificar os efeitos do tratamento corporal, os aparelhos são otimizados de forma a atender as necessidades de cada cliente, que passa antes por avaliação física do professor Carlos Alexandre Brito.

Aliás, segundo Brito, o método não pode mais ser chamado de passivo, já que para obter resultados satisfatórios precisa da participação do cliente, o que transforma a ginástiva em interativa. O professor de Educação Física voltou recentemente do Congresso Pan-americano de Medicina Esportiva e trouxe para a Toning Systems o conceito de atividade física como promotora de saúde antes mesmo da beleza estética.

A psicóloga e sócia Márcia Del Nero Grecco, por sua vez, além da parte administrativa, dá suporte aos tratamentos estéticos faciais e corporais: “Pelo menos uma vez por mês os clientes passam por avaliação de resultados” – informa. Já a esteticista e também sócia Marilene Grecco Montagner está sempre antenada com o que existe de mais moderno na área. Para o inverno, por exemplo, trouxe tratamento de origem alemã que promete rosto novo, livre de manchas, rugas ou acne em apenas cinco dias, sem dor, inchaço ou agulhadas.

Trata-se do Green Pell, peeling biológico natural cuja fórmula mistura ervas medicinais sem adição de substâncias químicas ou sintéticas e trabalha camadas mais profundas da derme, provocando esfoliação após o terceiro ou quarto dia da aplicação. No quinto, ocorre a troca total da pele, que, no sexto dia, recebe tratamento complementar. “Uma aplicação mensal é suficiente para obter resultados satisfatórios” – garante Marilene, única representante do Grande ABC do método alemão.

O tom eclético da Portugal, que abriga diferentes tipos de negócios mesclando comércio e prestadores de serviço, por vezes faz com que a escolha do melhor local para fincar a bandeira passe até mesmo pelo misticismo. Foi o caso, por exemplo, da esteticista Solange Hernandez, que afirma ter se estabelecido na avenida por ordem divina: “Deus me deu um pai que me ajudou a comprar o sobrado onde hoje é o centro estético que dirijo, com o qual ganharei muito dinheiro” — afirma a profissional que iniciou carreira há 11 anos no terraço de casa antes de se mudar definitivamente para a Portugal, há nove anos.

Profecias divinas à parte, os serviços oferecidos pela clínica prometem transformar a clientela em verdadeiras deusas cuidando de pele, corpo e mente. Isso porque, além de pedicure, manicure, cabeleireiro e depilação com cera egípcia, Solange introduziu no leque de serviços atendimento odontológico, psicológico e de RPG, uma técnica fisioterápica destinada a eliminar dores causadas por desvios de postura.

A Portugal é assim, única e múltipla. Na opinião do consultor imobiliário Juarês de Marcos Jardim, a avenida seguirá curso de prestadora de serviços de alto nível, bem como de base para pequenos comércios, já que ainda abriga muitos prédios residenciais, algumas casas habitadas e nenhum grande projeto imobiliário: “Mas tudo pode acontecer” – avalia, respirando o boom do setor terciário no ainda pujante industrial Grande ABC.

Leia mais matérias desta seção: