Economia

Escolas despertam e
descobrem o mercado

  MALU MARCOCCIA e TUGA MARTINS - 05/06/1998

A Química ganha derivação para estudo do meio ambiente, a Mecânica cria opções para atuar com manutenção ou, num estágio mais avançado, em eletroeletrônica. O Direito do Consumidor recebe ênfase nos estudos de Administração e a mais nova profissão hightech, Info-Telecom, já prepara a primeira fornada para a virada do século. Formadores de conhecimento e de mão-de-obra, o Ensino Superior e as escolas profissionalizantes começam a seguir a cartilha da modernização econômica e a jogar pelos ares conteúdos pedagógicos ultrapassados.

Cientes do potencial letal da desqualificação da mão-de-obra sobre os planos de eficiência das empresas, os centros de ensino do Grande ABC ajustam as grades curriculares a um mercado de trabalho implacável com baixa formação educacional. Mas nem todos os elos dessa corrente se fecham. Se estão abrindo com maior carga de conhecimentos a principal porta de entrada dos jovens no mercado, as faculdades e universidades — estas, sobretudo — mantêm fechadas as portas laterais que levam à integração mais estreita com as empresas: a pesquisa e o desenvolvimento de produtos.

Boa parcela do Ensino Superior seria reprovada no vestibular da cooperação empresa-escola, desenvolvendo pouco, ou quase nada, em atividades para essa aproximação.

Grande parte do novo posicionamento curricular das escolas decorre da visão de que recursos humanos qualificados são matéria-prima estratégica de empresas que buscam diferenciação. Conhecimento profissionalizante e formação geral consistente passaram para a ordem do dia de vários centros de ensino, preocupados não apenas em gerar empregos de qualidade, mas sintonizados com a atualidade.

Foi o que a Faculdades Integradas Senador Fláquer, de Santo André, fez com o curso de Administração, seu carro-chefe com 1,8 mil alunos, ou 40% do total do alunado. A carga de informática foi duplicada para 160 horas, integrando não só noções básicas de computador mas sua aplicação no mundo administrativo. A turma do quarto ano ganhou disciplina nova, Análise do Meio Ambiente e Ecologia, assim como o Direito do Consumidor passou a inovar o currículo.

“Saímos da camisa-de-força de horário e disciplinas previamente autorizados para regulamentação de um curso. Com a recente liberalidade permitida pelo Ministério da Educação, as escolas vão se ajustando às exigências de um trabalhador inovador que a realidade contemporânea pede” — sublinha o diretor do curso de Administração e Secretariado da Senador Fláquer, Jaime Guedes. A modalidade ganhou músculos também com a introdução da disciplina Elaboração e Análise de Projetos, para quartanistas.

Trata-se da simulação de um case de gestão de negócios — desde a idéia, sua viabilidade financeira e aplicação prática –, submetido a banca de professores e nota. Valem desde soluções para projeto bancário, de prestação de serviços ou dentro do chão de fábrica, explica Jaime Guedes.

Para adaptar-se às novidades, o curso teve reduzida a carga com Contabilidade e Direito no campo conceitual, mesma flexibilidade a ser tomada na área de Psicologia a partir do segundo semestre. “Vamos ampliar o estudo das relações humanas, isto é, da psicologia voltada para o RH das indústrias e serviços, reduzindo a parte conceitual” — anuncia o professor, que aguarda autorização para introduzir estudo de Comércio Exterior também na segunda metade deste ano. Todas as modificações do curso de Administração estarão acopladas à nova habilitação da Senador Fláquer, que dará destaque ao capítulo Mercosul e a dois idiomas, inglês e espanhol comercial, com aulas desenvolvidas pelo próprio CCAA, também uma inovação em se tratando de parceria.

Outro sólido exemplo de adaptação às profissões modernas pode ser encontrado na FEI (Faculdade de Engenharia Industrial, de São Bernardo). Na virada do terceiro milênio o mercado irá receber a primeira leva de profissionais formados em Info-Telecom, iniciativa pioneira no País, que dá ênfase à engenharia de informática e telecomunicações. O chefe do Departamento de Eletricidade da FEI, professor João Antônio Martino, afirma que sobram vagas nestes setores e que a escola decidiu formar profissionais para atender às novas exigências do mercado. “Em 1982 a FEI foi pioneira na criação do curso de computação e agora se ajusta a novas demandas” — diz o professor.

Não foi outro o motivo senão o avanço tecnológico acelerado que obrigou a comunidade acadêmica a buscar soluções novas para formação de profissionais. “Instituímos o Programa de Avaliação Continuada há dois anos, que incentiva o aluno a aprender a estudar” — diz Antônio Martino. Em resumo, é a volta das sabatinas.

O programa prevê acompanhamento e checagem semanal do aprendizado. O professor Antônio Martinho observa que os cursos que antecedem o Terceiro Grau em geral não ensinam o aluno a pensar; limitam-se a incentivar a resolução de problemas de maneira técnica e automática. Ele alerta que essa metodologia está na contra mão da evolução. “Todos que optarem por áreas tecnológicas têm de saber que o estudo, a reciclagem de conhecimento e o aprendizado serão permanentes durante o exercício da profissão” — diz. Daqui a três anos, o mercado de trabalho estará recebendo esse novo formato de profissional.

Com cinco mil alunos e longa tradição de ensino de ponta, a FEI não se furta de reformular e atualizar constantemente os cursos e implementar o corpo docente. A informatização é a grande âncora. Para isso, conta com parcerias de empresas como Microsoft, Baynetwork, Novell e União Digital, entre outras. “Só em 97, a parceria com a Microsoft nos garantiu economia de US$ 2 milhões com gastos em softwares, equipamento e cursos para professores” — relata João Martino.

Quanto à extinção de grades curriculares desnecessárias para o mercado atual, o professor conta que a Eletrotécnica há 10 anos vem sendo extirpada do rol de profissões procuradas. Porém, as disciplinas não são eliminadas. Ganham ênfases diferenciadas, passando de prática para histórica e auxiliando a linha do conhecimento cumulativo. Afinal, como pontua o professor, apesar de Albert Einstein ter ampliado o conceito da Física, o homem chegou à Lua por meio de outro físico, Isaac Newton.

Para o professor José Pastore, especialista em Direito do Trabalho e autor de A Agonia do Emprego, Editora LTr, algumas profissões exigem mais conhecimentos do que outras, mas pouquíssimas escapam da aprendizagem contínua. Até mesmo ocupações que exigiam pouca capacitação caminham em direção a mais educação, casos de arrumadeiras de hotel, serventes de pedreiro e motoristas de ônibus. Especialistas enfatizam que não há mais limites entre educação e trabalho, tal a pressão competitiva que exige do homem aprendizagem permanente. O trabalhador moderno precisa dominar intensamente conhecimentos não só em sua especialidade, mas de outras áreas correlatas. É o que o professor chama de era da polivalência.

José Pastore chega inclusive a esboçar o mapa do trabalho no novo milênio: a mão-de-obra da indústria terá participação reduzida dos atuais 19% para 14%, os 25% de brasileiros que ainda trabalham na agricultura não passarão de 15% e o setor terciário — comércio, serviços e área pública — ficará com o grande naco, subindo dos 51% de hoje para 71%.

Por setor, a agricultura excluirá as profissões manuais e enfatizará gente que domine tecnologias mecânicas, químicas e biológicas. Na indústria, estarão em alta habilitações cerebrais (engenheiros, administradores, financistas e técnicos), com consequente declínio das ocupações com atividades repetitivas, que podem ser executadas por máquinas. Já nos serviços crescerá a procura por mão-de-obra ligada à saúde, educação, turismo, alimentação, entretenimento, seguros, administração, comércio exterior e atividades financeiras fora de bancos.

Profissionais autônomos, segundo o professor de Economia da USP (Universidade de São Paulo), se darão bem nos campos da administração, cuidados pessoais que envolvam crianças, doentes e velhos, reparação e manutenção, educação, compras, vendas e corretagem. Qualquer que seja o caminho, José Pastore é contundente: “Em todas as profissões, as oportunidades serão preenchidas por quem for capaz”.

Pilar do parque empresarial brasileiro que mais se abalou com o terremoto da globalização econômica, a indústria de São Paulo fez da reestruturação a senha para sobreviver. E levou seu principal braço de educação profissional e treinamento, o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), a realizar o mesmo. A característica que mais distingue o Senai — o ensino profissionalizante — está sendo anabolizada de tal forma que até formação universitária foi providenciada.

Curso superior de tecnólogo em artes gráficas dá partida ao projeto no segundo semestre deste ano na unidade Theobaldo de Nigris, na Capital, e estende-se em 1999 a duas plantas do Grande ABC, o de tecnólogo ambiental em São Bernardo e de tecnólogo em mecatrônica em São Caetano. Também antenado nas novas exigências do mercado, o Pentágono de Santo André introduz o curso de turismo na grade do Colégio Técnico, atendendo ao setor de serviços que explode nesta virada de milênio em todo o mundo.

Pressionado pelas transformações do parque fabril que o mantém com receita proveniente de 1% a 1,5% da folha de pagamentos, o Senai-SP decidiu em 1997 passar por cima do modelo de educação profissional que durante décadas o consagrou como grande formador de mão-de-obra no País. As inovações da tecnologia e na organização do trabalho, como explica o diretor de Educação, Milton Gava, não deixaram alternativa senão promover um upgrade no conteúdo pedagógico da instituição.

Ao ingresso no Terceiro Grau soma-se, por exemplo, a reformulação na formação básica, com introdução de noções sobre máquinas computadorizadas, conhecimentos de microinformática, acréscimo de conteúdos ligados às normas técnicas e, na área comportamental, o desenvolvimento do trabalho em equipe e o estímulo à visão analítica.

Entre as novidades há também o ensino modularizado, pelo qual o aluno recebe certificado ao final de cada módulo e já pode exercer alguma atividade no mercado. Não é mais necessário fazer curso longo, de vários semestres, para receber diploma. Além disso, o aluno escolherá quais módulos quer cursar dentro de sua aptidão profissional. O novo modelo, segundo Milton Gava, também enfatiza mais horas de laboratório e oficinas, o que significa maior contato com tecnologia de ponta e formação profissional mais abrangente. Isto é, mais conhecimento global de sua área e possibilidade de desempenhar mais de uma função na empresa.

O foco do Senai-SP, com a reformulação, é enfatizar a educação profissional e deixar Primeiro e Segundo Graus acadêmicos para a rede de ensino regular. Os cursos sob medida nas empresas são o carro-chefe: das 1,336 milhão de matrículas no Senai-SP em 1997, perto de 86%, ou 1,160 milhão, foram treinamentos encomendados pelas empresas.

Esse acerto de foco com a modernidade das indústrias não foi empírico. Milton Gava explica que a ênfase aos cursos técnicos surgiu de pesquisa com 1.098 indústrias que contribuem com o Senai-SP e outras 275 que não mantêm a instituição, casos de agricultura, comércio e serviços, com objetivo de buscar novos nichos de mercado e ampliar a oferta de produtos do sistema. A pesquisa constatou clara demanda por conteúdos de qualidade e produtividade, como ISO 9000, kanban e CEP, além de fortes conhecimentos voltados à informática, como CAD, CAM e CNC para programar máquinas computadorizadas.

As empresas consultadas também reivindicaram ampliação da oferta de formação profissional continuada (qualificação, aperfeiçoamento e especialização), o que começa a ser resolvido por meio de uma combinação de cursos modularizados, à distância e com outra inovação: o Senai-SP vai implantar exames de comprovação de competências, a fim de aproveitar experiências profissionais adquiridas em outras escolas ou no trabalho. A partir dessas habilidades, o aluno dá prosseguimento aos estudos ou ingressa de imediato no mercado de trabalho, sem repetir conhecimentos que já domina, explica Milton Gava. O Senai-SP vai certificar essas experiências práticas por meio de provas.

Outro resultado da pesquisa com empresas paulistas é a necessidade de funcionários com domínio do inglês técnico para ler e interpretar manuais de operação e reparação de equipamentos de última geração. Também propuseram ao Senai-SP oferecer maior empregabilidade, ampliando o universo de conhecimentos do trabalhador.

Exemplo dessa polivalência no novo modelo é o grupo de eletrometalmecânica. Dentro da formação básica, segundo o Senai, nessa família ocupacional pode haver opção por mecânica, com qualificação como mecânico de manutenção ou mecânico operador de máquinas-ferramentas. Se preferir eletroeletrônica, poderá atuar como reparador de equipamentos eletrônicos ou eletricista. Numa terceira opção, há a área de metalurgia, com qualificação de caldeireiro ou de montador de estruturas metálicas. Ainda pode completar sua formação tornando-se técnico em mecânica, em eletroeletrônica ou em metalurgia.

Essas mudanças serão introduzidas gradativamente, entre outros fatores, devido aos estágios diferenciados em que as indústrias se encontram. “Uma parte ainda não se modernizou e cobra do Senai conhecimentos em máquinas convencionais. Devemos considerar essa coexistência entre o velho e o novo, entre o torno mecânico e o CNC” — afirma o diretor de Educação do sistema.

Outra novidade é a maior autonomia pedagógica e financeira das 129 unidades de formação profissional, nove das quais no Grande ABC. Isso quer dizer liberdade para oferecer programas conforme necessidades das regiões onde estão localizadas e, com isso, gerar receita própria para ampliar a oferta de serviços e equipamentos. Hoje, 10% da receita é gerada assim. Toda a reestruturação passará ainda por reciclagem dos quatro mil docentes da rede, que receberão os novos parâmetros no Centro de Formação de Formadores em Santa Bárbara D’Oeste.

Pioneiro em introduzir no ensino técnico do Grande ABC, em 1994, uma das novas ferramentas de trabalho na indústria, a mecatrônica, o Colégio Pentágono há tempos concentra fichas em mercados emergentes e, portanto, de mais oportunidades. Além da mecatrônica — um bem sucedido casamento entre eletrônica, mecânica e informática –, são exemplos dessa preocupação os cursos de química voltada para o meio ambiente e o de turismo, em implantação.

A diretora Heloísa Borges sabe que para sobreviver à virada do século qualquer empreendedor deve fazer urgente correção de rota e com o Pentágono não foi diferente. “Além de grade curricular sempre atualizada, enfatizamos a prática, para que o jovem entre o mais rápido possível no mercado” — sublinha.

Para manter afinados com as mudanças os 1,6 mil alunos que este ano cursam o colégio técnico, o estabelecimento de ensino de Santo André mantém um profissional debruçado permanentemente sobre pesquisas de mercado. Ele faz a seleção e colocação de estagiários e, mais do que isso, mantém contatos frequentes com pelo menos 70 empresas cadastradas, para conhecer quais as novas necessidades operacionais e de perfil de empregados.

É devido a essa sintonia fina que o Pentágono renova constantemente as disciplinas, como é o caso da mecânica com especialização em manutenção. “O setor de serviços é o maior propulsor de novos empregos, daí termos introduzido a informática no curso regular de técnico em mecânica. O formando pode, com isso, abrir o próprio negócio” — informa Heloísa Borges. O Pentágono também inova com cursos rápidos de especialização. O de CNC (Comando Numérico Computadorizado) em tornos é um deles, com dois meses de duração. Atende a turmas mandadas pela empresas e interessados em geral.

Outra veia que alimenta de novidades o Pentágono são os professores. “Pelo menos 80% dos docentes dos cursos técnicos também têm profissões em empresas. São, portanto, grande fonte de informações sobre as novas exigências do mercado” — pontua Heloísa. Trazer profissionais para palestras é outra providência que soma conhecimentos. Cada curso técnico ganha todo ano uma semana de debates com quem já está na roda-viva das novas profissões. O resultado é um universo ilimitado de informações à disposição. “Cerca de 90% dos alunos conseguem colocação em estágios nas empresas e, destes, 70% em média acabam efetivados” — informa a diretora.

O vice-diretor da Escola de Engenharia Mauá, professor Mário Cavaleiro Garrote, revela que nos últimos dois anos disciplinas como Economia, Administração e Direito deixaram de ser perfumaria para os cursos de Engenharia. “Antes não eram valorizadas, mas agora o mercado exige. Muitos engenheiros acabam virando administradores, inclusive executivos do Poder Público” — diz.

Apesar dos esforços de melhor preparar profissionais para o mercado de trabalho, as faculdades de Engenharia da região são consideradas como ponto crítico pelo supervisor do CIEE (Centro de Integração Empresa Escola) do Grande ABC, Nilson Aparecido da Silva. Ele lamenta que FEI e Engenharia Mauá não tenham compatibilidade de horário com as exigências do mercado estagiário, dificultando a colocação de estudantes do Grande ABC nas indústrias da região. “Somente 20% são encaixados e na maioria das vezes temos de buscar estudantes de faculdades de outras cidades para estagiar em empresas daqui” — atesta o supervisor.

No comando de uma população estudantil que soma 3.856 pessoas nesta temporada, o professor Mário Garrote defende a filosofia da comunidade acadêmica. “Sem querer polemizar, uma empresa que procura estudante para fazer estágio e pede período integral está se valendo de lei para contratar serviço barato de estudante” — desabafa, e continua: “Não dá para fazer curso sério de Engenharia trabalhando período integral”. O professor afirma, porém, que a Engenharia Mauá criou curso noturno para atender a quem já trabalha. Neste caso, a duração passa de cinco para seis anos.

Na onda da modernidade, a Mauá aguarda sinal verde do Ministério de Educação para o curso de Mecatrônica, Engenharia de Automação e Controle de Robótica. Mas, segundo o professor, de nada adianta o esforço das escolas de Terceiro Grau se o aluno chega com deficiências da escola básica. “Além das falhas de aprendizado, o jovem que ingressa na faculdade é imaturo devido ao contexto social de hoje” — reflete Mário Garrote. Diante da propensão do jovem universitário à síndrome de Peter Pan (que na linguagem da Psicologia significam jovens que não querem amadurecer), a Mauá incluiu na grade curricular a disciplina Introdução à Engenharia, que apresenta aos calouros o dia-a-dia da profissão por meio de vídeo, aula prática e visitas a empresas da região. “É um meio de despertar a aptidão” — afirma o professor.

Também a tradicional Fundação Santo André, subsidiada pela Prefeitura, começa a reestruturar-se de olho no futuro. E futuro significa uma universidade comunitária paga já no ano 2000. O perfil que contemplará os 850 alunos do colégio e outros 6,5 mil dos sete cursos de pós-graduação e 13 de graduação oferecidos pelas duas faculdades — Faeco, de Administração, Economia e Ciências Contábeis, e Fafil, de Letras, Pedagogia, Licenciatura em Matemática e Ciências Sociais, entre outras — começou a ser rascunhado em fins de abril, com a separação das áreas acadêmica e administrativa, esta cuidando da gestão orçamentária.

Autonomia às duas diretorias era providência fundamental para a modernização, pois burocracia e hierarquias internas costumavam emperrar o então Conselho Curador, ou seja, o Poder Público. Os novos diretores ainda se dizem prospectores de terreno, mas já há pistas do que deve acontecer com a FSA: as mudanças ocorrem sob assessoria da UFScar (Universidade Federal de São Carlos), braço forte das empresas daquela região do Interior paulista, celebrada como forte pólo tecnológico do País.

“O convênio disponibiliza experiências da UFScar e certamente vamos utilizá-las” — comenta a nova diretora acadêmica da Fundação Santo André, Lúcia Helena Lodi, doutora em Educação pela USP (Universidade de São Paulo) e professora de pós-graduação no campus de Marília. O diretor da UFScar e consultor da FSA, Newton Lima Neto, elenca entre sugestões de novos cursos e programas a criação de um Centro Tecnológico, pós-graduação stricto-sensu, cursos para terceira idade e programas de qualificação e requalificação profissional de trabalhadores da região. “O modelo de universidade comunitária altera para melhor o status acadêmico-organizacional, conferindo à Fundação indispensável autonomia e adensamento científico” — arremata.

O objetivo da nova grade curricular é encontrar ponto de equilíbrio entre ensino técnico e básico. “As tecnologias modernas não podem dispensar visão humana do trabalhador. Vamos conciliar os conteúdos tecnicista e humanista que existem de forma isolada no Ensino Médio brasileiro” — comenta Lúcia Lodi.

Não por acaso, o novo superintendente William Saad Hossne é médico, pesquisador na área de Bioética e professor na Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista em Botucatu. Segundo Lúcia, além de democratizar o acesso ao ensino com mais vagas e novos cursos, outro eixo da reestruturação da FSA é trabalhar com as vocações da região, alavancando o desenvolvimento socioeconômico com conhecimentos de alto nível complementares aos já disponíveis nos demais centros acadêmicos.

O diagnóstico é recorrente. Trabalhadores qualificados são transformados em poderosa vantagem competitiva contra a concorrência. Pesquisa recém-concluída pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) é implacável ao constatar que aumentará o abismo entre o salário de gente qualificada e não-qualificada, assim como das oportunidades de emprego. A constatação é uma só: “O sistema educacional continua a perder a corrida para o progresso tecnológico” — chega a dizer o estudo.

Com projeção para o que deve ocorrer em 2005 no País, baseados no cenário existente 10 anos antes — ou seja, em 1995 –, economistas do Ipea concluíram que o desemprego deve cair de 7,9% para 4,3%. Para trabalhadores qualificados, porém, o desemprego em 2005 declinaria de 7,5% para apenas 2% da força de trabalho, enquanto para os não-qualificados o recuo seria de 8,1% para 5,4%. Pior ocorrerá com os salários: subiriam 61% para trabalhadores com qualificação e apenas 37% para os demais.

O mercado de trabalho será totalmente a favor do trabalhador instruído, segundo o Ipea, pois crescerá também 61% na década 1995/2005, enquanto as oportunidades de emprego para os não-qualificados aumentará minguados 13%. O cenário leva em conta repetir o que aconteceu com a economia brasileira entre 1993 e 1995, ou seja, a indústria crescendo 5,2%, a agricultura 4,3% e o setor de serviços 4,7%.

Trabalhador instruído, ensina o professor Jacob Daghlian, reitor da Universidade Metodista, não deve ter uma única especialização. A velocidade das mudanças impostas pela globalização exige visão generalista e de adaptabilidade, como é o caso das profissões saturadas nas grandes cidades, mas carentes no Interior. Jacob Daghlian saca uma de suas sempre bem-vindas frases de efeito: “Apesar das dificuldades, sempre haverá trabalho para pessoas bem preparadas, capazes de aprender a aprender” — diz, acrescentando que trabalho não faltará. O modelo atual de emprego é que se está transformando.

Desde o ano passado com status de universidade, a Metodista concentrou esforços na atualização dos laboratórios e espaços acadêmicos. Entre outros, ergue um edifício de 10 andares para abrigar o Centro de Ciências Sociais Aplicadas e vai concentrar num único bloco a pós-graduação dos vários centros de estudos. Com sete mil alunos distribuídos em 20 cursos superiores de graduação, introduziu este ano novas modalidades — Turismo, Educação Física e Fisioterapia — e reforçou o curso de Letras com tradutor de espanhol, além do português e inglês.

O curso de Pedagogia ganhou novo perfil: considerar o trabalho do pedagogo na educação informal — recreação, lazer, projetos educativo-culturais, cita Daghlian — em empresas e clínicas. “O currículo foi alterado com objetivo de formar o pedagogo como profissional da Educação, garantindo ao aluno visão da totalidade do trabalho pedagógico em suas dimensões de docência, administração, planejamento, orientação educacional, coordenação pedagógica e inspeção” — conceitua.

Distância demais das empresas

Se as escolas promovem esforços internos para ajustar a estrutura curricular às transformações que ocorrem em ritmo de jato nesta virada de milênio, não se pode dizer o mesmo quando o assunto é cooperação mais íntima com as empresas. As universidades, por exemplo, seriam reprovadas no vestibular de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento Científico) para empresas. Trata-se de área em que o Brasil é extremamente vulnerável, pois são basicamente as universidades que desenvolvem pesquisa no País e dependem em 80% de recursos públicos.

O problema é que nem tudo que pesquisam interessa às empresas. A culpa se divide entre os dois lados. As organizações privadas acham que as universidades não lhes fornecem respostas rápidas — como se ciência saltasse de máquinas como biscoitos — e preferem comprar tecnologia de fora ou importar equipamentos. Com isso, apenas montam o produto final. As universidades, de seu lado, continuam a fazer pesquisa trancadas em laboratórios, alheias ao que o País precisa.

“As universidades não se reestruturaram para atender às demandas das empresas porque continuam a utilizar as mesmas sistemáticas colegiadas e pouco ágeis de 50 anos atrás. As empresas procuram pesquisas que tenham aplicação na solução de problemas. As universidades ainda atuam nas pesquisas teóricas” — sublinha o ex-reitor da USP (Universidade de São Paulo) e atual reitor da UMC (Universidade de Mogi das Cruzes), professor Roberto Leal Lobo. Antes, o distanciamento podia ser atribuído ao que o reitor chama de puritanismo de que se deveria fazer a pesquisa pela pesquisa. O viés ideológico, mais presente nas universidades públicas, levava a crer que a ligação com empresas poderia denegrir a imagem de instituições e pesquisadores.

Hoje, a pesquisa que se pratica não passa pelo envolvimento pleno da universidade. “A cooperação com empresas é realizada geralmente por meio de fundações organizadas paralelamente às estruturas oficiais das universidades. Essas fundações não são controladas e não têm qualquer participação nas decisões das universidades e seus departamentos” — comenta o professor Roberto Lobo, ao explicar o caráter não-oficial e marginal das fundações nas atividades universitárias. “As universidades não se prepararam institucionalmente para trabalhar com o mercado” — lamenta, dizendo que as estruturas burocráticas não foram modificadas, pois mantêm-se mecanismos de decisão antagônicos à flexibilidade e agilidade que o mercado demanda, ao mesmo tempo em que o corporativismo interno não valoriza esse tipo de atividade.

É o que também pensa um expert em pesquisa tecnológica no País, professor Carlos Alberto Schneider, da Fundação Certi (Centro Estadual de Referências Tecnológicas Industriais), de Santa Catarina, que esteve no mês passado em Santo André para falar de parques e pólos tecnológicos. O encastelamento da comunidade científica torna impermeável qualquer tentativa de aproximação mais duradoura do parque produtor. “Criamos a cultura do paper. Pesquisadores e cientistas dão mais ênfase a preparar trabalhos para publicação no exterior do que a viabilizar projetos práticos aqui dentro. Todo nosso sistema de ciência e tecnologia está sendo entregue de mão beijada para Estados Unidos e Europa, porque, depois de publicado, qualquer empresa pode se apropriar” — cutuca o professor Schneider com a autoridade de quem senta tanto na cadeira do conselho deliberativo do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), principal agência oficial de apoio à pesquisa no País, quanto do Instituto Uniemp (Universidade-Empresa), organização não-governamental criada há oito anos por empresas privadas em parceria com a Unicamp (Universidade de Campinas).

Schneider não economiza palavras sobre o distanciamento entre o mundo acadêmico e o empresarial. Os números lhe dão razão. A publicação de artigos na Imprensa especializada internacional saltou de 1.916 para 5.429 em 15 anos — entre 1981 e 1995 –, segundo dados do Ministério da Ciência e Tecnologia. Enquanto isso, os investimentos na área são oscilantes, de US$ 3 bilhões em 1990 para US$ 2,4 bilhões em 1992 e US$ 10 bilhões no ano passado, com participação estagnada da iniciativa privada na faixa de 30% desses valores. O cálculo é da Anpei (Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Industriais). Na Coréia, 80% dos gastos são das indústrias.

“O governo tem todos os mecanismos para forçar nossos cientistas a trabalhar para as empresas. Por exemplo: proibir publicação de artigos lá fora e só dar bolsas do CNPq para pesquisas voltadas à indústria, a hospitais ou a cooperativas de empresas” — alfineta o professor Schneider. Segundo ele, a comunidade científica se contenta em manter-se em redutos fechados nas universidades, debruçada sobre teorias apenas para ganhar bolsas oficiais. Os números novamente não o deixam mentir: só 10% dos cientistas e engenheiros no Brasil trabalham diretamente na indústria, contra 75% na Alemanha, segundo dados da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo).

Um pingo d’água nesse oceano, como diz o professor Schneider, o Instituto Uniemp tem o propósito de ser ponte entre universidade e empresa. A idéia do então reitor da Unicamp Carlos Vogt ao convidar o então presidente da Rhodia Edson Vaz Musa para empreender Ciência em parceria vai frutificando, devagar. São hoje 25 grandes empresas que se abastecem de conhecimentos desenvolvidos por cerca de 70 universidades e centros de tecnologia no País.

O Uniemp detecta a necessidade do produtor e informa o pesquisador ou o centro que pode atendê-lo. Um dos projetos em evidência é o Genoma-Fapesp, que busca combater a bactéria responsável pelo amarelinho, principal praga destruidora da lavoura paulista de laranja. É projeto de US$ 14 milhões, 96% custeado pela Fapesp, órgão de fomento do governo paulista mantido com 1% da receita tributária do Estado.

O Genoma inaugurou as atividades do Núcleo Integrado de Biotecnologia da Universidade de Mogi das Cruzes, que está reunindo pesquisadores para trabalhar na área de biologia molecular e ajudar agricultores da região com cursos, treinamentos e divulgação de tecnologias, informa o reitor Roberto Leal Lobo. É mais um passo na caminhada que pretende aproximar empresa-escola.

No ano passado, por meio do curso de farmácia, a UMC treinou funcionários da Hoechst de Suzano. Atualmente, desenvolve com a Secretaria de Educação do Estado programa de capacitação de 6,5 mil professores de seis escolas estaduais de Primeiro Grau. Leal Lobo sonha em ver a universidade brasileira desempenhar o mesmo papel decisivo que teve na Alemanha para o desenvolvimento da indústria química, hoje no topo do mundo.

Mesmo crítico em relação aos extremos em que se encontram, é entusiasta da cooperação entre empresas e escolas: foi Leal Lobo quem criou o DiskTecnologia da USP, que encaminha pedidos de empresas às unidades responsáveis dentro do campus, experiência depois repetida em diversas universidades federais.

O Grande ABC não foge à regra das ações tímidas de cooperação entre Ensino Superior e empresas no campo da pesquisa tecnocientífica. Para o professor João Antônio Martino, chefe do Departamento de Eletricidade da FEI (Faculdade de Engenharia Industrial, de São Bernardo), a região possui pessoal capacitado e equipamento de ponta, mas não conta com investimento financeiro expressivo. “Os espaços destinados à pesquisa no Grande ABC estão pulverizados” — diz, referindo-se a laboratórios nas empresas e em alguns centros de ensino.

A FEI, por meio do Instituto de Pesquisa de Engenharia Industrial, procura estreitar essa relação desenvolvendo trabalhos acadêmicos. “Fazemos desde projetos até prestação de serviço especializado” — afirma João Martino. A Engenharia Civil, por exemplo, tem trabalhado por iniciativa própria em projeto de casas populares para contribuir na solução do déficit habitacional do Grande ABC.

Ainda em fase de estudos, a criação e instalação de uma rede digital local no Grande ABC poderão resultar de convênio entre FEI e CTBC (Companhia Telefônica da Borda do Campo). Na linha de pesquisa em telecomunicações, aliás, a FEI tem ousado ir mais longe. Foi a única faculdade do País a participar do Congresso de Aplicação Comercial do Espaço, este ano em Brasília, que tratou do uso de satélites e comunicação em ambientes de microgravidade. Leiam-se estações espaciais. Para garantir esse salto, a FEI tem dado ênfase à disciplina de robótica e desenvolvido projetos em parceria com a empresa canadense Spar.

Algumas experiências pontuais também marcam a trajetória de outra escola de ponta no Grande ABC, o Instituto Mauá de Tecnologia, de São Caetano. Foi sua Engenharia de Alimentos, por exemplo, que desenvolveu em parceria com o Instituto Ayrton Senna o Projeto Sopa, que aproveita restos de alimentos crus — talos e folhas — para o preparo de caldo quente distribuído a instituições carentes. A tecnologia, inclusive, está sendo exportada para a Argentina.

Cumprindo um dos mandamentos básicos da relação escola-empresa, que é desenvolver vocações locais, a Mauá está sintonizada com o parque automobilístico da região. A manutenção dos motores da Fórmula Chevrolet é de sua responsabilidade. “Temos um dos melhores laboratórios de motores do Brasil e prestamos serviços para todas as montadoras da região” — informa o professor e vice-diretor Mário Cavaleiro Garrote.

É ainda desses laboratórios de pesquisa que saem o know-how e o controle de qualidade para tintas utilizadas na sinalização de rodovias e aeroportos. “Para fornecer para a Dersa, por exemplo, o fabricante de tinta tem de ter nossa homologação” — revela Mário Garrote.

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