Imprensa

Décimo capítulo de dossiê em
defesa da liberdade de opinião

  DANIEL LIMA - 02/12/2016

Este é o décimo capitulo de um dossiê em preparação que o advogado Alexandre Frias encaminhará a instâncias competentes para assegurar liberdade de opinião deste jornalista frente à volúpia retaliatória do empresário Milton Bigucci, ex-presidente de diretoria e hoje presidente do Conselho Deliberativo do Clube dos Construtores do Grande ABC. 

Milton Bigucci é notório praticante de abusos contra adquirentes de imóveis. Tanto que foi condecorado com o título de campeão regional, em manifestação do Ministério Público do Consumidor de São Bernardo. Entre as trapalhadas empresariais em que se meteu incluiu-se também a Máfia do ISS. Sem contar que o denunciante do escândalo do Semasa, em Santo André, advogado Calixto Antônio Júnior, o colocou entre os empresários imersos nas irregularidades. Estranhamente, o Ministério Público de Santo André não o relacionou entre os denunciados. 

Na condição de então presidente do Clube dos Construtores, em agosto de 2013, Milton Bigucci ingressou com queixa-crime contra este jornalista. Surpreendentemente, obteve a guarida de um magistrado de primeira instância. Foram selecionados por seus advogados 11 textos que escrevi entre janeiro e agosto daquele ano. Já expusemos nove desses artigos. O que se seguirá é o décimo. 

Cala boca já morreu 

A decisão do Judiciário de Santo André fere o regramento legal sobre liberdade de opinião e liberdade de expressão. A queixa-crime, como já escrevi, é acintosa jogada de manipulações preparadas para obter intento violador do interesse público representado pelo jornalismo independente.

Mais uma vez, como o fizemos nos capítulos anteriores, vamos expor a integralidade de um dos artigos selecionados pelo quadro jurídico do então presidente do Clube dos Construtores (os mesmos das ações do empresário, em seu próprio nome, contra este jornalista, em situações anteriores igualmente agressoras à liberdade de expressão) e o comparamos com dois artigos publicados em grandes jornais do País. 

Em todas as situações apresentadas (e tantas outras que poderiam seguir o mesmo caminho) não há termos de comparação entre o suposto crime deste jornalista e o que poderia ser chamado de acidez dos articulistas rebocados a comparações. Tudo dentro do sagrado direito de emitir juízo de valor que as democracias modernas respeitam e aplaudem. 

Personalidade autoral 

CapitalSocial é uma publicação de personalidade editorial autoral, ou seja, não se limita a reproduzir declarações de terceiros. Aliás, como manda o jornalismo mais amadurecido e avançado em todos os cantos do planeta. Só desconhece essa premissa quem não é do ramo ou quem sabe que é preciso obstar os passos daqueles que o praticam. 

Entendemos e sempre realçamos nestas páginas que o jornalismo de declarações é uma camada espessa de interesses pouco republicanos quando, principalmente, está em litígio com a realidade dos fatos. Se CapitalSocial vivesse exclusivamente de declarações de terceiros cujos interesses estão em jogo, seria um produto editorial destinado ao lixo. 

Um exemplo simples e contundente da diferença estratosférica entre CapitalSocial e outras publicações da região: o prefeito Luiz Marinho anunciou em 2011 que construiria um aeroporto internacional em São Bernardo, especificamente em inviolável área de proteção ambiental. Os jornais deram a notícia sem qualquer adendo explicativo. O empreendimento foi condenado ao fracasso por várias razões, inclusive porque não tinha nexo.

CapitalSocial foi a fundo e mostrou de forma crítica que a pretensão do prefeito petista teria o destino de peça depreciativa do Observatório de Promessas e Lorotas desta publicação. O tempo provou que Luiz Marinho delirou ao transmitir a notícia. Os jornais impressos e digitais da região se calaram durante todo esse período. É crime o enquadramento da notícia como “lorota”? Ou seria no mínimo um desserviço à sociedade publicar aquela informação sem os devidos reparos? 

A arte do diversionismo 

A tática do milionário Milton Bigucci é repetidamente a mesma de sempre para cercear o direito à informação qualificada: ele pretende calar este jornalista, único profissional da imprensa da região que não se submete às suas vontades. Submeter às suas vontades é aceitar as regras do jogo que ele estabelece para prestar informações à sociedade. 

A retaliação sistemática que o empresário e dirigente classista procura impor a este jornalista se dá desde que, entre outras denúncias, desmascaramos as mentiras estatísticas que orquestrou à frente do Clube dos Construtores. Ele inflou de forma deliberada os dados sobre vendas e lançamentos de imóveis na região. 

Chegou-se a tal ponto de vulnerabilidade informativa (e de agressão à confiança de famílias interessadas na compra de imóveis) que em determinadas temporadas o comportamento do mercado imobiliário da região superou os resultados da Capital. Nada mais absurdo, levando-se em conta a diversidade econômica da poderosa vizinha, além da própria centralidade na Região Metropolitana de São Paulo. 

Aquelas informações seriam anedóticas não fossem fraudes que causaram prejuízos enormes a milhares de famílias locais, vítimas de especulações repassadas em forma de sobrepreço das unidades. O resultado não tardou a aparecer: a Província do Grande ABC passa por crise histórica no setor imobiliário muito antes dos sinais de alarme no Brasil como um todo. Constata-se o que antecipamos há três anos – um estoque que caracteriza uma das variáveis de bolha imobiliária. 

Estratégia reiterada 

O dossiê preparado por este jornalista em conjunto com o advogado Alexandre Frias terá destino a ser revelado nos próximos dias. O deliberado e persistente modus operandi do então dirigente máximo do Clube dos Construtores, cargo que ocupou durante um quarto de século, é uma reiterada certeza de que seguirá manipulando os fatos narrados por este jornalista. 

A prática é tão simples quanto efetiva, embora estupidamente desonesta sob o ponto de vista de realidade dos fatos: algumas frases das análises deste jornalista são retiradas do contexto de avaliações do mercado imobiliário da região. E mesmo assim, esses fragmentos não ultrapassam os limites da liberdade de opinião. 

O que reproduzimos abaixo neste décimo capítulo do dossiê são três artigos. O primeiro deste jornalista, criminalizado no Judiciário de Santo André, datado de 24 de junho de 2013, sob o título “Mocinho involuntário vira bandido num piscar de olhos”. A queixa-crime em nome do Clube dos Construtores destacou uma única frase como pecaminosa àquela corporação. Querem saber qual? Então leiam: “do inútil e especulativo Clube dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC”.  Nada é preciso acrescentar. 

Já os dois artigos que constam desta edição são repassados integralmente. O primeiro é um editorial de O Globo de 21 de abril deste ano sob o título “Dilma põe interesses pessoais e do PT acima do país”. O segundo é um editorial do jornal O Estado de S. Paulo, de 23 de julho deste ano, sob o título “Um legado de Dilma”. Leiam, comparem e procurem entender como é possível retirar o lacre da liberdade de opinião do texto deste jornalista. Está aí mais uma motivação ao dossiê. 

 Artigo deste jornalista -- Passei de mocinho involuntário a bandido perigoso num piscar de olhos da Justiça. Ou teria sido uma cochilada da Justiça? Na 4ª Vara Cível de São Bernardo o juiz entendeu perfeitamente os fundamentos que relacionam a atividade jornalística ao interesse público. Na 4ª Vara Criminal de Santo André o juiz confundiu o público com o privado. A segunda instância é um bom caminho a ser percorrido. Milton Bigucci, empresário que comanda a MBigucci, conglomerado que, segundo investigação do Ministério Público do Consumidor de São Bernardo, é campeão absoluto em abuso contra a clientela, além de praticar enriquecimento ilícito, também é presidente do inútil e especulativo Clube dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC. Nada disso esteve em julgamento em São Bernardo e em Santo André. Nem seria preciso. Então, o que ocorreu para este jornalista virar mocinho quando não cumpre senão a tarefa profissional de informar os leitores, e tornar-se bandido quando em quase 50 anos de profissão jamais sofreu qualquer tipo de penalidade? Simples, muito simples: Milton Bigucci, velha raposa da sociedade regional, protegidíssimo pela mídia, rejeita qualquer tipo de restrição às atividades corporativas e institucionais em que está metido. Quer, como as grandes estrelas, aplausos sem parar. E, claro, como os ditadores, exige o silêncio de eventuais jornalistas independentes.  Antes de passar diretamente às sentenças conflitantes sobre o mesmo temário – artigos que escrevi nesta revista digital em dezembro de 2010 e em maio de 2011, portanto antes dos escândalos que envolvem Milton Bigucci e que foram denunciados aqui -- não resisto à tentação de imaginar como seria o comportamento de Milton Bigucci fosse Milton Bigucci não o Milton Bigucci da Província do Grande ABC, mas Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, herói nacional antes, durante e após o julgamento do mensalão. Já imaginaram os leitores se Milton Bigucci fosse Joaquim Barbosa? Não, não e não, o raciocínio não é este, a pergunta não é esta. Refaço-a, portanto: já imaginaram se Joaquim Barbosa fosse Milton Bigucci, ou seja, se pensasse com o autoritarismo de Milton Bigucci, com o não-me-toques de Milton Bigucci, tendo a força institucional e moral de Joaquim Barbosa? Se o ministro Joaquim Barbosa fosse Milton Bigucci, o experiente Elio Gaspari, colunista da Folha de S. Paulo, estaria numa enrascada louca. Que seria desproposital. Elio Gaspari, por mais contundente que tenha sido na crônica de ontem do jornal paulistano, não se deixou levar pelo pecado da injúria e da difamação, delitos sobre os quais o juiz da 4ª Vara Cível de São Bernardo assegurou com sapiência que não cometi quando escrevi aqueles artigos sobre Milton Bigucci, mas o juiz da 4ª Vara Criminal de Santo André, também com os mesmos textos à disposição, entendeu exatamente o inverso. Vamos aos trechos de Elio Gaspari que selecionei sobre o ministro do Supremo Tribunal Federal, sob o título “Um exercício de fantasia futurológica”, referindo-se à possibilidade de Joaquim Barbosa eleger-se presidente da República não só porque há muito tempo está com cotação em alta como também porque, agora, a classe política tradicional sente quanto pesa as dores de tantas escorregadelas que levaram o povo às ruas: (...) Barbosa defende grandes causas, mas é chegado a pitis e construções inquietantes, como a sua denúncia das “taras antropológicas” que a sociedade brasileira carrega. Descontrola-se e justifica-se atribuindo sua conduta a dores de coluna. Se todas as pessoas que tem esse tipo de padecimento perdessem o controle quando viajam em trens lotados na hora do rush, as tardes brasileiras teriam pancadarias diárias. Há nele uma misteriosa predisposição imperial” – escreveu Elio Gaspari. Uma leitura mais meticulosa da análise crítica de Elio Gaspari também remeterá o contexto político a envolver o ministro do Supremo Tribunal Federal a Fernando Collor de Mello e Jânio Quadros, quando se refere ao que chamou de exemplos avulsos, sem base partidária, que chegaram à presidência da República. Exposta essa introdução que os leitores hão de entender mais que pertinente, providencial, volto às ações impetradas pelo imperialista Milton Bigucci, empresário que arrematou um terreno público (onde pretende construir o empreendimento Marco Zero) em flagrante delito processual e que, como escrevi, tornou-se campeão de abuso à clientela que procura os estandes dos empreendimentos de seu conglomerado. Foram quatro artigos escritos por este jornalista que lastrearam a decisão do juiz da 4ª Vara Cível de São Bernardo a considerá-los legítimos na esfera de interesse público, mas ganharam interpretação completamente diversa do juiz da 4ª Vara Criminal de Santo André. O juiz que me tornou bandido sentenciou que o artigo publicado em 14 de dezembro de 2010, referente a um evento que Milton Bigucci promoveu na sede do Clube dos Construtores, ofendeu a honra subjetiva do empresário, “na medida em que o evento (...) foi taxado como festinha mequetrefe que teria servido como peça de marketing para aumentar o cacife de Milton Bigucci nos escaninhos do Poder Público”. E prosseguiu na sentença: “(...) o querelado afirma que Milton Bigucci é cara de pau, comparando sua conduta de avocar liderança pró-regionalidade com aquela do presidente iraniano Ahmadinejad de indicar a própria candidatura ao Prêmio Nobel da Paz”. Minha resposta respeitosa ao magistrado: escreveria mil vezes mil aquele artigo sob o título “Regionalidade é para Milton Bigucci como Nobel da Paz a Ahmadinejad”. A metáfora é perfeitamente pertinente, verdadeiramente informativa, definitivamente esclarecedora, sobre a omissão histórica de Milton Bigucci como agente empresarial e institucional à regionalidade da região. Trata-se de um dirigente e de um empresário absolutamente divorciados de qualquer coisa que remeta à importância de construir relações que favoreçam a integração regional. Só age por interesse particular. Que expressão merece alguém com esse perfil senão “cara de pau”, numa linguagem popular por conta de o objetivo ser esclarecedor. A festinha mequetrefe, portanto, fica mantida. Aquele evento reuniu Milton Bigucci e menos da metade dos deputados estaduais e federais da região convidados a um almoço de confraternização. Afinal, ainda frequentavam o noticiário as denúncias de financiamento eleitoral irregular patrocinado pelo setor imobiliário, com o suporte do Secovi, o sindicato do setor, do qual Milton Bigucci é integrante do conselho consultivo. Não foi por outra razão, aliás, que apenas cinco deputados da região compareceram, certamente porque mal informados sobre uma vitrine autodenunciatória de suporte financeiro da construção civil. O segundo artigo julgado pelo magistrado de Santo André que me tornou bandido foi publicado em 18 de maio, sob o título “Bigucci sai da toca, vai além dos sapatos sujos e quebra a cara”. Lembrou o magistrado: “Os mesmos sapatos sujos com que frequenta as obras da MBigucci, empresa vitoriosa no setor da construção civil, são os mesmos sapatos sujos que adentra a setores públicos”. E prosseguiu: “Na mesma matéria ainda aduziu que: “os bons empreendedores do setor fogem de Milton Bigucci, prosseguindo com a assertiva que: “... Milton Bigucci faz o joguinho sórdido de sempre...” e “...por conta de gente institucionalmente inútil como Milton Bigucci”. E conclui o magistrado: “Ora, uma vez mais, ao veicular o citado artigo, o querelado ofende a honra subjetiva de Milton Bigucci, denegrindo a imagem que ele goza no ramo empresarial que atua”. Também repetiria mil vezes mil aquele artigo. Há verdades incontestáveis ali expostas. Com os mesmos sapatos sujos de barro e cimento que fiscaliza as obras da MBigucci, Milton Bigucci se ocupa de fazer lobby empresarial nas instâncias do Poder Executivo da região. Foi assim, aliás, com informações privilegiadas, que, comprovadamente, arrematou irregularmente a área do Marco Zero. O jogo sórdido de Milton Bigucci nos bastidores do poder é tão intenso que há mais de um ano esta revista digital publicou uma denúncia sobre a participação de sua empresa de forma irregular num empreendimento em Santo André e até agora ele não se mobilizou em busca de criminalização deste jornalista. Tudo porque provavelmente não quer inquérito criminal a vasculhar as informações do denunciante ouvido por CapitalSocial. Quanto à suposta imagem de que Milton Bigucci goza no ramo empresarial, conviria ao magistrado ouvir sob segredo de Justiça, entre outras medidas cautelares, qual é de fato o pensamento médio dos empreendedores do setor. Os 20 anos de autoritarismo no Clube dos Construtores, destruindo uma entidade que se pretendia socialmente responsável, são suficientes para desqualificar o empresário como agente de respeito institucional. A denúncia do Ministério Público do Consumidor de São Bernardo é um atestado da falência ética e empresarial de Milton Bigucci. O terceiro artigo escrito por este jornalista e alvo do ataque de Milton Bigucci foi publicado em 23 de maio de 2011. A sentença do juiz da 4ª Vara Criminal de Santo André: “(...) o querelado em tom pejorativo, ofendendo a honra subjetiva dele, ocasião em que deixou assentado que: “”Milton Bigucci é especialista em fechar não só os olhos, ouvidos, a boca e tudo o mais, menos os bolsos nestes tempos de boom imobiliário”. E prosseguiu: “Deixou consignado ainda que Milton Bigucci se trata de pessoa dissimulada, conforme consta do artigo intitulado “”Adolescentes-placas são apenas miragem nas ruas do Grande ABC””, posto que começa a matéria com a seguinte afirmação: “”O dissimulado comandante do mercado imobiliário do Grande ABC, empresário Milton Bigucci, vai ter de explicar ao Ministério Público as denúncias de utilização irregular de crianças e adolescentes menores de 16 anos de empreendimentos do setor nas ruas da região””. Ora, nada mais claro que repetiria mil vezes mil aquele artigo. Milton Bigucci é mesmo dissimulado. A “Carta do presidente da Acigabc” que consta do site da entidade, o chamado Clube dos Construtores”, é prova da dissimulação à qual me referi naquele artigo. Vejam o que ele assinou: “Embora sempre tenhamos alertado que as empresas terceirizadas não devessem usar menores nessa função, foi dito pelos presentes que houve alguns casos desse trabalho por menores. Alertamos novamente aos nossos associados que não contratem empresas que assim agem e façam constar no contrato de terceirização essa proibição, como algumas já procedem”. A carta em questão foi produzida após Milton Bigucci ter sido convocado a comparecer ao Ministério Público para responder sobre o abuso mais que conhecido de adolescentes transformados em placas de publicidade de empreendimentos imobiliários. Milton Bigucci, vejam só, dissimulado como poucos, disse que não conhecia a intensidade da irregularidade. Pura balela, porque a prática era intensamente utilizada. Milton Bigucci caiu em contradição quando se compara os termos da “carta” com declarações anteriores. Quando do escândalo da matéria publicada pelo Diário do Grande ABC, ele disse desconhecer a irregularidade, ou que se tratava de exceção à regra. Matéria publicada por aquele jornal em 21 de maio de 2011 é emblemática do descaramento de Milton Bigucci: “O presidente da entidade ligada ao ramo da construção civil, Milton Bigucci, afirmou que nunca recebeu nenhuma denúncia sobre a prática que não só contraria o Estado da Criança e do Adolescente como a Consolidação das Leis do Trabalho. Também disse não ter presenciado tal cena pelas ruas de São Bernardo, Município onde mora e abriga sua empresa: “O ocorrido foi exceção, porque a regra não é essa”, garantiu o empresário” – escreveu o Diário do Grande ABC. Três semanas depois, em nove de maio, durante encontro no Ministério Público para a efetivação de proposta contra trabalho infantil, Maria Luiza Furquim de Almeida Vilar Feitosa, auditora fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego, regional de São Bernardo, disse textualmente ao Diário do Grande ABC que o trabalho de panfletagem com a utilização de crianças e adolescentes não era de então e poderia ser visto em todas as cidades do Grande ABC: “Pagar uma criança, que deveria estar na escola ou em atividade cultural e de lazer, é mais barato, ao invés de registrar um adulto”, disse a executiva do Ministério do Trabalho e Emprego. Se alguém conseguir fazer crer que um presidente de uma entidade do ramo imobiliário não tem conhecimento do que se passa nas ruas da região com crianças e adolescentes-placas, a adjetivação “dissimulado” não teria mesmo sentido. Não se acredita que Milton Bigucci seja tão incompetente à frente do Clube dos Construtores a ponto de pelo menos ser informado sobre a irregularidade. Mas, mesmo que fosse, a ponto de não observar meninos e meninas nos faróis, restaria a porção empresarial dele a detectar todos os lances do mercado imobiliário, porque a concorrência, no mínimo a concorrência, estaria lhe passando a perna e ele, como empresário, deveria reagir e denunciar a irregularidade. Para completar o enredo da transformação deste jornalista em bandido, o quarto artigo da peça acusatória de Milton Bigucci acolhida pelo juiz da 4ª Vara Criminal de Santo André refere-se ao texto publicado em 31 de maio de 2011: “O querelado, mais uma vez, ofende o querelante, na medida em que afirma que: “”Não fosse por algumas companhias, como é o caso de Milton Bigucci, presidente da Acigabc (...), Orlando Morando poderia sustentar a possibilidade de representar o novo num cenário político que vai muito além das eleições do ano que vem. Juntar-se a Milton Bigucci, duas décadas de inutilidades naquela instituição, não é algo que se coloque no currículo. Mas Orlando Morando não deve ser condenado por estar tão próximo de um dirigente empresarial muito mal avaliado pelo setor que pensa representar. Provavelmente Morando segue à risca os preceitos de boa-vizinhança sem comprometimentos. Mesmo que caia na gandaia da ingenuidade de deixar-se homenagear pela entidade de Milton Bigucci pouco tempo depois do escândalo de financiamento eleitoral do setor imobiliário na vizinha Capital. Numa entidade muito frequentada por Milton Bigucci”. Não cabe, ante o já exposto por este jornalista, qualquer adendo às considerações do magistrado sobre o quarto artigo mencionado. A atuação empresarial e institucional de Milton Bigucci é autoexplicativa à razão de considerar, à época, nada lisonjeira a proximidade entre o dirigente e o deputado estadual Orlando Morando. Por conta de ficar estupefato com uma sentença absurda, estou certo de que em segunda instância tudo estará devidamente esclarecido. Provavelmente nem será necessário avocar os fatos posteriores que remetem Milton Bigucci ao campo de delitos constatados por este jornalista e também a delitos denunciados pelo Ministério Público do Consumidor, porque em todos os pontos, vírgulas e o que mais se desejar, está mais que esquadrinhado naquele conjunto de artigos mal interpretados pelo magistrado que só existe um fio condutor a conduzir a produção jornalística: o interesse público.  Por isso, ter passado de mocinho em São Bernardo a bandido em Santo André é uma situação que, paradoxalmente, me leva às alturas do entusiasmo de continuar a combater o bom combate jornalístico. Os novos tempos que se prenunciam, com invasão das ruas por gente cansada de velhos e sofríveis atores sociais, esses novos tempos hão de contemplar também a justeza de uma sentença que mire Milton Bigucci duplamente predador regional, como empresário e como suposta liderança de classe. Quanto ao Milton Bigucci pessoa física, nada foi escrito nem declarado por este jornalista em nenhuma situação.  

 Editorial do jornal O Globo -- Em clássico exemplo de ato falho, Dilma deixou escapar que nas eleições se “solta o diabo”. Transcorria 2013 e, no ano seguinte, na campanha à reeleição, ela demonstraria na prática o que entendia pelo termo: aprofundou o uso da contabilidade criativa para mascarar o crescente déficit fiscal, pedalou bilhões ao obter crédito disfarçado em banco público e usufruiu da ácida criatividade contra adversários do marqueteiro João Santana, há algum tempo cumprindo temporada na carceragem de Curitiba. E, no final, deu tudo certo. Em termos, porque ganhou a eleição, mas, devido a alguns dos demônios que liberou, enfrenta processo de impeachment, já aprovado na Câmara e em tramitação para ser julgado no Senado. A presidente continua colocando o diabo à solta. E cada vez mais, com a decisão extemporânea de viajar para Nova York, a fim de participar da solenidade de assinatura do Pacto de Paris, sobre o clima, na sexta, pretexto para aproveitar o palanque internacional e fazer o discurso mentiroso do “golpe”. Assim, Dilma assume a postura de dignitários de “repúblicas bananeiras”, tendo um comportamento bizarro perante a diplomacia internacional. Pior: com a própria presidente fazendo ataques à ordem instituída do seu país, contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Ineditismo absoluto — no mau sentido — na História do Brasil. É evidente que o governo e o PT executam uma estratégia de comunicação a fim de passar a sua versão errada do impeachment para a imprensa estrangeira. Daí as entrevistas coletivas em que Dilma responde apenas a perguntas de jornalistas estrangeiros. Querem desinformar a imprensa internacional, na impossibilidade de fazerem o mesmo com o jornalismo profissional brasileiro. A tese do “golpe”, construída como forma de manter a militância mobilizada, saiu da rua e invadiu o Planalto, por meio dos discursos feitos pela presidente em comícios organizados nos salões do Palácio. E foi adiante até se infiltrar na defesa da presidente, brandida no Congresso e no STF pelo advogado-geral da União, ministro José Eduardo Cardozo. Agora, a própria presidente se vale da prerrogativa de ser representante máxima do país em fóruns diplomáticos para usar a tribuna da ONU, de maneira oportunista, a fim de tratar de um problema político pessoal e do seu partido. A diplomacia brasileira sempre foi respeitada no mundo, pela seriedade e o profissionalismo. Agora é usada de forma rocambolesca. Infelizmente, de tudo isso deverão restar arranhões na imagem das instituições do país perante governos e empresas internacionais. Ministros do Supremo, como o decano Celso de Mello, já se pronunciam contra esta manobra de comunicação do Planalto. Ontem, ele foi objetivo: “Até agora, tudo (o processo de impeachment) funcionou em perfeita ordem.” Dentro das regras constitucionais. Mas Dilma e PT parecem acreditar na teoria do nazista Joseph Goebbels de que uma mentira dita mil vezes vira verdade. Mesmo que eles prejudiquem o Brasil. 

 Editorial do jornal  O Estado de S. Paulo -- A ironia é irresistível: como é que esse pessoal tem coragem de fazer isso com uma mulher honesta? Essa deve ser a pergunta que estão fazendo os estupefatos brasileiros que tomaram conhecimento da surpreendente revelação de que havia caixa 2 nas campanhas eleitorais de Dilma Rousseff. É inacreditável, porque Dilma, a honesta, e o PT não se cansam de repetir que todos os recursos financeiros que passam por suas campanhas eleitorais são “recebidos na forma da lei e registrados na Justiça Eleitoral”. Mas a fonte é insuspeita: o marqueteiro João Santana e sua mulher e sócia, Mônica Moura, que acham tudo isso muito feio, mas confessaram ao juiz Sérgio Moro que tiveram que fazer o que fizeram porque, senão, “vem outro e faz”. Não por coincidência, é assim que pensam também os políticos gananciosos, bem como os maus empresários que antes preferem competir à margem da lei, pelo atalho da corrupção, do que pelo aumento da qualidade e a redução dos custos e dos preços de seus produtos e serviços. O cinismo e a hipocrisia dos depoimentos prestados em Curitiba, no âmbito da Operação Lava Jato, pelo marqueteiro oficial das últimas campanhas presidenciais do PT e por sua companheira e cúmplice, ao trazerem a público aquilo que todo mundo sempre soube e doravante a honesta Dilma não poderá continuar negando, evidenciam a completa deterioração dos padrões de moralidade naquilo que a política tem de mais vital: o jogo eleitoral. Não se pode dizer, numa República que teve suas primeiras décadas marcadas pela ampla manipulação do resultado das urnas, que a fraude eleitoral seja uma novidade. Mas há pouco mais de 35 anos entrou em cena um partido que, apresentando-se como dono da verdade e da virtude, logrou tornar-se a mais importante força política graças à anunciada disposição de lutar “contra tudo isso que está aí”. Pois é exatamente esse, o Partido dos Trabalhadores, que aliado ao que há de pior na vida pública e privada – do coronelismo nordestino ao banditismo sindical e empresarial – cometeu um escandaloso estelionato eleitoral em 2014. Por força do exagero da sede com que foi ao pote, o PT acabou prestando à democracia brasileira o favor de facilitar a tarefa das investigações policiais que lancetaram o tumor da corrupção e deixaram vazar a secreção pútrida das práticas mentirosas e ilegais das campanhas eleitorais. Se permanecesse fiel a suas promessas de moralizar a política, o PT poderia ter usado o grande poder político de que por algum tempo dispôs para pelo menos minimizar as práticas criminosas que comprometem a lisura das urnas. Em vez disso, as campanhas eleitorais se tornaram cada vez mais caras e contaminadas por práticas ilegais, como admitiu João Santana em seu depoimento ao juiz Moro: “Acho que é preciso rasgar o véu da hipocrisia que cobre as relações políticas eleitorais no Brasil e no mundo”.  Mônica Moura, que era responsável pela administração financeira da dupla, admitiu ter recebido, “como caixa 2, mesmo”, US$ 4,5 milhões relativos à campanha presidencial de 2010. E explicou: “Os partidos não querem declarar o valor real que recebem das empresas e as empresas não querem declarar o quanto doam. Ficamos no meio disso. Não era uma opção minha, mas uma prática não só do PT, mas de todos os partidos”. O casal tentou fazer crer que não contou nada no interrogatório que se seguiu à prisão, no início do ano, porque tinha a intenção de preservar a imagem de Dilma Rousseff: “Eu achava que isso poderia prejudicar a presidente Dilma”, afirmou o publicitário. “Eu que ajudei, de certa maneira, a eleição dela, não seria a pessoa que iria destruir a presidente.” Mônica Moura acrescentou: “Para ser sincera, eu não quis incriminá-la, porque achava que ia piorar a situação. Queria apenas me poupar de piorar a situação”. Pelo jeito, nenhum dos dois entende que haja agora alguma maneira de impedir que a “situação” de Dilma piore. 

Os marqueteiros de Dilma não deixam dúvidas: a corrupção faz parte do catastrófico legado dela.

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