Imprensa

O que escreveram sobre Trump;
e o que Bigucci tanto abomina

  DANIEL LIMA - 18/11/2016

A liberdade de opinião é o centro conceitual desta que é a nona matéria de uma série sobre a tentativa do empresário Milton Bigucci criminalizar este jornalista por conta de análises críticas publicadas no primeiro semestre de 2013 ao Clube dos Construtores do Grande ABC, conhecido oficialmente como Acigabc.

O que vamos mostrar mais uma vez, como se todas as edições anteriores não fossem suficientes para caracterizar o descalabro da iniciativa acolhida pelo Judiciário de Santo André, é que existe, novamente, um fosso entre a interpretação supostamente injuriosa e difamatória deste jornalista sobre a atuação daquela entidade e o tratamento que jornalistas deram nos últimos dias ao presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump.

Desta feita, decidimos expor os artigos selecionados de forma distinta das anteriores. Deixamos de lado o escalonamento e priorizamos a reprodução integral dos textos completos.  A ideia com essa mudança de método é que os leitores não percam o fio da meada que o intercalar de textos poderia estimular.

A frase pecaminosa

O artigo que escrevi é tão ofensivo ao Clube dos Construtores do Grande ABC então chefiado por Milton Bigucci que o milionário empresário do mercado imobiliário da Província do Grande ABC não obteve de seus advogados (foi a banca que o atende no conglomerado de empresas do qual é o dirigente máximo que atuou em nome da associação que então presidia, entre outros motivos porque a entidade não tem recursos financeiros para contar com um quadro próprio de defensores) mais que um parágrafo em forma de destaque. E mesmo assim um parágrafo pateticamente sem sustentação fática. Querem saber os leitores qual foi a frase, ou quase-frase, que Milton Bigucci e seus advogados ressaltaram para chamar a atenção do juiz à condenação deste jornalista num dos 11 artigos, o qual será reproduzido logo abaixo? Então leiam: “(...), entidade estruturalmente falida e sem representatividade institucional na região”.

Quem acredita que este jornalista está a brincar não conhece o tamanho das tergiversações da queixa-crime preparada para impedir que a sociedade conhecesse mais de perto o quanto era e ainda continua frágil uma entidade que supostamente representaria os interesses dessa mesma sociedade, porque trata do mercado imobiliário, atividade que integra a bolsa de ativos e passivos de centenas de milhares de famílias.

Comparem e decidam

Agora, comparem a frase selecionada pelos acusadores deste jornalista com os textos que se seguem sobre a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos. É estarrecedor que o jornalismo independente nesta Província encontre tantos obstáculos, sobretudo por parte de um empresário e dirigente classista participante de vários escândalos comprovados pelo Ministério Público Estadual, além de outros que não foram devidamente apurados.

O sistema judiciário não pode ficar a mercê de uma ação deliberadamente inibidora à prática da liberdade de expressão com sustentação na realidade dos fatos. A característica desta revista digital, de viés autoral, plataforma mais elevada do jornalismo -- porque ao responsável exige-se somatório de especificidades --, não pode ser desconsiderada pelas autoridades judiciais. Até porque, o conteúdo integral dos 11 artigos, espertamente retirados do contexto na queixa-crime para ludibriar o julgador, é a prova eloquente do embasamento do autor.

A liberdade de expressão – e no caso específico deste jornalista, a liberdade de opinião – não pode ser ingrediente de estocadas diversionistas do empresário Milton Bigucci e do dirigente Milton Bigucci, despachado da presidência do Clube dos Construtores um ano e meio após ingressar no Judiciário contra este jornalista. E pouco depois dessa iniciativa, em novembro de 2013, foi flagrado em delito como integrante da Máfia do ISS da Capital -- conforme denúncia do Ministério Público Estadual e da Controladoria-Geral da Prefeitura de São Paulo.

 O texto completo do artigo deste jornalista -- Vou contar até esta quarta-feira, 19 de junho, uma história surreal: um inocente julgado em São Bernardo vira bandido em julgamento realizado em Santo André. Não acreditaram? Tratem de acreditar, porque o inocente é este jornalista, e o bandido é também este jornalista. Sabem os leitores quem é o acusador ao qual a Justiça de Santo André, contrariando a Justiça de São Bernardo, resolveu dar guarida? O empresário Milton Bigucci, presidente da MBigucci, presidente do Clube dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC. Ainda outro dia Milton Bigucci foi condenado pela Justiça de São Bernardo por uma transgressão continuada. A pena foi sentenciada após denúncia formal do Ministério Público do Consumidor, por abuso contra a clientela e também por enriquecimento ilícito. Pretendia relatar a história absurda de ter virado bandido assim que soube da decisão do magistrado de primeira instância em Santo André. Preferi esperar a reação já esperada de comemoração de Milton Bigucci. Quem o conhece bem, como este jornalista, sabe que ele não perderia a oportunidade para atacar um inocente que virou bandido. Estava esquecendo de dizer que o empresário Milton Bigucci também está metido no arremate fraudulento de uma área pública em São Bernardo, onde pretende construir o Marco Zero, empreendimento festejado como o suprassumo do encontro entre geografia estratégica e infraestrutura fenomenal. O Corregedor-Geral do Ministério Público do Estado de São Paulo, ou seja, o chefe do MP paulista, já determinou a abertura de inquérito criminal para apurar o caso mais que esmiuçado por este jornalista e que consta desta revista digital. Uma falcatrua irrebatível. Utilizando-se de assessoria de comunicação do Clube dos Construtores, entidade estruturalmente falida e sem representatividade institucional na região, Milton Bigucci mandou para um mundaréu de gente a notícia de que este jornalista fora condenado pela Justiça. Uma meia verdade, claro, porque sofismar é sua especialidade. Tanto sofismar quanto se utilizar da infraestrutura material do Clube dos Construtores para um assunto que ele diz ser de caráter pessoal, ou seja, este jornalista o atingiu como pessoa física. Uma bobagem sem tamanho. Ele sabe que este jornalista só se refere a ele como pessoa institucional e como pessoa corporativa. Sua vida privada não me diz respeito. Como tantas outras vidas privadas. Ao utilizar assessoria de comunicação do Clube dos Construtores, Milton Bigucci confessa publicamente o que tanto a promotora criminal e o juiz de Santo André preferiram desqualificar: trata-se de questão jornalística de interesse publico dizer que Milton Bigucci é inoperante como dirigente de uma entidade de classe e não exatamente um primor de exemplo como empresário. Milton Bigucci se esqueceu de contar a história completa que vou relatar na edição de quarta-feira. A história de que um braço da Justiça desatualizado sobre o significado de liberdade de expressão e liberdade de imprensa, me tratou como bandido sanguinolento no campo jornalístico. A atividade sacrossanta de informar o público sobre assuntos de interesse social foi simplesmente jogada no lixo por influência de uma promotora criminal que mantém explícita hostilidade a este jornalista. Vou contar toda a história aos leitores. Sem mais nem menos. A sentença do juiz de Santo André colide não só frontalmente com a sentença do juiz de São Bernardo como também me transforma em bandido que só não está trancafiado porque se ofereceu benevolente permissão para que eu possa traduzir a pena em indenização. É claro que estou recorrendo à segunda instância. Milton Bigucci tem duas manias quando trata com a mídia: ou a lubrifica com promessas e a bajula permanentemente, sempre com recíprocas editoriais, ou vai à Justiça quando encontra algum jornalista independente. A Justiça de Santo André me transformou em bandido. Por mais bandido que supostamente seja este jornalista, sempre estarei muitos patamares acima do nível ético e moral de Milton Bigucci. A clientela da MBigucci, o promotor de Justiça do Consumidor de São Bernardo e a juíza da 7ª Vara Cível de São Bernardo, que deu total respaldo à denúncia sobre os métodos que o empresário utiliza, me asseguram certeza absoluta de que o jogo jogado em Santo André foi apenas e exclusivamente um descuido por conta de perseguição de uma integrante do MP, cujo comportamento denunciarei ao Corregedor-Geral do Ministério Público. A medida a tomar é uma questão de bom senso, porque respeito essa instituição que não pode ser julgada por excessos no encaminhamento de denúncia claramente manchada de hermenêutica muito particular. 

 Principais trechos do artigo de Arnaldo Jabor no jornal Estado de S. Paulo --  Só nos resta uma ridícula esperança: “Ahhh... vai ver ele não é tão mau assim... talvez ele seja legal... bonzinho...”. Mas o que aconteceu é gravíssimo, é a prova de uma nova era terrível não apenas na América, mas no mundo. A democracia liberal que floresceu com o fim da Guerra Fria, com a queda da União Soviética, vai acabar. Será? Ninguém sabe, mas é provável, com a vitória desse palhaço da TV que a democracia (!) transformou no homem mais poderoso da Terra. É inacreditável, mas aconteceu. Os avanços políticos e culturais da América serão jogados 50 anos para trás. Foi a vitória da lunatic fringe — os loucos que espreitavam das margens da opinião pública. O Congresso e o Judiciário estarão em suas mãos, as 40 mil ogivas estarão em suas mãos, o mais poderoso exército do mundo em suas mãos pequenas, os códigos nucleares estarão sob aquele horrendo dedinho que ele ostentou o ano todo. Agora, teremos de ver a cara desse rato por quatro anos, a menos que ele morra, pois nem impeachment será possível. (...) Sua vitória estava escrita na insatisfação mundial com a democracia globalizada. O irracionalismo surge como uma forma rápida de resolver tensões e crises. Chega de “razão”, chega de “sensatez”. Trump é um resultado. No mundo todo, surgiram as caras horrendas que por si só já denotam a trágica mudança. Vejam a cara de porco do novo presidente das Filipinas, o Dutarte, que manda a população matar drogados e viados; vejam o Putin, maldoso psicopata, o homem mau de filme de James Bond, que agora os países do Leste europeu começam a admirar; vejam a saída da Inglaterra da União Europeia; vejam o pré-ditador Erdogan da Turquia; vejam o outro porquinho do mal da Coreia do Norte, um pesadelo stalinista cômico; vejam o pescoço de girafa maldita do Assad matando o próprio povo; vejam a alegria da perua de extrema direita Marine Le Pen; vejam o neonazismo na Alemanha e na Áustria se arreganhando; vejam o presidente Orban da Hungria; vejam o que restou da democracia (rs rs) da Primavera Árabe; vejam a popularidade do Hofer da Áustria; vejam a popularidade até da direita na Dinamarca, até do partido popular na Suíça. Todos esses movimentos eram subestimados pela fé na liberdade, sustentada pelo oásis da sagrada democracia americana. A tragédia da vitória de Trump não foi um raio em céu azul. Como era tudo inimaginável, quase um filme de terror, os democratas se despreocuparam, a mídia ficou ingênua, e ninguém viu que, na sociedade do espetáculo, a longa exposição na TV podia eleger o elemento. Trump ficou um ano no ar. Virou um show. Virou um hábito. (...) É a rebelião dos imbecis...Eu já morei na Flórida e conheço bem essa estupidez. É diferente da estupidez brasileira, pois não é fruto de analfabetismo ou de cultura zero. Lá, a boçalidade tem mais chão, é mais sólida e forma uma rede ideológica que prospera na classe média do país todo. Lá, a boçalidade tem fundamentos. São monoglotas que nada sabem do mundo exterior. Consideram-se uma nação excepcional que tem de repelir diferenças — o que mais odeiam: os negros, os gays, os latinos, os muçulmanos têm de ser banidos. E, com o mundo cada vez mais intrincado, os estúpidos tendem para o isolacionismo mental, para certezas totalitárias, com ódio da política. Assim, o oásis americano virou miragem. (...)  É estranho que um sujeito eleito na América possa ameaçar o mundo todo. Deveria haver filtros (quais?) que protegessem o país de uma calamidade como essa. 

 Artigo integral de Janio de Freitas na Folha de S. Paulo -- Donald Trump saiu de junto dos seus cofres fortes para um importante favor ao mundo. Ainda que fosse derrotado, já o teria feito em grande parte, ao menos para quem quer ver o mundo como de fato é. Vitorioso, Trump não é apenas mais um inesperado eleito para presidir a chamada democracia americana: em um século e pouco, é o mais representativo da índole majoritária nos Estados Unidos, da qual veio a comunhão bem sucedida entre o candidato e a maioria eleitoral. Competitivo, ousado, bilionário, Trump reflete com perfeição a sociedade, como diz sua biógrafa Gwenda Blair, em que os homens são divididos e tratados como vencedores e vencidos. Portador declarado de preconceitos racistas, exprime com propostas objetivas a rejeição, pela dominante parcela branca, que a lei não consegue evitar contra negros, latino-americanos, árabes, asiáticos, índios americanos e, por mais que um lado e outro o disfarcem, mesmo contra os judeus. O simplismo do pouco que Trump falou sobre as relações internacionais, ou os focos de tensão, não contém ressalvas ao belicismo do seu país. Breves citações à Coreia do Norte e ao Irã foram só para dizer que os Estados Unidos não podem admiti-los como países nucleares, o que é também o esperável da maioria que aprova ataques e invasões a países que nem sabe onde ficam. (Os americanos aprendem geografia com as guerras, dizem eles). E tanto mais ou pior, porque se poderia mencionar as mortandades feitas pelo militarismo dos Estados Unidos mundo afora, com pleno assentimento da maioria nacional – e sem crítica de Trump senão para prometer o bem acolhido isolacionismo. Quem fez menção ao estado da índole dominante americana foi Hillary Clinton. No seu último discurso, véspera da eleição: "Precisamos curar este país, temos de reunir as pessoas, de ouvir e respeitar um ao outro". Propõe-se cura para quem se sabe estar doente. Se bem que Hillary, quando integrante do governo Obama, foi avalista de ações de guerra. E não reagiu à falta de atitudes efetivas contra a violência interna, em particular a dirigida aos negros. Já foi possível aprender ou saber mais, graças a Trump, sobre as ideias da maioria politicamente ativa dos americanos que a identificam com o candidato do egocentrismo nacional. Trump foi eleito por uma multidão de trumps. Mas de como será ele, quando submetido às circunstâncias da Presidência, só se sabe que não será o presidente prometido. 

 Principais trechos do artigo de João Pereira Coutinho na Folha de  S. Paulo -- Donald Trump vence as eleições americanas e o mundo inteiro corre para o Google. Segundo a imprensa, eis as frases mais pesquisadas nas últimas 24 horas: "Como posso emigrar?" e "Fim do mundo". Ainda não há notícias sobre suicídios em massa, embora algumas estrelas de Hollywood estejam perto disso. Que fazer? Existe uma frase inglesa que se aplica ao momento: "Keep calm and carry on". O cenário pode ser melhor do que parece –ou pior. Quem sabe? Precisamente: quando o assunto é Trump, ninguém. Mas comecemos pelo pior. Jonathan Freedland, no "The Guardian", não poupa as palavras. Aqueles que acreditam que Trump vai mudar –mais moderado, mais "presidencial"– estão errados. A receita populista resultou para vencer a Casa Branca. Por que não continuar com ela, fechando a economia americana à competição internacional, abandonando a Otan ao seu destino ou estendendo uma passadeira vermelha a Vladimir Putin no Oriente Médio e no Leste da Europa? Além disso, quer o Congresso, quer o Supremo estão em mãos conservadoras. O poder de Trump é, numa palavra, absoluto. Será? Duvido. Escrevi repetidamente que Trump não tem preparação técnica ou temperamental para ocupar a Casa Branca. Mantenho. Mas é preciso admitir uma possibilidade: o homem pode ser realmente um farsante. Essa, aliás, é a última esperança do mundo: depois de vestir o terno do candidato delirante e grosseiro, Trump veste o terno presidencial e age em conformidade. Isso significa abandonar certas aberrações –o muro no México, a deportação em massa de 11 milhões de imigrantes ilegais– e escolher uma versão mais moderada do velho Trump. Até porque, convém lembrar, ele não atua sozinho como um monarca iluminado. O Congresso e o Supremo (com o próximo substituto de Antonin Scalia) podem jogar no campo republicano. Mas isso não significa, necessariamente, que congressistas e juízes são marionetes de Trump. 

 Principais trechos do artigo de Ian Mcewan, colunista do Guardian -- Charles Darwin não conseguia acreditar que um Deus bondoso pudesse criar uma vespa parasita que injeta seus ovos no corpo de uma lagarta para que a larva possa consumir a hospedeira viva. A vespa da família Ichneumonidae desafiou a fé de Darwin, que já estava minguando. Podemos compartilhar sua perplexidade hoje, quando contemplamos o organismo político americano e a coisa repulsiva que se aninhou em seu interior, esperando o momento de eclodir e começar a fazer sua refeição. A descrença atônita, uma condição à qual estamos começando a nos acostumar, é uma forma de negação que some rapidamente, mas não de modo suave. Ela desaparece em passos: dois passos para frente, um para trás. Mas até o dia da posse presidencial, em 20 de janeiro, já articularemos as palavras "presidente Trump" sem incredulidade ou gargalhadas. O perigo é que comece a parecer normal essa tragédia singular de automutilação nacional em que um suspeito embusteiro (a ação judicial contra a Trump University, uma entre muitas, começará a ser julgada em 28 de novembro), essa pessoa vulgar, narcisista e cínica, dotada de intervalo de atenção limitado, se tornará o homem mais poderoso do mundo. (...) Haverá comentaristas e asseclas ansiosos para nos persuadir de que a nova situação é aceitável. Mas a disputa pela Presidência demorou demais e revelou demais para poder ser esquecida. (...) Praticamente não houve um único impulso humano tenebroso que ele deixou de revelar ou explorar quando fez campanha. E, se essa foi a poesia, o que podemos esperar do gênero menor, a prosa? Se por acaso Trump falou a sério (seus partidários estarão de olho), será um governo feito de fogueira no qual serão atirados o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, o arduamente negociado pacto nuclear com o Irã e acordos comerciais diversos. Ele terá de pressionar a Arábia Saudita e o Japão a se dotarem de armas nucleares; terá de enfraquecer o aspecto atual de assistência da "obsoleta" Otan, com isso criando o risco de uma incursão russa nos países bálticos; terá de aniquilar famílias de terroristas; iniciar uma guerra comercial com a China, por meio de um protecionismo desacreditado; restaurar a tortura como braço da política externa; construir um muro de 3.200 quilômetros de extensão ao longo da fronteira mexicana, barrar a entrada de muçulmanos no país e elevar muito os gastos militares. E, no âmbito interno: sobretudo, "trancafiar" sua adversária, conforme o prometido em mil comícios eleitorais; perseguir jornais hostis; atacar as mulheres que o acusaram de assédio sexual; reduzir os impostos, especialmente para os super-ricos; abolir a reforma da saúde promovida por Obama e deixar 24 milhões de pessoas sem cobertura médica; "gerar" 20 milhões de empregos em dez anos; jogar por terra os regulamentos ambientais; relançar a indústria do carvão; deportar imigrantes ilegais aos milhões; lotar a Suprema Corte de conservadores ideológicos, à medida que forem surgindo vagas. É deveras prosaico, e, esperemos, boa parte disso pode ter sido meras promessas de campanha, impossíveis de cumprir. Mas é essa a mentalidade, e este será um presidente com poder tremendo sob seu comando, com a Câmara e o Senado. O Tea Party –a facção João Batista de Trump–, nos tempos de Obama tão altiva em relação aos empréstimos contraídos pelo governo, descobrirá que já não se importa mais tanto com a dívida. E, em torno de nós, não americanos, a ordem mundial vai obrigatoriamente começar a mudar. Estaremos ingressando na Era do Tirano? A América se vê diante da possibilidade de acrescentar o nome de seu líder aos de Putin, Xi Jinping, Assad, Sissi, Erdogan, Netanyahu, Duterte, Nazarbayev, Lukashenko... (...) A experiência americana, além do próprio plebiscito britânico sobre a UE, demonstraram um paradoxo familiar: são as comunidades mais rurais, completamente brancas, que mais temem a imigração, enquanto as metropolitanas e miscigenadas a temem menos. (...) O presidente em fim de mandato, a primeira-dama e a candidata democrata derrotada, todos compreendem a importância de uma transição ordeira. Trump, se tivesse sido derrotado, não teria de longe sido igualmente maduro; tinha ameaçado declarar a eleição fraudada, cegamente correndo o risco de agitação perigosíssima. Ele é uma criança ignorante e mal-humorada, estranhamente promovida para uma posição superior à dos adultos. É bem possível que seja contido por assessores sábios, restrições constitucionais e realidades práticas, mas a preocupação continua a ser o caráter. Haverá crises, e ele terá de lidar com elas. Ele não parece ter capacidade, nem sequer ser estável. (...) Narcisismo maligno? Transtorno de personalidade limítrofe? Ou, como propôs Christopher Buckley, transtorno de personalidade limítrofe mexicana? A esperança é que Trump tenha mentido aos partidários em seus comícios, mas, se por algum azar maldito ele conseguir realmente governar como fez campanha, quando se projetou como autocrata e misógino, intolerante de qualquer dissensão, indiferente aos limites presidenciais, ansioso por autorizar a tortura, racialmente hostil, então teremos que reconhecer que os EUA elevaram para seu cargo mais alto um fascista que se faz passar por qualquer outro nome. No momento, soa improvável. Mas será apavorante.

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