Imprensa

Papa e Lava Jato apanham;
Milton Bigucci é intocável

  DANIEL LIMA - 07/10/2016

Esta é a quinta edição de uma série que expõe aos leitores o que operadores do Direito chamariam de atentado contra a liberdade de expressão. Trata-se da judicialização de 11 textos produzidos por este jornalista em 2013 (entre muitos outros cuidadosamente desconsiderados pelo autor da queixa-crime, Milton Bigucci, então presidente do Clube dos Construtores do Grande ABC) sobre as atividades daquela organização.

Repito a fórmula de quatro edições anteriores, disponíveis no acervo desta revista digital. Intercalo trechos de cada artigo que produzi com análises de diferentes autores. No caso desta edição, recorro ao jornalista Guilherme Fiuza, colunista da revista Época, e do sociólogo Celso Rocha de Mello.

Os leitores críticos e cuidadosos hão de conferir que a criminalização dos meus artigos é obra do parentesco da ficção mais sórdida, porque ardilosa, e o escárnio, porque invasora do território da democracia informativa. Ou então, sem exagero, deveria frequentar instâncias de repúblicas de bananas.

Enquanto o Clube dos Construtores então presidido pelo empresário Milton Bigucci (conhecidíssimo do Ministério Público do Consumidor pelos delitos contra adquirentes de imóveis) comportava-se como fortaleza pretensamente intocável à crítica jornalística, os dois articulistas convocados a esse trabalho fazem duras intervenções contra o papa Francisco e a força-tarefa da Operação Lava Jato. Nada mais natural em regime comprometido com a informação multifacetada.

Empreitada de risco

Esta série de confrontos entre artigos que escrevi sobre aquela então inútil entidade empresarial da Província do Grande ABC (e que somente após a derrubada diplomática do então presidente Milton Bigucci em 2015 passou a dar a impressão de que viverá novos tempos para se aproximar do conceito de representatividade de organizações associativas) e trabalhos de analistas em geral tem o objetivo bem delineado de mostrar à sociedade que a Província do Grande ABC é um território no qual o exercício do jornalismo independente, sem rabo preso com quem quer que seja, é empreitada de alto risco. Basta que inúteis, supostamente ofendidos, façam queixa-crime que amordace o contexto crítico. Mais que isso: basta selecionar espertamente alguns parágrafos, enxertar a acusação com interpretações despropositadas e tudo estará bem encaminhado.

Há agentes de interesse público (caso de Milton Bigucci enquanto dirigente de uma entidade de classe, assim como tantos outros assemelhados) que se acham no direito de arguir imunidade aos estragos que causam à sociedade.

No caso do Clube dos Construtores e Incorporadores, o tempo retirou qualquer dúvida sobre os motivos daquelas análises, como de tantas outras: a gestão de Milton Bigucci fora tremendamente danosa não só à categoria que dizia representar, mas também ao conjunto da sociedade que paga o preço de fanfarronices de cunho mercantilista.

A gravidade da crise do mercado imobiliário na região – muito acima de outras localidades e fartamente antecipada por esta revista digital – não é uma fatalidade. O endereço da origem de grande parte dos desconfortos de milhares de família na região é a sede da associação utilizada por Milton Bigucci para criminalizar o direito à informação.

Compare os artigos

O artigo que reproduzo escalonadamente a seguir foi publicado nesta revista digital em 13 de maio de 2013 sob o título “Clube dos Construtores começa a preparar a substituição de Bigucci”. O artigo do jornalista Guilherme Fiuza foi impresso na edição de 12 de setembro deste ano da revista Época sob o título “O golpe do papa”. Já o sociólogo Celso Rocha de Mello escreveu na edição de 19 de setembro deste ano do jornal Folha de S. Paulo.

Leiam atentamente. Comparem. Vejam se algum desses exemplares de liberdade de expressão deve ser criminalizado por injúria e difamação. No caso deste jornalista, o destaque gráfico que Milton Bigucci sacramentou em nome do Clube dos Construtores para tipificar o suposto crime que este jornalista teria cometido está nos seguintes parágrafos do artigo que seguirá mais abaixo. Antes, porém, de repassar os trechos ofensivos segundo a ótica toda particular do representante do Clube dos Construtores, sugiro aos leitores que não caiam na gargalhada, tamanha a fragilidade acusatória: “O Clube dos Construtores e dos Incorporadores será completamente reformulado porque não guarda qualquer relação com as necessidades de classe e tampouco está comprometido com a sociedade consumidora de um dos produtos de maior necessidade à qualidade de vida”. (...). “O Clube dos Construtores e dos Incorporadores ganhará novos rumos no mínimo porque há muito tempo está sem rumo” -- escrevi criminosamente, segundo o empresário.

Se esses são os trechos de extrema gravidade ofensiva que este jornalista teria dirigido àquela entidade, imaginem o que dizer dos dois artigos que seguem, caso Milton Bigucci fosse o destinatário das críticas.

Vamos, então, às três matérias completas e intercaladas: 

 Primeiros trechos do artigo deste jornalista -- A queda do empresário Milton Bigucci da presidência do Clube dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC (Associação dos Construtores) dificilmente será evitada nas eleições deste final do ano. Finalmente o dirigente que há duas décadas comanda uma entidade que se perdeu nas brumas da incompetência gerencial e do distanciamento do interesse público mudará de mãos e de filosofia. Nada mais lógico. A realidade de terra arrasada não pode mais esperar, segundo o sentimento generalizado da classe. O Clube dos Construtores e dos Incorporadores será completamente reformulado porque não guarda qualquer relação com as necessidades de classe e tampouco está comprometido com a sociedade consumidora de um dos produtos de maior necessidade à qualidade de vida. Com Milton Bigucci e sua vocação ao centralismo não há salvação, porque já atingiu o fundo do poço do desprezo da própria classe, asseguram fontes que há muito se afastaram da entidade. O movimento de oposição que se fortalece para retirar Milton Bigucci da presidência é estrategicamente suave, diplomático, civilizado. É assim que na maioria das vezes se resolvem pendengas institucionais no País. Quem está no poder, seja qual for o poder, constrói laços que para serem desfeitos recomendam cuidados de quem se move entre cristais. Mesmo assim, o movimento é vigoroso. O Clube dos Construtores e dos Incorporadores ganhará novos rumos no mínimo porque há muito tempo está sem rumo, sem eira nem beira. Só permanecerá na pasmaceira de muitos anos se Milton Bigucci bater o pé por nova reeleição. Mas essa hipótese é considerada bastante improvável. Milton Bigucci sabe que, mesmo com todo o aparato de amigos poderosos em várias áreas, não tem forças para reagir desde que algumas lideranças do setor, que se afastaram da entidade, resolveram reagir. Certo de que está chegando a hora de ser apeado do cargo, já ensaia aproximação com opositores de modo a que a articulação possa ser vista como movimento de sucessão natural, não de ruptura inadiável. Tudo para salvar as aparências. Como se a falta de legado não fosse suficiente para cristalizar descrédito à longevidade de perfil castrista. Notícias não faltarão para amenizar a queda de Milton Bigucci, tornando-a adocicada. É possível que não faltarão marketing e assessoria de comunicação para transformar a desastrosa gestão de duas décadas em sucesso de público e de bilheteria. Mas há quem repense a iniciativa. 

 Primeiros trechos do artigo de Guilherme Fiuza -- O papa Francisco cancelou sua viagem ao Brasil em 2017 afirmando que o país “vive um momento triste”. Vamos traduzir essa tristeza: o líder máximo da Igreja Católica está apoiando Dilma Rousseff, a despachante da quadrilha que depenou o país entristecido. Mas a tristeza sentida pelo sumo pontífice não é com o roubo, é com a punição aos ladrões. O papa Francisco, de maneira indireta, portanto dissimulada, portanto covarde, está fazendo coro com a militância ideológica que grita contra o golpe de Estado – esse em que a criminosa golpeada dialoga com os golpistas (e ri com eles), sob a regência constitucional da Corte máxima do país. Uma bandeira de mentira, fajuta e imunda, que agora é levantada também pelo papa Francisco. 

 Primeiros trechos do artigo de Celso Rocha de Mello -- Tudo indica que Lula recebeu favores das empreiteiras, e as autoridades estão cumprindo seu dever quando investigam a natureza desses favores. Mas a história mais ampla sobre política brasileira que foi contada na quarta-feira é muito ruim. Ela parece ser a base para a acusação de que Lula era o "comandante supremo" da "propinocracia". Isso não vale. Na visão do procurador Deltan Dallagnol, o PT montou um sistema de distribuição de cargos e propinas que garantiu uma "governabilidade corrompida", visando a "perpetuação criminosa" do PT no poder. No centro do esquema estaria Lula: sem ele, nenhum dos envolvidos teria sido nomeado para seus cargos. A roubalheira teve como fonte propinas cobradas do cartel das empreiteiras. 

 Mais trechos do artigo deste jornalista -- Teme-se que a emenda soe pior do que o soneto. Não dá para fabricar ações se durante todo o período de mandatos houve malemolência e desinteresse corporativo. Fala-se que o melhor mesmo para Milton Bigucci é uma saída discreta, à falta de insumos para shows pirotécnicos. A longevidade presidencial de Milton Bigucci se rivaliza com o esfacelamento dos pequenos e médios construtores e incorporadores da Província do Grande ABC, mesmo nos tempos de mercado imobiliário aquecido, antes que nuvens negras começaram a aparecer no horizonte. O Clube dos Construtores e Incorporadores não é sombra do que se imagina quando foi criado em São Bernardo. E a maior carga de responsabilidade pela operação-desastre cabe ao comandante do Grupo MBigucci, segundo críticos do mercado imobiliário. O escândalo do arremate irregular do terreno onde Milton Bigucci está construindo, impunemente, o empreendimento Marco Zero, na disputadíssima esquina da Avenida Vergueiro e Avenida Kennedy, é apenas um detalhe a mais na montanha de insatisfação. É uma espécie de pontapé nas pretensões de Milton Bigucci reeleger-se mais uma vez num foro de eleitores que ele sempre controlou.  São poucos associados, muitos dos quais sob sua influência. 

 Mais trechos de Guilherme Fiuza, da Época -- Isso não teria a menor importância num mundo que soubesse distinguir um líder espiritual de um mercador da bondade. Mas a demagogia supostamente progressista – na verdade reacionária – é hoje a commodity mais valorizada do planeta, e nenhum candidato à popularidade perante as massas admite mais abrir mão dela. Até a alemã Angela Merkel, guardiã quase solitária da responsabilidade europeia, andou fazendo proselitismo com o tema dos refugiados. Se você não der ao menos uma bicadinha na vitamina populista, você morre. 

 Mais trechos do artigo de Celso Rocha de Mello -- Se Lula estivesse no centro do esquema, como argumentou o procurador, poderíamos supor que sua presença nessa rede fosse fundamental para manutenção. Talvez isso seja eventualmente demonstrado, mas os dados disponíveis não o sugerem. Tanto o cartel das empreiteiras quanto os aliados que venderam seu apoio ao PT já estavam no ramo antes de 2003. O cartel financiou a campanha de todos os partidos esses anos todos. Só o PT lhes ofereceu favores em troca? Os fisiológicos apoiaram FHC por oito anos, deslocaram-se em massa para o PT até recentemente e agora passaram todos para o lado de Temer. Foi só durante a era petista que essa necessidade de proximidade com a máquina pública foi motivada por interesses escusos?  

 Novos trechos do artigo deste jornalista -- O que se espera dos novos dirigentes do Clube dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC é que preparem um manual de conduta ética, um projeto executivo de ações operacionais e uma proposta de adensamento do quadro associativo, além de outras ferramentas internas e externas que dinamitem os entulhos de duas décadas de autoritarismo, centralismo e individualidade institucional de Milton Bigucci. Ao se empenharem minimamente na produção dessa macroagenda, os novos dirigentes e associados da entidade acreditam que só terão a ganhar. Considera-se que é impossível não obter sucesso ante a calamitosa administração de 20 anos. A trajetória de Milton Bigucci como empreendedor privado (salvo os pecados capitais já apontados nesta revista digital) é proporcionalmente inversa ao que se deu à frente do Clube dos Construtores e Incorporadores. O sucesso como empresário que avançou além dos limites imaginados na arte de crescer, porque juntamente com familiares e profissionais que o cercam entende do riscado da construção civil, é diametralmente oposto ao quadro de constante e insustentável fragmentação do Clube dos Construtores e Incorporadores. A instituição está em frangalhos em todos os quesitos que possam medir o grau de satisfação dos empreendedores de um setor que também envolve áreas de prestação de serviços, como imobiliárias. Apesar do otimismo que cerca os oposicionistas, não será fácil a tarefa de reconstrução do Clube dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC. Sobram escombros estruturais. A entidade não reúne nem meia centena de associados, dos quais pouquíssimos empreendedores da construção e da incorporação, razão nuclear da fundação no final dos anos 1980. Atividades complementares ao setor imobiliário são importantes, é claro. O problema está na falta de credenciamento da administração Milton Bigucci, acentuada a cada nova deserção de sócios fundadores. É muito provável que, para salvar as aparências e o desgaste contínuo de uma gestão que levou a categoria empresarial ao completo desânimo, a saída de Milton Bigucci seja pontuada por encenação diplomática. Há ponderações nesse sentido entre os opositores. Milton Bigucci construiu uma teia de relacionamentos com gente graduada, sempre ou quase sempre ao colocar a presidência do Clube dos Construtores e dos Incorporadores como comissão de frente a aproximações institucionais e corporativas. Por isso, segundo entendem, não conviriam hostilidades públicas, embora duras críticas nos bastidores sejam uma constante. Há até quem sugira que Milton Bigucci deixe a entidade com homenagem de cartão de prata pelos serviços prestados. Formalidades típicas de uma cultura nacional de badulaques sociais oferecidos aos poderosos. Oficialmente ainda ninguém fez essa sugestão, até porque Milton Bigucci ainda não jogou a toalha. Mesmo os maiores opositores de Milton Bigucci afirmam que por mais que o dirigente tenha frustrado a classe, dilapidando a potencialidade de mudanças empresariais e sociais e também individualizando arremetidas junto aos poderes públicos em benefício da corporação que preside, não se poderia orquestrar uma solução radical de enxotamento pré e pós eleitoral. 

 Novos trechos do artigo de Guilherme Fiuza -- A gangue que inventou o golpe no Brasil para brincar de resistência democrática – e se encher da preciosa vitamina demagógica – está quebrando tudo. Durante 13 anos quebraram por dentro, agora estão quebrando por fora – o que é bem mais prático e leve. O caixa da revolução está cheio, após a proverbial transfusão da Petrobras, dos bancos públicos e dos fundos de pensão. O lanche é mortadela por questão de estilo, poderia ser caviar. E não existe vida mais fácil: você recruta um bando de inocentes úteis e não inocentes alugados e manda todo mundo para cima da polícia. Fustigar a boçalidade das polícias militares é brincadeira de criança para essa turma. Não tem erro. 

 Novos trechos do artigo de Celso Rocha de Mello -- É inteiramente legítimo responsabilizar o PT por ter participado disso, mas dizer que o sistema foi montado para perpetuar o PT no poder é ridículo. O sistema já estava ali e, aliás, nunca perpetuou ninguém no poder, justamente porque se adapta facilmente a mudanças de presidente. Mas o principal problema da explicação do procurador não é a injustiça cometida contra o Partido dos Trabalhadores, que já tem culpas suficientes sem essa. O problema é quem ganha com a historinha sobre a propinocracia petista. A alternância no poder representada pela eleição de Lula em 2002 fortaleceu os órgãos fiscalizadores. Nem tanto porque o governo do PT, de fato, tomou algumas boas medidas nesse sentido. Muito mais porque alternância, em si, favorece a autonomia dos fiscalizadores. 

 Trechos finais do artigo deste jornalista -- Argumenta-se que o ônus de escaramuças que desqualificariam duas décadas de invernada administrativa de Milton Bigucci atingiria a própria instituição. O macroplano da oposição visa sobretudo passar a limpo a entidade tanto interna quanto externamente sem conotação de lavagem de roupa suja. Entende-se que o custo-benefício de operação que desgastasse publicamente Milton Bigucci seria contraproducente porque confirmaria a baixa capacidade crítica da classe em relação à fragilização permanente da entidade sem que, durante todo o período, nenhum grupo tenha reagido.  Ou seja: há consciência de que a presidência de Milton Bigucci é um débito coletivo com matizes múltiplos. CapitalSocial não esconde que a derrubada de Milton Bigucci seria uma das melhores notícias da Província do Grande ABC nesta temporada. É pouco, lógico. Há em setores menos importantes da sociedade, mas nem por isso distantes das explicações à quebra do dinamismo econômico regional, que também carecem de oxigenação diretiva, porque igualmente envelhecidos, acomodados e individualistas. Recentes pesquisas com o Conselho Editorial desta publicação registraram o grau de desencanto de formadores de opinião com as lideranças sociais, empresariais, políticas e culturais da região. O caso de Milton Bigucci, goste ele ou não, recorra ele ao Judiciário para tentar punir este jornalista pela prática de independência informativa, é particularmente muito mais grave. O setor imobiliário está umbilicalmente relacionado ao grau de qualidade de vida da sociedade. Por isso não pode manipular informações, quando não mentir descaradamente. Um exemplo cristalino: o comportamento econômico do mercado imobiliário. Uma das tarefas dos possíveis novos dirigentes do Clube dos Construtores e Incorporadores é dotar a entidade de sistema de investigação da realidade de macronúmeros do mercado imobiliário da região a salvo de interesses corporativos e classistas. Milton Bigucci deixará de legado uma solução fácil para a questão: bastará que os sucessores façam exatamente o contrário e retirem os números fantasmagóricos que maneja de vez em quando na pauta de encontros com a Imprensa. Que se instale a seriedade informativa, assim como total transparência. Também se espera que o relacionamento do Clube dos Construtores e dos Incorporadores com as instâncias públicas, notadamente as prefeituras, ganhe características de independência, responsabilidade coletiva e confrontos críticos que favoreçam ao conjunto da comunidade. Não é nada extraordinário organizar-se uma agenda específica para dar transparência ao uso e à ocupação do solo regional, tendo a entidade como condutora de um processo que envolveria outras instâncias. Um exemplo emblemático que caracterizaria novos tempos? Que tal requerer das administrações públicas uma lista completa de áreas do patrimônio municipal que estariam suscetíveis a leilões? O atendimento permitiria ao Clube dos Construtores e Incorporadores socializar a divulgação dos certames e, com isso, permitir maior competitividade nas arrematações. Tudo muito diferente do silêncio que caracterizou o leilão do terreno que a MBigucci venceu em conluio com outras duas organizações do setor. A moralidade entre a representação do setor imobiliário e as instâncias públicas deve ser um dos pontos de honra dos esperados novos dirigentes da entidade de classe transformada em reduto particular por Milton Bigucci. O mercado imobiliário da Província do Grande ABC é muito mais importante do que Milton Bigucci ou qualquer outro empreendedor do setor. O fato de constar direta ou indiretamente de 158 matérias do acervo desta revista digital não faz de Milton Bigucci individualidade do setor mais importante que qualquer outra. Ele só ocupa tanto espaço porque dirige uma entidade de classe importantíssima, embora inútil se o medidor apropriado for comprometimento isonômico com a classe e também o empenho em defesa dos interesses da sociedade. Quando estiver limitado às funções corporativas na MBigucci, certamente Milton Bigucci terá a assiduidade comprometida nestas páginas. Provavelmente nem voltará a ser objeto de informações. Desde que, é claro, não patrocine novos percalços legais, como no caso do Marco Zero, um escândalo que o Ministério Público ainda não apurou devidamente. Talvez o sumiço de Milton Bigucci como presidente do Clube dos Construtores e Incorporadores do noticiário da Imprensa seja o bem maior que a categoria e a sociedade receberão de presente a partir do final deste ano. Finalmente será possível contar com novos referenciais de gestão de entidade privada de interesse social. O foguetório da passagem de ano será particularmente especial para todos que imaginam uma Província do Grande ABC menos efusiva e mais inclusiva em âmbito institucional. Mas estaria longe de ser suficiente. Há outras pedras no caminho de quem sonha com uma região moderna nas relações sociais, entendendo relações sociais como o imbricamento entre Sociedade, Mercado e Poder Público. Um tripé comprometidíssimo há muito tempo, porque o Poder Público é avassalador na cooptação de agentes sociais, o Mercado vive estágio de salve-se-quem-puder e a Sociedade assiste a tudo praticamente congelada. Embora mantenha-se distante da Imprensa quando se trata de analisar o desempenho de Milton Bigucci no Clube dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC, o empresário Armando Luporini assumiu posição de frente na entidade, durante ausência do titular. O jornal Repórter Diário publicou em 25 de março último, sob o título “Governo Marinho está nos expulsando da cidade, dizem construtores”, uma reportagem que mostra postura surpreendente em relação à atuação subserviente de Milton Bigucci. Armando Luporini, vice-presidente do Clube dos Construtores e Incorporadores que se mantinha afastado havia muito tempo, promoveu um encontro entre pequenos e médios empresários. A missão é articular alterações no Código de Obras de São Bernardo, temática já abordada nesta revista digital, ano passado. Participaram, segundo o jornal, cerca de 20 profissionais da área de construção civil. O objetivo da iniciativa é alterar o artigo que estabelece coeficiente básico para construção de área útil de até 2,5 vezes o tamanho do terreno. Para Luporini e os demais pequenos empresários, o patamar mínimo deve ser de 3,5 vezes. A proposta continua a ser lapidada e deverá contar, finalmente, com atendimento da Prefeitura de São Bernardo. Luporini explicou ao Repórter Diário que uma mudança na lei aprovada em 2011 obriga o empresariado do setor a adotar como coeficiente básico a construção de até 1,5 vez o tamanho da área útil do terreno. Com pagamento de outorga onerosa ao Município, o empresário pode chegar a 2,5 vezes.  “O nosso pleito é que a gente possa, em terrenos de até dois mil metros quadrados, pelo menos 3,5 vezes. Sem isso, inviabiliza-se a atividade do pequeno e médio construtor em São Bernardo. Vamos ter de procurar outra cidade para trabalhar, porque a Prefeitura não nos está dando condições” – disse Luporini ao Repórter Diário. De qualquer forma, o resultado final, significará perdas para os construtores, já que até a alteração da lei permitia-se a construção até quatro vezes em relação ao tamanho da área útil de uma edificação. “Nenhum imóvel deixou de ser construído por conta dessa mudança, mas a maior queda que houve foi no estoque. Estamos trabalhando com uma reserva que tem para ser construída, mas não estamos fazendo reposição. Não adianta eu comprar um terreno aqui, hoje, porque é inviável construir na cidade” – disse. Diferentemente de Milton Bigucci, que esconde todas as mazelas do mercado imobiliário, numa operação de face dupla porque no outra ponta lubrifica uma engrenagem que anaboliza resultados negativos, tornando-os positivos, Armando Luporini foi enfático na matéria publicada no Repórter Diário, referindo-se a um empreendimento sobre o qual CapitalSocial já produziu vários textos de alerta sobre o excesso de ofertas de imóveis na região. Eis o que ele disse na reportagem do Repórter Diário de 25 de março:  O empresário ainda criticou a construção “desenfreada” de apartamentos de alto padrão. “Há casos de empreendimentos que estão encalhados. Quem conhece o mercado aqui não entrou na onda. Esses grandes empreendimentos, acima de 100 metros quadrados de área útil, como o Domo (Business, no Centro) está inviabilizado. Nunca houve demanda em São Bernardo para a quantidade de empreendimentos desse tipo que se construiu”, comentou. Como se observa, mesmo sem se apresentarem oficialmente como candidato à sucessão de Milton Bigucci, é provável que os possíveis novos participantes ativos do Clube dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC têm pelo menos um referencial de ética e responsabilidade informativa a copiar. Por isso não há excesso de esperança de que pelo menos no mercado imobiliário a Província do Grande ABC poderá dar uma guinada no lugar-comum de comportamento das entidades de classe do País. Todas semelhantemente do escopo conceitual de Milton Bigucci, que despreza contraditórios, contrapontos e independência de interlocutores. O esporte preferido é o beija-mão. 

 Mais trechos finais do artigo de Guilherme Fiuza -- O caixa da revolução está cheio. O lanche é mortadela por razão de estilo, mas poderia ser caviar. O papa Francisco e sua falsa tristeza apoiam essa depredação teatral – que tem consequências reais e sujas de sangue. O religioso bonzinho, com seu gesto grave – vamos repetir: grave – de desistir da visita ao Brasil por causa do impeachment, jogou uma tocha nessa gasolina. Não adianta fugir dessa responsabilidade. Não adianta rebolar na retórica. Não adianta fazer cara de piedade. O papa abriu mão da missão de paz do estadista para entrar num jogo partidário. Se meteu num conflito político nacional para exacerbá-lo – para dar sua contribuição incendiária. A política existe para organizar a vida das sociedades. Só isso, mais nada. Não é um campeonato de siglas, cores e credos, nem um palco para apoteoses românticas. No caso do Brasil, o governo canastrão do PT incensou todos esses símbolos emocionais e fulminou a organização social e institucional. Isso não é política, é contrabando. O governo Temer assumiu no cenário de terra arrasada e está repetindo o governo Itamar (por questão de sobrevivência): dando espaço a quem entende de administração pública, substituindo militância partidária com o dinheiro dos outros por trabalho. É o PMDB, há os caciques velhos, há a podridão – mas os principais cargos de comando foram entregues aos bons. Assim como fez Itamar, no mesmo PMDB. Há 23 anos isso deu no Plano Real – o momento mais significativo da história recente em que a política serviu para organizar a sociedade. Os veículos da mudança foram o PMDB e o PSDB, mas a virtude não estava neles. Estava nos homens. Sempre está. Repetindo a ruína do pós-Collor, a ruína do pós-PT abriu uma janela de oportunidade para quem quer usar o poder para organizar, e não para surfar. Os surfistas estão naturalmente desesperados, porque num país organizado as ondas de malandragem somem da política – ou ao menos ficam pequenininhas, sem força para impulsionar os proselitismos coitados e os heroísmos de aluguel. É preciso, portanto, bagunçar. É claro que alguém que sai de casa para forjar um tumulto e posar de perseguido pela polícia não vale a mortadela que come. Mas o interessante é imaginar o que essa criatura pensa a sós com seu travesseiro. Se o país tivesse de repente um surto de dignidade, a fila do confessionário chegaria a Roma. Puxada pelo papa. 

 Trechos finais do artigo de Celso de Rocha Barros -- Os petistas jogaram o jogo enquanto o jogo dava um salto de qualidade e se tornava mais transparente. Eventualmente, foram pegos. Seus adversários só começaram a governar sob as novas regras, sob a luz mais forte, recentemente. Estão brilhando? Vender essa história de melhoria sistêmica como uma história de degradação petista é, do ponto de vista da Procuradoria, chutar contra o próprio gol. Se as denúncias sumirem após a queda do PT, os novos governantes poderão dizer que isso é normal, pois a "grande organização criminosa" já terá sido derrotada.

A Lava Jato é um esboço de um Brasil novo. O tipo de conversa que ouvimos na última quarta-feira pode torná-la só um instrumento na disputa política do Brasil antigo. Seria uma pena. Esse é o pior momento possível para a esquerda e a Lava Jato brigarem. Quando a direita tentar matar a operação, ainda vai poder embrulhar o pacote como bipartidário, mesmo que, como é provável, só um dos lados consiga salvar seus mandatos.

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