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O que dirigente do Ciesp/Fiesp
diz sobre emprego com Dilma?

  DANIEL LIMA - 18/11/2015

Na edição desta segunda-feira (seria nesta sexta-feira, mas o feriado atrapalhou) vamos revelar a resposta do empresário Fausto Cestari, dirigente do conglomerado Ciesp/Fiesp, a uma pergunta que lançamos há pouco tempo: o governo de Dilma Rousseff vai zerar o estoque de pouco mais de 60 mil empregos industriais com carteira assinada no Grande ABC, herdado do governo consumista de Lula da Silva? Fausto Cestari respondeu de pronto.  Ele foi enfático. Fez cálculos. Mas o melhor mesmo é esperar até segunda-feira.

 

A Entrevista Especial que fizemos com o dirigente da região que há mais tempo atua na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo reúne muitas outras questões. Mas não se pode negar que é muito preocupante a situação do emprego industrial na região. Tanto que acabou de sair do forno o balanço de outubro preparado pelo conglomerado de representação empresarial com sede na Avenida Paulista. A Província do Grande ABC perdeu no mês passado 4.800 vagas no setor industrial, de um total de 20,5 mil no Estado de São Paulo. A proporção de desfalques na região está muito acima do razoável. Praticamente um quarto de demissões paulistas está além do razoável para quem participa com menos de 10% do estoque de emprego do setor no Estado.

 

Os números que estamos contabilizando sobre o desempenho do emprego industrial da região no governo de Dilma Rousseff estão relacionados aos dados do Ministério do Trabalho, não ao conglomerado Fiesp/Ciesp. Entretanto, como tenho notado que há corrida de resultados semelhantes entre os dois indicadores, tudo indica que a toada orquestrada pelo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) do Ministério do Trabalho vai aumentar a temperatura de desconforto regional. O estoque deixado por Lula da Silva vai para o brejo. Será que Fausto Cestari  também tem essa leitura?

 

Quer conhecer o conjunto de perguntas que enviamos e, antes mesmo do prazo de duas semanas, Fausto Cestari respondeu com fundamentação intelectual de quem vive a prática de desequilíbrios econômicos nos quais a região está mergulhada? Então, veja o que se segue: 

 

CapitalSocial – O senhor participou ativamente do processo de criação, de desenvolvimento e também pode verificar a fragilização do Fórum da Cidadania em meados dos anos 1990. O que, duas décadas depois, mudou em termos de ambiente institucional regional?

 

CapitalSocial – O senhor passou pela Agência de Desenvolvimento Econômico como titular do cargo. Por que a organização não decola?

 

CapitalSocial – O Clube dos Prefeitos segue a mesma trilha da Agência, ou seja, não dá respostas na velocidade e com a objetividade que a economia regional exige. O modelo está fora de lugar e do tempo? O Clube dos Prefeitos, como a Agência, ou mais que a Agência, é excessivamente estatal?

 

CapitalSocial – O senhor acredita que a participação ativa de agentes da sociedade numa espécie de Conselho Consultivo daria nova configuração prática tanto à Agência quanto ao Clube dos Prefeitos ou o modelo que está aí, centralizado pelos prefeitos, aperfeiçoa as improdutividades?

 

CapitalSocial – Estaria faltando à região algo como uma entidade das entidades econômicas, espécie de fórum que tivesse como agenda prioritária buscar caminhos para o dinamismo econômico? Faltaria um contraponto econômico que sensibilizasse as autoridades públicas? Não seria uma ótima ideia implantar uma Entidade das Entidades para equacionar e atacar as medidas mais prementes?

 

CapitalSocial – É possível construir uma Província do Grande ABC diferente da que temos sem contar com os sindicatos de trabalhadores como aliados?

 

CapitalSocial – A última tentativa institucional de juntar empresários e sindicatos numa ação conjunta para debater o chamado Custo ABC se deu ainda durante a Administração do Maurício Soares, em São Bernardo, antes da virada do século, e não resistiu àquela reunião porque principalmente os representantes sindicais descartaram qualquer possibilidade de reduzir a carga das chamadas conquistas trabalhistas. Quando conseguiremos colocar capital e trabalho nos trilhos do entendimento? Teremos de chegar ao fundo do poço?

 

CapitalSocial – Entendemos que o PPE (Programa de Proteção ao Emprego) é instrumento intervencionista estatal que distorce as relações comerciais entre as empresas envolvidas nos negócios. Estamos enganados quando afirmarmos que, na medida em que praticamente somente as grandes empresas, e mesmo assim poucas, como as montadoras de veículos, obtêm vantagens com a iniciativa, mais se manifestam distorções nas relações econômicas entre os agentes empresariais? Traduzindo: uma pequena ou média indústria não fica mais vulneral à medida que em períodos de crise, como agora, se fragilizam ainda mais nas relações comerciais com as grandes, protegidas pelo Estado num quesito tão valioso como a fluidez de custos com a mão de obra? A inacessibilidade do PPE às pequenas e médias indústrias não é um fosso a impedir o dinamismo das relações entre as empresas?

 

CapitalSocial -- O senhor foi uma das lideranças do Reage ABC, que chamamos de Movimento dos 300, de pequenos empresários que, em ação inédita, foram às ruas de Santo André para protestar contra o que está aí. Qual é o balanço que faz do movimento? Teria valido a pena? A situação econômica do País e da região não piorou após aquela manifestação a ponto de justificar uma repetição ainda mais barulhenta?

 

CapitalSocial -- O senhor exerce função importante no conglomerado Fiesp/Ciesp, a qual o coloca em contato permanente com industriais de todo o Estado. A Província do Grande ABC das estatísticas e na realidade prática, de pleno processo de empobrecimento, é diferente do que o senhor vê no Interior? A crise é generalizada no Estado, ou quase generalizada, mas há diferença em relação à região, porque na maioria dos casos é apenas conjuntural, enquanto nosso quadro é estrutural?

 

CapitalSocial – O consultor Cláudio Rubens Pereira, uma das lideranças mais expressivas da história da região, e que não está mais entre nós, fundador e dirigente de uma entidade ligada aos pequenos negócios industriais, alertou no começo dos anos 1990, num artigo escrito para a revista LivreMercado, que a região corria sérios riscos com a chegada do trecho sul do Rodoanel. Compramos aquela advertência e a transformamos num dos pontos sagrados editoriais. Mais de duas décadas depois está comprovado com dados estatísticos que o Rodoanel mais atrapalhou do que ajudou o desenvolvimento econômico da região. Como o senhor analisa essa obra vista por muita gente como a salvação da lavoura da região? O fato de não termos planejado o que fazer com o Rodoanel está na raiz desse problema?  

 

Capitalsocial -- Por que o Ciesp da região não se concentra em apenas uma unidade, de cunho regional, adaptando as diferenças de vetores econômicos a diretorias específicas de forma a uniformizar as ações econômicas, ganhando-se em escala e em racionalidade? Não lhe parece desperdício de tempo e de talentos o distanciamento entre as quatro unidades locais? A costura institucional seria improvável? As peculiaridades geográficas da região, megacidade dividida em sete partes, não incentivaria a medida? A proposta de uma Entidade das Entidades poderia corrigir esse divisionismo territorial, unindo todas as diretorias nesse fórum, independentemente de se manterem unidades autônomas?

 

CapitalSocial -- Estamos promovendo o que chamamos de contagem regressiva do estoque de empregos com carteira assinada no setor industrial da região, colocando-o em xeque diante da possibilidade de, nos mandatos da presidente Dilma Rousseff, zerarmos os pouco mais de 60 mil postos de trabalho gerados nos dois mandados do presidente Lula da Silva. Faltam pouco menos de 30 mil empregos deixados por Lula e ainda temos mais de dois anos de Dilma Rousseff. O ritmo de demissões aumentou consideravelmente nos últimos meses. Vamos rebaixar o estoque ao nível deixado por Fernando Henrique Cardoso em janeiro de 2003?

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