Imprensa

Um desafio para Luiz Marinho e
Bigucci: usem direito de resposta

  DANIEL LIMA - 17/11/2015

Depois de seis tentativas inúteis durante os últimos cinco anos para obter respostas improváveis do mercador imobiliário Milton Bigucci e após apenas uma tentativa com o prefeito Luiz Marinho, eis que o que era uma obrigação jornalística da qual jamais abro mão agora se tornou imperativo, por força de legislação que faço questão de cumprir: quero que os dois fujões tomem a iniciativa de usufruir o direito de resposta sacramentado pela presidente Dilma Rousseff -- a bordo de barbeiragens mais que manjadas de políticos que pretendem calar a mídia independente.

 

Luiz Marinho e Milton Bigucci têm a oportunidade de sair da toca da opacidade pública em que se meteram. Eles querem trevas informativas. Queremos fachos de luzes permanentes. Luminosidade suficiente para que a sociedade consumidora de informações estabeleça juízo de valor sobre a conduta de Bigucci à frente do Clube dos Especuladores Imobiliários e Luiz Marinho do alto do comando do Executivo de São Bernardo, eleito que foi em outubro de 2009. Escolho os dois para esse desafio, o desafio de utilizarem o direito de resposta, porque eles preferiram a loteria do Judiciário a encarar este jornalista.

 

Bendito criminoso

 

O leitor não se equivocou ao entender que foram seis tentativas de respostas do mercador imobiliário Milton Bigucci durante os últimos cinco anos. Em vez de responder ele que é milionário -- e eu que sou apenas um jornalista sem a proteção de uma grande corporação -- foi ao Judiciário com seu exército de advogados. Por isso e por outras razões que a própria razão desconhece ele conseguiu com o uso permanente de subjetividades sórdidas, mentirosas, me transformar em criminoso.

 

Criminoso na versão dele, porque um dia a sociedade ainda haverá de reconhecer – ou reconhecerá de forma pública, porque hoje se manifesta nos bastidores – em favor do único profissional de imprensa da região com ousadia de mostrar quem de fato é aquele que se autobajula como benfeitor de criancinhas, entre outros atributos que chocariam Narciso.

 

O histórico de beligerância entre este jornalista e o chefe do Clube dos Especuladores Imobiliários e também comandante do conglomerado MBigucci decorre de lógica simples: estou cumprindo o papel constitucional de informar o distinto público, enquanto Milton Bigucci é especialista em tergiversar e, em represália, tentar intimidar.

 

Começo em 2010

 

Pois agora, se eventualmente antes entendeu diferente, Milton Bigucci conta com dispositivos legais para transformar o direito de resposta em algo útil à sociedade. Ou vai aproveitar o mecanismo aprovado pela presidente da República para fugir do que interessa? Se o fizer, nada nos impediria de utilizar o direito de responder ao direito de resposta. Liberdade de expressão é isso, se não sabem.

 

A primeira bateria de questionamentos enviada a Milton Bigucci em forma de Entrevista Indesejada desta revista digital (“Entrevista Indesejada” é uma inovação no jornalismo brasileiro, porque não deixa a menor dúvida sobre o que se pretende) foi formulada em 13 de setembro de 2010. Pouco tempo depois iniciaram-se as investidas de Milton Bigucci no Judiciário para amedrontar este jornalista.

 

Para os leitores terem uma ideia do tom daquele trabalho, reproduzo o primeiro questionamento:

 

 Quais são as razões que justificam o fato e o senhor comandar a Acigabc há duas décadas? Falta representatividade no setor que favoreça a rotatividade diretiva? O senhor se sente confortável em manifestar-se sobre a longevidade do regime militar? O senhor tem algum pacto com o presidente da Associação Comercial e Industrial de São Bernardo, Valter Moura, também há duas décadas à frente daquela entidade?

 

Querem mais uma pergunta daquela Entrevista Indesejada de 2010?

 

 Por que a entidade que dirige há tanto tempo não faz qualquer ação institucional de responsabilidade empresarial ligada às áreas contaminadas? A Acigabc jamais se manifestou criticamente sobre irregularidades apontadas no Residencial Barão de Mauá e, igualmente, jamais fez qualquer movimento no sentido de contribuir na apuração das denúncias de anormalidade de lançamento, venda e ocupação do Residencial Ventura, em Santo André? O corporativismo da entidade fala mais alto que a responsabilidade social?

 

Mais perguntas em 2011

 

A segunda bateria de perguntas de Entrevista Indesejada foi enviada a Milton Bigucci em agosto de 2011. Selecionei uma das muitas questões para que os leitores avaliem o estrago:

 

 A empresa MBigucci, da qual o senhor é acionista principal, ganhou uma licitação realizada na Administração de William Dib. A área pública vai-se transformar em condomínio residencial e comercial, segundo informações. Está localizada na esquina da Avenida Vergueiro com Avenida Kennedy, em São Bernardo. Não lhe parece que por conta da atuação institucional à frente da Acigabc, a transparência e a publicidade daquela licitação deveriam ter sido enfatizadas? Mais que isso: a retirada de dezenas de árvores, ainda recentemente, para a construção do empreendimento, também não deveria ter tido uma preocupação maior com a divulgação de contrapartidas?

 

Novas tentativas

 

Nova tentativa de Entrevista Indesejada com Milton Bigucci se deu em setembro de 2012, ou seja, um ano depois. Eis uma das perguntas que ele não respondeu até agora:

 

 O simulacro do leilão protagonizado pela empresa a qual o senhor representou naquele encontro realizado em maio de 2008 contou, segundo informações, provas e testemunhas, com o suporte efetivo de dois dos outros seis supostos concorrentes, a Braido Incorporadora e a Even Incorporadora. O senhor nega que tenha havido essa parceria informal?

 

Seguindo a cronologia de Entrevista Indesejada jamais respondida por Milton Bigucci, nova tentativa em setembro de 2013. Veja uma das perguntas:

 

 Não seria uma boa ideia, inserida no padrão de responsabilidade ambiental que a Acigabc poderia assumir, colocar no site da entidade todos os endereços dos terrenos contaminados que constam do banco de dados da Cetesb? Mais que isso: por que a entidade que dirige não dá o devido destaque a cuidados que os interessados em adquirir imóveis deveriam proceder para não serem novas vítimas de empreendimentos inescrupulosos?

 

A quinta tentativa de transformar Entrevista Indesejada em insumos de interesse público ainda maior, com respostas efetivas, foi frustrada. A bateria de perguntas foi formulada em novembro do ano passado. Veja uma das muitas perguntas endereçadas ao chefe do Clube dos Especuladores Imobiliários, oficialmente Acigabc:

 

Por que o senhor, embora tenha sido insistentemente solicitado, jamais abriu as planilhas e a metodologia, e muito menos apresentou supostos técnicos responsáveis pela produção de estatísticas sobre o movimento do mercado imobiliário na Província do Grande ABC? As informações são claras e objetivas sobre isso: ao longo dos anos sua entidade fez dessas pesquisas a principal ponta de lança para aquecer as turbinas especulativas sobre o preço do metro quadrado construído na região. O senhor entende que essa é uma fórmula aceitável de relacionamento com o público consumidor de informações?

 

Mais recente é de agosto

 

A mais recente Entrevista Indesejada enviada ao presidente do Clube dos Especuladores Imobiliários é de agosto deste ano. Talvez seja a última de uma safra de desencanto. Milton Bigucci está sendo generosamente convidado a deixar a entidade, embora a transição deva ganhar roupagem diferente, de renovação consensual para que uma organização mequetrefe não seja mais desmoralizada ainda. Veja uma das questões que enviei e cuja resposta, como praticamente uma centena nos últimos cinco anos, ainda não chegou.

 

 Como o senhor justifica o fato, divulgado recentemente pelo Diário do Grande ABC, de ter pressionado vereadores de Bernardo para impedir a apuração do caso do escândalo do terreno onde constrói o empreendimento Marco Zero, de propriedade da MBigucci? É eticamente razoável tomar essa iniciativa? Não seria esse procedimento evidência clara de que o senhor teme o aprofundamento de investigação muito mal executada pela 12ª Promotoria do Ministério Público de São Bernardo?

 

Marinho silencioso

 

Quanto à Entrevista Indesejada enviada no final do ano passado ao prefeito Luiz Marinho, também desprezada porque incômoda, reproduzo apenas uma das quase duas dezenas de indagações:

 

 Por que o senhor não abre sua Administração a um grupo de especialistas da sociedade de São Bernardo para atuar como espécie de comitês de fábricas no acompanhamento das políticas públicas, com amplo direito a questionamento e propostas? Por que não faz o mesmo em relação ao Clube dos Prefeitos, do qual é presidente, chamando gente independente para ter voz nas reuniões? Será que o critério de participação só é válido nas relações trabalhistas? Relações entre o Poder Público e a Sociedade não mereceriam inovações que possibilitassem série de garantias de que os recursos públicos em forma de impostos estão sendo devidamente bem administrados?

 

Os leitores curiosíssimos em conhecer todas as perguntas que fiz em seis tentativas de Entrevista Indesejada com Milton Bigucci e na única tentativa com o prefeito Luiz Marinho podem clicar os links que seguem abaixo. É uma ótima oportunidade para constatar as razões que os levam a tentar no Judiciário nem sempre atento às nuances regionais o que jamais conseguirão no campo jornalístico: transformar-me em capacho de suas mediocridades.

 

Leiam, portanto:

 

As perguntas enviadas a Milton Bigucci

 

Veja nova bateria de questões para Milton Bigucci responder

 

Veja as novas perguntas para Milton Bigucci

 

Pesquisas manipuladas estão entre perguntas dirigidas a Milton Bigucci

 

Bigucci vai fugir pela sexta vez de CapitalSocial? É o mais provável

 

Pressão sobre Legislativo é uma das perguntas para Bigucci responder

 

Ação de Luiz Fernando está entre perguntas ao prefeito Luiz Marinho

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