Imprensa

Monotrilho é um gol de placa;
mercado imobiliário é furada

  DANIEL LIMA - 06/11/2015

Promessa feita, promessa cumprida: vou explicar como ombudsman não autorizado por que o Diário do Grande ABC marcou um gol de placa na edição de ontem e por que na mesma edição proporcionou uma furada e tanto. O destaque positivo foi a manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) do monotrilho que vai passar na região. O destaque negativo é do mercado imobiliário.

 

A edição médico-monstro de ontem ganhou desdobramento hoje. E nesse ponto o Diário do Grande ABC perdeu ótima oportunidade de dar nova manchetíssima do monotrilho. Nem manchete de página interna produziu. Um elefante passou entre as pernas dos editores. Faz parte do jogo.

 

Primeiro vamos abordar as virtudes evidentes da reportagem de ontem sobre o monotrilho, chamado incorretamente de metrô, exercício que favorece mercadores imobiliários. A diferença entre metrô (que não teremos) e monotrilho (que teremos) é a mesma que anunciar um show com Roberto Carlos e aparecer Tiririca.

 

A cobertura da audiência pública da Comissão de Desenvolvimento Urbano da Câmara Federal foi a pedra de toque do Diário do Grande ABC de ontem para levantar um ponto até então obscuro da extensão do monotrilho na região. O secretário nacional de Transportes e de Mobilidade Urbana, Dario Rais Lopes, revelou que as razões do atraso da chamada Linha 18 Bronze não estão apenas relacionadas aos recursos financeiros. Disse o executivo público que há entraves técnicos.

 

Resumidamente, o trecho do monotrilho que supostamente atenderia aos interesses desta Província depende da operacionalidade de dois ramais paulistanos mais adiantados no cronograma de intervenções práticas, as quais apresentam complicações. Isso significa que teremos de esperar mais tempo pelo monotrilho regional. Ou seja: por enquanto, a Linha a18 não ofereceria a garantia de que não é um trambolho a ameaçar os usuários.

 

Morando arrasador

 

A reportagem foi muito bem produzida. Não deixou buracos. Contextualizou informações relevantes. Mereceu nota 10. Mass a edição de hoje é uma ducha fria. Se a manchetíssima de ontem foi “Impasse técnico emperra o início de obra do Metrô no Grande ABC”, o assunto teria de ser mantido no topo da primeira página de hoje. Mais ou menos nestes termos: “Deputado denuncia que governo federal cria dificuldade ao monotrilho porque faltam recursos financeiros”.

 

Lamentavelmente a edição de hoje deixou de dar destaque a essa obviedade. A manchete de página interna (“Monotrilho será vistoriado para Linha 18-Bronze avançar” foi superestimada). Quem pagou o pato foi o próprio jornal. Um apêndice de submanchete sobre o assunto dá vez a uma intervenção peremptória do deputado estadual Orlando Morando, presidente da Comissão de Transportes da Assembleia Legislativa. Ele é a origem da manchetíssima sugerida por mim. Vejam o que disse o deputado:

 

 Para o deputado estadual Orlando Morando (PSDB), a declaração de Dario Rais Lopes, de que problemas técnicos atrasam o início da Linha 18, é “cortina de fumaça para esconder a crise financeira pela qual passa o governo federal”, que, consequentemente, não teria condições de arcar com repasses à intervenção. “Não há justificativa técnica. É uma profunda mentira. Contesto veementemente o secretário nacional de Transportes. Vamos exigir transparência na condução desse impasse”, observou o tucano – escreveu o Diário do Grande ABC de hoje.

 

Confusão imobiliária

 

Sobre o tiro nágua da edição de ontem do Diário do Grande ABC, estampado na manchete de página interna (“Preços dos imóveis mostram estabilidade”), a reportagem é dramaticamente lamentável. O título não combina com o texto e o texto é muito generoso quando confrontado com a realidade do setor. Apenas a destacar positivamente as declarações de um empresário de corretagem de imóveis, Miguel Guta Colicchio. Aliás, não é a primeira vez que Guta coloca o dedo na ferida. Leiam o que disse aos leitores do Diário:

 

 (...) Ele cita que apartamento na Vila Assunção de 140 metros quadrados de área útil, com duas vagas de garagem, está saindo por R$ 600 mil, ou seja, R$ 4.286 o metro quadrado. Está abaixo da média do valor do metro quadrado em Santo André (R$ 5.062) apontado na pesquisa da Fipezap. “Esse é só um exemplo”, disse ele ao Diário.

 

Ora bola: com essa informação e tantas outras disponíveis no mercado imobiliário, em situação de congelamento de negócios e de fritura de preços, o Diário do Grande ABC não pode cometer tamanha barbeiragem no alto de uma página de economia. O erro jornalístico é duplo. Primeiro porque o título não tem sustentação na realidade destes dias e, segundo, porque é desmentido pela própria matéria.

Leia mais matérias desta seção: