Imprensa

Decidi virar ombudsman dos
dois jornais diários da Província

  DANIEL LIMA - 03/06/2014

Quando a Copa do Mundo terminar vou atuar como ombudsman de manchetíssima de primeira página dos dois únicos jornais diários da Província do Grande ABC – o Diário do Grande ABC e o Diário Regional. Manchetíssima é um neologismo que criei para definir a manchete principal de cada jornal. Fui contratado aleatoriamente pela demanda geral dos leitores dos dois veículos de comunicação. Sou um ombudsman não autorizado, por assim dizer. 

 

Decidi investir-me no cargo no começo da tarde de sábado no meu escritório domiciliar. Acabara de almoçar, metera-me computador adentro para dar uma zapeada nos sites quando tive essa ideia para melhorar a qualidade das manchetíssimas e quem sabe dos próprios jornais que consumo diariamente.

 

Ao dedilhar este texto não tenho ainda o que chamaria de projeto completo de ombudsman não autorizado, mas a experiência me garante alguns pontos que sustentam praticamente a torre que vou erigir. Por ser ação voluntária, sem remuneração (fossem os dois jornais solidários com um jornalista independente o melhor que fariam era mesmo me contratar com amplos poderes críticos que exercerei), tenho que me ater apenas a observar e analisar as manchetíssimas de primeira página.

 

Certo mesmo é que vou estabelecer um confronto temporalmente errático entre os dois jornais. Não preciso dizer ou vale a pena dizer que as notas começam com zero e terminam com 10? Sim, começam com zero porque vou pegar o touro de cada manchetíssima a unha a partir de certa porção de azedume, indispensável à melhoria contínua do jornalismo. Quero ser surpreendido pelos dois jornais, daí a perspectiva de que poderei elevar a nota a cada avaliação.

 

Não me perguntem por quanto tempo me dedicarei a essa tarefa. Tudo vai depender das respostas efetivas. Se sentir que estou malhando em ferro frio, não perderei meu tempo. Sempre digo que nos meus tempos de editor costumava cobrar muito mais de quem tinha talento. Os pernas de pau não me tiravam o bom humor. Não esperava mesmo quase nada deles. 

 

Estresse natural

 

Duvideodó, conhecendo o rebanho jornalístico como conheço, que essa medição não vá provocar ruídos e barulhos no mercado editorial da Província. E o objetivo é esse mesmo. Entendo que os leitores têm todo o direito, mesmo que sem autorização tácita, preto no branco, de contar com um profissional experiente para orientá-los sobre a qualidade do produto que andam consumindo.

 

Está certo que a melhoria das manchetíssimas, que virá, com certeza, não autoriza ninguém a afirmar que os dois jornais, como um todo, também melhoraram. Entretanto, com base no dia a dia do jornalismo diário, experiência desgastante, quando não desumana, asseguro que os reflexos de melhor tratamento editorial se espalhará pelas demais editoriais de cada publicação. Assim como os cuidados com um material tão nobre que é colocado diariamente como peça principal da vitrine de informações, matérias periféricas acabarão por ganhar melhor acabamento.

 

Isso é tão provável quanto uma dona de casa exemplar que, ao distribuir os alimentos na geladeira, prioriza todos os compartimentos em arrumação. O tratamento de manchetíssima não pode ser análogo a um quarto de solteiro. Há de inspirar as demais áreas de redação.

 

Juro por todos os juros que ficarei muito feliz se a nota média de cada análise for uma nota média mais que satisfatória, porque teria mais prazer de dizer que os dois veículos de comunicação estão na rota da qualidade.

 

Prometo aos leitores que nos próximos dias voltarei ao assunto, quando pretendo desenhar critérios que nortearão o trabalho de ombudsman abelhudo. Só não posso atender a qualquer pedido que resvale na possibilidade de atuar na avaliação da manchetíssima de primeira página de cada dia porque o ritmo de trabalho seria incompatível com a disponibilidade de tempo. Daí a decisão de me dedicar a essa missão nos dias em que estiver menos sobrecarregado.

 

Fosse diretor dos dois jornais corria para propor esse trabalho de forma autorizada, mas duvido que isso aconteça. É muito pouco provável que empresário pague a alguém para criticar o próprio produto. A Folha de S. Paulo é uma exceção ou uma das poucas exceções que confirma a regra.

 

Inovação no mercado

 

No passado, pouco antes de assumir a direção editorial do Diário do Grande ABC, em julho de 2004, atuei naquele veículo como ombudsman durante 30 dias. O período que antecedeu minha posse como diretor de Redação foi uma alternativa encontrada para driblar os então dirigentes da Redação do Diário, Fausto Polesi à frente, que impediram temporariamente a consumação de mudança de poder naquela publicação, por questões que fugiam à minha alçada jornalística. Eram embates entre acionistas oficiais e oficiosos.

 

Paguei um pato indevidamente, mas aquele curto período foi ótimo porque esquentou os motores de retorno ao jornalismo diário, eu que estava havia década e meia à frente de uma revista mensal de ritmo intensamente diário, mas sem o ônus de fechamento editorial massacrante que impede o adicionar de inteligência no produto final.

 

Não sei se existe algo parecido no mundo com o que acabo de me conceder, ou seja, alguém autorizado ou não autorizado a atuar como ombudsman de jornais de terceiros, mas estou autonomeado e acabou. Os leitores dos dois jornais deverão se manifestar diretamente a mim, se assim acharem conveniente, mas tendo o limite do espaço editorial a que me impus: nada que ultrapasse a manchetíssima será atendido porque superaria os limites a que me impus.

 

A propósito do verbete “manchetíssima”, o utilizei pela primeira vez em 20 de agosto do ano passado. Tomei gosto. Constato que não existe em dicionário algum. Uma falha imperdoável que poderá ser corrigida. Nossa armadilhesca língua é rica em flexibilizar conceitos. “Manchetíssima” é a manchete das manchetes de primeira página.

 

Seria pleonasmo utilizar “manchetíssima de primeira página”, mas enquanto houver resistência ou ignorância dos filólogos e assemelhados, seguirei em frente. Um dia eles vão ceder à inovação. Há coisas muito piores sacramentadas. 

Leia mais matérias desta seção: