Economia

Pequenos perdem feio

  DANIEL LIMA - 05/05/1998

Dezenove anos depois de criada para enfrentar o Novo Sindicalismo que surgira 12 meses antes no Grande ABC, a Anapemei (Associação Nacional de Pequenas e Médias Empresas Industriais) é retrato da categoria de empreendedores que representa: vive o que o presidente licenciado, o engenheiro Cláudio Rubens Pereira, chama de banho-maria. Os efeitos do sindicalismo bravio, entre outros fatores domésticos e nacionais que atingiram em cheio os pequenos negócios industriais na região, resultaram no desaparecimento de grande parte das unidades, quando não na evasão para outras localidades do Estado e do País. Das 32 empresas fundadoras da Anapemei, Cláudio Rubens afirma que não mais que meia dúzia mantêm as portas abertas na região. 

 

Nem mesmo o fato de ser executivo público de uma Prefeitura comandada pelo Partido dos Trabalhadores  -- é diretor da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Emprego de Santo André -- inibe-o de incursionar por avaliação histórica dos resultados de 20 anos do chamado Novo Sindicalismo. Ele faz questão de dizer que não atribui a Lula e seus seguidores todas as mazelas experimentadas pelos pequenos empreendedores industriais ao longo das duas últimas décadas, mas também não deriva para o comodismo hipócrita de isentar os sindicalistas de responsabilidades pela realidade de extrema dificuldade do segmento na região.

 

Uma realidade que pode ser definida não só pela fragilidade estrutural de boa parte das empresas que continuam na região, mas também pela forte dieta de recursos financeiros a que são submetidas, tornando-as presas fáceis da abertura econômica. As empresas que compõem o quadro associativo da Anapemei -- pouco mais de 200 pequenos negócios -- apresentam média de 32 funcionários, contra o pico de 72 dos bons tempos. O corte de mais de 50% da mão-de-obra dá bem a dimensão do desemprego de origem industrial no Grande ABC.

 

A Anapemei, com sede em Santo André, nunca foi tão pouco frequentada como nos últimos tempos. A desmobilização dos pequenos industriais é justificada por Cláudio Rubens: "Todos estão correndo atrás dos prejuízos das mudanças macroeconômicas, não dá tempo para pensar o coletivo" -- ressalta. Dificuldades financeiras também  sempre foram a marca da entidade que, por não pertencer ao espectro classista herdado do Estado Novo de Getúlio Vargas, jamais contou  com a arrecadação de recursos financeiros compulsórios. "E nunca nos preocupamos com isso, porque sempre zelamos por nossa independência" -- desabafa Cláudio Rubens.

 

Paradoxo político-econômico

 

O dirigente que mais tempo ocupou a presidência da Anapemei valoriza a importância política do movimento sindical comandado pelo então torneiro-mecânico Lula, que em muito contribuiu para derrubar a ditadura militar. Também ressalta as mudanças que o período de atritos entre capital e trabalho provocou. Mas aborda o que entende ser paradoxal: a democracia política só foi restaurada no País a partir das greves no Grande ABC porque prevalecia a ditadura econômica de um País fechado para o restante do mundo. Era a consagração do modelo autárquico de substituição de importações que só foi rompido a partir da eleição de Fernando Collor de Mello para a Presidência da República.

 

Cláudio Rubens diz que a abertura econômica e a estabilidade monetária destes anos 1990 colocaram ponto final na facilidade de incorporação das chamadas conquistas trabalhistas do sindicalismo do Grande ABC às estruturas de preços de produtos e serviços das empresas com sede na região. "Isso quer dizer que temos de trabalhar com a realidade do chamado Custo ABC, que se soma ao Custo Brasil, e que isso, num regime de competição aberta, interna e externamente, precisa de mudanças" -- afirma.

 

Exatamente por essas circunstâncias, que geram dificuldades de harmonizar interesses de empresas e empregadores, situação que mexe com toda uma cultura de propagandeados avanços trabalhistas, Cláudio Rubens considera que a região continuará a perder indústrias. "Estamos vivendo processo de transformações na região em que se insinua novo perfil econômico. Nesse novo desenho é claro que a indústria terá peso cada vez menor não só em decorrência do número decrescente de unidades, embora com tendência de agregar mais valor de produção, como também porque consolidaremos outras atividades de comércio, serviços e entretenimento" -- projeta.

 

Sem rodeios, Cláudio Rubens afirma que os pequenos industriais que restaram no Grande ABC não têm motivos para comemorações depois de 20 anos de Novo Sindicalismo. Além dos combates entre capital e trabalho que fizeram muitas baixas, pesam outras ponderáveis internas como a infra-estrutura saturada que rebaixa a qualidade de vida e agrava os custos de produção e distribuição. Isso sem falar das situações externas, como a falta de política industrial voltada para o segmento, a dificuldade de financiamentos a taxas suportáveis, o excesso de gastos governamentais cada vez mais financiados pelos contribuintes, a guerra fiscal lançada por vários Estados, sobretudo por Minas Gerais, que atingiu mais diretamente o Grande ABC, entre outros motivos.

 

Salsicha entre grandes

 

Questões internas não podem ser descartadas de qualquer avaliação histórica do movimento sindical no Grande ABC -- segundo Cláudio Rubens. "Os pequenos sempre foram espécie de salsicha nas negociações de preços com fornecedores de grande porte e clientes igualmente fortes. Além disso, acabavam colocados no mesmo prato de reivindicações sindicais, sem distinção alguma na maioria dos pontos discutidos pelas lideranças dos trabalhadores e representantes das grandes empresas, do Grupo 14 da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo)" -- comenta.

 

Essa situação de isonomia de tratamento para realidades diferentes gerou, segundo Cláudio Rubens, casos constrangedores. Lembra-se de uma complicada cláusula aprovada numa das mobilizações dos trabalhadores que exigia de empresas metalúrgicas, inclusive com até 10 funcionários, o plantão diário de uma ambulância com médico, enfermeiro e motorista. "Como a jornada regulamentar de médico é de  quatro horas, de enfermeiro de seis e de motorista de oito, enquanto as empresas funcionavam em média nove horas e seis minutos por dia, chegamos a uma situação surrealista em que precisaríamos de 2,4 médicos, 1,6 enfermeiro e 1,2 motorista para atender à proposta. Chegaríamos ao cúmulo de uma empresa com três funcionários, na época a Multimatic, ter mais funcionários médicos e paramédicos do que operacionais e administrativos. É claro que a reivindicação não foi aprovada" -- conta o dirigente da Anapemei.

 

Cláudio Rubens afirma que uma das lições deixadas pelo Novo Sindicalismo é o fim do paternalismo entre capital e trabalho. "Há 20 anos o pequeno empresário entendia que o funcionário era a extensão de seus dedos, que devia vestir a camisa acima de tudo, e com isso quebrou a cara. Hoje a realidade é outra. Trata-se de um profissional que pode deixar a empresa a qualquer momento. Também os sindicalistas mudaram, porque aqueles militantes de perfil incendiário já não têm mais vez quando se sabe que o capital nunca teve tantas facilidades para se deslocar" -- compara. 

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