Economia

Rodoanel Leste também não é a
salvação econômica da Província

  DANIEL LIMA - 14/02/2014

Devagar com o andor do trecho leste do Rodoanel que o santo da competitividade econômica é de barro. Como o fiz no passado, para furor dos triunfalistas, não tenho receio de repetir agora: o governador Geraldo Alckmin exagera sobre os efeitos do trecho leste do Rodoanel à economia da Província do Grande ABC. É natural que um governante valorize obra de tamanha dimensão, mas os efeitos do traçado leste em relação à potencialidade da região precisam ser relativizados. Corremos, como no passado de construção e operacionalidade do trecho sul, o risco de perder ainda mais tônus econômico, com nova leva de migrações industriais e de serviços de valor agregado.

 

O Diário do Grande ABC deu manchetíssima de primeira página sobre as obras do trecho leste do Rodoanel, que chegaram a 75% do projetado. Aparentemente é uma notícia positiva para a região. E é de fato -- desde que as expectativas não sejam exacerbadas. Para variar, o jornal não contextualiza o significado desse traçado de 44 quilômetros que integrará Mauá, Ribeirão Pires, Suzano, Poá, Itaquaquecetuba e Arujá. Integrará é força de expressão. O Rodoanel, exceto no trecho oeste, primeiro concluído e que tem Osasco como carro-chefe, passa apenas tangencialmente por esses territórios.

 

Vejam o que disse o governador do Estado ao Diário de hoje:

 

 Do ponto de vista de logística, é uma das obras mais importantes do País. E quando o Rodoanel estiver totalmente concluído (o trecho norte está em obras e deve ser entregue em dois anos), serão quase 180 quilômetros interligando o maior aeroporto do Brasil, que é Cumbica, com o maior porto da América Latina, de Santos. Com isso, o Grande ABC passa a ter um ganho enorme e certamente atrairá mais empresas”.

 

Aluno quase exemplar

 

Fosse personagem da Escolinha do Professor Raimundo, impagavelmente comandada por Chico Anísio, Geraldo Alckmin seria aquele aluno aparentemente exemplar que, em resposta ao questionamento desafiador do mestre, desfilava cultura extraordinária em sabedoria para, no último instante, escorregar na maionese da bisonhice. Prestes a receber nota 10, era reprovado com zero. O governador paulista tem toda razão quando coloca o Rodoanel no topo de investimentos públicos no País, pela importância da Região Metropolitana de São Paulo no contexto nacional, com quase 15% de participação no PIB (Produto Interno Bruto). Mas o mesmo governador, quando pinça a Província do Grande ABC para encher a bola local, cai novamente do cavalo da realidade.

 

Como o trecho sul, o trecho leste terá interação econômica rarefeita com a economia da Província. Se bobear, ocorrerá o que se deu no trecho sul: muitas empresas vão aproveitar que os caminhos estarão mais livres, abertos e competitivos em direção ao Porto de Santos e também a outras áreas da região metropolitana e diversos pontos do Estado, e se mandarão para as proximidades dos eixos direta ou indiretamente relacionados ao traçado do Rodoanel. Até porque não há subjetividade em logística quando se colocam todos os dados de uma planilha de custos à análise de especialistas. Estar na Província nem sempre é o caminho econômico mais aconselhável para chegar ao Porto de Santos ou ao Aeroporto de Cumbica. O coquetel de custos vai muito além do local-sede de um empreendimento. Ainda mais quando se trata da Província que, embora empobrecida, não perdeu a pose e mantém o que se convencionou chamar de Custo ABC vivíssimo.

 

Tudo isso e muito mais não são especulação. Cansei de produzir dados, cavoucando informações oficiais, para provar que o trecho sul do Rodoanel, que tangencia São Bernardo, Diadema, Santo André e Mauá, influenciou muito pouco o desenvolvimento econômico regional mais recente. Quando não, emperrou por conta das rotas escapatórias a quem estava sediado aqui. A lógica é simples: o trecho sul e agora o trecho leste são estradas de passagem com baixa penetrabilidade regional.  A logística interna da Província, ou seja, as ruas e avenidas que recebem grande carga de veículos, parou no tempo e no espaço, agravada pela especulação imobiliária perniciosa na ocupação desenfreada dos melhores endereços. O caos urbano só não é pior porque micos imobiliários espalham-se por todos os cantos.

 

Empate técnico

 

Para não dizerem que não consolido dados, apresento o resultado sintetizado de um dos estudos que já realizei: entre 1999 e 2010 o PIB da Região Oeste da Grande São Paulo, que abrange os municípios de Carapicuíba, Barueri, Cotia, Itapevi, Pirapora do Bom Jesus, Santana de Parnaíba, Vargem Grande Paulista e Osasco, cresceu nominalmente 296,20%, contra crescimento de 216,90% do PIB da Província do Grande ABC. Ou seja: a velocidade média de crescimento anual da Grande Osasco chegou a 2,69%, contra 1,97% da Província. Traduzindo: a velocidade média de avanço da Grande Osasco no período foi 34% superior à da Província.

 

Tem mais: se recorresse a um passado um pouco mais distante, a situação seria muito mais desfavorável à Província do Grande ABC. O PIB da Grande Osasco avança há pelo menos 20 anos de forma mais acelerada que o PIB da Província do Grande ABC. Tanto que, em 2010, últimos dados de que disponho, o jogo estava praticamente empatado: a Província contava com PIB de R$ 84.839 bilhões, ante R$ 83.748 bilhões da Grande Osasco. 

 

Tudo isso se deve ao deslocamento do eixo de desenvolvimento econômico interno da Região Metropolitana de São Paulo às demais regiões, com domínio da Grande Osasco, e perdas acumuladas da Província do Grande ABC. Os números só não se aprofundaram ainda mais desfavoravelmente à Província neste novo século por conta do extraordinário crescimento do setor automotivo, nosso carro-chefe industrial, econômico e social. 

 

Ora, se mesmo com o setor automobilístico bombando a Província não faz frente à Região Oeste da Grande São Paulo, o que esperar do futuro senão a ultrapassagem de Osasco e parceiros geográficos, todos beneficiados pelo traçado e pelas entranhas do trecho oeste do Rodoanel? São nada menos que 13 intersecções internas a estimular a economia e o desenvolvimento social, enquanto a Província conta com apenas três alças de acesso no trecho sul – e mesmo assim distante das áreas urbanas. 

 

Quando o traçado do Rodoanel se fechar a Leste e a Norte, provavelmente teremos um cinturão ainda mais ameaçador à Província do Grande ABC cercada de complicações e sem meios físicos a grandes expansões econômicas, principalmente porque limitada pelos mananciais ameaçados por gente que quer construir até aeroporto internacional em suas fronteiras.

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