Economia

Está faltando um rolezinho para
dar mais vida ao Golden Square

  DANIEL LIMA - 22/01/2014

Completam-se hoje três meses desde que a Avenida Kennedy, em São Bernardo, foi tomada por convidados que prestigiaram a inauguração do Golden Square Shopping. Provavelmente a maioria não retornou ao local entre outras razões porque é formada por arroz de festa. O empreendimento saudado pela mídia com o triunfalismo oportunista de sempre só faz água. Sugiro aos responsáveis pelo marketing que promovam um rolezinho do bem, aquela manifestação divertida de jovens que a repressão policial, o conservadorismo das lideranças dos centros de compras e uns estudiosos de araque pretendem catapultar às ruas de junho.

 

O Golden Square é um fracasso mais que anunciado. Vai de mal a pior. Além da baixa frequência, das 230 lojas prometidas não mais que 98 abriram as portas. E abriram as portas para um público resistente a frequentá-lo. A classe média-média e média-alta que os descuidados acreditam existir em abundância na região só faz parte de estudos caducos, antes do desastre dos anos 1990. Falta quantidade de bem-aventurados para sustentar um shopping cujo ticket médio está acima das possibilidades da maioria.

 

Fui pessoalmente pela segunda vez ao Golden Square para conferir o estado de saúde do negócio após 90 dias de atividades. A diferença que o separa do Atrium Shopping, inaugurado na mesma semana de outubro do ano passado em Santo André, é apenas geográfica. Talvez esteja um pouco menos anêmico. O Atrium é um convite à depressão.

 

O primeiro dos três pisos do Golden Square trás à lembrança uma expressão dura, contundente, mas que não pode ser escamoteada: é um fim de feira. Sobram espaços à espera de lojistas e consumidores. Os dois pisos complementares estão mais recheados, aumentam a taxa de ocupação, mas é muito pouco provável que, diante do que se observa à chegada, a impressão de fracasso seja substituída por algo menos cortante.

 

Bagunçada sala de visitas

 

Chegar a um shopping e dar de cara com muito mais tapumes do que lojas é algo como dar de cara com uma bagunça de quarto de solteiro em sala de visita de uma mansão. A projeção de que as demais dependências estão em pandarecos é compulsória. No caso do Golden Square, a expectativa não se confirma, mas compromete a imagem geral. Os pisos superiores são um convite ao consumo e às compras. Pena que faltou combinar com a freguesia.

 

Alguma ou muita ação de marketing os empreendedores do Golden Square vão precisar levar adiante. Podem até utilizar o argumento que empreendimentos do gênero têm um determinado período para se cristalizarem. É pura verdade, mas uma verdade relativa. Quanto mais tempo passa mais aumentam as possibilidades de fortalecimento de um shopping – desde que a base sobre a qual se estimulam novos saltos não esteja deteriorada, fragilizada, comprometida. Esse é o caso do Golden Square.

 

É claro que a mídia que saudou o Golden Square com uma calibragem informativa que se rivaliza com o entusiasmo popular de ver a Seleção Brasileira numa final de Copa do Mundo entrou em período de retração. O noticiário que saudou a chegada do empreendimento dava conta de que teríamos a sétima maravilha do mundo. Inaugurado em 22 de outubro do ano passado, o Golden Square foi um sucesso de público e bilheteria nas páginas virtuais e impressas muito antes de o prefeito Luiz Marinho engatar um discurso cor-de-rosa diante de convidados.

 

Em março, o jornal Diário Regional publicou que o Golden Square já contava com 80% da área de vendas ocupada. Seriam 230 lojas com 1,7 mil vagas de estacionamento. Naquela notícia, a previsão era de que o shopping seria inaugurado em 20 de agosto, aniversário de São Bernardo.  Até que outubro chegasse e contando anúncios anteriores, foram contabilizados cinco adiamentos.

 

A fonte de informações do jornal sobre as perspectivas de sucesso do Golden Square foi o gerente de marketing da Ancar Ivanhoe, administradora do empreendimento. Danilo Senturelle disse textualmente: “Nosso objetivo é entregar o shopping aos lojistas em junho, já que o prazo necessário para a montagem (dos estabelecimentos) é de 60 dias. Também estamos finalizando a colocação de vidros na fachada”.

 

O Diário Regional, sempre segundo o representante do marketing do Golden Square, informava naquele março do ano passado que faltavam apenas 20% de espaços a serem ocupados por lojistas. Como agora, em janeiro de 2014, mais da metade do shopping é tomada por tapumes convencionais ou por falsas vitrines, uma invenção de marketing para iludir mentes menos atentas, o que se pergunta é simples: qual é a penalidade legal a empreendedores que se utilizam de informações incorretas para atrair novos investidores? Se não houve informação delituosa, o que se tem como explicação seria a desistência em massa de empreendedores. Qualquer uma das alternativas é um chute nos fundilhos.

 

Rolezinho reverso

 

Por essas e outras um rolezinho reverso, programado e estimulado pelo departamento de marketing do Golden Square, é uma boa pedida. Aqueles corredores bem iluminados, amplos, arejados, precisam de gente, de alma, de emoção, de divertimento. Quem sabe também se transforme em aventura agradável explorar a logística estúpida do ziguezague exigido ao acesso ao estacionamento no último piso, tornando-o treinamento à direção defensiva?

 

Semana que vem volto ao Atrium Shopping, onde já estive e onde encontrei coisas piores. Também está em meu roteiro de rastreamento confiável o São Bernardo Plaza, no Bairro Ferrazópolis. Ao que parece, a situação por lá também não está nada boa. O empreendimento é estruturalmente perfeito quando se consideram aspectos físico-funcionais e arquitetônicos, mas foi plantado em geografia contrastante com o perfil econômico planejado.

 

Muitos investidores ainda não se deram conta de que a Província do Grande ABC anda mal das pernas principalmente desde que o governo Fernando Henrique Cardoso bombardeou nossa principal matriz de produção de riqueza – a indústria automotiva – após as doses cavalares de perdas e danos dos entreveros entre sindicalistas e empresários nos anos 1980.

 

Estamos perdendo todos os embates com concorrentes de outras geografias, mas ainda temos especialmente na mídia regional gente anestesiada, encabrestada, subjugada e insensível à realidade histórica dos fatos.

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