Economia

Marinho defende morte mitigada
da Kombi; sindicato quer longa vida

  DANIEL LIMA - 16/12/2013

O prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, ex-sindicalista, defende o desaparecimento mitigado da Kombi, com sentença de morte decretada para janeiro mas em vias de ser postergada. Já o secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, utiliza-se de argumentos que evitariam a eutanásia do veículo produzido há mais de meio século e, mais que isso, permitiriam possível longa vida, por mais que seja um trambolho no trânsito ao não atender às exigências tecnológicas. Na Europa, a Kombi foi substituída pela Transporter, um utilitário moderno, seguro e confortável. O Brasil é o único País onde a Kombi é fabricada, praticamente igual ao modelo que deixou de ser produzido na Alemanha em 1979 – portanto há mais de 30 anos.

 

Fio-me na reportagem de Fernando Valensoela, do Diário Regional, e também de outras fontes de informação para me posicionar outra vez sobre o fim da linha da Kombi. Diz o Diário Regional que o prefeito Luiz Marinho vê com bons olhos a possível decisão do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de adiar a entrada em vigor da medida que obriga a instalação de airbag e freios ABS (antitravamento) em todos os veículos novos a partir de janeiro que se aproxima.

 

O ministro do governo Dilma Rousseff disse que a exigência pode gerar aumento nos preços dos veículos de R$ 1 mil a R$ 1,5mil. Outro impacto, ainda segundo o noticiário, é que haveria acavalamento de acréscimo do preço dos veículos em geral por conta do IPI (Imposto Sobre Produtos Industrializados), também previsto para janeiro, depois de beneficiar o consumismo sobrerrodas.

 

O prefeito Luiz Marinho até que repassou ao Diário Regional uma ideia razoavelmente apetrechada. Ele defende que a obrigatoriedade deve ser colocada em prática gradualmente, porque minimizaria os impactos da demissão de prováveis seis mil trabalhadores na cadeia produtiva da Kombi, dois mil dos quais diretamente, na fábrica da Volkswagen do Brasil em São Bernardo. Não tivesse entrado em campo a resolução pró-modernização tecnológica da Kombi e de tantos outros veículos em 2009, e que já alcançou 60% da produção, Luiz Marinho estaria coberto de razão. Foi a falta de gradualismo do governo Fernando Henrique Cardoso, ante um sindicalismo regional mudo e inerte, que levou a Província ao estupro industrial dos anos 1990, quando se dizimou o parque de autopeças familiares.

 

Perdendo a corrida

 

O problema é que o prefeito de São Bernardo e as lideranças metalúrgicas da região, como um todo, não correram na mesma raia da resolução de investimentos e querem, e vão conseguir, mudar as regras do jogo. Marinho defende que agora em 2014 não mais que 70% da produção nacional de veículos inclua os equipamentos que faltam à Kombi mais que cinquentenária e que somente em 2016 a cota integral, os 100%, seja alcançada.

 

Como o prefeito de São Bernardo não dá um passo relativamente razoável seguido de outro correto, eis que no complemento das declarações ele disse o seguinte: “Fiz uma avaliação de todos os produtos similares e, por incrível que pareça, a Kombi tem menor índice de acidentes de trânsito do que os concorrentes. Afinal, o proprietário da Kombi é o motorista mais cauteloso e, na maioria das vezes, usa o veículo para transportar seus produtos e não passageiros. Vejo com bons olhos a sobrevida da Kombi dentro de um processo de dois anos”, afirmou.

 

Vejamos os pontos contestáveis à declaração de Luiz Marinho:

 

1. A estatística que diz ter feito ou avaliado não foi revelada em detalhes. Seria mesmo a Kombi o veículo mais seguro entre os similares? Para se chegar a essa conclusão seria indispensável uma planilha detalhadíssima do veículo e também dos concorrentes que levasse em conta a frota em circulação e quilômetros percorridos. Outros pontos até poderiam ser subestimados. Duvido que a fonte de Luiz Marinho apresente esses dados, porque são tecnicamente impossíveis. E por serem impossíveis não podem ser reduzidos à simplicidade do chutômetro. A levar a sério a conclusão do prefeito de São Bernardo, os problemas de segurança no trânsito são prioritariamente de cuidados dos motoristas e, portanto, o modelo da Kombi deveria ser copiado, num retrocesso industrial que causaria horror.

 

2. Dizer que a Kombi tem o menor índice de acidente, mesmo sem considerar os pontos que listei acima, também requer análise cuidadosa de engenharia comportamental. Pode-se argumentar que o baixíssimo grau de segurança do veículo leva os motoristas a tomarem cuidados extremados. Ao transportar predominantemente mais produtos do que passageiros em relação aos concorrentes, a Kombi pode sugerir uma aversão humana à segurança dos translados, porque a fama de “Jesus me Chama” criou estigma que a torna um veículo a ser evitado.

Kombi Longa Vida

 

Já o secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, que defende a Kombi longa vida, a mesma Kombi que de tão defasada não comporta nem freios ABS nem airbag, praticamente confessou publicamente que o veículo é um problemão para condutores e passageiros.  Ele disse que o fim da Kombi vai levar o consumidor a optar por usados, já que não há substituto na mesma faixa de preço. “A tendência, nesse caso, é aumentar a insegurança”.

 

As declarações do sindicalista remetem à suposição de que, enquanto faltar um substituto à altura financeira da Kombi, os brasileiros devem continuar a suportar os riscos comprovadamente potencializados pela ausência de dois equipamentos de segurança básicos – como se já não fossem evidentes o design e a estrutura aerodinâmica do veículo em conflito com os avanços da indústria automobilística.

 

O resumo da ópera é simples e igualmente serve para o prefeito Luiz Marinho e o secretário-geral do sindicato que o forjou às lides corporativas e públicas: o ambiente de humanização decorrente do uso de tecnologias intensamente testadas em laboratórios, nas ruas e estradas brasileiras pode ficar para depois desde que, por conta do descasamento entre resoluções imperativas em favor de segurança e despreparo à substituição de produtos, empregos e indicadores inflacionários estejam em risco em pleno ano eleitoral.

 

O prefeito de São Bernardo e o sindicalista só enxergam um pedaço minúsculo da equação, porque agem corporativamente em busca de suposto salvamento temporário de alguns milhares de empregos enquanto o trânsito que mata 47 mil pessoas por ano no País que se lixe. Dependesse dos dois, a Revolução Industrial que emergiu na Inglaterra possivelmente não teria ganhado impulso. Talvez a raiz de tudo seja o vício do período intervencionista de governos trapalhões que mantiveram nossa indústria automotiva a produzir carroças.

 

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