Economia

Bicho de sete cabeças é o maior
desafio econômico da Província

  DANIEL LIMA - 29/07/2013

O conjunto de sete municípios e de 2,7 milhões de habitantes que formam a Província do Grande ABC enfrenta um desafio em forma de bicho de sete cabeças na área econômica. Sem superá-los, e superá-los para valer não em manchetes de jornais e em declarações de gente interessadíssima em jogar a bomba para as próximas gerações, não há futuro que possa ser comemorado.

 

A ideia de compartimentar numa expressão popular sete dos grandes desafios está a reboque de outras expressões que já utilizei para me referir à região, como “Província” e também “Complexo de Gata Borralheira”, que virou livro. Nesse caso, no caso do bicho de sete cabeças, a questão não é sociológica, mas puramente econômica. Que, no fundo, tem muito a ver como sociologia. Se é que me entendem.

 

Quais são, afinal, as sete cabeças de obstáculos a superar? Vejam só:

 

a) Montadoras de veículos

b) Polo Petroquímico

c) Mananciais

d) Terciário avançado

e) Logística

f) Versatilidade industrial

g) Identidade regional

 

Pode parecer estranho que “Identidade regional” esteja numa relação econômica de contas a acertar da Província do Grande ABC, mas vou explicar no momento certo. Passemos a destrinchar, com brevidade, cada uma das sete cabeças de uma região que insiste em perder a corrida desenvolvimentista a ponto de ser superada inclusive pelas demais subáreas da Região Metropolitana de São Paulo, quanto mais da Grande Campinas, da Grande Sorocaba e da Grande São José dos Campos.  

 

Montadoras de veículos – A dependência exagerada desse setor que, cada vez mais confina fornecedores a competidores internacionais de médio e grande porte, é um tiro no pé que atinge a Província há pelo menos duas décadas, desde a chegada do Plano Real. Continuar mamando nas tetas das automotivas sem se dar conta de que haveria espaço a uma transformação gradual, atraindo-se muitas autopeças que se escafederam, é torcer para que o processo de desindustrialização se acentue. É uma pena que as instituições públicas da região – prefeituras, Agência de Desenvolvimento Econômico e Clube dos Prefeitos – não tenham dados cruzados que exponham as vísceras industriais da região de modo a favorecer medidas táticas e estratégicas. Sem essas informações detalhadas, algo como um checape a quem pretende preservar a vida o mais tempo possível, coloca qualquer planejamento econômico na lista de improbabilidades. Mas é certo que cada vez mais a cadeia automotiva na região é, portanto, menos densa e mais concentrada, a acentuar a deficiente ramificação interna. O excesso de supridores foi substituído pela escassez ditada por interesses internacionais das chamadas empresas de segunda geração, as sistemistas.

 

Polo Petroquímico – Segunda fonte de maior importância econômica na Província do Grande ABC, sobretudo para Mauá e Santo André, que dividem os bônus de arrecadações milionárias de impostos, o setor petroquímico jamais alcançou o entranhamento social e institucional de que tanto se precisa para internalizar insumos mais intensamente. Tentativas não faltaram no passado com representantes daquela área. Eles se engajaram em entidades supostamente estratégicas, como a Agência de Desenvolvimento Econômico e o Clube dos Prefeitos, mas o Poder Público municipal jamais teve sensibilidade para entender a importância do setor. Faltam dados estatísticos que demonstrem com clareza como os insumos petroquímicos da região interferem na produção de empresas locais. Sem esse plano de voo, qualquer tentativa de alcançar novos patamares não passará de loteria.

 

Mananciais – Mais da metade do território da Província do Grande ABC é tomada pelos mananciais. O que se apresenta como atravancamento ao vigor econômico poderia virar plataforma a novas matrizes de produção de riqueza. Há um muro a separar quem quer transformar os mananciais em porção santificada, a salvo de imprecações capitalistas, daqueles que miram aqueles espaços como excelente alternativa a investimentos sem qualquer correlação com a qualidade de vida. Enquanto os preservacionistas devaneiam e os oportunistas querem manchar ainda mais a ocupação de forma irregular, o caminho do meio, de compatibilização entre o ambiental e o econômico, é olimpicamente esquecido.

 

Terciário avançado – Os indicadores de empregos do setor de serviços na Província do Grande ABC são uma grande falácia de empregabilidade porque não se tem a mais ínfima garantia de que até que ponto há sustentabilidade próxima da cadeia industrial, mais fértil empregadora de mão de obra. O emprego do terciário da Província é abundante em números mas frágil em remuneração média, como já declarava Celso Daniel no final dos anos 1990, então na Prefeitura de Santo André. Emprego de serviços de baixo valor agregado é a rotina na região -- algo que pode ser detectado, embora sem detalhamentos, nos registros do Ministério do Trabalho. A média salarial quando confrontada com o setor industrial é bastante baixa. Nada que se rivalize com a vizinha Capital, que conta com especialidades pujantes na área, casos de hotelaria, gastronomia, advocacia, consultoria financeira, entretenimento, sistema financeiro, entre outros. Sem um terciário avançado, a recuperação de parte dos prejuízos com a desindustrialização jamais será registrada.

 

Logística – Cada vez mais a Província do Grande ABC está atravancada por uma logística interna como concorrente à da Capital – e sem contar com nenhuma vantagem econômica da Capital. A explosão de consumo de veículos nas metrópoles, a deficiente estrutura de transporte público e o regime de salve-se quem puder ditado pelo setor imobiliário, a infestar as principais vias como torres comerciais e residenciais que impactam em demasia a infraestrutura de transporte, não haverá meios de convencer eventuais investidores sobre as vantagens de ter a Província do Grande ABC como endereço de negócios. A Avenida dos Estados, a Via Anchieta e a Imigrantes, principais eixos viários da região, são um atentado à paciência e aos custos logísticos. A chegada do trecho sul do Rodoanel pouco auxiliou o ambiente interno da região. Trata-se de uma via com apenas três intersecções com a região e passa apenas tangencialmente por Diadema, São Bernardo, Mauá e Santo André. Acreditar que alguém que mora na área central ou mesmo na periferia de Santo André conta com benefícios do traçado do Rodoanel é sugerir que por ter jogado com Neymar o centroavante André, agora no Vasco, assimilou toda a genialidade do atacante agora no Barcelona. A ideia vale para praticamente todos os municípios da região. Exceto para quem rigorosamente é vizinho dos acessos do traçado. E mesmo assim com restrições, porque o traçado distancia-se do centro de negócios da Capital.

 

Versatilidade industrial – Buscar alternativas industriais que reduzam o peso relativo do setor automotivo em geração de empregos e do Polo Petroquímico em vantagens tributárias é um desafio e tanto para conter o bicho de sete cabeças que desafia a região. A viabilidade de qualquer proposta nesse sentido não pode ser resultado de aleatoriedades. É indispensável debruçar-se no conjunto de dados ainda insondáveis sobre raízes e ramificações do Valor Adicionado da Província em todas as vertentes da indústria de transformação para pinçar medidas que possam ser potencializadas. Foi por acaso que o então secretário de Desenvolvimento Econômico, Joel Fonseca, descobriu que Diadema contava com um até então insondável parque produtivo de cosméticos, cristalizado à parte de qualquer projeto público. Durante uma campanha eleitoral ele notou a incidência de empresas do setor e acabou por descobrir que Diadema tinha um filão a explorar.  Sabe-se também que, sem políticas sistemáticas de valorização da atividade, indústrias do setor acabaram por trocar de domicílio. Quem disser que não há saída para a Província além do parque automotivo e do Polo Petroquímico está tão certo quanto alguém que passa pela Marginal do Tietê e afirma que existem naquelas águas fétidas 300 jacarés esfomeados – chutometria pura.

 

Identidade regional – A reestruturação da economia da Província do Grande ABC com base na superação da dependência exagerada das automotivas e do Polo Petroquímico não pode desconsiderar ação coordenada mas não prevalecente que remeta a instrumentos de marketing. Sem que se crie uma identidade própria que não restrinja eventuais flexibilizações de implantação de atividades econômicas que se solidifiquem em determinado território municipal, tudo poderá ruir. Num mundo de negócios em que prevalecem ferramentas que constroem imagens de confiabilidade, iniciativas que visem adaptar o desenvolvimento a novos tempos econômicos devem contemplar também o marketing.

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