Sociedade

100% Vendido. Eis um golpe mais
que manjado no setor imobiliário

  DANIEL LIMA - 07/05/2013

Não acreditem nas mensagens em placas e em anúncios de jornais que festejam 100% de unidades vendidas de prédios de apartamentos ou de salas comerciais. Esse é um dos golpes mais antigos e igualmente mais impunes envolvendo mercadores imobiliários, sobretudo em período de vacas magras.

 

Na Província do Grande ABC não faltam operadores dessa dissimulação pervertida. Fiz um teste ontem para não ter nenhuma dúvida sobre o embuste do 100% Vendido. Sabia que não perderia a viagem. A imaginação dos corretores de imóveis e as ordens dos empreendedores convergem para um mesmo destino: aquecer artificialmente o mercado para tentar sustentar as margens de rentabilidade. Que se danem os compradores incautos ou gananciosos.

 

Que vantagem Maria leva ante a propagação de que todas as unidades estariam vendidas? Não estariam os mercadores imobiliários a dar um tiro no próprio pé, porque os anúncios fanfarrões afastariam eventuais interessados? A ponderação é plausível mas não está sincronizada com a essência do negócio. Uma rede de corretores atua em sentido diverso, de agir ativamente no oferecimento de supostas últimas oportunidades que teriam emergido de alguma dificuldade de compradores que não confirmaram a reserva. Coisas assim.

 

Sem contar que o fetiche de pretender sair-se vencedor numa empreitada que parecia perdida é sempre uma boa pedida. Adquirir um imóvel cuja compra já teria sido impossibilitada pela chegada de alguém mais rápido e decidido é uma oportunidade que não se perde quando perder significa sentir-se frustrado. Os vendedores de imóveis sabem lidar muito bem com a psicologia de reconquistar o que deixou de ser conquistado por um vacilo qualquer.

 

Ainda outro dia um amigo de condomínio empresarial relatou um desses telefonemas de um empreendimento badaladíssimo mas que deverá ser mais um furo nágua na Província do Grande ABC entre outros motivos porque está em local aparentemente inapropriado, fora do eixo logístico-econômico. O conto do 100% Vendido foi desmascarado de imediato, mas o corretor não se deu por vencido nem advertido: argumentou que uma sobra de oferta emergiu por conta de desistência de última hora. Tudo conforme o script mais que batido, como conto do Vigário que, ainda, faz vítima.

 

Jogral especulativo

 

Tenho me dedicado tanto ao mercado imobiliário (assim como a outras temáticas) que nada mais me surpreende. Tanto que ao telefonar ontem para várias incorporadoras apenas para um teste rápido sobre a fidelidade da informação de integralidade de vendas, não esperava mesmo outra resposta. Os corretores, mesmo que distantes entre si, respondem em uníssono com a mesma frase de sempre, como se participassem de um jogral afinadíssimo: “Temos as últimas unidades à venda”.

 

Esperar que as entidades do setor imobiliário moralizem o comportamento das empresas e dos corretores na comunicação com os potenciais consumidores é desprezar as raízes que instalam a atividade à margem de qualquer tipo de restrição ética.

 

Palavra de quem sempre se opôs a um mecanismo também muito usual e igualmente deletério no setor editorial no que diz respeito à tiragem física das publicações. Passei alguns vexames públicos e privados por conta dos tempos de LivreMercado.  À pregação de que um produto vale pela qualidade e influência acima de possível tiragem escandalosamente turbinada, sofri oposição interna. Até me pespegaram o rótulo de ingênuo, porque a prática é generalizada. Só sosseguei quando introduzi o selo de garantia de tiragem auditada para valer, com gente séria, não combinada. Controlar auditoria é uma inventiva de quem quer passar a ideia de que não brinca com os números, quando, nesse caso, brinca-se duas vezes.

 

Sei lá se quem nasceu primeiro foi o ovo do 100% Vendido do mercado imobiliário ou a galinha de tiragens turbinadas de revistas e jornais, mas a prática é igualmente perniciosa porque induz a avaliações e conclusões que não condizem com a realidade e com as expectativas geradas a partir de quantidade, não de qualidade.

 

Há espalhados pela geografia da Província do Grande ABC empreendimentos imobiliários festejados em páginas de jornais como sucessos de venda mas que não passam de micos de luzes apagadas em quase todos os pavimentos. São estoques enormes que vão demorar um bocado para desovar.

 

O processo será lento e gradual provavelmente em proporção muito maior em relação à expectativa gerada de novos negócios no entorno. O Shopping Metrópole, em São Bernardo, passou por reforma e ganhou novas lojas por acreditar que o Domo garantiria uma demanda adicional de milhares de potenciais consumidores. Praticamente às moscas, o Domo deixou um rastro de intranquilidade.

 

Quem tiver fôlego para resistir à quebra da projeção de faturamento poderá usufruir dos novos moradores e dos novos empreendedores. Serão pelo menos cinco anos, no mínimo, para o encaixe entre expectativa e consumação. O caos viário naquela área será intensificado porque os administradores públicos não enxergam nada além de contrapartidas muitas vezes desqualificadoras à verticalização insana.

 

Vendendo ilusões

 

Os primeiros meses subsequentes ao lançamento do Domo, em 2007, foram marcados por anúncios de sucesso absoluto de vendas das unidades. Parte, apenas parte, era verdade. Investidores caíram no conto de que o complexo de serviços, apartamentos e entretenimento teria o reforço de duas marcas famosíssimas, a Petrobrás e a Rede Globo. Propagou-se que a Vênus Platinada teria uma unidade de negócios numa das torres mais destacadas do empreendimento. E se rivalizaria com uma torre comercialmente gêmea, que reuniria gente da pesada da Petrobrás, por conta do Pré-Sal na Baixada Santista.

 

Os mercadores imobiliários são animais incontroláveis na ânsia de fazer dinheiro. Quem mais sofre com isso são os pequenos empresários do setor, massacrados pelos grandes bem aninhados nos escaninhos do Poder Público Municipal. Qualquer tentativa de estabelecer diálogo sério permeado por liberdade crítica é interpretada como ofensa.

 

Mesmo os mais chegados ao setor na região, como é o caso do Diário do Grande ABC, são eventualmente renegados quando despertam à produção de matérias que fujam à tradição adocicada. Tanto que na edição de ontem do jornal, em matéria de manchete principal de primeira página, publicou-se o crescimento de reclamação de compradores de imóveis tanto na planta quanto em construção. Nem o Clube dos Construtores do Grande ABC, presidido por Milton Bigucci, nem o Secovi, o Sindicato da Habitação, da Capital, atenderam àquela reportagem.

 

Conhecendo como conheço o modus operandi dos magnatas imobiliários, provavelmente o Diário do Grande ABC terá dificuldades para publicar novas pesquisas da Associação Nacional dos Mutuários (ANM).

 

A desigualdade de tratamento da mídia aos agentes imobiliários está expressa na ocupação de espaços midiáticos da ANM e do Secovi, por exemplo. Tanto que a primeira é praticamente anônima, e a segunda referencial obrigatório à repercussão de qualquer informação sobre o setor. São o primo pobre e o primo rico -- se querem entender melhor. Daí o 100% Vendido ter virado mantra pernicioso à sociedade, ludibriada pelos maus capitalistas.

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