Sociedade

Como seria bom se todo mortal
pudesse preparar o próprio epitáfio

  DANIEL LIMA - 23/04/2013

Acho que todo mortal deveria ter a opção celestial de ganhar tempo para preparar o próprio epitáfio. Deixar uma sentença da própria lavra no túmulo deveria ser mais que uma dádiva, deveria também ser uma obrigação dos mais próximos na preparação das exéquias.

 

O Poderoso poderia ter concedido sim essa graça a todos os mortais que desejassem deixar pelo menos uma frase breve antes de bater as botas e os saltos altos sem que houvesse o menor risco de antecipar o desfecho temporal da vida.

 

O Poderoso certamente se viraria, com todo o respeito, para mandar o recado aos mortais de que estaria chegando a hora de preparar a sentença que quisesse para expor curto e grosso o que achou da passagem pela Terra.

 

Vão achar que estou maluco, que isso não é coisa que se escreva porque é uma afronta ao Poderoso, mas não penso assim.

 

Já que liberdade de expressão é uma mentira que se conta exaustivamente, porque é o poder econômico que manda e desmanda, pelo menos haveria uma oportunidade na vida (ou seria na morte?) de cada um de nós a ser sagradamente respeitada.

 

Ninguém ousaria, nem mesmo os mais poderosos coronéis de províncias em que se divide o Brasil, impedir que um encadeamento de palavras saltasse do coração ou da razão para expor o que bem entendesse sobre o que se passou por aqui.

 

Sei que os leitores estão curiosos em saber qual seria o epitáfio que escolheria, justamente eu que tenho toda a liberdade de expressão do mundo para imprimir minhas digitais nesta revista digital.

 

Duvido que os leitores não tenham curiosidade de saber o que se passa em meu peito e em minha mente. Para quem escreve quase dois milhões de caracteres por ano há muitos anos, algo que equivale a cinco livros de 200 páginas cada um, uma frase curta é um desafio, mas se querem saber já a tenho em mente.

 

Tempo para reformular

 

Pode ser que mude de ideia um dia desses, mas como acredito que vá viver muito, pelo menos uns 94 anos, terei tempo de sobra a eventual reformulação. Duvido que o faça, porque estou cansado de guerra, mas quem sabe a idade mais provecta me lance a nuances imaginativas, emocionais, temperamentais e sensoriais a dar um cavalo de pau na síntese de minha vida e deixe para a posteridade um conjunto de palavras menos ácido?

 

Antes de revelar o que deixaria à posteridade dos mortais em meu túmulo, isso se algum parente resolver levar a sério essa sugestão que dá um drible da vaca no Poderoso porque dispensaria o aviso final de que o tempo se estaria esgotando, tenho outra proposta, à qual gostaria que os mortais também pudessem ter direito antes de bater com as 10.

 

Que tal se o Poderoso resolvesse mandar uma mensagem dizendo que todo mortal, além de contar com a opção de sentenciar a síntese da vida que andou usando na Terra, contasse também com a possibilidade de deixar uma lista de pessoas não gratas que seriam barradas do baile, ou melhor, do velório?

 

Vão dizer os leitores que isso é possível tanto quanto o epitáfio, bastando que se providenciem tanto uma quanto outra resolução ainda em vida, independentemente do aviso divino. É verdade, é verdade, mas a democratização dessas medidas só seria mesmo possível com o Poderoso como intermediário, porque não é todo mundo a reunir discernimento, tempo, coragem, determinação e seja lá o que for para tomar essas iniciativas.

 

Preparar o epitáfio e, antes disso, a lista de pessoas que seriam vetadas no velório, deveriam ser prerrogativas do Poderoso como incentivo a todos os mortais para que exercitassem o que chamaria de direitos inalienáveis, acima de qualquer Constituição, porque estariam anexados a todas as crenças, de evangélicos a católicos, de muçulmanos a budistas. O ecumenismo seria consagrador como prova de equidade e justiça.

 

O que faria o leitor?

 

Supondo-se como estou supondo que tanto o epitáfio como a lista negra de velórios já estivessem consumados como resoluções divinas para que pelo menos na hora da morte física todo mortal pudesse ter a oportunidade de tomar duas providências certamente redentoras, já imaginou o leitor o que faria tanto num caso como no outro?

 

Não me venha com papo furado de que somente com uma ordem suprema você seguiria essas duas determinações já que voluntariamente e portanto sem a intervenção do Poderoso, jamais tomaria qualquer uma das providências, por considerá-las exóticas ou rabugentas, quem sabe idiossincráticas ou vingativas, quando não unilaterais.

 

Sei lá se o leitor já imaginou alguma vez ter essas duas oportunidades especiais para deixar esta vida com quem sabe algum adicional de dignidade ou de represália, de coragem ou de covardia, de paixão ou de desprezo. Seriam provavelmente ambíguos e conflituosos os sentimentos exarados tanto na lista negra quanto na sentença final numa lápide sobre a última morada.

 

Se o leitor não pensou é bom pensar, porque não custaria nada dar uma reprogramada cognitiva e considerar a hipótese como algo estimulante no processo diário que muitas vezes, por falta de objetivos ou por excesso de competitividade, não nos damos conta de que a vida não é mole em nenhuma circunstância.

 

Ora, se a vida não é mole em nenhuma circunstância, seja qual for o ambiente social que respiramos, por que não ter como objetivo final, caso o Poderoso resolva intervir com as duas iniciativas, uma certa obsessão positiva para construir com dignidade maior os dois monumentos finais que demarcarão o último suspiro?

 

Sem terceirização

 

Esse negócio tradicional de terceiros prepararem o epitáfio de quem se foi, muitas vezes sem ter o menor conhecimento pessoal de quem se foi, como se quem se foi autorizasse aquelas palavras, esse negócio é uma arbitrariedade. Não tenho por costume frequentar cemitérios, fujo desses ambientes como fujo de delegacia de Polícia, de hospital, dessas coisas que só nos trazem dissabores, mas pelo que sei nas poucas vezes em que já me lancei a jornadas doloridas, poucos mortos contam com epitáfios. Prevalecem frias datas de nascimento e de morte.

 

Já imaginou o leitor como seria extraordinariamente pedagógico e ilustrativo se em cada túmulo existisse uma peça de bronze, de madeira, de cimento, seja lá o que for, com alguma inscrição produzida, antecipadamente é claro, pelo morto?

 

Quantas lições de vida não estariam ali condensadas a desafiar a criatividade dos mortos de amanhã que procurariam caprichar nos termos com os quais fechariam o ciclo de vida para que não parecessem cópias dos que partiram antes? Quem sabe nossa Educação tão parca ganharia um empurrão formidável para que deixasse a ladeira da indecência prática e se tornasse ponto de honra de todo mortal, para que não passasse pelo vexame na hora final por conta de uma gramática mal aplicada, já que a decisão do Poderoso incluiria a obrigatoriedade da sentença do próprio punho do morto, quando vivo, é claro?

 

Sei lá porque estou escrevendo estas linhas, mas como a questão do epitáfio pintou em minha cabeça já há algum tempo, depois, confesso, de imaginar a lista negra que prepararia para impedir que determinados mortais aparecessem em meu velório para vender mentiras a meus filhos e amigos, sabendo que sei que alguns deles são delinquentes patológicos, cá estou produzindo essas bobagens.

 

A lista negra que barraria determinados mortais a me verem no caixão fingindo sentimentos não começou a ser elaborada porque ainda tenho muito tempo de vida segundo me garantiu uma vidente. Agora, quanto ao epitáfio, até eventual substituição, preparem-se porque vou apresentá-lo sem o menor constrangimento, temor ou possibilidade de ser entendido como provocativo, já que não sou mesmo politicamente correto.

 

Quando morrer, sobre meu túmulo estará a seguinte frase, em letras materialmente simples e duradouras, dirigidas principalmente a quem dediquei décadas de jornalismo inquieto e combativo:

 

“CANSEI DE DAR PÉROLAS AOS PORCOS”.

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