Entrevista Indesejada

Entrevista Indesejada quer abrir
caixa-preta da Fundação do ABC

  DANIEL LIMA - 01/04/2013

O presidente da Fundação do ABC, Mauricio Xangola Mindrisz, é o próximo alvo de Entrevista Indesejada da revista digital CapitalSocial. Uma bateria de perguntas, abertas aos leitores, seguiu nesta segunda-feira aos e-mails do dirigente e também de seu assessor de imprensa, o jornalista Joaquim Alessi.

 

A decisão de colocar Xangola na lista de Entrevista Indesejada se prende a uma série de informações, dados, denúncias e esclarecimentos que CapitalSocial amealhou nos últimos dias por conta de uma nuvem nada passageira de insatisfação corporativa com a gestão do petista instalado no cargo pelo prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, com apoio da primeira dama e supersecretária, Nilza de Oliveira, e da ministra do Planejamento, Miriam Belchior.

 

A Fundação do ABC administra do alto de um orçamento superior a R$ 1,2 bilhão grande parte das unidades de saúde de Santo André, São Bernardo e São Caetano, além da Baixada Santista. É uma espécie de holding de terceirização da mão de obra e de serviços de saúde.

 

Possivelmente uma das questões mais abrasivas a que Maurício Xangola Mindrisz teria de responder refere-se a uma doação em forma de empréstimo ou algo assemelhado que a Fundação do ABC fez à Faculdade de Medicina do ABC, sua primogênita mantida – como se chamam os braços de negócios da FUABC. Foram R$ 20 milhões de repasse abastecido por instituição bancária. O empréstimo está sendo pago em prestações mensais que ultrapassam a R$ 200 mil.

 

Trata-se, segundo especialistas, da mais contundente e comprometedora irregularidade administrativa de Maurício Xangola Mindrisz. A Fundação do ABC é uma organização sem fins lucrativos, enquanto a Faculdade de Medicina do ABC é uma instituição de Ensino Superior que cobra mensalidades abaixo do valor de mercado de alunos de classe média alta no caso do curso de Medicina. A maioria deles não reside na Província do Grande ABC, portanto nem aqui prestarão serviços quando formados, subvertendo a missão para a qual a Fundação foi criada pelas três prefeituras do ABC. Qualquer imagem que se utilize à doação que tenha relação com redução de atendimento médico a classes sociais mais humildes para atender filhos de extratos do topo da pirâmide social não é espetacularizar a intervenção de Xangola.

 

Perguntas não faltam

 

Mas há muitas outras questões encaminhadas a Mauricio Xangola Mindrisz que provavelmente o incomodarão. Não está descartada a eventualidade de Xangola negar-se a responder. Não seria o primeiro a esquivar-se da iniciativa de CapitalSocial de bem informar a comunidade. Assim reagem todos os que se incomodam com a transparência desta publicação.

 

Este jornalista foi um dos escolhidos pelo Conselhão Editorial a responder questionamentos de Entrevista Indesejada, sobretudo relativos à negociação da revista LivreMercado, e encaminhou as respostas aos leitores antes do prazo previsto. O material consta dos nossos arquivos digitais.

 

O mais insistente opositor à transparência informativa explícita de Entrevista Indesejada é o presidente da Associação dos Construtores do Grande ABC. Milton Bigucci foi solicitado uma vez à Entrevista Indesejada e outras três vezes a entrevistas especiais. Manteve-se sempre em silêncio. O empresário arrematou de forma irregular uma área pública que foi a leilão em São Bernardo e dirige a Associação dos Construtores de forma ditatorial há duas décadas. Desde a queda do Muro de Berlim.

 

Teria Mauricio Xangola Mindrisz o mesmo viés de opacidade pública de Milton Bigucci, oferecendo-se a entrevistas apenas quando lhe convém? É muito provável que sim. O cargo de presidente da FUABC já começa a lhe pesar nos ombros. Há dissidências inclusive petistas à sua permanência ante a possibilidade de os estilhaços que já começaram a provocar cisões internas na entidade transformarem-se em tiroteio. Sabe-se que o prefeito Luiz Marinho e sua fiel escudeira, Nilza de Oliveira, estão se mobilizando para apagar o incêndio.

 

Teme-se que a caixa-preta da Fundação do ABC transforme-se em caixa de Pandora, a atingir diferentes cores partidárias. Afinal, como única instituição tendo a regionalidade como gênese, a FUABC está sob suspeição por série de motivos. A começar por cada prefeito instituidor conferir à Fundação o tratamento que lhe der na telha. Não há regras impostas nem obedecidas. Só o fato de o gerenciamento atual deslocar-se ao desfiladeiro da ineficiência, conforme números expressos no balanço de 2012 que revelam endividamento histórico de R$ 71,9 milhões, já provocam calafrios multipartidários.

 

Eventuais escândalos poderiam atingir indistintamente várias agremiações políticas não só por conta de lambanças da atual direção como também de um passado não muito distante. Haveria digitais a comprometer o prestígio de políticos graduados na Província do Grande ABC. Inclusive alguns que já foram apeados do poder.

 

Estrondo improvável

 

Uma fonte médica ouvida por CapitalSocial coloca em dúvida a possibilidade de um grande estrondo fazer emergir uma instituição diferente da dirigida por Mauricio Xangola Mindrisz. Tudo porque as forças políticas que digladiam nas urnas eleitorais da região são extremamente unidas quando se entrincheiram em defesa de privilégios na Fundação do ABC. Afinal, todos teriam a perder. Menos, evidentemente, a sociedade, que já perde com serviços de saúde abaixo da crítica.

 

CapitalSocial resolveu abrir aos leitores as perguntas encaminhadas nesta segunda-feira ao presidente da Fundação do ABC por entender que é a melhor maneira de oferecer transparência total à iniciativa. O dirigente terá até a próxima segunda-feira, dia 8 de abril, para encaminhar respostas. Com ou sem a participação de Maurício Xangola Mindrisz, CapitalSocial aprofundará informações e análises sobre aquela instituição.

 

Mesmo ao considerar a negativa de Xangola bastante factível, CapitalSocial decidiu embarcar no improvável terreno de respostas. O temor a Entrevista Indesejada é natural. Poucos dirigentes públicos e privados se sentem à vontade ante a possibilidade de prestar contas à sociedade.

 

Eis as questões enviadas ao presidente da FUABC:

 

CapitalSocial -- Como o senhor explica a doação considerada irregular de R$ 20 milhões da Fundação do ABC à Faculdade de Medicina do ABC, em 2011, para tapar o rombo de uma instituição de ensino utilizando linha de empréstimo destinada exclusivamente à saúde?

 

Mauricio Xangola Mindrisz –

 

CapitalSocial -- A aprovação dessa doação passou pelo Conselho Curador sem qualquer tipo de restrição ou houve votação mesmo que minoritária em contrário?

 

Mauricio Xangola Mindrisz –

 

CapitalSocial -- Como o senhor avalia a informação de conselheiros que o colocam como bastante vulnerável às pressões de dirigentes da Faculdade de Medicina? Eles afirmam que foi lhe imposta resistência ao comando da FUABC, a ponto de negociarem a doação daqueles recursos como uma maneira de contornar as adversidades.

 

Maurício Xangola Mindrisz --

 

CapitalSocial -- O senhor acredita que o formato do Conselho Curador assegura legitimidade de cidadania no controle da Fundação do ABC, tendo-se em vista que mesmo conselheiros efetivos afirmam que se trata de cartas marcadas, de um jogo de encenação apenas para homologar decisões já tomadas pela presidência – como por exemplo nomeações de superintendentes e criação de cargos?

 

Maurício Xangola Mindrisz –

 

CapitalSocial -- O senhor fez alguma tentativa para incorporar ao Conselho Curador novos representantes da sociedade menos suscetíveis ao jogo de interesses políticos, partidários e administrativos dos municípios diretamente envolvidos na Fundação do ABC e das chamadas entidades mantidas?

 

Maurício Xangola Mindrisz --

 

CapitalSocial -- O senhor acredita que com eventual participação de outros municípios onde a FUABC presta serviços, como se pretende, mudará alguma situação no figurino de representatividade e efetividade do Conselho?

 

Maurício Xangola Mindrisz –

 

CapitalSocial -- O plano de São Bernardo perpetuar-se no gerenciamento da Fundação do ABC, estando na presidência ou na vice-presidência, desconsiderando, portanto, a fórmula de rodízio que prevaleceu durante anos, é uma maneira de proteger os interesses do Município ou, como alegam os oposicionistas, não passa de ação deliberadamente voltada a dar continuidade ao controle dos cordéis políticos, partidários e financeiros da instituição? 

 

Maurício Xangola Mindrisz –

 

CapitalSocial -- Como o senhor analisa a avaliação de especialistas em FUABC de que o modelo tripartite de regionalidade administrativa só segue adiante há muito tempo porque há concessões mútuas que abrem as portas a irregularidades no gerenciamento de recursos financeiros, sem contar, entre outros pontos, os mananciais de empreguismo que não resistiriam a uma vistoria pelos nomes na folha salarial? E o que dizer do corporativismo médico, cada um criando seu próprio feudo e jogo de influências, além da despreocupação com custos de serviços e de produtos, a ponto de cada mantida pagar preços e se relacionar de forma totalmente diferente com um mesmo fornecedor?

 

Maurício Xangola Mindrisz --

 

CapitalSocial -- O senhor diria sem medo de errar que há controle efetivo sobre a atuação da Central de Convênios, por onde passa a maior parte dos recursos financeiros administrados pela Fundação do ABC?

 

Maurício Xangola Mindrisz –

 

CapitalSocial -- Como o senhor interpreta a avaliação de que a Central de Convênios é um reduto fortíssimo do ex-prefeito Maurício Soares, de São Bernardo, cujo apoio à candidatura de Luiz Marinho à Prefeitura em 2008 foi decisivo à vitória? A filha do ex-prefeito seria a ponta de lança de uma operação que tem por finalidade instrumentalizar série de contrapartidas àquele apoio?

 

Mauricio Xangola Mindrisz –

 

CapitalSocial -- Os números do balanço de 2012 aprovado na reunião do Conselho Curador em fevereiro último apontam que os níveis de eficiência da FUABC baixaram profundamente desde que o senhor assumiu a presidência. O senhor assumiu com um índice de liquidez de 1,23 obtido em 2008, número que baixou drasticamente para 0,74 em dezembro último, ou seja, a FUABC não tem caixa suficiente para honrar compromissos financeiros. Os resultados estão ligados diretamente à negligência ou afrouxamento no cumprimento de compromissos das organizações contratantes dos serviços prestados pela FUABC. O senhor tem conduzido a instituição segundo princípios político-partidários em vez de estritamente administrativos ou há alguma explicação para o fato de não ter firmeza para exigir pagamentos dos prefeitos contratantes dentro dos limites de responsabilidades mútuas?

 

Mauricio Xangola Mindrisz –

 

CapitalSocial -- O senhor acredita que a Fundação do ABC resistiria a uma blitze da Promotoria de Fundações, organismo do Ministério Público que fiscaliza as atividades de instituições do gênero? As fragilidades internas de fiscalização, explicitadas nas reverências de grande parte do Conselho Curador, não seria um convite a desvios?

 

Maurício Xangola Mindrisz –

 

CapitalSocial -- O senhor acha uma boa ideia solicitar ao Ministério da Saúde, do petista Alexandre Padilha, o envio de uma força-tarefa republicana, como a que decidiu vasculhar algumas especialidades atendidas pela previdência complementar, de planos de saúde, para passar a Fundação do ABC a limpo em todos os setores e atividades e, dessa forma, eliminar todos os focos que estariam comprometendo os indicadores de eficiência no atendimento social, que é a síntese de sua atuação?

 

Maurício Xangola Mindrisz –

 

CapitalSocial -- Há um movimento de representantes dos Legislativos da região que visa, entre outros pontos, tornar as obscuras entranhas da Fundação do ABC objeto de transparência pública. Como o senhor interpreta essa iniciativa?

 

Maurício Xangola Mindrisz --

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