Entrevista Especial

Não basta educar.
Tem que participar

  MALU MARCOCCIA - 05/07/1997

O Grande ABC não ganhou só mais uma universidade no mês passado. Mais do que uma referência em instituição de ensino que desde 1942 mantém campus em São Bernardo, a nova Universidade Metodista de São Paulo representa apara a região um fervilhante centro de idéias e de participação na vida da comunidade e das empresas. Se tudo correr como planeja o diretor-geral Jacob Daghlian, um grande incentivador da inserção social das escolas, essa veia de atividades será engrossada a partir da autotomia conquistada pela Umesp.

O título de Universidade pleiteado desde 1990 e oficializado em 26 de junho último permite-lhe criar cursos, mudar currículos e promover eventos diversos sem passar por autorização governamental. Sorte dos 7,5 mil alunos da Metodista, 6,2 mil dos quais integrantes da nova Umesp, e mais ainda da Grande ABC, que viu incontáveis vezes o ex-Instituto inserido em ações acadêmicas e políticas de expressão, como o debate entre candidatos a prefeitos em 95 e, anualmente, o seminário O Papel da Universidade do Grande ABC, que se estende até novembro.

Muito desse papel Daghlian já tem definido: o mundo acadêmico deve formar empreendedores, gente criativa e pró-ativa, e interagir com a sociedade, auxiliando-a em suas demandas. Dono de uma biblioteca particular com quatro mil títulos, ele lamenta a distância que a maioria mantém dos livros.

Para se habilitar ao status de Universidade, a Metodista precisou atender a exigências do Conselho Federal de Educação criando cursos básicos como Matemática, História, Geografia e Filosofia. Com as novas demandas do mercado de trabalho, de funções que requisitam não só múltiplos conhecimentos mas forte inserção nos avanços da tecnologia, o senhor vê espaço para as chamadas profissões clássicas? Não se corre o risco de colocar mais gente em mercados de trabalho que não mais existem ou são modestos em demanda?

Jacob Daghlian – As profissões clássicas não deixarão de existir, mas devem adaptar-se aos novos tempos para serem exercidas. As tecnologias estão chegando, há maior agilidade de trabalho e informações em função do computador, a competição está acirrada e se não prestarmos atenção a isso perderemos o bonde da história. A Matemática, por exemplo, é recurso para muitas utilizações, não só para lecionar. Dispõe de uma ferramenta, os modelos, que interage com outras disciplinas. Uma aplicação interessante de modelo matemático é o pedágio. Se for um modelo mal dimensionado, as filas da Anchieta em dia de grande movimento chegariam até a Capital.

O sistema de direção dos automóveis usa o princípio matemático interagindo com a mecânica. A conquista espacial é baseada na Matemática: o foguete de três estágios foi calculado como ideal para percorrer e chegar ao espaço previsto. O raio laser que perfura uma chapa de aço usa equações matemáticas.

O que precisa é estar sempre adaptando os cursos às exigências modernas. O de Matemática vamos derivar para ênfase na Computação. A Geografia não pode limitar-se a só formar professores, mas profissionais aptos a lidar com planejamento urbano, com as emergentes integrações regionais em blocos territoriais.

É bom lembrar, no entanto, que conhecimento só não basta. O Einstein já dizia que, mais importante do que conhecimento, é a imaginação. Clássica ou moderna, a profissão que não for aplicada de forma criativa, inovadora, diria até agressiva, não será desempenhada como deve.

Na nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, sancionada em dezembro último, abre-se a possibilidade de criação de universidades vocacionais. Estaria aí a grande oportunidade de trabalhadores multifuncionais e ao mesmo tempo com conhecimentos em áreas profissionais específicas?

Daghlian – No Brasil é experiência nova. Nos Estados Unidos, por exemplo, já existem as chamadas universidades tecnológicas. Acredito, porém, que, mesmo delimitando o campo de atuação, uma escola não deve jamais formar um especialista, proporcionar visão única de conhecimento, porque a luz no fim do túnel, para o especialista, é muito fraca. É preciso oferecer boa formação básica para que o indivíduo tenha adaptabilidade às mudanças do mercado.

Como princípio de raciocínio, a especialização funciona. Mas a maneira de usar esse conhecimento direcionado muda. Além disso, não se pode perder de vista a dimensão ética e humana do indivíduo, seja em escolas com amplo leque de opções de conhecimentos, seja a direcionada a segmentos. O homem foi feito para crescer, para se desenvolver e não se deve tirar o foco de sua natureza. As escolas não podem e não devem contribuir para que se torne simplesmente uma peça de engrenagem.

A modernidade trazida pela tecnologia coloca contra a parede o exército de jovens que todo ano sai das faculdades. Sabe-se que a tecnologia desemprega e que o emprego moderno está perdendo a formalidade do vínculo patrão-empregado. O que fazer? Educar para o trabalho, mas preparar o jovem para a falta de emprego convencional, a fim de que ele crie sua própria ocupação para sobreviver, dando-lhe, não formação específica, mas uma formação completa, que integre conhecimentos científicos, tecnológicos e social-humanísticos?

Daghlian – Na Metodista temos tido essa preocupação de não formar alguém que será simplesmente empregado dos outros. É preciso formar pessoas com espírito empreendedor. Se resolverem trabalhar para terceiros, é por opção, não por incapacidade para desenvolver algo de seu próprio interesse. É verdade que as relações do trabalho estão mudando e o emprego, da maneira como o conhecemos, está se alterando muito, porque acabou o conceito de mão-de-obra. O que se busca hoje é cabeça-de-obra.

O indivíduo precisa saber exatamente o que fazer com sua formação de Primeiro e Segundo Graus e com a graduação superior. É comum ouvir que fulano fez faculdade e não sabe o que fazer com isso. Se foi mal feita, não sabe mesmo. Gurus da qualidade costumam dizer: “Fazer o melhor que você pode não é a resposta. Você deve saber o que deve fazer”.

Não adianta hoje só ter diploma. O mundo está cada vez mais exigente e seletivo. Diploma não serve como desodorante debaixo do braço e está ultrapassado como moldura de parede. O que importa é o profissional atrás desse diploma, se está bem formado e também se tem vontade de crescer, de desenvolver a criatividade e dar sua contribuição ao mercado. A cultura do diploma acabou.

As escolas precisam deixar os futuros profissionais em condições de empregabilidade, aptos para múltiplos desafios. A empregabilidade, a meu ver, tem dois pilares: de amor do aluno para consigo mesmo com vistas a sua boa condição física, intelectual e moral, e a responsabilidade da instituição educacional, que deve oferecer condições para que o potencial daquele aluno se converta em aprendizado com prazer e alegria, sem medo de repreensões e julgamentos, onde o professor seja um facilitador, um companheiro de luta, um incentivador de carreiras. Acabou aquela história de só ensinar. Agora deve-se provocar o indivíduo, para que encare o desafio do novo, do criar, do agir.

Diante da velocidade de mudanças que vivemos, é impossível saber que profissões o futuro exigirá. Funções de cinco, 10 anos atrás foram simplesmente engolidas por máquinas e processos que passaram a realizar tarefas humanas. As escolas estão atentas a isso, a não formar profissionais desatualizados que, depois, exigem grandes desembolsos das empresas em programas de requalificação e treinamento?

Daghlian – Creio que sim. Quem não quiser perder o bonde da história, como disse, tem de se reciclar, enfrentar a nova realidade em condições de empregabilidade, que alie experiência profissional com sólida formação acadêmica, sob pena de exclusão. O princípio vale para as escolas. A Metodista, por exemplo, iniciou a temporada de 97 entregando o quarto laboratório de informática com 20 micros para atender aos diversos cursos, implantou a terceira clínica de Odontologia para oferecer mais recursos aos estudantes, a sala de redação da Comunicação Social foi informatizada, o laboratório de Biologia ampliado e o acervo da biblioteca atualizado, entre outras medidas. O curso de Veterinária, criado ano passado, já conta com laboratório com 40 microscópios. Quero dizer com tudo isso que as escolas precisam criar ambiente de trabalho e de estudos de acordo com avançadas práticas no mercado.

A última avaliação do governo do Estado de São Paulo na rede de Primeiro e Segundo Graus apresentou resultados alarmantes, com mais da metade dos alunos às vésperas de serem diplomados sem conhecer as quatro operações aritméticas básicas e incapazes de combinar sujeito com predicado. O que acontece com o ensino brasileiro? As escolas não conseguem ser interessantes, provocar as inteligências, fazer os alunos pensar? A sensação é de que se trata de um grande fast-food de informações superficiais, na contramão da economia global, que exige profissionais com grande cultura geral, criativos e pró-ativos.

Daghlian – O problema começa pelo desvinculo dos livros. O adolescente é estimulado a trabalhar com cópias, talvez devido ao alto preço dos livros para a maioria. Mas todos sabemos que uma cópia é limitada no conteúdo da informação, pinça-se o factual e simplesmente reproduz-se isso como idéia acabada. Fala-se também do aspecto desinteresse. Professores reclamam porque há muita conversa na sala e ambiente de dispersão. Isso, desde o Primeiro Grau.

Aí eu pergunto: cadê a disciplina? Onde está o canto orfeônico nas escolas? Não tem. Não se ensinava canto só para exercitar as cordas vocais, mas para estimular a autodisciplina, o aprender a se portar em qualquer contexto. O canto orfeônico significa produzir em equipe, obedecer regras do maestro e participar coletiva e individualmente. Pavarotti é um gigante solista, mas nada produz se não interagir com a orquestra.

Outra modalidade que ensina disciplina é a Educação Física. Cadê a Educação Física nas escolas? Está resumida a jogos, não há difusão ampla do esporte, que deve ser praticado com solidariedade e lealdade. Cadê a ginástica, as marchas de ordem unida, os exercícios onde se obedece a um comando para se desenvolver a autodisciplina, o domínio próprio, que você faz porque tem consciência do que está fazendo, não porque alguém te mandou? Isso o aluno, o futuro profissional, não vai aprender na Matemática ou no Português.

A escola não é local onde o indivíduo deve simplesmente receber informação, mas onde deve ser desafiado a entender o que é essa informação, o que está por trás dela de embasamento teórico e o que tem de aplicável ou não na vida.

Na Metodista, estamos tratando de transformar a escola num ambiente agradável, claro, iluminado, para que nosso aluno, que trabalhou o dia inteiro, não chegue a noite e encontre um espaço desmotivador, deprimente. As salas estão ganhando mais conforto, isolamento acústico, tetos rebaixados e mais iluminados com calhas refletoras. Alunos da manhã já vão para casa almoçar e voltam à tarde para fazer trabalhos na Metodista. Alunos da noite que queriam sair às 22h45 porque o ônibus passa às 23h, agora deixam a Faculdade às 23h30.

Uma interrogação que muitos se colocam é como construir uma nova qualidade de ensino — público ou privado — com quadros de professores à altura sabendo-se que esse corpo, na média, é tão despreparado quanto a estrutura da maioria das Faculdades brasileiras. É notória a dificuldade com professores habilitados, por exemplo, em Física. Uma saída seria contratar profissionais com formação superior, mas sem habilitação para o magistério?

Daghlian – A simples substituição não resolve o problema. Que é importante a formação do profissional não há dúvida. Da mesma forma, porém, que temos professores que vieram para o magistério desmotivados em suas carreiras, e aí compete à escola reciclá-los, há grandes profissionais que não são necessariamente grandes professores. Se temos professores com farto conteúdo teórico mas sem visão prática, por outro lado temos especialistas sem qualquer vocação educacional. É preciso estar atento a isso. O que se deve fazer é aproximar esses extremos. Reciclar e melhorar a capacitação do professor formado e, ao mesmo tempo, dar formação pedagógica a profissionais do mercado chamados à tarefa de ensinar, a lidar com alunos num ambiente de aprendizado.

A Metodista encontrou caminhos para isso nos seminários, workshops e palestras de especialistas que trazemos para as salas de aula. Na outra mão, levamos professores até empresas e outros ambientes da área de interesse de suas matérias. Uma experiência que temos nesse sentido é quando trazemos estudantes de outros países para visitar não só nossa vida acadêmica, mas empresas da região para troca de experiências e conhecimentos.

Os professores acompanham e participam dessa interação, vendo a prática do que ensinam em aula. Já que o professor não pode a toda hora estar fazendo cursos e visitando eventos que mostram o que há de mais moderno, vamos intensificar esse calendário de palestras e debates na Metodista. Com a informatização da escola, acesso a Internet e biblioteca etc, essa atualização será facilitada.

Um fato que acho relevante é a conscientização do educador sobre a importância do seu trabalho, não o encarando como bico. Educar as pessoas não é hobby; é ato de muita responsabilidade. Mesmo que trabalhe em duas, três escolas, é preciso ser competente e ter amor pelo que faz.

Um dos quesitos que levaram a Volkswagen, ano passado, a escolher São Carlos para instalar sua fábrica de motores no Brasil foi a excelência acadêmica da cidade, que abriga instituições particulares, estaduais e federais de altíssimo nível. Que retaguarda de centros de pesquisa e formação de cérebros, não só de braços, o Grande ABC oferece ao parque empresarial?

Daghlian – O Grande ABC tem recursos em quantidade e qualidade suficientes para dar suporte adequado ao parque empresarial e à formação dos moradores, tanto de maneira generalizada quanto as voltadas às especificidades. Temos uma FEI (Faculdade de Engenharia Industrial) estreitamente voltada ao motor da região, que é a indústria automobilística. Temos o Imes (Instituto Municipal de Ensino Superior de São Caetano) particularmente debruçado em produção de pesquisas sociais e econômicas. A Metodista acaba de lançar-se à parceria do Trade Point com a Associação Comercial e Industrial de São Bernardo, tornando-se agente facilitador de negócios da nossa comunidade com o exterior.

Concordo que essa dinâmica deveria ser mais vigorosa, mas isso só vai acontecer a partir do momento em que, desde a direção até a equipe de acompanhamento, não se olhar o mundo com o nariz encostado na cerca. Vai acontecer a partir do momento em que os titulados, os doutorados, não andarem de salto alto e perceberem que quanto maior sua formação, maior a responsabilidade de inserção social, de prestação de melhores serviços.

Não é possível ficar numa atitude contemplativa, pensando nos conceitos que se aprende ou se ensina. Particularmente, não admito a idéia de se acumular conhecimentos e guardar para si. Fiquei muito contente com uma referência do ministro Paulo Renato de Souza de que o Ministério da Educação pretende valorizar a experiência profissional do docente. Hoje a escola precisa ter x% de mestres, xy% de doutores, com ações presas a carreiras e titulações. Um professor com grandes conhecimentos acaba limitado se não tiver ação prática, inventar, sair do quadrado.

O Grande ABC tem grandes recursos humanos, boas instituições e, cada uma em sua área, pode oferecer serviços de qualidade às empresas e participar de suas demandas, sociais ou econômicas.

Por exemplo?

Daghlian – O Trade Point não é o primeiro exemplo de nosso relacionamento mais estreito com a comunidade empresarial. Temos convênios com empresas para alfabetização de trabalhadores, intercâmbio com toda América Latina – em agosto estaremos promovendo o Encontro Binacional Brasil-Argentina para aproximar e desenvolver as duas comunidades de negócios, já com cerca de 100 inscritos – e disponibilizamos estudantes para estágios. Temos convênio com cerca de 400 empresas e muitos de nossos alunos acabam se empregando.

Na área de Comunicação Social essa interação vai além, com avaliação de trabalhos acadêmicos feitos por profissionais de fora. Vários dos trabalhos de publicidade e os grupos que os criaram são contratados durante a própria apresentação, no palco. No nosso projeto experimental, desenvolvido no último ano, os alunos escolhem uma empresa e criam-lhe um programa de comunicação. Muitos desses programas são contratados e aproveitados comercialmente. Na área de jornalismo, temos o Rudge Ramos Jornal, um veículo para a comunidade, que está se modernizando, informatizando, crescendo.

Que lhe parece o Exame Nacional de Cursos, o Provão, que tanta resistência causa em reitores? Não é saudável uma avaliação externa não só para referência da sociedade, mas sobretudo às próprias instituições de ensino, para que se reposicionem diante das novas exigências do mercado?

Daghlian – Como princípio, o provão é elogiável. Não é a maneira como eu iniciaria a avaliação dos cursos superiores, mas já que se começou por aí, testando os alunos e não acompanhando o processo de aprendizagem, agora tem-se que aprimorá-lo. É preciso cercar os problemas durante o processo de ensino. Não adianta atacar efeitos, mas buscar soluções indo às causas. Já notamos que há preocupação do Ministério em rever a avaliação, que em si, repito, é extremamente importante.

O Ministério vai reduzir a participação do aluno a 20% da pontuação, distribuindo o restante entre titulação docente, infra-estrutura da escola e por aí adiante. É um avanço, porque do jeito que estava no início, parecia o estabelecimento de um ranking.

Pessoalmente, sou receptivo a avaliações e temos algo semelhante internamente, na Metodista, com vistas à evolução. Mas a avaliação não pode denegrir uma instituição, o profissional que nela atue ou o estudante nela formado. A avaliação tem de ser no sentido de enriquecimento, de qualidade, de melhoria de ambiente, de preocupação com o sucesso do aluno. A provocação é boa: acaba-se descobrindo indicadores de qualidade, de melhoramento contínuo.

E sobre o chamado Fundão da Educação, a Emenda 14 que municipaliza o Primeiro Grau em todo País centralizando recursos no Estado e retirando verbas das cidades que são prioritariamente investidas na pré-escola, ou seja, na semente da formação dos cidadãos? É racional um País considerar Ensino Fundamental apenas o período da 1ª à 8ª séries?

Daghlian – Estão passando aos Municípios responsabilidades sem a contrapartida dos recursos. Comprometer a pré-escola move a sociedade, de certo modo, para trás, porque a idade mais fértil da inteligência da criança fica perdida. Em 1969 fizeram o famoso Relatório Cambridge para implantar mudanças no ensino da Matemática só em 1990. Até essa data, seriam preparados os professores, porque verificou-se que várias coisas que os adultos aprendiam com dificuldades no nível superior a criança tinha esses conceitos intuitivamente. Não se pode comprometer a fase pré-escolar. Uma frase que me marcou na última viagem aos Estados Unidos dizia que não há algo mais terrível do que desperdiçar o cérebro. É desperdício de vida.

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