Entrevista Especial

Fundação Seade prepara devassa
estatística no Estado e na região

  MALU MARCOCCIA - 05/06/1997

Depois de ganhar prioridade do governo de São Paulo dentro do Programa de Desenvolvimento e Competitividade, sediando a primeira Câmara Regional do Estado, o Grande ABC começa este mês a passar por verdadeira devassa estatística. Uma radiografia sobre o que a globalização causou ao parque industrial, o florescimento das atividades de comércio e serviços, qual o novo perfil de emprego e como se acomodaram os novos padrões tecnológicos e de gerenciamento comporão mosaico sem precedentes na América Latina em termos de censo econômico. A apuração, batizada de Pesquisa sobre Atividade Econômica Paulista (PAEP), será feita em 36 mil empresas do Estado de São Paulo, com destaque para coleta especial no Grande ABC, que pela primeira vez será avaliado no seu todo e jogará luz sobre seu PIB e sua evolução.

A iniciativa é liderada pela Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados) e pretende servir de referência não só para traçar novas estratégias públicas, como se transformar em sólida base de dados para investimentos privados. “O último censo econômico, do IBGE, é de 1985. Está, portanto, totalmente fora da realidade” — justifica o diretor da Fundação Seade e um dos entusiastas do levantamento, Pedro Paulo Martoni Branco. A intenção é aglutinar esforços estatísticos isolados, como o de emprego e desemprego do Seade e o de atividades industriais da Fiesp, para gerar até o final de 1998 o mais completo mapa sobre o funcionamento da economia paulista, a partir dos impactos sofridos com a reestruturação empresarial.

No olho do furacão, o Grande ABC terá estudo específico e mais detalhado, sob encomenda do Consórcio Intermunicipal, em parceria com o IMES. “A região está longe de se converter em uma Detroit, pois tem economia mais diversificada. Precisa aproveitar melhor seus handcaps positivos” – diz Martoni.

O último levantamento do Seade indica que a indústria paulista cortou um terço de suas vagas desde 1990 e que os empregos industriais chegam hoje a 66% do nível de 12 anos atrás. Como está isso no Grande ABC, que vive experiência difícil de modernização tecnológica e de descarte da mão-de-obra industrial por conta de profunda reestruturação produtiva?

Martoni – Vamos começar a aferir especificamente o Grande ABC a partir deste mês. Nossa pesquisa de emprego e desemprego envolve a Região Metropolitana como um todo. Num novo e grande esforço estatístico, a Fundação Seade vai levantar em detalhes toda a atividade econômica do Estado, mapeando de oito a 15 localidades, com destaque para microrregiões como Grande ABC, Capital e Grande São Paulo isoladamente. Será um censo econômico inédito em termos de medição do PIB paulista e dos PIBs regionais, a partir da nova estrutura econômica mundial e seus impactos sobre atividades locais, o emprego, as diferentes tecnologias, os novos padrões de gerenciamento e de geração de valor. Por sua importância nesse contexto, o Grande ABC terá inclusive pesquisa censitária e não por amostragem, como em outras regiões.

De onde surgiu a idéia?

Martoni – Da absoluta falta de dados a respeito da planta econômica de São Paulo. O último censo do IBGE é de 1985. Nossa iniciativa, que receberá patrocínio do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), encontrou o Grande ABC inserido num grande debate em busca de soluções para seu esvaziamento econômico. Por isso, faremos algo mais específico para a região. Vamos desagregar os sete Municípios em parceria com uma estrutura já instalada do IMES (Instituto Municipal de Ensino Superior de São Caetano). Teremos também apoio da Fapesp, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, e Finep, Financiadora Nacional de Estudos e Projetos, além de respaldo dos principais centros de formação em Economia das universidades paulistas, sobretudo as públicas USP, Unicamp e Unesp.

O objetivo é restabelecer a base estatística para conhecer o que efetivamente acontece no funcionamento da economia paulista, a mais complexa, diversificada e estruturada do País, portanto mais exposta à inserção internacional. Não conhecemos nada além de algumas externalidades isoladas, como nível de emprego, índice de atividade da Fiesp, migração de empresas etc, mas sem base estatística sólida e precisa. A pesquisa está voltada para esse conhecimento, para produção de estatísticas representativas sobre esse universo em todos os segmentos: indústria, comércio, serviços, bancos, agroindústria, entre outros.

Quando começa?

Martoni – Entre o final deste mês e início de julho. Serão quatro meses de coleta envolvendo 36 mil empresas. Em novembro faremos uma primeira tabulação e retomaremos algumas informações faltantes para, no máximo no primeiro trimestre de 1998, termos esses dados disponíveis. Até o final do próximo ano teremos um censo econômico jamais visto na América Latina, com bases estatísticas acompanhadas de análises em profundidade sobre o fenômeno da reestruturação produtiva no Estado e sub-regiões. Tudo isso visando a melhorar nosso grau de compreensão sobre uma discussão já relevante no Grande ABC, que se debate sobre até que ponto sofre Desindustrialização, até que ponto seu esvaziamento é inexorável, até que ponto a economia local já não está se reciclando com métodos e técnicas produtivas modernas que a tornarão novamente competitiva e mais inserida perante a globalização.

Uma referência é o forte desemprego industrial e a constatação de que as fábricas não são mais geradoras de vagas. O Seade mostra que em abril último o emprego informal bateu recorde na Grande São Paulo, com 191 mil pessoas sem carteira assinada, o dobro de 12 anos atrás.

Martoni – É verdade que a reestruturação já produziu efeitos, pois houve alteração expressiva no perfil de emprego na região. Em 1990, a indústria da Grande São Paulo absorvia 32,3% dos trabalhadores; em abril, respondia por só 21,7% dos empregos. Ainda que hoje a indústria continue respondendo ou venha a responder no futuro pela parcela mais importante do produto gerado na Grande São Paulo e no ABC em particular, já não é mais responsável pela expansão da base geral do emprego. Hoje o desenvolvimento da indústria se faz à custa da eliminação de postos de trabalho. A modernização, a introdução da automação, o novo paradigma tecnológico para elevação da competitividade das empresas do Grande ABC eliminaram e seguem eliminando empregos de parcela importante disponível até o final da década passada.

Os efeitos sociais perversos que isso causou comprovam esse fenômeno que abalou, inclusive, o próprio desenvolvimento sócio-econômico da região. A queda do emprego significa baixa da massa salarial, redução da demanda agregada e, portanto, também uma inibição da possibilidade de outros setores da economia se desenvolverem.

Martoni – Não imaginamos, porém, que, por conta disso, o curso do Grande ABC seja necessariamente de esvaziamento econômico. Há vários sinais de recuperação, de competitividade. Um exemplo é a retomada de investimentos das montadoras nas plantas locais, paralelamente ao erguimento de outras unidades fora da região. Quando a Ford instala a base mundial do Ka em São Bernardo, ainda que essa plataforma tecnologicamente mais moderna faça mais veículos com menos funcionários, isso significa agregação de valor industrial muito importante à região.

De outro lado, a população superior a 2,2 milhões de habitantes, com a maior renda per capita dentro da Região Metropolitana, torna esse mercado bastante atraente. É por isso que floresceram empreendimentos modernos nas áreas de comércio e serviços, de grandes shoppings, de lojas de departamentos, de entrepostos comerciais que somente se instalam se há mercado consumidor.

É importante evidência de que o Grande ABC está longe de se converter em uma Detroit e passar pelos azares que aquela cidade norte-americana enfrentou com o esvaziamento da atividade industrial centrada exclusivamente na área automotiva. Não é exatamente o fenômeno que se vislumbra para a região. Além da indústria automobilística brasileira ter sido relativamente protegida por tarifas de importação enquanto se reestrutura, ao contrário dos japoneses que arrasaram com o mercado americano, há diversidade da economia regional em outras atividades.

Além disso, o Grande ABC está inserido em uma Região Metropolitana também diversificada, que lhe permite interagir fora da força motriz de seu dinamismo industrial. O Grande ABC se serviu e pode servir a Região Metropolitana como pólo de comércio e de serviços de ponta, atraindo empreendimentos nessas áreas. Pode polarizar outras atividades além da industrial.

E o chamado Custo ABC?

Martoni – É claro que é importante que a região recupere na sua base industrial condições de competitividade como teve no passado e que perdeu em alguns ramos, pois há indústrias que migraram e não devem mais voltar. Mas em torno do setor metal-mecânico há muito espaço a ser recuperado e há sinais disso. O Grande ABC exibe handcaps positivos como mão-de-obra qualificada acima da média brasileira, importante base de formação, treinamento e retreinamento profissional nos diferentes níveis, destacando-se dois centros de excelência como Instituto Mauá de Tecnologia e Faculdade de Engenharia Industrial, além de um mercado com poder aquisitivo invejável, capaz, portanto, de reter consumidores em seu território.

Há ainda a localização estratégica sob alguns pontos de vista. Por exemplo, Santos. Tanto quanto avance a modernização do porto para oferecer custos competitivos para seus serviços, Santos está situado no melhor estuário do Brasil, tanto para recepção quanto para escoamento de mercadorias. Como está mais próximo da base industrial mais consolidada do País, Santos tende a ser o escoadouro natural se eliminar seus gargalos de custos. Com a lei de modernização dos portos, a tendência é de que o pior está perto do fim. Com isso, o Grande ABC fica muito privilegiado. Além de escoar suas mercadorias, será ponto de passagem estratégico de produtos de outras empresas, que podem tomar decisão de localização na região.

O Grande ABC luta sofridamente para pelo menos manter suas empresas. O senhor acha possível atrair novas? Por que nenhuma nova montadora se instalou na região?

Martoni – Porque houve vantagens de natureza fiscal nada desprezíveis em outras localidades. Isso não explica tudo, mas boa parte das decisões de investimentos. É preciso também salientar que o Brasil, mais aberto à competição e à presença dos importados, não é mais um mercado voltado exclusivamente para produtos aqui produzidos. Do ponto de vista espacial, veículos consumidos no Norte e Nordeste, por exemplo, podem ser montados na Venezuela a preço mais competitivo, ainda que haja tarifa sobre essa importação. Por isso, não há mais razão de produzir para todo País com plataforma localizada em uma só região.

Isso fez com que os novos investimentos automotivos se dispersassem em função de vantagens que lhes fossem interessantes, desde localizações mais voltadas para o Mercosul, o que explica grande parte da preferência das novas plantas pelo Sul/Sudeste, até atrativos fiscais tão significativos que compensam as vantagens comparativas que o Grande ABC oferece, como mão-de-obra qualificada, localização estratégica, fácil acesso a matérias-primas e a bens intermediários, parque de fornecedores abundante, serviços de infra-estrutura disponíveis, como energia elétrica e telecomunicações, além de estar no maior mercado consumidor do País, o Estado de São Paulo. Isso só já não é suficiente para decisões de investimentos. Além do que, a indústria automotiva, um emblema no setor produtivo, é disputada devido ao status, ao qualificativo que confere ao Estado ou Município que a hospeda.

Mesmo que as novas plantas gerem tão poucos empregos?

Martoni – Esse segmento industrial possui capacidade multiplicadora bastante diferenciada em relação a outros, pois polariza uma série de fornecedores, já não é mais fortíssimo gerador de trabalho na sua planta de montagem, embora proporcione empregos indiretos relevantes, e também porque remunera com salários elevados no âmbito da própria indústria. De fato, atrai pouca mão-de-obra, mas com padrão de qualificação superior à média.

Mais importante em tudo isso, porém, é que o Brasil conseguiu se inserir no contexto planetário do mercado de automóveis, uma inserção geralmente difícil para países emergentes, e isso é indicativo de novos investimentos. Já somos o sétimo maior produtor mundial, caminhando para a quinta posição. Se o Brasil não tivesse perspectiva de estabilidade monetária e crescimento para poder abrigar economias que, nesse setor, necessariamente têm de ser de escala para abastecer as bases local e internacional, esses investimentos não se viabilizariam, nem no Grande ABC, nem no resto do País.

Há uma peculiaridade estratégica favorecendo o Brasil além da guerra fiscal dos Municípios, pois outros países latinos também ofereceram isenções e terrenos. Isso é positivo à medida que, na virada do século, não mais do que 10 plataformas externas estarão produzindo veículos para consumo mundial e nós somos uma delas, o Grande ABC faz parte delas.

A questão é que o Grande ABC, de uma posição de monopólio, produz hoje só 40% dos veículos brasileiros por conta da pulverização das novas fábricas. Quais as alternativas mais viáveis para a região retomar seu desenvolvimento, considerando-se que os setores de comércio e serviços, após grande boom, já não conseguem absorver a avalanche de mão-de-obra egressa da indústria?

Martoni – A alternativa é abrigar outros empreendimentos de vanguarda, como o setor de informática e de tudo o que circula em torno de novas tecnologias de ponta. Com certeza, continuará sendo forte cinturão industrial, porém não mais o grande responsável pelos empregos. O que não significa que a indústria venha a perder importância relativa como motor do desenvolvimento local, especialmente aquela que agregue mais valor, ou seja, uma indústria mais sofisticada, que chamamos de quaternário, muito associada à eletrônica, informática, bens de alta tecnologia incorporada, de alto valor adicionado e que requer a mão-de-obra mais qualificada e com alta produtividade que está sendo descartada.

O Grande ABC pode se reestruturar para exercer vocação industrial nova, além do significado de modernidade que as montadoras tiveram nos anos 60/70, depois estagnada nos anos 80 e que procura recuperar na década de 90. A região pode vir a ser importante pólo de tecnologia. Tem fortes handcaps positivos, mas precisa agregar outros, como a modernização do porto de Santos.

Pesaram na decisão das empresas que saíram do Grande ABC a questão da qualidade de vida e a infra-estrutura viária saturada, incompatível com a era do just-in-time. Como o senhor avalia isso?

Martoni – São questões que também devem ser resolvidas na Região Metropolitana como um todo, sobretudo alguns gargalos fundamentais como transporte coletivo, mais eficácia no manejo dos problemas do meio-ambiente, melhor infra-estrutura das telecomunicações e das vias públicas. São questões que dizem respeito a investimentos públicos e a parcerias com a iniciativa privada, já em discussão, por exemplo, dentro do programa de privatização.

Quanto à qualidade de vida, sem dúvida piorou. Isso é medido em várias frentes, como o aumento da violência, o funcionamento dos bens públicos e dos equipamentos sociais já insuficiente e mais precário do que em regiões menos populosas, uma rede pública de ensino funcionando melhor no Interior do que na Grande São Paulo, os transportes públicos absolutamente inadequados frente à demanda, especialmente os de massa como metrô e ferrovias, há anos sem ampliação por causa do problema fiscal dos governos. Tudo isso agravado pelo crescimento do processo de favelização da segunda metade dos anos 80 para cá, acrescido pelo desemprego da mão-de-obra com a reestruturação econômica.

É possível estabelecer diferenças entre o emprego-desemprego no Grande ABC e no Interior?

Martoni – Não temos pesquisa mensal sistemática que aferia isso no Estado, apenas na Região Metropolitana. Nosso acompanhamento no restante do Estado com pesquisa domiciliar acontece em períodos muito distantes. A última foi em 1994, sobre condições de vida. As taxas de desemprego que medimos no Interior em comparação com a Região Metropolitana eram menores nas localidades onde a atividade industrial não é tão alta e parecidas com as da Grande São Paulo onde a presença da indústria é mais forte. No Vale do Paraíba, no trecho entre a Capital e Taubaté, as taxas de desemprego eram muito semelhantes no segundo semestre de 94 às da Região Metropolitana. Ou seja, o desemprego atingiu a indústria onde quer que tenha se reestruturado.

Se a vocação das grandes metrópoles é se tornarem pólos de serviços, como ficam a qualidade do emprego e o nível de renda nos ex-cinturões de indústrias que pagavam altos salários e que passaram a ter o setor terciário como principal empregador? Há saídas?

Martoni – Você não vai resolver o problema do emprego exclusivamente através da atração do desenvolvimento industrial. O investimento industrial, como disse, vai continuar tendo importante significado macroeconômico de dinamização das atividades e de geração de valor adicionado, de qualificação do próprio mercado de trabalho, mas não de geração de emprego direto.

Aí você tem de tudo. Há no setor de serviços segmentos de altíssima qualificação e que adicionam valor numa proporção importante e que também requerem mão-de-obra preparada. É claro que o grosso da mão-de-obra expelida pela indústria, o chão de fábrica, não vai ter a mesma oportunidade de salários numa loja, numa oficina. Toda vez que se troca emprego no setor industrial por emprego nos serviços e comércio, certamente há perda de qualidade na remuneração, porque a vaga oferecida raramente exige a qualificação da média da indústria. É um grande problema a ser enfrentado. Comércio e indústria têm abrigado emprego queimado na indústria em condições piores de salário, o que chamamos de precarização do trabalho. Isso sem dúvida produz uma piora das condições sociais gerais da região onde há o fenômeno.

A compensação da não-geração de novos empregos industriais tem de se fazer via requalificação profissional, retreinamento, para que possam ser absorvidos por outros setores econômicos que também possam gerar emprego de qualidade, como o de tecnologia de ponta, mesmo na área terciária. Num horizonte de uma ou duas décadas será possível reciclar essas novas gerações. Se São Paulo se converter efetivamente na Capital de decisões do Mercosul, isso beneficiará sem dúvida todo seu entorno, o Grande ABC em particular.

Como o senhor analisa a ainda tímida ação dos Sindicatos trabalhistas, sobretudo no Grande ABC de históricos movimentos no setor, quanto à necessidade de serem criadas alternativas para ocupação da mão-de-obra? Os sindicatos não estariam perdendo grande oportunidade de se reciclar como instituição, aproximando-se dos desempregados, em vez de defender interesses apenas dos empregados?

Martoni – Tenho acompanhado o Luiz Marinho, dos Metalúrgicos do ABC, e acho que suas ações estão à altura do momento atual. De maneira corajosa e lúcida, ele mostra a necessidade de reposicionar o movimento sindical diante dos desafios do emprego e da reestruturação industrial. O sindicalismo regional foi de vanguarda em determinados períodos na conquista de benefícios trabalhistas. Evidente que no momento em que se começa a enfrentar situação de esvaziamento, de diminuição da base econômica e de possibilidade de os investimentos migrarem em massa, o movimento sindical seria estúpido se perpetuasse as mesmas táticas de enfrentamento. Marinho e outros diretores reconhecem a alteração das condições históricas de desenvolvimento, que demandam novas estratégias. O trabalhador sabe ser preciso antes ter emprego para, depois, disputar melhores condições de trabalho.

É evidente que a preocupação com o desemprego deve ser permanente por parte de toda sociedade, do trabalhador em particular, porque, onde o desemprego cresce, abala-se a estrutura existente. O sindicato não pode se fechar numa redoma e só lidar com a base cada vez mais diminuída. Tem de se inserir num contexto mais geral, de busca de saídas favoráveis para o desenvolvimento da região e, creio, é isso o que o sindicato está fazendo ao participar da Câmara Regional. Não é boa prática desenvolver estratégias de luta que afugentem investimentos. Onde não há investimento, não há emprego; onde não há emprego, não há consumo; onde não há consumo, não há trabalho. Isso já foi absorvido pelo movimento sindical do Grande ABC.

A postura sindical muitas vezes dura influenciou na decisão de empresas que já foram embora?

Martoni – Já vi empresários que procuraram alternativas de localização por causa da maior combatividade dos sindicatos. Mas se isso num primeiro momento prejudicou a região, certamente beneficiou trabalhadores de outras localidades. Onde se instala uma indústria de vanguarda, automaticamente se atrai trabalhador com maior nível de escolaridade e maior consciência de seus direitos. Assim como as indústrias, determinadas bandeiras sociais também migram. Isso é típico da modernização da estrutura social.

É equivocado achar que haverá sempre mão-de-obra barata e desmobilizada em outros Municípios, pois a própria chegada de novas empresas torna o trabalhador local mais sensível a compreender as contradições em que está inserido e, portanto, a criar níveis de organização mais avançados. Onde se localiza o investimento de ponta, floresce um sindicalismo mais estruturado e organizado. O próprio Grande ABC artesanal da década de 40 foi diferente do Grande ABC de vanguarda industrial da década de 70.

É caolho o empresário achar que eternamente não vai ter de enfrentar uma questão sindical, quando isso faz parte das relações sociais modernas. Com a dispersão dos investimentos industriais, a organização sindical vai se espalhando, o que é bom para o País, porque esses trabalhadores vão querer conquistar melhores salários e fazer com que o nível de vida melhore também em suas regiões. Em qualquer lugar onde o investimento industrial moderno se localize, as relações de emprego tenderão a se modernizar e os sindicatos modernos a se instalar. O sindicalismo, portanto, não deve ser motivo tão relevante de discriminação do Grande ABC. Deve-se olhar para outros aspectos positivos da região que efetivamente contam, repito, como localização, modernização de plantas, mercado consumidor, parte integrante da Região Metropolitana etc.

O que não quer dizer que o movimento sindical não deva repensar a todo tempo sua inserção histórica. Deve estar sempre posicionado em função das circunstâncias. Num momento de recessão, o trabalhador disputa muito mais emprego do que salário. Num momento de forte expansão do ciclo econômico, é hora de buscar melhorias salariais e participação mais forte nos lucros. Algumas vezes a greve é instrumento legítimo, previsto em lei. Outras vezes não é tática correta. Em Betim, a Fiat deve ter tido habilidade empresarial para se aproveitar do declínio de produção no Grande ABC e cedido aos trabalhadores a fim de conquistar mais mercado. Daí haver menos greves. Acredito que na região os metalúrgicos estão empenhados numa compreensão mais precisa do cenário.

A flexibilização do contrato de trabalho é alternativa interessante para a realidade brasileira? As empresas suportariam jornadas menores pagando os mesmos salários?

Martoni – Essa é questão extremamente complexa. Houve crescimento muito forte da produtividade nestes anos mais recentes, com eliminação de empregos e com crescimento significativo, mas não tão forte, dos salários. Isso é evidente na análise da lucratividade das empresas, que se capitalizaram fortemente nos últimos anos. Portanto, com a mesma jornada de trabalho de uma década atrás, hoje se produz mais. É da história do capitalismo, ao longo de mais de dois séculos, que a cada avanço na produtividade correspondiam reduções de jornadas. E os salários cresceram o tempo todo. Daí os níveis altíssimos de qualidade de vida na maioria dos países da Europa, nos Estados Unidos e Canadá.

Não é possível, pois, situar a proposta de jornada de trabalho menor como se fosse a maior das novidades, como se tivesse caído de Marte nesta semana. Não temos de achar um absurdo que se discuta redução de jornada para compensar ganhos de produtividade que não foram totalmente incorporados ao salário. Só isso já representa que alguma redução de jornada se pode fazer, inclusive sem redução de salários, abrindo espaços para mais empregos. Nos custos finais, isso não é muito diferente de manter a jornada e conquistar aumento real de salário. É só fazer a troca. Em vez de um ganho de produtividade de 4% além da reposição de perdas, é possível negociar a conversão de 4% em menos jornada. Uma jornada de 44 horas seria reduzida em 1,6 hora por semana sem problema de custo para as empresas. Por isso, não há razão para se estranhar propostas de menor jornada com preservação de salários.

Segundo ponto: se a conjuntura é de redução de emprego ou de maior dificuldade de oferta de novas vagas ou de ganhos de produtividade, a redução de jornada para gerar emprego faz sentido. Mais: de 1988 para cá, com a nova Constituição, cresceu muito o uso de horas extras, porque o custo das contratações também aumentou. Esse assunto está inserido nessa discussão porque é preciso melhor regulação das horas extras. Se se limita a jornada extraordinária, é possível estimular contratações, ou, se for o caso, implementar mais tecnologias. Aí, o tiro sai pela culatra. Por isso é questão complexa, que merece discussão por ramo e por setor.

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