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Política

Até Boulos pode interferir nas
eleições de novembro na região

DANIEL LIMA - 21/09/2020

A menos de dois meses do primeiro turno das eleições municipais no Grande ABC tomo mais uma vez a iniciativa de especular sobre os resultados. Agora, envolvendo cinco praças principais. Ficam de fora Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, que significam apenas 2% do PIB econômico e muito menos que isso do PIB Político. Não existe no horizonte nenhuma certeza bem-acabada, embora uma situação e outra estejam bem encaminhadas. Daí a especulação compulsória.  

Há nessa nova incursão cinco pontos geográfico-eleitorais distinguíveis e distintos. Antes de discriminá-los, faço a ponderação de sempre: a política, sobretudo num ambiente eleitoral, permite subjetividades que a Economia praticamente interdita em qualquer circunstância para quem não quer ver a reputação chamuscada.  

Esse alerta tem o sentido de evitar contextualizações de um ou outro leitor que, seguindo a trilha de manadas de redes sociais, procuram desclassificar argumentos com ataques fora do contexto.  

Só para contrariar  

Sim, alguém é capaz de, por exemplo, colocar na mesma plataforma de informações e análises assertivas sobre a desindustrialização do Grande ABC e eventuais fatos que contrariem desdobramentos eleitorais. Há vampiros de honra alheia à solta na praça. Eles se manifestam sem pé nem cabeça. Apenas para contrariar. Para turvar o entendimento geral.  

Divido o cenário nos cinco municípios utilizando expressões que remetem ao charadismo.   

 O retorno. 

 Por um triz. 

 Balaio de gatos. 

 Influência externa. 

 Na corda bamba.  

Fiz nas redes sociais que frequento, principalmente das listas de transmissão do aplicativo Whatsapp, espécie de avant-première dessas divisões. Tudo para o chamamento de audiência a este texto.  

As redes sociais são ferramentas interessantes como quebra de paradigmas do jornalismo tradicional. Quem passou a vida inteira escrevendo dentro de padrões convencionais de papel, tem nas plataformas digitais um mundo novo instigante.  

Chamar a audiência nas redes sociais é uma das iniciativas de que me utilizo para aumentar o trânsito à leitura desta revista digital. Sem cair no redemoinho nefasto do sensacionalismo barato.  Vamos desvendar as cinco charadas, então:  

  O retorno 

Em Diadema não há como escapar a dois turnos. A competição é acirrada e tudo indica que o triprefeito José de Filippi Júnior festejará o tetra. O candidato da situação, do prefeito Lauro Michels, atende por nome estranho que resolvi fundir, mas mesmo assim segue estranho: Revelino Pretinho. Também pode ser chamado de Pretinho. Ou Pretinho do Água Santa. Parece que ele se definiu por “Pretinho”. Teria retirado “Água Santa” não necessariamente porque é o nome do time da cidade. Seria por outra coisa identificatória de algo que supostamente deverá ser escamoteado. Prefiro Revelino Pretinho. Poderia ser Rivelino, nome com o qual os pais corintianos o batizaram. Mas o cartório parece ter seguido o som o enunciado paternal.   

O desgaste do prefeito Lauro Michels se soma à recuperação da principal base do PT na região como elemento eleitoral expressivo para levar Filippi ao triunfo. Mesmo sem tanta ajuda da campanha televisiva na Capital, que sempre deu grande mão ao PT de Diadema, Filippi é favorito porque é assim que Diadema foi forjada pela esquerda. Tanto que, mesmo com Bolsonaro bombando nas últimas eleições presidenciais, o resultado final do segundo turno em Diadema foi estreitíssimo, de 52% a 48% para o atual presidente.  

  Por um triz 

Tudo indica que o triz no caso será tão inexpressivo que não haveria surpresa na vitória de Orlando Morando em primeiro turno em São Bernardo. A candidatura do vereador Rafael Demarchi, fabricada em represália à quebra de interesses contrariados por Orlando Morando, desmilinguiu-se antes mesmo de ganhar corpo. Pouco se ouve falar no concorrente de família tradicional que já teve peso na política da cidade. O mito dos Demarchi já não é o mesmo. A Rota do Frango com Polenta era um símbolo que transmitia ideia de grandeza que se desfaz a cada novo estabelecimento comercial fechado e a novas levas de moradores sem entranhamento cultural local. Rafael Demarchi seria uma terceira via supostamente com tônus para transferir a vitória de Orlando Morando ao segundo turno. Pelo visto, o petista Luiz Marinho vai ter de fazer das tripas coração para chegar próximo a 35% dos votos válidos no primeiro turno. Os demais candidatos não passariam de traço. Morando está por um triz. Demarchi seria uma tristeza aos opositores de Morando.  

  Balaio de gatos 

São tantos os candidatos de tamanhos semelhantes em Mauá que não há como fugir da expressão “balaio de gatos”. Há ex-prefeito disputando o Paço Municipal (caso de Donisete Braga), da ex-deputada Vanessa Damo, cujo pai cansou de ocupar a cadeira de chefe do Executivo, e também há o prefeito de plantão, Atila Jacomussi, frequentador assíduo de outras paragens, no caso prisões determinadas por investigações que culminaram em denúncias de corrupção. Como se observa, tudo indica que o primeiro turno em Mauá será um ensaio geral de composições que virão para o arremate de segundo turno. Quem tem menos passivo e mais ativos ao longo das disputas e dos exercícios de mandatos em Mauá? Os eleitores certamente estão enquadrados num compartimento de observação rigorosa. E não parece haver possibilidade de algum novato, mesmo que limpinho da Silva, furar o bloqueio dos veteranos.  

  Influência externa 

Há um componente externo que pode contribuir para levar a disputa em Santo André ao segundo turno, no qual é certo que o prefeito Paulinho Serra estará presente e do qual não se deve afirmar categoricamente que sairia com a faixa da reeleição. Que componente externo é esse? O crescimento da candidatura do psolista Guilherme Boulos na Capital sempre dominadora no horário gratuito de televisão. Se Boulos crescer na pujante vizinha, Bruno Daniel aumentaria mais o cacife do PSOL numa disputa que ainda terá Bete Siraque e João Avamileno como esquerdistas a engrossar o caldo eleitoral. Sem contar Ailton Lima, ex-vereador e ex-secretário de Paulinho Serra que, individualmente, seria a segunda força da disputa.  

A influência externa de Guilherme Boulos poderia catapultar os candidatos de esquerda de Santo André a um nível de votação que impulsionaria o jogo para o segundo turno. Resta saber quem seria o concorrente de Paulinho Serra. Ailton Lima, apoiado pelo ex-governador Marcio França, agora concorrente à Prefeitura da Capital, precisa torcer por Bruno Daniel, Bete Siraque e João Avamileno para que o jogo comece do zero após o primeiro turno. Mas não pode torcer além da conta: se Boulos subir mesmo como estão prevendo, quem iria para o returno seria Bruno Daniel. Enquanto isso, Paulinho Serra tem de rezar para que os prognósticos de turno único não sejam deliberadamente marqueteiros.    

  Na corda bamba 

A disputa em São Caetano coloca o prefeito José Auricchio Júnior numa camada dupla de corda bamba. A primeira se manifesta na possibilidade de disputar a reeleição praticamente sub-júdice jurídico. E a segunda sub-júdice do coletivo psicológico dos eleitores.  

No primeiro cenário, de sub-júdice jurídico, estaria Auricchio subordinado a eventual impedimento determinado pelo Tribunal Superior Eleitoral (como nas duas instâncias já consumadas) e, com isso, correria o risco de ganhar e não levar. Ou seja: a disputa poderia ser anulada se o julgamento do caso de supostas irregularidades não for efetivado antes de 15 de novembro.  

No segundo cenário, decorrente da dúvida sobre o destino jurídico caso a disputa seja realizada sem arbitramento final do TSE, Auricchio poderia ser abandonado por parte do eleitorado caso a oposição, especialmente Fabio Palacio, propague aos eleitores que votar no prefeito seria perda de tempo porque ele seria impedido juridicamente, na sequência dos acontecimentos, pelo TSE.  

Creio que me fiz entender com essa sobreposição de desenlaces sem que alguém as considere redundantes. Uma coisa complementa a outra coisa. Auricchio concorrer à reeleição sem amarras legais diante dos olhos é uma coisa. Auricchio concorrer à reeleição com a espada da Corte na cabeça e, com isso, gerar dúvidas se vitorioso ocuparia o cargo a partir de janeiro do ano que vem, é outra coisa.  

Eleitores não gostam de desperdiçar votos.  Votar em alguém que pode ser barrado do baile logo em seguida é um convite à reflexão e à troca de candidato.



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