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Regionalidade

Regionalidade zero é melhor
que regionalidade mentirosa

DANIEL LIMA - 21/08/2020

Leio no Diário do Grande ABC de hoje uma nota em forma de notícia que poderia ser uma entrevista. Trata-se da declaração do até outro dia reitor da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Marcos Bassi. Não se trata de um agente qualquer. Ele é o preferido do prefeito José Auricchio Júnior como companheiro de chapa à reeleição e eventual concorrente à Prefeitura se o titular for impedido pela Justiça Eleitoral.  

Bassi disse, em resumo, que o Grande ABC precisa de uma governança além das fronteiras. Mais precisamente, disse que é preciso “fortalecer” as institucionalidades que lidariam com o extra-região. Bassi precisa saber que a medida é inócua, porque não temos sequer uma instituição regional. Ou seja: como pensar em chegar a uma festa elegantemente vestido, terno bem recortado e uma gravata impecável, se a cada passo em direção ao anfitrião o convidado sente dores estomacais fortes que o levariam rapidamente, mudança de rota, direto para o banheiro. 

Não quero dizer com essa metáfora que a institucionalidade extra-região é um contratempo a ser superado, porque é muito pior que isso: é uma tremenda de uma ilusão partir dos escombros para a consagração.    

Um grande buraco  

Marcos Bassi deveria saber e se o sabe deveria ser objetivo e se for objetivo cortará o caminho em busca de soluções para o Grande ABC: não temos organização público-social alguma com uma porçãozinha sequer de vocação à regionalidade construtivista.  

O que restou do espólio de Celso Daniel foi apenas o Clube dos Prefeitos, essa maçaroca de incompetências sobrepostas e que, por já completar 30 anos, praticamente não tem fôlego para se reoxigenar dentro de prerrogativas modernizantes.   

Portanto, o formato do Clube dos Prefeitos não serve para nada. Exceto para uma espécie de refundação, com novos pressupostos que, claro, não podem ser subjugados pelo mandonismo errático do prefeito dos prefeitos de plantão. O modelo está furadíssimo. Sem uma grande liderança como Celso Daniel, o Único, é perda de tempo.  

Mantra de regionalismo  

Aliás, ainda outro dia, recompondo algumas das principais matérias-análises da revista LivreMercado que criei e dirige editorialmente, minha memória nem sempre intacta captou Celso Daniel, instado por mim, a garantir que faria do Clube dos Prefeitos muito mais que o Clube dos Prefeitos; ou seja, inseriria uma nova instância de poder que daria tessitura à regionalidade pretendida.  

Celso Daniel morreu antes disso e os que vieram apegaram-se de tal maneira ao clubismo fechado que tudo desandou. Sem competências representando a sociedade o Clube dos Prefeitos ou qualquer instância regional vira fumaça. E sem especialistas em Desenvolvimento Econômico, tudo desandará.  

Ficaremos rodando como condutores de carrinhos de parque infantil cujo único objetivo é bater no próximo. Coisa de criança que os adultos adoravam. Coisa que vale apenas para parque infantil, não para uma instituição regional conduzida por cabeças duras.  

De qualquer maneira, mesmo pressupostamente dando ênfase à desconfiança de que não tem intimidade para valer com a regionalidade com que parece se preocupar, Marco Bassi precisa ser ouvido e, mais que isso, seguido.  

Resistência histórica  

Se Marcos Bassi disse o que disse como representante de um Município historicamente avesso à regionalidade, acentuadamente com um Luiz Tortorello municipalista até o fundo da alma, é sinal de que estamos chegando ao fundo do poço e que esse mesmo fundo do poço supostamente teria um mecanismo que catapultaria as forças vivas da região a uma reviravolta no haraquiri institucional que o caracteriza e o estiola. 

Seria surpreendente se partisse de São Caetano, justamente de São Caetano, uma empreitada pró-regionalidade. Teríamos o avesso do avesso do avesso na ordem regional. E, querem saber? Seria ótimo, porque não interessa a cor do gato da reviravolta tão necessária, desde que cace o rato da derrocada regional que vem de quatro décadas e se acentuará ainda mais pós-pandemia.  

Não tenho dúvidas de que é melhor a constatação de que contamos com regionalidade zero do que seguir caindo na vigarice institucionalizada de que temos regionalidade. Mas é indispensável que os agentes públicos e privados que viveram a tentativa de integração regional a partir dos pressupostos de Celso Daniel (e, cá entre nós, da revista LivreMercado, mantra do regionalismo antes mesmo da criação do Clube dos Prefeitos, também conhecido como Consórcio de Prefeitos) tomem o que diria vergonha na cara e deixem de mentir para a sociedade. 

Modelo sucateado  

O modelo deixado pelo brilhantismo de Celso Daniel foi sucateado pela incompetência generalizada dos prefeitos que assumiram postos neste século.  

Chegou-se a tal ponto de vadiagem institucional que o Clube do Prefeitos moribundo, a Agência de Desenvolvimento Econômico desativada e a Câmara Regional praticamente natimorta, viraram entulhos contraprodutivos e enganadores.  

Afinal, ainda há gente que comanda os destinos dos municípios da região que sugere não só suposta fortaleza dessas instituições como as colocam na linha de frente de mudanças. É muita alienação.  

Tomara que as declarações de Marcos Bassi não sejam uma obra acabada de algum marqueteiro que pretenda vender um produto de cunho político-eleitoral.  

Que São Caetano toque para valer na ferida da fragilidade do regionalismo. Fragilidade é força de expressão, uma bondade verbal, porque, repetimos, somos zero vezes zero no ecossistema nacional de cuidados com ações integradas entre territórios próximos. Aqui prevalece o conflito disfarçado de cooperação. Inimigos íntimos institucionais.  

Pode parecer um exagero dizer que estamos no fundo do poço, mas a história está aí. Se me apertarem para valer para sentirem se resisto ao “zero”, sou capaz de retificar o texto. Para pior. Talvez afirme que estamos numa escala de valores motivacionais e fáticos “abaixo de zero”.  

Querem saber? Se cairmos na tentação de que somos alguma coisa depois de 30 anos de Clube de Prefeitos, o último dos moicanos das instituições regionais, estamos nos enganando e atrasando ainda mais o comboio do reformismo.  

Soçobramos em regionalidade a tal ponto que qualquer tentativa de produzir remendos soará negativa e contraprodutiva, porque correremos o risco de repetir velhos erros. Aliás, é o que tem ocorrido neste século. Entra prefeito dos prefeitos, sai prefeito dos prefeitos do Clube dos Prefeitos, e tudo segue na mesma pasmaceira. Apenas com recheios diferentes. E putrefatos. 



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