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Sociedade

Vírus chinês: Santo André é
um caso para o Fantástico?

DANIEL LIMA - 07/08/2020

Chamem os repórteres do Fantástico. Chamem os maiores epidemiologistas da praça. Chamem os virologistas. Chamem quem quiser que diz entender do vírus chinês, embora no fundo, no fundo, poucos entendam para valer. Santo André é um fenômeno ou uma farsa no balanço de letalidade do Coronavírus?  Esta é uma pergunta que vale um milhão de dólares.  

Escrevi anteontem sobre o assunto e volto hoje porque há mais elementos indicativos de que o prefeito Paulinho Serra está bobeando ao não dar partida a uma ação de marketing extraordinária. Ou então ele sabe bem mais das coisas e por isso mesmo não daria prioridade a isso.  

 Santo André é um espaço mais resistente ao vírus chinês em pleno coração da Região Metropolitana de São Paulo. Ou então é um grande blefe. 

O Diário do Grande ABC de hoje publicou uma matéria em estado bruto sobre os estragos do vírus chinês no Grande ABC.  

O jornal poderia ter metabolizado o material e o transformado em manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página). Mas, como não sou mais ombudsman oficial ou oficioso do Diário do Grande ABC, não vou meter minha colher na edição. Só nas informações.  

Aparelhado ou atrapalhado? 

Estado bruto de dados é o fato de os números estarem expostos sem a devida contextualização. Como os dados dizem muito sobre o que escrevi anteontem (veja mais abaixo), não resisto:  

Santo André é fenômeno ou farsa no tratamento efetivo que teriam repercussão estatística no combate ao Coronavírus?  

Estaria a gestão de Paulinho Serra mais bem aparelhada para identificar os casos reais de combate e de morte pelo vírus chinês? É possível que sim, embora também seja possível que não.  

Diz a reportagem do Diário do Grande ABC que 15% das causas de mortes no Grande ABC nesta temporada têm o vírus chinês como protagonista principal. Do total de 11.968 óbitos registrados de janeiro até quarta-feira, 1.794 foram causadas pelo Coronavírus. Até aí tudo bem. O que intriga (e que coloca a gestão tucana de Santo André como diferenciada) é o ranking.  

Liderança disparada  

O infográfico do Diário do Grande ABC aponta que Santo André lidera o número positivo de baixas (se é possível dizer isso) com apenas 9,8% dos casos fatais pelo Coronavírus, quando se comparam ao total de mortes no Município. Atropelamentos, assassinatos, outras doenças, tudo está no mesmo saco. São 387 mortes para o total de 3.944 falecimentos em geral.  

Aliás, Santo André lidera no número de mortes em geral. Embora tenha população menor que São Bernardo, está ligeiramente à frente. São Bernardo conta com 3.765 mortes totais no primeiro trimestre, das quais 637 por Coronavírus. Ou 16,9% dos casos fatais. Ou, ainda, quase o dobro no confronto com Santo André, quando se comparam os percentuais de letalidade do Coronavírus em relação às mortes em geral.  

Se o leitor está escandalizado com tanta diferença entre municípios vizinhos e semelhantes em tantos indicadores sociais e econômicos, o que pensar então quando se tem que, em Diadema, nada menos que 25,4% das mortes gerais (1.355) se deram pelo vírus chinês (344)? Quase o dobro da média regional e quase três vezes mais que o resultado de Santo André.  

Em São Caetano foram até agora 13,8% de óbitos por Coronavírus em relação ao total de 1.009 mortes em geral. A marca de Mauá é de 15,3%, de Ribeirão Pires 15,8% e de Rio Grande da Serra 11,7%, sempre em relação aos números próprios de mortes em geral, ou seja, sem qualquer correlação com o total de mortes na região.   

Chamada justa  

Acho que já passou da hora de colocarem ordem nesse galinheiro de dados. Nada a ver com o jornal ou com qualquer outra fonte, mas com o Clube dos Prefeitos, que, supostamente, reúne os titulares dos sete paços municipais.  

Os números são discrepantes demais. Por que afinal, principalmente Santo André, registra proporcionalmente tão menos óbitos por Coronavírus? E esse “proporcionalmente tão menos” vale tanto no cotejamento interno, ou seja, de mortes pelo vírus em relação a outros tipos de mortes no Município, quanto em termos regionais, de mortes por vírus em relação à população, contagem mais adequada a comparações envolvendo exclusivamente a pandemia. 

Não exagero na dose jornalística quando abro uma análise chamando o Fantástico. Além da força de expressão de domínio popular, “chame o fantástico” é mesmo uma pauta potencialmente extraordinária. Como tem sido nesta revista digital, que, pela segunda vez em três dias, move-se na direção de procurar encontrar algo que explique o que aparentemente é inexplicável.  

Time de mobilização  

Por que morre menos gente sob a influência direta do vírus chinês em Santo André do que nos demais municípios? Não se morre menos na margem de erro, mas de forma impactante. Tanto na métrica de morte por Coronavírus versus mortes em geral quanto de mortes por Coronavírus versus população.  

Fosse assessor de imprensa do prefeito Paulinho Serra já teria botado o time da mobilização em campo e vendido a pauta a grandes veículos de comunicação. Quem sabe Santo André tem a fórmula senão salvadora de combate ao vírus chinês, pelo menos redentora no sentido de que encontrou um obstáculo a impor resistência além do convencional à pandemia que anda matando gente demais no País? 

Para não dizerem que sou ingênuo, jogo aberto, com certa dose de ironia ou de sarcasmo: ou Santo André tem explicações robustas para tamanha eficiência (e isso passa principalmente pela discriminação mais que esperada do menu das tipologias provocadoras de mortes) ou estamos diante de um caso de fraude estatística. Não há outra saída explicativa.  

Fórmula mágica  

O que significa discriminação mais que esperada do menu das tipologias provocadoras de mortes? Ora, é o que todo mundo cansa de afirmar nas redes sociais e também na Grande Mídia e que até agora ninguém respondeu com clareza, precisão e convencimento: os registros de morte por Coronavírus seguem rigorosamente o grau de importância letal dos estragos centrais do vírus chinês ou o vírus chinês está sendo utilizado para passar uma boiada de mortes por comorbidades mais proeminentes no quadro clínico geral dos falecimentos?  

Já imaginaram se Santo André encontrou a fórmula mágica que distingue uma coisa da outra, ou seja, já imaginou se os especialistas em saúde de Santo André definiram um protocolo de registros de mortes por Coronavírus que atenda cientificamente, por assim dizer, os conceitos médicos e éticos de uma contabilidade jogada às traças, ao sabor de incompetências, despreparos e ideologias vulneráveis ao bom senso?  

Agora, veja apenas os primeiros trechos da matéria que publiquei anteontem. E que serve de base para o texto de hoje: 

Vírus chinês mata mais à Leste

do que à Oeste de Santo Andrardo 

 DANIEL LIMA - 05/08/2020 

 Esse é um breve conto que conta sem levar em conta as idiossincrasias municipalistas do Grande ABC o que se está passando durante a pandemia do vírus chinês. As autoridades sanitárias estão perdidas com o desafio de, mais que saber por onde anda o bicho feio, descobrir porque na cidade de Santo Andrardo a letalidade é muito maior à Leste do que à Oeste.  Por que morre mais gente na antiga São Bernardo do que na também antiga Santo André? Santo Andrardo é a soma dos dois municípios. O novo Município vale por tempo indeterminado. O tempo da pandemia que, todos sabem, é arredia a prognósticos temporais e sanitários.  A pandemia é um pandemônio para os cientistas, como se sabe. E se o é para quem diz que entende do riscado, por que não seria para outros tipos de especialidades. Como a política, por exemplo? Daí Santo Andrardo ganhar fama. Mais que fama: ganhar vida.  Santo Andrardo é mesmo e principalmente um desafio epidemiológico. Na antiga Santo André da nova Santo Andrardo os casos do Coronavírus são 30% menos letais do que na antiga São Bernardo. Ou seja: a possibilidade de alguém morrer na antiga São Bernardo, quando comparada à antiga Santo André, é 30% maior. Não é pouca coisa. 



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