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Esportes

Cai a máscara: investidor do
São Caetano está desaparecido

DANIEL LIMA - 24/07/2020

O São Caetano Futebol Limitada viveu a breve ilusão de que encontrara Papai Noel em forma de investidor administrativo e financeiro. Duas semanas depois do alerta desta revista digital de que Fernando Rocha não contava com passado que o abonasse nem com presente que o credenciasse a mudar o futuro do São Caetano, eis que todos o procuram. E não o acham.  

Fernando Rocha assinou um contrato que lhe conferia até 35 anos de controle do clube mais vitorioso da região neste século e, como era esperado, desapareceu do radar.

Ainda resiste uma crosta de incredulidade sobre o destino reservado ao São Caetano, mas é preciso insistir na projeção: do jeito que vai o chamado Azulão, outrora também bandeira política vistosa, simplesmente desaparecerá. Ou vai vegetar por longo período, até sumir do mapa do futebol brasileiro. Uma alternativa a isso é excesso de otimismo que não pode ser descartado, claro, mas é sempre interessante manter os dois pés atrás.

Fernando Rocha assinou contrato para comandar o São Caetano Futebol Limitada por até 35 anos, mas não cumpriu dois meses. Na verdade, os termos contratuais, expressos em cartório dia primeiro de junho, jamais foram cumpridos.

Dívida muito maior

A suposta dívida de R$ 20 milhões anunciada pelo ex-presidente Nairo Ferreira, responsável pelo buraco, é muito maior. Ultrapassa a R$ 40 milhões. Quando anunciou Fernando Rocha como solução mágica para o São Caetano, Nairo Ferreira praticamente confessou o monopólio de uma responsabilidade que sempre procurou terceirizar ou mitigar. Ou seja: de que o comando do São Caetano sempre seguiu suas decisões como acionista majoritário da agremiação empresarial.

Exatamente por conta da dívida gigantesca o São Caetano não tem perspectiva de resistir como equipe de futebol de alto nível. Investidores de verdade tratam futebol como produto que exige remuneração que o mercado financeiro está longe de garantir nestes tempos de juros negativos ou quase negativos. É pouco provável que botem a mão nessa cumbuca.

O São Caetano é um poço de complicações tão profundo que perde qualquer competição por investimentos no mundo do futebol. O custo-benefício não resiste a uma consultoria especializada que investiga potenciais ativos e sólidos passivos. E é assim que funciona. Há dezenas de clubes mais apetrechados em competitividade esportiva e financeira no mundo dos negócios do futebol.

Desgaste do produto

Um coquetel de vetores compõe o regramento à tomada de decisões para a aquisição de ativos esportivos em forma de um time de futebol. Hierarquia estadual e nacional é um dos quesitos. Mercado consumidor municipal e regional é outro. Custo da dívida é impactante em qualquer análise. Conjunto de mídia como disseminador de ações de marketing também consta do cardápio de investimentos. Representatividade institucional interna, junto aos poderes locais, bem como inserção na sociedade, é crucial. Força nas arquibancadas, mais um.

O São Caetano não preenche vários desses predicativos. Pesos e contrapesos colocam o clube bem abaixo de um ranking informal, mas decisivo aos olhos de potenciais investidores.

O ilusionista Fernando Rocha foi saudado pela mídia em geral como o salvador da pátria. Deram-se pouca importância às pegadas de contradições e confusões que deixou para trás. Não havia consistência que o credenciasse a assumir um São Caetano. Não há perspectiva para uma equipe com o perfil do São Caetano fazer o dinheiro empenhado virar dinheiro rentável. E é disso que se trata o futebol nestes tempos.

Desaparecimento esperado

O desaparecimento de Fernando Rocha já era esperado. O que se pergunta é até que ponto o ex-presidente Nairo Ferreira, responsável único pelo rombo financeiro estrutural do São Caetano, tem participação nesse enredo de desencontros. Teria sido uma farsa com objetivos que especialistas tributários, fiscais e trabalhistas detectariam?  

É considerado inadmissível para quem está no mundo do futebol abrir as portas para alguém que promete mundos e fundos sem que tenha lastro no currículo como gestor esportivo. Muito pelo contrário.

Especula-se muito, portanto, sobre as razões que teriam levado Nairo Ferreira a anunciar Fernando Rocha como novo proprietário do São Caetano Futebol Limitada. E, também, a divulgar números do buraco financeiro da agremiação (passivos trabalhistas, fiscais e outros) muito aquém da realidade contábil.

Nairo tem responsabilidade

O anúncio de que uma das cláusulas contratuais seria acionada, no caso uma multa de R$ 8 milhões, soa como o coroamento de uma bobagem. Talvez exista mais caroço de consensualidades obscuras nesse angu de maliciosidades contratuais do que se possa imaginar. Faz bem a imprensa esportiva em procurar por Fernando Rocha. Mas não pode deixar Nairo Ferreira livre, leve e solto, como se não tivesse absolutamente nada a ver com a hora do Brasil de confusões no São Caetano.

Maior patrimônio cultural municipal para o público externo, que o transformou no início do século em “namoradinha do Brasil”, o São Caetano não vale uma preocupação sequer de quem está no comando do Paço Municipal.

Nos tempos de luminosidade dentro de campo, a equipe contava com o então prefeito Luiz Tortorello e o secretário de saúde José Auricchio como entusiastas torcedores. Tortorello foi mais que isso. Atuava para fortalecer a equipe da maneira que a legislação permitia e o coração mandava.

Namoradinha do Brasil

Na primeira década deste século o São Caetano era tão importante que estava entre os primeiros colocados no ranking nacional. Um desempenho extraordinário em competições nacionais (duas vezes vice-campeão brasileiro), estadual (campeão em 2004) e inclusive internacional (vice-campeão da Libertadores).

Houvesse institucionalidade esportiva em São Caetano, a situação de penúria da equipe que disputa a Série A-2 do Campeonato Paulista já teria sido motivo para mobilização a partir do Paço Municipal. O prefeito já teria arregaçado as mangas da inquietação com as manchetes de jornais que colocam a agremiação como vítima de alguém que já é visto como golpista ou cúmplice de golpista.

Separar a Administração Pública do futebol profissional como argumento de defesa do distanciamento do prefeito José Auricchio Júnior tem valor constitucional que, entretanto, não resiste à sensibilidade social.

Ausência da Prefeitura

O São Caetano não necessariamente precisa de recursos financeiros da Prefeitura, até porque não existe canal de irrigação que conceda legalidade à operação, mas deveria contar com o empenho do Paço Municipal em tratativas para minimizar estragos causados por Nairo Ferreira, sempre tão próximo ao chamado Palácio da Cerâmica.

Talvez o São Caetano ainda espere por um milagre que tem Saul como nome e Klein como sobrenome. É perda de tempo esperar pelo retorno do ex-executivo familiar da Casas Bahia. Saul Klein é o controlador da Ferroviária de Araraquara em parceria com uma das maiores agências internacionais de futebol. O mundo de doações milionárias de Saul Klein acabou. Cedeu espaço ao empreendedorismo.

O São Caetano precisa cair na realidade de que já foi o tempo de almoço de graça. Mais que almoço de graça: os recursos legais de Saul Klein garantiram muitas mordomias. Esperar pela volta de Fernando Rocha também é perda de tempo. Está na hora de quem gravita no entorno da Prefeitura liderar um processo de salvamento do Azulão, porque é disso que se trata. Ou dar alguma satisfação ao público. O São Caetano fez muito pela cidade. Por isso não merece um quase enterro anônimo.  

Na edição de 10 de julho mostrei os riscos de o São Caetano cair numa armadilha. Seguem o título original e alguns trechos da análise:  

São Caetano pode ficar sob o

controle de novo dono até 2057

 DANIEL LIMA - 10/07/2020

 Vai depender apenas do empresário Fernando Rocha Garcia o tempo em que o São Caetano ficará sob seu controle. Pode ser por alguns dias apenas ou por até 35 anos, até 2057, não até 2047 anos como afirmei numa primeira versão deste texto. É isso que consta do contrato entre a Detrilog Construções e Soluções Ambientais, o São Caetano Futebol Limitada e a Associação Desportiva São Caetano, partes envolvidas na negociação. O empresário recebeu o São Caetano sem custo na transferência, ou seja, a cessão/aquisição não se configurou onerosa. Mas terá a responsabilidade pela dívida de mais de R$ 20 milhões, que podem ser até R$ 40 milhões segundo fontes não oficiais do clube.

 (...) A Detrilog de Fernando Rocha Garcia é um parceiro do São Caetano que requer todo o cuidado. O empreendedor fez algumas incursões no mundo dos negócios do futebol e os resultados não o credenciam a ficar quase meio século à frente da agremiação. Os mais céticos dizem que não ficaria nem seis meses. Seria, Fernando Garcia, uma extensão de Nairo Ferreira. Mas Fernando Garcia parece confiante. Deu entrevistas remetendo o sucesso futuro ao passado de glórias do clube que Saul Klein sustentou por praticamente duas décadas. (...) Empresários do futebol torcem o nariz com o desembarque de Fernando Rocha Garcia. Mas não querem se comprometer. Preferem o anonimato. E também comentários de preocupação. Cada vez mais o mundo empresarial do futebol exigirá redes de especialistas em transformar um modelo excessivamente passional em lucratividade.



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