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Regionalidade

Placar municipal do vírus
é convite ao isolacionismo

DANIEL LIMA - 17/03/2020

O incensado e insensato marqueteiro do prefeito Paulinho Serra deveria se apresentar ao público em geral para que todos possam tomar conhecimento do quanto é estreito em regionalidade e estúpido em municipalismo. Não é que o cidadão cujo nome parece remeter a um ex-marqueteiro petista levou o titular do Paço de Santo André a iniciar uma contagem político-eleitoral dos casos de Coronavírus no Município?  Isso é um convite ao isolacionismo municipal, parente direto da derrocada regional. Em tese, contraria os interesses do próprio prefeito.

Está nas redes sociais o tiro do marqueteiro no pé do prefeito. Coincidentemente, recebi a mensagem em aplicativo quando, num restaurante de Santo André, degustava almoço de duas esfihas e um quibe, além de uma coalhada. Mal formulara o pedido quando apareceram o prefeito e dois assessores. Eles se sentaram algumas mesas adiante, mais próximos da entrada.

É claro que nos cumprimentamos. Tanto na chegada do prefeito quanto na saída deste jornalista. Estava ali como pessoa física, não jurídica. Como pessoa jurídica, também o cumprimentaria. Uma coisa são as análises que faço da gestão de Paulinho Serra. A mesma coisa é a sociabilidade. Tanto nos cumprimentamos que Paulinho Serra optou pelo protocolo coronaviriano de cotovelos em toque amistoso.  Confesso que não fui tão bem. Me atrapalhei. Talvez seja porque não consiga falar pelos cotovelos. Ou alguém tem dúvidas de que falar pelos cotovelos de vez em quando faz bem à alma?

Riscos estatísticos

Mas, voltemos ao que interessa. A mensagem oficial da Prefeitura de Santo André em forma de Whatsapp desembarcou no meu celular durante o almoço. Expressava o número de casos confirmados, número de casos suspeitos, número de casos descartados e número de mortes. O resultado, até então, era francamente favorável ao prefeito: nenhum caso confirmado, 14 suspeitos, 13 descartados e nenhuma morte. O que me pergunto é: qual será o placar final favorável ao prefeito? Trata-se de um contrato com o sucesso ou uma arapuca do marqueteiro?

Como se sabe e isso vai se configurar a cada dia, as primeiras vítimas já começam a ser contabilizadas. Resta saber se o placar político-eleitoral possivelmente à revelia do prefeito de tão complexo que é terá sequência e, com isso, seria transformado em placar de interesse público acima de interesses políticos.

Não responsabilizo diretamente o prefeito de Santo André pela municipalização explícita do Coronavírus. Sei que ele não tem o controle tático e estratégico das políticas de comunicação. Sei que há um marqueteiro-mor a dar as cartas e jogar de mão. Os marqueteiros são convincentes na arte de convencer mesmo quando não dispõem de insumos que resistam à coerência e, sobretudo, ao amanhã que sempre chega em forma de presente.

Marqueteiro que tem adeptos na gestão de Paulinho Serra, mas que não passaria jamais pelo meu crivo crítico. Sabem por que? Porque usa e abusa de subjetividades. Para quem, como eu, escreveu um livro chamado “Meias Verdades”, é impossível ceder à tentação desse marketing rastaquera cuja essência é acreditar que só há idiotas na comunidade municipal e regional.

Lições a aprender

Sei por terceiros próximos ao prefeito de Santo André que o marqueteiro é mesmo de lascar. E que direciona todas as mensagens da gestão do tucano. O problema é que, no caso do vírus que infesta o mundo, a iniciativa é, além de infeliz, confissão do retrato fiel do fracasso da regionalidade do Grande ABC. E isso é grave. Até outro dia, Paulinho Serra era prefeito dos prefeitos do Grande ABC e escalou Gabriel Maranhão, prefeito da inexpressiva Rio Grande da Serra, como sucessor.

Paulinho Serra não pode assumir a paternidade de um mal que deve ser compartilhado por todos os prefeitos da região desde 1990, exceto Celso Daniel. Trazer a bomba do municipalismo explícito para o próprio reduto num quadro de drama internacional seria estultice.

Sem fugir do assunto, até porque o guarda-chuva é a regionalidade, fosse o marqueteiro de Paulinho Serra algo mais que destrambelhado ou mesmo fosse Paulinho Serra menos dependente do marqueteiro destrambelhado, nesta altura do campeonato o placar regional do Coronavírus seria bem-vindo porque expressaria no mínimo duas situações.

A primeira lição seria no sentido de que, finalmente, mesmo por força inexorável de uma endemia avassaladora, o espírito de regionalidade emergiu na região do bicho de sete cabeças.

A segunda lição é que haveria uma âncora informativa a ser observada e analisada atentamente no sentido de reduzir ao máximo o número de potenciais vítimas do vírus chinês.

Acho que ainda haveria uma terceira lição a ser exposta com o placar regional do Coronavírus: demonstraria que o Clube dos Prefeitos, inútil, burocrático, politiqueiro, descuidado e tantas outras coisas finalmente encontrara um denominador comum para honrar a denominação-fantasia que lhe atribuo, porque Consórcio Intermunicipal é horroroso em termos de comunicação.

Cadê o Clube dos Prefeitos?

A verdade-verdadeira é que a regionalidade já está perdendo de goleada a guerra contra o Coronavírus. O simples fato de o Clube dos Prefeitos não ter movido uma palha para juntar em caráter emergencial e contínuo os titulares dos paços municipais, os secretários da pasta, os representantes de unidades de saúde privadas e públicas, e tantas outras representações que poderiam, sob o mesmo eixo conceitual, desenvolver ações grupais e complementares, demonstra o quanto de individualismo, de municipalismo, de isolacionismos, impregna a instituição ficcional chamada Grande ABC.

Como não tenho acesso a todas as redes sociais da região (limito-me ao Whatsapp), estou preso a exemplificar o caso de Santo André como o único que atravessa o fosso do bom-senso e se precipita desfiladeiro abaixo em forma de oportunismo suicida.

Projeto Tabajara

O placar do Coronavírus em Santo André teria replicantes nas demais cidades do Grande ABC ou seria filho único de uma idiotice sem tamanho? Teriam os demais prefeitos marqueteiro tão desastrado em forma de gênio, como tratam a sumidade de Santo André?

Não exagero em dizer que é idiotice sem tamanho. Ora, bolas: está na cara que a progressão de casos, considerando-se diagnósticos e estatísticas internacionais, só vai aumentar. E aumentar geometricamente.

Para manter a coerência, o marqueteiro do prefeito teria de seguir com esse Projeto Tabajara que também poderia ser chamado, complementarmente, de Projeto Pilatos. Ou seja: cuido do meu quintal e lavo as mãos ante os demais municípios, como se houvesse entre cada território local muros físicos intransponíveis; não bastassem os muros institucionais indevassáveis.

Falta de prática

Vamos ter nos próximos tempos na área de saúde, por força do Coronavírus, provas insofismáveis de que não contamos com adestramento regional para lidar com uma situação que ultrapassa limites geográficos. Uma situação que, tratada num ambiente de amadurecimento institucional, como deveria ter sido sedimentado ao longo de 30 anos pelo Clube dos Prefeitos, oporia ao vírus mais barreiras que facilidades para se propagar.

Por conta disso, arroubos municipalistas explícitos da gestão de Paulinho Serra por conta de um marqueteiro só se diferem de medidas adotadas pelos demais prefeitos exatamente porque passa o recibo do ônus espetaculoso do placar da endemia particularizado em Santo André.

Pior que o individualismo, joga-se em Santo André espécie de loteria da vida e da morte pelo Coronavírus. Afinal, não se tem a menor ideia do quanto o resultado final contemplará eventual vitória regional do formulador dessa idiotice municipal.



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