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Sociedade

Monotrilho ou BRT? Solução
mesmo é metrô de verdade

DANIEL LIMA - 10/05/2019

Vai muito além de simplificações técnicas e financeiras a definição do modal de transporte coletivo que reforçaria a tentativa de mitigar a debilidade do sistema de mobilidade urbana no Grande ABC. Mobilidade urbana é aquela coisa que está em cada esquina em forma de esgotamento de paciência para dar conta dos compromissos do dia-a-dia.

Quando a mobilidade urbana é catastrófica – e o Grande ABC só não chegou a esse estágio porque está em recessão há cinco anos – os estragos sociais e econômicos são imensuráveis.

Nem o monotrilho licitado em 2014 nem o BRT pretendido agora pelo governador do Estado, João Doria, vão salvar a lavoura do desenvolvimento econômico do Grande ABC -- porque a lavoura regional está em frangalhos.

Quem tem apresentado o monotrilho como pó de pirlimpimpim para todos os males da região ultrapassa a linha de fundo da sensatez ao vender duplamente gato por lebre – primeiro, de monotrilho por metrô; segundo, de vacina contra todos os males econômicos regionais. Fosse assim, São Paulo que é São Paulo, a Cinderela que todos reverenciam, seria um paraíso porque conta com quase 100 quilômetros de metrô de verdade. 

A melhor alternativa 

A melhor saída para a questão é mesmo o metrô de verdade. E o metrô de verdade não cabe no figurino gataborralheiresco da região, tratada com desdém desde sempre pelo governo do Estado e pelo governo federal – exceto durante o governo petista, claro.

Querem uma prova de desdém? A nomenclatura do monotrilho (Linha 18-Bronze) nos remete a posicionamento secundário, atrás das linhas ouro e prata. Parece bobagem, mas é o resumo da ópera da maneira com que os donos da bola do governo estadual sempre nos trataram.

Eles são tão bonzinhos que nos deram um presente de grego econômico chamado trecho sul do Rodoanel, traçado fechadíssimo para a preservação do meio ambiente que nos rouba riquezas todos os dias do ano e nos coloca cada vez mais no fundo do poço da competitividade.

Resta saber o que vai pesar mais na definição que se pretende para acabar com esse forrobodó de fundo logístico que mexe com tantos interesses políticos e econômicos, porque é disso que se trata.

Metrô para poucos 

O metrô, fora de questão, é o mais escancaradamente necessário para preencher todos os requisitos. Mas vá dizer isso ao governador do Estado. Metrô é coisa fina, que só pode ser implantado nestes tempos difíceis nas áreas mais nobres da Capital. O restante da geografia paulistana está contemplado por projetos de monotrilhos que, embora os lobistas tentem negar pateticamente, é o restolho do restolho da tecnologia de transporte.

O que se pode fazer, portanto, ante um Estado ainda não quebrado como a maioria dos entes federativos, mas amarradíssimo num orçamento quase todo comprometido com gastos de servidores da ativa e, principalmente, aposentados?

Vejo alguns pontos que não podem ser desconsiderados em qualquer discussão sobre o monotrilho que virou metrô nas páginas do Diário do Grande ABC e pode se consolidar como BRT no Palácio dos Bandeirantes. 

 Aspectos técnicos

 Aspectos urbanísticos

 Aspectos econômicos

 Aspectos sociais

 Aspectos políticos

 Aspectos criminais

Sob qualquer ponto de vista, somente o metrô, o metrô de verdade, aquele bólido que geralmente invade o espaço sob a superfície da terra, apenas o metrô contempla tudo isso quando visto de forma sistêmica e também de confronto em relação a outros modais, a modais complementares.

Por isso que metrô naturalmente exige maiores investimentos. Especialistas garantem empiricamente que, embora custe bem mais caro no desencaixe de hoje, metrô é muito mais barato no médio e no longo prazos quando se aferem receitas e despesas observadas sob outros ângulos, principalmente de segurança e rapidez.

Carros usados 

Monotrilho e BRT, mais em conta em desencaixe financeiro, exatamente nessa ordem, são arremedos de tecnologia. São uns puxadinhos que custam muito mais caro a cada temporada de uso.

Monotrilho e BRT são esses carros velhos que queimam energia e reiteram desarranjos operacionais mais incidentes a cada nova viagem. É o barato que sai caro. Monotrilho ou BRT são ótimos investimentos públicos para enriquecer o currículo de prefeitos e governadores porque sempre queimam etapas e podem ser entregues em tempo recorde.

Por essas e outras quem coloca apenas na bitola de sensibilidade técnica a disputa entre monotrilho e BRT enxerga apenas um buraco de fechadura de um quarto às escuras.

Caso, por exemplo, do secretário-geral do Clube dos Prefeitos, Edgard Brandão. Num evento sobre mobilidade urbana realizado na Universidade Municipal de São Caetano (USCS), Brandão fez uma quase que frenética defesa do sistema de monotrilho, munido de estudo daquela entidade que já completou 10 anos. Isso mesmo: 10 anos. 

O título de engenheiro pode e deve dar credibilidade acima da média ao executivo público escolhido pelo prefeito Paulinho Serra para comandar o dia a dia do Clube dos Prefeitos; entretanto, está muito longe de ser tudo de que precisamos, sobretudo porque o engajamento político-partidário costuma turvar a inteligência e interdita o contraditório saudável.  Talvez o vício natural do tecnicismo atrapalhe a configuração de um ideal mais complexo.  Os especialistas devem ser sempre saudados, mas o contraponto de complementaridades afins é valiosíssimo. Gostem ou não. 

Faltou o outro lado 

A avaliação feita por Edgard Brandão, segunda a qual o estreitíssimo viário de São Bernardo não comportaria corredores de ônibus privilegiados, que vêm a ser o BRT, é corretíssima se for considerada a qualidade de transporte coletivo de que se precisa na região – e a combinação de uso com outros modais, inclusive com veículos particulares. Mas é um diagnóstico parcial, no sentido de que exigiria outras observações.

Por exemplo? Para que subjacentemente ele, Edgard Brandão, defendesse a manutenção do contrato de licitação do monotrilho, não seria justo que incorresse em omissão de lascar, ou seja, de que também o traçado do monotrilho, esse monstrengo de pilastras elevadíssimas, é um complicador ao sistema viário da região central de São Bernardo. Afinal, se trata de um trambolho visual, estrutural e ocupacional. 

Por onde o monotrilho passa deixa, nas proximidades, um ar de desalento e de abandono, ou de atividades econômicas primárias. À exiguidade de espaço aos corredores de ônibus privilegiados se contrapõe com a mesma gravidade a gigantesca massa de concreto a céu aberto, invadindo áreas já ocupadas por moradias e atividades econômicas. Um estupro que vai muito além do visual. É degradação pura do ambiente urbano. Coisa de Terceiro Mundo. 

Condomínios residenciais 

Há adicional sobre o desconforto urbano que o executivo público Edgard Brandão não abordou no encontro em São Caetano. O monotrilho é um elefante físico nos corredores de cristaleiras de qualidade de vida de condomínios residenciais que, ao longo dos últimos anos, se anteciparam à obra anunciada com estrondo pelo mercado imobiliário sempre voraz.

Aliás, o mesmo mercado imobiliário que se mobilizou tanto para anunciar em páginas de jornal que era um negócio da China comprar imóveis no entorno do monotrilho, mas que se mantém em silêncio diante da frustração dos novos moradores que acreditaram no conto da Carochinha de ir e vir a São Paulo num piscar de olhos, gozando de um metrô que jamais existiu porque metrô é uma coisa e monotrilho é outra coisa.

Quem quer esse vizinho? 

Gostaria de saber a opinião de Edgard Brandão, e de todos que defendem o traçado do monotrilho, o que diriam sobre as obras caso morassem na vizinhança próxima do traçado projetado para esse lombrigão que é muito pior sob todos os pontos de vista que o minhocão tão combatido. Pior porque o minhocão é relativamente de curta extensão ante os 15 quilômetros prometidos do monotrilho.

Vamos ser mais diretos: se já lá atrás, às primeiras notícias de que o monotrilho chegaria a São Bernardo, moradores do condomínio de classe média Domo, nas proximidades do Paço Municipal, engatilharam reação diante do anúncio da chegada do mostrengo ao invés do metrô prometido, imaginem quando eventualmente as estacas começarem a sacudir aquela área. A perspectiva de ter um vizinho indigesto à janela dos apartamentos, a sugar a paciência, a intimidade e a valorização monetária dos imóveis, não é exatamente um cardápio que se apresente num restaurante de classe média. 

Suporte ao Aeroportozão 

A cada dia que passa o monotrilho vendido como metrô vira uma bola de neve de soluções automáticas para o futuro do Grande ABC. Ainda na edição de hoje do Diário do Grande ABC o economista Jefferson José da Conceição, da Universidade Municipal de São Caetano (USCS) volta à carga com a ideia do que chamei de Aeroportozão, ou seja, um lunático Aeroporto Internacional que seria construído numa São Bernardo cujo território livre de habitações está reservado aos mananciais nem sempre bem cuidados. 

Não bastasse esse besteirol já fartamente nocauteado, o professor agora incorpora o monotrilho como peça fundamental à viabilidade financeira porque possibilitaria a conversão de vários modais em direção ao paraíso do Aeroportozão. Não vou entrar em detalhes porque há determinadas situações que, mais que desqualificar propostas absurdas, recomenda a grandeza do silêncio como resposta. 

Para os leitores terem uma ideia sobre o quanto já escrevi sobre o anedótico Aeroporto Internacional de São Bernardo, o Aeroportozão, nada menos que 80 textos. Trato o assunto de forma direta ou tangencial. O que parece existir entre alguns acadêmicos (seriam mesmo alguns?) é uma vocação incontrolável ao romantismo combinado com a síndrome de manchete, ou seja, um cruzamento entre a mula manca da fantasia e os espaços sempre disponíveis nas mídias. 

Em outros tempos, intervenções como a do professor Jefferson da Conceição me causariam indignação. Agora, vacinado, o sentimento que sobrou é de quase indiferença. 

Fantasma de Paulo Preto

Quanto aos aspectos criminais do monotrilho licitado em 2014, já escrevi aparentemente o necessário numa das últimas edições. O governador João Doria recebeu sinalizações de que dar encaminhamento àquela licitação é um risco entre outros por causa de suspeitas de traquinagens nos valores correspondentes às desapropriações que hoje alcançariam R$ 1 bilhão. O fantasma de Paulo Preto, executivo da Dersa que está preso acusado, entre outros crimes, de transformar desapropriações em rios de dinheiro, incomoda a cúpula do governo estadual. A força-tarefa da Lava Jato Paulista estaria muito próxima de novas irregularidades. 



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