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Administração Pública

Capital Eleitoral é complexo
em regiões metropolitanas

DANIEL LIMA - 07/05/2019

O estoque de Capital Eleitoral no contexto desse novo capítulo de análise da plasticidade e consistência dos eixos estruturais de Capital Social de um prefeito de plantão começa no primeiro dia de mandato e chega ao ápice do escrutínio popular quando novo mandato é colocado em xeque, direta ou indiretamente. Ou seja, com a postulação de reeleição ou o apoio a um aliado.

A formação desse estoque é desafiadora principalmente a administradores de municípios de regiões metropolitanas com a característica do Grande ABC não só integrado socialmente no âmbito interno como também inserido no contexto da Capital.

Aqui a bola pode ser redonda, mas é preciso que se prove redonda e, para se consolidar redonda não permite grandes derrapagens. Outras regiões metropolitanas brasileiras são demograficamente mais esparsas, menos interdependentes na Economia e também menos influenciadas na cultura e nos costumes.  Não se vive impunemente na Região Metropolitana de São Paulo. Da mesma forma que se alcança grandes objetivos nessa área demograficamente maior que dezenas de países.

Há outros vetores que compõem o Capital Social de um administrador público e que também influenciam o resultado final das urnas, mas Capital Eleitoral tem peso bastante importante.

Controle do jogo

Uma das regras essenciais para o Capital Eleitoral trafegar relativamente em segurança para quem está no poder e pretende continuar no poder consiste em ter o controle do ambiente público.

Entenda-se ambiente público como a população em geral e os eleitores em particular que observam o andar da carruagem do Executivo Público. Pesquisas qualitativas são uma solução com certa garantia de que não se está comprando gato por lebre.

A tecnologia digital também oferece possibilidades de entender a linguagem crítica da população praticamente em tempo real, com a chamada mineração de dados. Entretanto, essa medida assegura mais garantias de compreensão em períodos cada vez mais próximos da chegada das urnas, quando as eleições passam a constar da agenda da massa dos eleitores.

Antes disso, fragmentos seletivos podem induzir a erros ao expressarem nichos mobilizados a favor ou contra o prefeito de plantão.

Terra suburbana

A periferização cultural do Grande ABC, tema sobre o qual os triunfalistas execram qualquer tipo de avaliação, transforma as eleições locais em algo mais desafiador do que na maioria dos municípios do País. Talvez o Grande ABC seja o espaço territorial mais contaminado pela cultura da Capital de uma metrópole no País.

Afinal, são mais de 20 milhões de pessoas num espaço de oito mil quilômetros quadrados. Mais que o dobro da população do muito maior territorialmente Rio Grande do Sul. E metade está concentrada na cidade de São Paulo, anos-luz à frente dos demais municípios em bens culturais e em alternativas de mídias. O gataboralheirismo do Grande ABC é latente.

Jamais se mediu e mesmo que tentativas sejam feitas nesse sentido é muito pouco provável algum estudo empiricamente respeitável que defina a influência do ambiente paulistano na periferia que o cerca, sobretudo do Grande ABC. Sabemos que sofremos com os movimentos do navio paulistano em tudo que se refere a percepções sociais. Mas não temos ideia do quanto se manifesta em determinados setores e atividades.

Capital dominadora

Nas eleições municipais, por exemplo, estamos na sombra das campanhas televisivas centralizadas na Capital. Seria impossível permanecer intocável às ações e reações dos políticos que concorrem, por exemplo, à Prefeitura Paulistana. Até porque a influência partidária se manifesta nessas horas. Há uma correlação indutiva a dar suporte ou a gerar antipatia de acordo com as cores de cada agremiação. Os vasos comunicantes da política partidária são mais fluentes entre a Capital e o Grande ABC. Em outras praças, servidas por retransmissoras de TV aberta, os danos locais são menores.

Percebe-se, portanto, que o Capital Eleitoral dos ocupantes das prefeituras do Grande ABC é bastante instável por conta de efeitos externos. E que se ramificam intramuros porque quase 30% da População Economicamente Ativa da região trabalham e praticamente vivem na Capital. Somente nos fins de semana temos moradores locais que vivenciam os ares locais.

Ambiente econômico

Também a atmosfera macroeconômica nacional pesa consideravelmente na reação dos eleitores em qualquer canto, mas pesa muito mais nos sete municípios locais dentro da Região Metropolitana de São Paulo. O senso crítico sempre se mostra mais intenso.

O ambiente econômico local e regional, que já não é lá uma maravilha, esgarça-se ainda mais em situações como a atual que vem desde 2014; ou seja, de emagrecimento contínuo dos indicadores de produção e riqueza. O PIB do Grande ABC é o PIB do Brasil piorado.

Um eleitorado que vai às urnas da região carregando peso sobressalente da insatisfação imposta pela fuzarca econômica nacional e regional está sujeito a tomadas de decisões menos dóceis. O voto de protesto vai, portanto, além das próprias razões municipais.

Domínio temático

A pergunta que emerge é como os prefeitos de agora procurariam minimizar esses estragos. Essa questão os desafia cada vez mais. Municipalizar a temática eleitoral é uma saída. Mas os meios de comunicação cada vez mais portáteis e democráticos colocam contratempos econômicos nacionais praticamente no mesmo saco de gatos. Se a Economia vai mal, o preço do desgaste não se limitaria ao governo federal. Cada vez mais há o que chamaria de municipalização da derrocada econômica.

A construção de Capital Eleitoral está, portanto, muito mais permeável a avarias do que a tessitura do Capital Político já analisado aqui. Manter os cordéis econômicos sob controle é praticamente impossível. As principais decisões se passam em Brasília e no âmbito municipal e regional há histórico de pasmaceira que nivela situação e oposição.

Talvez o melhor mesmo seja rezar, e rezar bastante, para que a economia nacional não persista em situação de elevadíssimas taxas de desemprego. O discurso oposicionista, mesmo em âmbito municipal, cala mais fundo no eleitorado quando se tem à mão filas e filas de desempregados. Um oposicionista com senso de oportunidade pode ligar uma coisa à outra, ou seja, a crise nacional e a inapetência de políticas municipais na área.

Mitigar os contratempos

O melhor em situação como essa, que impacta alicerces do conceito de Capital Eleitoral e de impossibilidade de administração do sentimento de frustração de elevadas camadas da sociedade, pode ser mesmo dispor de outros mecanismos de gestão pública, de enraizamento local, para mitigar os estragos.

O mesmo prefeito beneficiado no passado pode sofrer o efeito bumerangue na próxima eleição se o peso relativo de fatores externos no campo econômico tomar conta da agenda de Capital Eleitoral.

Há um parentesco muito próximo entre Capital Eleitoral e Capital Midiático, tema sobre o qual reservamos um capítulo específico mais adiante. Portanto, vou evitar ao máximo vinculá-los neste ponto do texto. Isso é possível também porque há outro fator, entre as múltiplas faces de Capital Eleitoral, que pode ser diagramado como relevante no resultado final. Trata-se do ambiente político que permeia o mandato de cada prefeito. Na medida em que se aguçam idiossincrasias de um País polarizado, estar na arena de confrontos cada vez mais intensos nas mídias sociais significa a potencialidade de enfraquecimento da gestão.

Desgaste partidário

Um prefeito de determinado partido que sofre desgaste com as estripulias da agremiação em âmbito estadual ou nacional deve preparar-se para os rescaldos que atingirão o Capital Eleitoral em algum momento, principalmente numa reta de chegada da disputa. As artilharias vão se multiplicar e se tornarão implacáveis.

Não é preciso ir longe para ver o quanto a Operação Lava Jato minou as bases petistas em diferentes endereços nacionais, sobretudo num Grande ABC onde sequer uma cidade vermelha foi mantida.

O Capital Eleitoral é um ingrediente de Capital Social dos administradores públicos da região a exigir muito mais atenção nos próximos dois anos. Haverá armadilhas a desmontar e operações de marketing a preparar antídotos ou redutores de estragos.

Aliados e redes sociais

Os aliados partidários amealhados durante a gestão em forma de Capital Eleitoral são sempre importantes na construção e disseminação da imagem do prefeito. A diferença em relação a outros tempos menos suscetíveis à tecnologia da comunicação portátil é que eles não têm a velocidade de ação de mensagens em massa de aplicativos. Dessa forma, a capacidade de intervenção direta de aliados à sustentação de um projeto de governo que está no poder passa por variáveis nunca antes tão potencialmente devastadoras.

Talvez o que possa assegurar solidez de Capital Eleitoral de um prefeito ao longo de quatro anos seja o monitoramento constante de variáveis que influenciariam o eleitorado nas urnas. O cometimento de erros administrativos crassos pode ser fatal se não houver tempo à correção de rumo.

O eleitorado nem sempre tem memória privilegiada, como se sabe. Uma besteira no primeiro ou no segundo ano de mandato pode ser contornada ao se observar o horizonte de comportamento eleitoral em tempos passados.

Resta saber, entretanto, se nestes tempos de redes sociais a reação seria igualmente providencial. Sobremodo se os erros administrativos invadirem o terreno da corrupção, do ilícito, do comprovadamente muito próximo da imagem de tudo que representa a Operação Lava Jato. Aí, o Capital Eleitoral vira pó. 

De zero a 10, a nota média de Capital Eleitoral dos atuais ocupantes dos paços municipais dos sete municípios da região é cinco. O peso ponderado de Capital Eleitoral no conjunto de Capital Social é de 10%.



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