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Administração Pública

Quem vai abrir caixa-preta do
monotrilho do Grande ABC?

DANIEL LIMA - 03/05/2019

Pode ser o governador do Estado, João Doria. Pode ser o Ministério Público em São Paulo. Pode ser o Ministério Público no Grande ABC. Pode ser qualquer um dos prefeitos cujo trajeto passe por Santo André, São Bernardo e São Caetano. Portanto, alternativas não faltam. Abundam, para ser mais exato.

Então fica a pergunta: quem vai abrir a caixa-preta dos custos de desapropriações para as obras do monotrilho, Linha 18-Bronze, objeto de tantas publicações nos últimos tempos?

Sabe-se, como já antecipei, que o governador do Estado não quer meter a mão na cumbuca de informações que lhe teriam chegado sobre manobras especulativas do mercado imobiliário que transformariam ricos em mais ricos com desapropriações que, em valores atualizados, chegariam a R$ 1 bilhão. Isso mesmo: R$ 1 bilhão. Doria quer trocar o modal para não ter complicações futuras como avalista de possível roubalheira.

Me surgiu mais um endereço que poderia se juntar aos demais como importante aliado à transparência total nos custos das desapropriações. É claro que estou me referindo ao Clube dos Construtores do Grande ABC, dirigido pelo empresário Marcus Santaguita. Que melhor oportunidade que esta para que o setor tão vilipendiado em ética durante os 25 anos sob o controle total de Milton Bigucci, mostre que os tempos são outros?

Espectro de Paulo Preto

Sei que sei porque me foi dado a saber que ramais da força-tarefa da Operação Lava Jato em São Paulo estão investigando tudo que cheire a Paulo Preto e entorno. E as obras do metrô e do monotrilho, algumas já identificadas como curral de propinas, não escapam aos olhos atentas e às mentes ágeis dos procuradores federais.

Desta forma, para evitar dissabores futuros, quem sabe os representantes da lista de interessados direitos no traçado do monotrilho que atenderia ao Grande ABC, bem que poderiam agir celeremente?

E nada mais fácil do que lançar mão da lista das áreas desapropriadas e respectivos proprietários. Mais que isso. Que tal uma varredura completa, com rastreamento de pelo menos 10 anos (afinal, o contrato do monotrilho da Linha 18-Broze foi assinado em 2014) dos proprietários e ex-proprietários dos imóveis?

Mais que isso, para ser completo: quais os valores das transações e quais os valores das desapropriações? E, melhor ainda: uma checagem completa dos valores praticados no mercado, não nas tabelas manipuladas pelos lobos em galinheiro.

Fazer esse tipo de sugestão no passado recente, antes que a Lava Jato aparecesse no circuito paulista, seria perda de tempo. Mas agora, com a disseminação dos conceitos de investigações, e, principalmente de delações premiadas, não se deve subestimar o que vem por aí. As obras do monotrilho, como tantas outras obras do Estado, com ou não influência de Paulo Preto, são obras que dão pano para manga.

Medidas compulsórias

Fosse esse País algo que não se confundisse historicamente com a casa da mãe joana, esse tipo de sugestão seria totalmente dispensável. Faria parte da transparência de gestores públicos mostrar para a sociedade a origem e o destino da dinheirama de desapropriações, bem como, claro, a ficha de cada imóvel. Informações privilegiadas transformam mercadores imobiliários em milionários imobiliários num piscar de olhos. E os beneficiários, tipo Paulo Preto, saltam pelo ladrão.

Descubro nestas alturas do campeonato que, além da turma toda que mencionei lá em cima como endereços ao escancaramento das entranhas das desapropriações dos terrenos no entorno do monotrilho do Grande ABC, que também a Assembleia Legislativa poderia entrar em ação. Quem sabe uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para valer, não como mais um conchavo político-partidário que faz a festa dos mais espertos, não possa furar a fila burocrática em nome da defesa do Estado?

A chamada Bancada do Grande ABC, que jamais existiu e jamais existirá enquanto formos uma Província, mas que de vez em quando aparece em manchetes de jornais locais como se viva estivesse, bem que poderia colocar essa pauta de forma prioritária, aproveitando todo o espaço editorial que o Diário do Grande ABC está dando para cobrar do governador do Estado a manutenção da licitação e das obras do monotrilho, não do BRT.

Onde estão nossos valentes deputados que não se mobilizam em torno do assunto?

Cobrar da sociedade civil qualquer iniciativa semelhante é perda de tempo porque não temos sociedade civil, como estou cansado de afirmar. Aqui temos nichos bem definidos de Sociedade Servil, Sociedade Hostil, Sociedade Civil e Sociedade Imbecil.  

Seria extravagância contar com Sociedade Civil numa região em que o tripé que sustenta Capital Social há muito foi para o brejo do desencanto.  Fabricar uma tal de Sociedade Civil de araque é de lascar, convenhamos. Aqui viceja o mais extraordinário manancial de desalento de que se tem notícia.

Não existe Capital Social na região sob qualquer ponto de vista porque o Poder Público controla praticamente todas as regras do jogo da democracia. A Sociedade e o Mercado comem poeira. Seus representantes não se organizam e muito menos se mobilizam.

Um caso como esse de mega-desapropriação para abrir espaços ao monotrilho seria alimento nutricional de cidadania obrigatória. Não precisaria um jornalista expor-se como me exponho. Ir adiante em assuntos indigestos já me custou condenação de um meritíssimo que não entenda patavina de jornalismo. Nem de responsabilidade social.

Presente de grego

Espero francamente que, principalmente o governador João Doria, com esse presente de grego do governador Geraldo Alckmin a açoda-lo, siga decidido a manter ligados os radares de detecção de forças federais. A caixa-preta do monotrilho precisa ser aberta porque há antecedentes em desapropriações assemelhadas que fizeram a festa de bandidos sociais.

A massa de dinheiro que sairia dos cofres públicos no caso de o monotrilho ser confirmado não pode ser observada com parcimônia, entre outras razoes porque, ao se confirmarem os indícios de que como no caso do Rodoanel, em vários trechos, houve gatunagem generalizada, os recursos sairiam mais uma vez do bolso dos contribuintes.

O monotrilho previsto para o Grande ABC é o primo pobre dos transportes coletivos metropolitanos cuja importância relativa em confronto com o BRT não interessa nesse caso. O que está em jogo é outro tipo de embate, e nesse embate, a Operação Lava Jato Paulista deverá prevalecer.

O governador do Estado tem informações suficientes para entender que não se trata, portanto, de um modal ou outro, mas de um modo de gerenciamento público que, desde 2014, entrou em convulsão. Gostem ou não os prevaricadores éticos que preferem chamar a Lava Jato de Partido da Polícia.



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