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Imprensa

Nem desindustrialização, nem
sindicalismo. Pode isso, Arnaldo?

DANIEL LIMA - 03/05/2019

O leitor acredita que, mesmo com tudo que se vê na geografia regional e tudo que se consome de informação neste site, detentor do maior estoque de análises sobre o Grande ABC, ainda exista quem coloque a irrecuperável desindustrialização em dúvida? Quer mais? Que não instale o sindicalismo bravio desde os tempos de Lula da Silva entre os principais ou o principal passivo da desindustrialização? Vivemos tempos difíceis. Daqui a pouco vão propalar desprezo ao oxigênio.

Acredite se quiser, mas é a pura verdade. Tem gente graduadíssima, presa a dogmas ou a imprecisões, quando não ao efeito espelho de integrar ramificações sindico-trabalhistas, que, despudoramente ou inocentemente, ousa condicionar “eventual desindustrialização” como forma de construir arrazoado sobre o comportamento da indústria da região. E que não faz menção alguma para contextualizar as perdas regionais, as quais, subliminarmente, se pretende negar esvaziamento industrial.

Vou deixar para uma próxima edição a análise do material ao qual tive acesso. Trata-se de gente qualificada que representa instituição de ensino igualmente qualificada. O que me deixa encafifado é como tamanhas besteiras passam pelos filtros que separaram verdade de invencionice.

Tratamento psicológico

Vou mais longe. Essa gente precisa passar por alguma sessão de psicanálise ideológica. A deformação pode ter essa origem como porta ao entendimento de questões mais que exumadas no léxico econômico do Grande ABC. A desindustrialização resultante entre outras razões do sindicalismo cutista/petista que nos acometem desde o começo dos anos 1990, com alguns períodos naturalmente cíclicos de revitalização circunstancial, ou seja, de prazo de validade exíguo, é dolorosamente estrutural.  

Pegar alguns períodos, ou um determinado período, como é o caso do estudo em questão, e transformar tudo numa maçaroca interpretativo-contestatória que solapa a clareza das evidências e provas provadas é algo como flertar com o ridículo.

Eu me sentiria desconfortável se produzisse aquela frase, a frase da condicionalidade da desindustrialização na região. Quem não só a escreveu como a mandou publicar em forma de estudos cometeu um crime de lesa-responsabilidade social. Afinal, quanto mais se pretende mitigar os fatos desagradáveis, mais se contribui para postergar medidas corretivas.  Quanto ao sindicalismo hostil, então, é o fim da picada sonegar o peso.

Juro por todos os juros que ao ler o material pensei em programar uma nova série de “Debate Digital”, como o fiz ao introduzir essa novidade neste site tendo como oponente o professor Ricardo Alvarez e como centro temático a Universidade Federal do Grande ABC.

Pensei mesmo em replicar aquele modelo de jornalismo interativo, por assim dizer, como reforço de insumos deste site. Mudei de ideia porque certamente colocaria meu novo oponente (ou novos oponentes, porque foram três acadêmicos a assinarem conjecturas desligadas da realidade fática) em situação semelhantemente embaraçosa, como Ricardo Alvarez e sua vocação à idolatria do Estado-Todo-Poderoso e a volúpia de tapar o sol das roubalheiras multipartidárias da chamada Nova República com a peneira da centralidade de críticas ao governo Bolsonaro, fruto, aliás, dessas deformações do Estado.

A grandeza que se pode extrair de qualquer debate, e “Debate Digital” foi criado exatamente com esse sentido, é que os contendores saiam fortalecidos e, principalmente, a sociedade esclarecida.

Balanço contraditório

A experiência com Ricardo Alvarez foi desanimadora, mas, ao mesmo tempo, muito esclarecedora. Imaginei que o professor da Fundação Santo André contasse com arranjos intelectuais para me tirar da zona de conforto conclusivo de que a UFABC não passaria mesmo de uma inutilidade ao desenvolvimento econômico regional. Queria que queria encontrar um obstáculo interpretativo que me fizesse refletir.

O resultado após pontos e contrapontos foi lastimável: o professor, integrante do PSol de Santo André, partido pelo qual concorreu em várias eleições após integrar o PT, fugiu da raia do foco do confronto em todos os parágrafos. Enveredou por caminhos tortuosos que não levaram jamais à UFABC.

Ricardo Alvarez não encontrou uma única raiz de sustentação a eventuais contestações do desempenho pífio, quando não desprezível, da Universidade Federal do Grande ABC no campo estritamente regional, para o qual deveria funcionar o tempo todo.

Portanto, convidar para uma nova edição de “Debate Digital” os três articulistas, por assim dizer, da chamada “Nota Técnica” carregadíssima de arrogância e sabetudismo, seria um repeteco da frustração inicial.

O que seria, afinal?

Quando digo “carregadíssima de arrogância e sabetudismo” ao me referir à “Nota Técnica”, me baseio no enunciado do subtítulo do material liberado à leitura: “A mudança no perfil do emprego formal do Grande ABC Paulista nos últimos trinta anos, 1989-1917: como os números devem ser lidos”. Os insumos seguem na mesma toada de algo que poderia ser rotulado de “indiscutível”, segundo seus autores.

Se não for arrogância, porque sempre é possível não ser o nariz empinado quando estão em jogo conclusões alternativas como dogmatismo ou a certeza de que não haveria oponentes preparados para exercer o contraditório, o que temos então seria um caso de completo desconhecimento econômico. Algo que não ficaria bem, também, porque se trata de três profissionais da matéria.

Vou dar um jeito de encaixar entre as pautas desta semana uma resposta pertinente àquele trabalho dos acadêmicos cujas identidades e corporação à qual pertencem serão revelados igualmente.

Bobos da corte

Mesmo os mais empedernidos triunfalistas, que ao longo dos tempos teimavam em negar a desindustrialização regional por conta de interesses próprios a preservar, sabem que integravam um bloco de bobos da corte soterrados pela realidade dos fatos. Quanto às iniciativas de puro anticapitalismo dos sindicalistas, sobretudo em São Bernardo e Diadema, a deserção industrial está aí para confirmar.

O ex-árbitro Arnaldo Cesar Coelho, endereço do bordão do narrador Galvão Bueno num questionamento clássico que ganhou configuração de publicidade e inclusive de música, ficaria horrorizado se fosse um regionalista sem ranço ideológico.



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