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Economia

São Bernardo empobrecida
lidera massa de proletários

DANIEL LIMA - 25/04/2019

Seria surpreendente e absurdo São Bernardo não liderar a massa de novos proletários (vou explicar o sentido desse verbete na sequência) que tomaram conta do Grande ABC de comprometedora e irrefreável desindustrialização também neste século. E o resultado, que também abrange a derrocada regional, não deixa dúvida: de 2000 até 2019, São Bernardo aumentou em 118,65% da massa de moradias que acolhem a também chamada Classe C, que, ideólogos manipularam como Nova Classe Média. Tudo bobagem. 

O resultado deste século é que o empobrecimento da região, solidamente comprovado também nesta série de análises, foi marcante com a avalanche de moradores que se situam um pouco acima dos estratos sociais de miséria e pobreza. 

Antes de seguir adiante, vou explicar o sentido de utilizar o termo “proletariado”. Simplifico o conceito histórico para facilitar o entendimento dos leitores. Chamar de Nova Classe C mais da metade de moradias do Grande ABC é um erro bárbaro. Como classificar nessa nomenclatura uma massa que recebe entre 1,92 a 3,37 salários mínimos por mês? Renda familiar, bem entendido. 

Poderia utilizar a expressão “Classe Média-Baixa”, mas seria um exagero indutivo a amenizar a pobreza latente. Proletariado dá ideia mais bem-acabada dos estragos sociais que a economia em degradação produziu. 

Decadência expressa 

Vamos mostrar novos dados do o comportamento da economia do Grande ABC neste século, tendo como base o chamado potencial de consumo, uma especialidade da maior empresa nacional no ramo, a Consultoria IPC, do pesquisador Marcos Pazzini. Potencial de Consumo, ou Poder de Consumo, é parente muito próximo do PIB (Produto Interno Bruto). E muito mais importante quando se pretende medir, no médio e no longo prazo, os efeitos do PIB no tecido social. 

O proletariado regional contava com 236.759 moradias em 1999. O volume representava 38,23% das 619.205 residências do Grande ABC. Já nesta temporada de 2019 são 469.617 moradias de um total regional de 948.800. A participação relativa cresceu para 49,49%. 

Estamos cada vez mais parecidos com a média nacional também entre os proletários. Não bastassem os pobres e os miseráveis, além das classes mais abastados, de Ricos, Classe Média Alta e Classe Média-Média.

O desempenho da decadente São Bernardo não poderia deixar de ser, mais uma vez, sinônimo de liderança regional, ou de mau exemplo regional. 

Diadema menos incidente 

Afinal, das 61.364 moradias de proletários em 1999, base da pesquisa, registrou 134.176 neste ano. Um salto relativo de 118,65%, ou 72.812 novos endereços. A participação relativa no conjunto de moradores passou de 32,45% para 47,28%. Ou seja: São Bernardo contava com um terço de proletários no total de moradias antes da virada do século, enquanto agora reúne praticamente a metade. 

Apenas Rio Grande da Serra registrou número mais negativo que São Bernardo no período. Não se deve considerar o resultado relevante porque o Município conta com apenas 16 mil residências para uma população de 51.009 pessoas, enquanto São Bernardo abarca 283.781 moradias e população de 837.781 habitantes. Houve acréscimo de apenas 5.209 moradias de proletários em Rio Grande da Serra no período de 20 anos – 7,15% do volume de São Bernardo. 

Por já contar com massa de proletários acima da média regional (eram 50,91% em 1999), Diadema acrescentou menos impacto desse estrato social em termos relativos no Grande ABC. O crescimento foi de 88,80%. Às 40.399 residências em 1999 foram acrescentadas 35.877, totalizando 76.276. A participação relativa no conjunto dos moradores passou para 53,99%, com acréscimo de 6,05%, o menor da região. São Bernardo aumentou em 45,70% a proporção de proletários no mesmo critério, o maior índice regional. 

Nem São Caetano escapa 

Nem a predominantemente classe média São Caetano escapou da degola da desindustrialização. O Município com o maior potencial de consumo por habitante da região aumentou em 92,79% o universo de proletários: eram 12.810 famílias em 1999 e passou para 24.696 na ponta da pesquisa. Em termos relativos, os proletários de São Caetano saltaram de 32,00% antes de o novo século começar e chegaram a 41,38% neste 2019, um pouco abaixo da média regional de 49,49%, portanto. 

O desempenho de Santo André na proletarização de moradias ficou um pouco abaixo de Diadema e também de São Caetano. Foram 86,40% de aumento de moradias; eram 63.600 em 1999 e passaram para 118.555 neste ano. A participação relativa também aumentou: de 36,92% em 1999 para 47,32% neste ano. Praticamente empatada com a vizinha São Bernardo e muito próximo da média regional. Tradução: nem com números relativos e absolutos melhores Santo André deixa de ser espécie de São Bernardo quando se abre a cortina do proletariado. 

As muito próximas Mauá e Ribeirão Pires tiveram desempenho semelhante no período de 20 anos. Mauá aumentou o contingente de moradias de proletários em 95,82%, ante 97,80% de Ribeirão Pires. Em Mauá eram 43.542 famílias em 1999 e agora são 85.265, enquanto em Ribeirão Pires eram 10.651 e agora são 21.067. Em termos relativos, os proletários de Mauá eram 45,86% das moradias e passaram para 54,56% neste ano. Em Ribeirão Pires eram 39,26% e passaram para 52,06%.  

Cara do Brasil 

O Brasil como um todo reúne números de residências do proletariado que se assemelham ao Grande ABC. Em 1999, enquanto 38,23% da população da região formava esse estrato social, no Brasil eram 31,18%. Do total de moradias no País, 10.325.494 eram integradas por proletários. Vinte anos depois subiu para 28.892.523 a população que flutua entre pobres e miseráveis, de um lado, e classe média-média, de outro. Houve no período crescimento relativo de 179,81%, mais que a recordista regional, São Bernardo. Mas a proporção chegou a número semelhante à média do Grande ABC: há 48,08% de proletários no País. Um pouco acima do que se verifica na região. Uma explicação sumária seria as correntes migratórias ainda expressivas nas regiões metropolitanas. 

Nunca é demais lembrar que a participação relativa do Poder de Consumo do Grande ABC em relação ao Brasil sofreu deterioração de 25,04% neste século. Contávamos com índice de 2,28420 em 1999 e caímos para 1.70103 nesta temporada. Em termos monetários, São Bernardo foi quem mais sofreu no período ao registrar crescimento nominal, sem considerar a inflação do período de 410,95%; bem menos que a média regional, de 477,88% e muito menor ainda que a média nacional, de 728,53%.

Como previmos já há muito tempo, para irritação dos triunfalistas inúteis de plantão, ou seja, os vendedores de ilusões, estamos cada vez mais nos tornando a cara do Brasil em poder de consumo. Não há resultado mais desalentador, porque o Brasil praticamente não sai do lugar desenvolvimentista há várias décadas. 

Os proletários destes tempos modernos que o digam. Eles escancaram a desfaçatez dos manipuladores semânticos especializados em dourar a pílula do empobrecimento quando interesses político-ideológicos sobrepõem-se a tudo, inclusive ao bom senso, quando não à responsabilidade social.



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