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Economia

Classe média alta também
desaba em São Bernardo

DANIEL LIMA - 23/04/2019

Cai do andaime do otimismo desenfreado quem acha que São Bernardo, Capital Econômica do Grande ABC, só perdeu famílias de classe rica e foi sobrecarregada por famílias pobres e miseráveis neste novo século. Também entre as famílias de classe média alta houve ruptura do tecido de mobilidade social. São Bernardo é um caso calamitoso, por isso precisa passar por reengenharia administrativa no campo público e onda reformista na área institucional.

As 8.162 residências que deixaram a classe média alta são mais de dois terços dos 11.696 que desapareceram no Grande ABC desde o ano 2000. A participação relativa da classe média alta em São Bernardo caiu 52,72% no período, contra a média regional de 45,63%.

Ou seja: por mais que se pretenda encontrar alguma válvula de escape regional, o fato é que a vaca econômica de São Bernardo vai para o brejo e leva os demais municípios ao mesmo destino.

É a influência direta e indireta da Doença Holandesa sobre a região. Ou seja, a dependência excessiva do setor automotivo.

Enrascada geral

Os números exclusivos da Consultoria IPC não deixam dúvida. Mais que isso: confirmam em detalhes o que tenho escrito a trezentos anos: o Grande ABC é um barril de pólvora social e uma armadilha econômica ditada pela dificuldade de conciliar série de quesitos, um dos quais os desequilíbrios econômicos e sociais ditados pela supremacia da indústria automotiva em constante esvaziamento.

A influência deletéria da atividade no restante do setor produtivo da região imprime condicionamentos à cultura produtiva. Os referenciais do setor automotivo, sobretudo das montadoras e das grandes empresas de autopeças, impõem às pequenas e médias indústrias medidas trabalhistas quase imperiais. Por mais que tenha havido mudanças neste século, menos na arena concorrencial.

A soma de famílias de classe rica (conforme escrevi na edição de ontem) e de classe média alta (da qual tratamos neste texto) apeada dessa condição social chega a 15.925 residências, ou perto de 50 mil pessoas. A participação relativa da classe média alta em São Bernardo era de 14,85% em 1999, base dos números de poder de consumo da Consultoria IPC. Agora, em 2019, registra 7,02%. Daí a queda de 52,72%.

Para se ter ideia mais precisa do que era São Bernardo antes da virada do século e o que é agora basta citar que a participação relativa de famílias de classe média alta era um pouco superior a registrado em São Caetano, de 14,71%. Os efeitos da desindustrialização foram mais contundentes em São Bernardo no período de duas décadas, já que São Caetano contabilizou perda relativa de 30,45%, porque chegou a 2019 com 10,23% de participação de classe média alta – o melhor índice da região.

São Caetano perde menos

A perda de São Caetano foi uma das menores entre os municípios do Grande ABC. Santo André caiu 41,50% de classe média alta em proporção ao que apontavam os números em 1999. Eram 12,12% da população total e passou a 7,09%.

Diadema ficou em posição intermediária nesse ranking de rebaixamento de participação relativa da classe média alta: eram 6,52% das famílias em 1999 e passaram a 4,13%, com queda de 36,65. 

Mauá só perdeu estoque de classe média alta para São Bernardo nessa competição de 20 anos. Eram 7,12% e passou para 3,92%. Queda de 44,94. Ribeirão Pires perdeu 42,57% de participação relativa (era 9,42% e caiu para 5,41%) enquanto Rio Grande da Serra, o menor dos municípios da região, caiu 17,73% (eram 3,61% e virou 2,97%).

Quando se colocam os números de São Bernardo em confronto com os demais municípios da região chega-se à conclusão que a Capital Econômico perdeu 14,8% de participação relativa no estoque de famílias de classe média alta. As 28.079 residências dessa categoria social em 1999 viraram 19.917 em 2019, enquanto o estoque regional caiu de 70.145 para 58.445.

Perda de atratividade

Perder tantas famílias de classe rica e também de classe média alta é um péssimo negócio para qualquer região. Isso significa que o poder de consumo está-se esvaindo em extratos sociais que podem atrair investimentos nas áreas de serviços e comércio mais qualificados. Sem contar a debacle intelectual. Não é por outra razão, entre tantas, que o desembarque de shopping centers na região nos últimos anos se converteu em fracasso. Excesso de oferta e quebra da demanda são um convite ao desastre dos negócios.

Para se ter ideia mais precisa do que representa o poder de consumo das famílias ricas e de classe média alta no Grande ABC, os estudos da Consultoria IPC preveem para este ano o total de 33,50% de valores gerais nessas duas categorias.

As famílias de classe rica têm para gastar nesta temporada 14,9% (R$ 11.837.709 bilhões) de um total regional de R$ 79.717.718 bilhões. A classe média alta consumirá 18,6% do total regional, ou R$ 14.817.443 bilhões.

Em 1999, base dos estudos da Consultoria IPC, as duas classes representavam 42,79% de tudo que se tinha para gastar na região. Houve, portanto, uma queda de 9,29 pontos percentuais. Ou de 21,71% no período.

Situação mais sombria

A situação de São Bernardo, por ter perdido mais que qualquer outro Município da região neste século, é mais sombria. Somando-se as famílias de ricos e as famílias de classe média alta, São Bernardo saiu de uma participação relativa de 52,23% em 1999 para 28,80% nesta temporada. Um rebaixamento gravíssimo de 23,43 pontos percentuais (mais de duas e meia vezes maior que a média regional) ou de 44,86%.

Utilizarei vários textos para dissecar o poder de consumo do Grande ABC neste século. Poder de consumo, ou potencial de consumo, é o resultado de riqueza acumulada ao longo dos tempos. Quedas ou subidas tornam-se objetos de avaliações sem grandes riscos na medida em que os dados exibem intervalos maiores de tempo.

Vinte anos é um tempo suficientemente garantidor a assertivas. Até porque o poder de consumo está muito atrelado ao comportamento do PIB em períodos largos, além de outros indicadores econômicos.

A sistemática quebra do universo de famílias de classe mais elevada e também o inchaço das periferias com pobres e miseráveis (exatamente a situação do Grande ABC, com destaque alarmante para São Bernardo) que os dados da Consultoria IPC sustentam são uma orquestração programada pela incompetência generalizada sobretudo dos agentes públicos da região que jamais se dedicaram a enfrentar os desajustes econômicos.

Única exceção é Celso Daniel que, durante dois ou três anos à frente do Clube dos Prefeitos, no final dos anos 1990, procurou mobilizar mais que a classe política, mas também a sociedade na busca por medidas até então nada tão desafiadoras como agora.



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