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Economia

Exclusivo: São Bernardo lidera
queda de consumo no século

DANIEL LIMA - 16/04/2019

A Capital Econômica do Grande ABC vive um século tenebroso. Mais uma análise que elaboro contando com insumos exclusivos da Consultoria IPC, do pesquisador Marcos Pazzini, desnuda o empobrecimento de São Bernardo na esteira da desindustrialização.

Neste século, a partir de 2000 e até esta temporada, São Bernardo não conseguiu acompanhar o crescimento médio de consumo do Grande ABC, do Estado de São Paulo e do Brasil como um todo.

Trocando em miúdos: ano após ano está perdendo tônus econômico e social. Não é por outra razão que a chamada mobilidade social entrou em parafuso, como detectei já há algum tempo. Miserável virar pobre, pobre virar classe média baixa, classe média baixa virar classe média-média e classe média-média virar classe média alta é um processo cada vez menos provável em São Bernardo. Mais que na média da região.

Pior que não acompanhar o desempenho de outros endereços é apanhar seguidamente. São Bernardo perdeu a corrida de riqueza acumulada de goleada para a média nacional.  Houve uma perda relativa de 43,59% no confronto com o País, de 30,39% frente ao Estado de São Paulo e de 16,28% frente à média da região.

É por essas e outras (e o Grande ABC como um todo não escapa das complicações da desindustrialização) que tenho sido sistematicamente rigoroso. A negligência dos administradores públicos locais ao longo deste século chega a ser afrontosa. Assemelha-se às três décadas anteriores do século passado.

Os leitores não devem esperar neste texto uma coleção de números aos quais tive acesso e estou metabolizando. Isso ficará para os próximos dias. Inclusive com comparações que sempre faço, envolvendo os sete municípios da região e os 15 maiores municípios do Estado de São Paulo, exceto a Capital, os quais formam o G-22.

Mas alguns dados são elucidativos para mostrar o quanto o potencial de consumo da região esfarela-se em termos reais e relativos. Em termos reais porque perde força orgânica própria. Em termos relativos porque outras localidades dão de braçadas.

Parceiro de LivreMercado e de CapitalSocial há quase três décadas, o pesquisador Marcos Pazzini me forneceu um arsenal numérico sob encomenda. Queria saber a fundo o comportamento do potencial de consumo da região neste século. A base de dados deveria ser 1999. E o ponto de chegada esta temporada. Os números deste 2019 são exclusivos.

Nesse período de 20 anos (a contagem começa em 2000, sobre o ano anterior), o potencial de consumo do Grande ABC continuou a desabar em relação ao passado tormentoso dos anos 1990.

Perdemos 25,53% no Índice Geral elaborado pela consultoria que mais entende do que também pode ser chamado de PIB do Consumo no País. Em 1999 os sete municípios locais registraram 2,28420% de capacidade de consumir. Agora, em 2019, o índice foi rebaixado a 1,70103%. Isso significa que de cada R$ 100,00 consumidos ou prontos a ser consumidos no País, temos influência sobre R$ 1,70. No começo dos anos 1990 chegamos a R$ 2,92.

Maiores perdem mais

Os dois municípios mais populosos da região registraram maiores complicações para acompanhar o ritmo da própria região, do Estado e do Brasil. Vejam a tabela de comportamento no período: 

 Santo André contava com índice de potencial de consumo de 0,65334% em 1999 e caiu para 0,47941% em 2019. Queda relativa de 26,62%.

 São Bernardo contava com índice de potencial de consumo de 0,81613% em 1999 e caiu para 0,53252% em 2019. Queda relativa de 34,75%.

 São Caetano contava com índice de potencial de consumo de 0,17030% em 1999 e caiu para 0,12807% em 2019. Uma queda relativa de 24,80%.

 Mauá contava com índice de potencial de consumo de 0,28294% em 1999 e passou para 0,25606 em 2019. Uma queda relativa de 14,90%.

 Ribeirão Pires contava com índice de potencial de consumo de 0,08808% em 1999 e passou para 0,06484% em 2019. Queda relativa de 26,38%.

 Rio Grande da Serra contava com índice de potencial de consumo de 0,02268% em 1999 e subiu para 0,02677% em 2019. Crescimento de 18,03%.

 O Estado de São Paulo contava com índice de potencial de consumo de 31,44138% em 1999 e passou para 27,30943% em 2019. Queda relativa de 13,14%.

A nova derrocada de São Bernardo (que segue alinhada ao pífio desempenho do PIB, Produto Interno Bruto, constantemente analisado neste site) está comprovada no desempenho ao longo dos 20 anos. Vejam o crescimento nominal (sem considerar a inflação do período), dos sete municípios da região, do Grande ABC como um todo, do Estado de São Paulo e do Brasil:

 Santo André – 529,34%

 São Bernardo – 410,95%

 São Caetano – 480,64%

 Diadema – 557,03%

 Mauá – 598,76%

 Ribeirão Pires – 468,38%

 Rio Grande da Serra – 811, 60%

 Grande ABC – 477,88%

 Estado de São Paulo – 590,41%

 Brasil – 728,53%

Há praticamente um ano, em maio do ano passado, escrevi análise que tratava da queda regional de consumo no Grande ABC pós-saída de Lula da Silva da presidência da República. Aquele período restrito de identificação do desempenho econômico da região foi apenas uma trégua no processo de queda continuada do potencial de consumo.

Queda novamente

O potencial de consumo desta temporada de 2019 na região é inferior ao do ano passado. Caímos de 1,72909% para 1,70103%. Essa variação anual é menos relevante que a prospecção histórica que os indicadores deste século oferecem. É muito pouco provável que o índice geral da região suba de um ano para outro.

O processo de fortalecimento e de enfraquecimento do potencial de consumo é menos suscetível a variações no curto prazo do que o PIB. Afinal, o potencial de consumo trata de riqueza consolidada ao longo dos anos na forma de renda e salários. Já o PIB obedece a oscilações de temporadas específicas. O PIB só tem semelhança com o potencial de consumo quando observado num horizonte mais longo.

Como é uma região com um passado de industrialização que deixou também frutos, como a consolidação inicial de uma classe média consistente, o Grande ABC tende a registrar perdas relativas de consumo inferiores às apontadas pelo PIB.

Uma comparação ano a ano vai apontar que as oscilações mais fortes serão sempre as do PIB, exatamente porque é um retrato em comparação ao que poderia ser chamado de filme envolvendo o consumo.

Uma Santo André

O caso de São Bernardo é particularmente perturbador porque segue linha de quebra de riqueza mais acentuada nos dois indicadores, ou seja, tanto no PIB como no potencial de consumo.

Na medida do possível, mas de forma relativamente constante, vamos destrinchar mais uma vez todos os números fornecidos pela empresa comandada por Marcos Pazzini.  A Consultoria IPC não tem concorrência no segmento de potencial de consumo porque alia à tradição diagnósticos múltiplos para empreendedores privados e gestores públicos.

Os R$ 79.717.718.501 bilhões de potencial de consumo do Grande ABC para esta temporada seriam R$ 100.069.652.034 bilhões caso se mantivesse o índice geral de 1999. Ou seja: em duas décadas completas, a região perdeu R$ 20.352 bilhões de riqueza acumulada em forma de renda e de salários. Perdemos praticamente uma Santo André (R$ 22.467 bilhões) no período.

Mesmo se reconhecendo que é pouco provável o indicador de participação de consumo seguir intocado, porque para tanto a região teria de correr na mesma velocidade média do Brasil, as derrotas frente a outras regiões e municípios reforçam a necessidade de planejamentos estratégicos municipais e regionais.

Tudo isso é indispensável para atenuar as vicissitudes naturais, mas nem por isso negligenciáveis, de enfrentar as dores do envelhecimento econômico no formato de uma indústria prevalecentemente automotiva.

Aguardem, portanto, novas incursões. E se preparem porque a mídia regional em geral vai erguer barricadas de triunfalismo em forma de manchetes e textos que vão glorificar uma falsidade que se repete a cada temporada: a de que somos a quarto ou quinta força nacional de consumo.

Esse pessoal ignora regiões semelhantes à do Grande ABC, como a Grande Campinas, a Grande Sorocaba, a Grande Porto Alegre e tantas outras. Insistimos em nos enganar num autismo tão desmobilizador quanto irresponsável.



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