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Gata Borralheira

EIS QUE CHEGA A MALVADA

DANIEL LIMA - 16/04/2002

-- Bem senhores e senhoras, não poderei ficar mais na reunião porque tenho novos compromissos. Vim mesmo para mostrar que sou resultado de vocês. Traduzindo: só faço o que vocês de uma forma ou de outra conseguem fazer eu fazer. Deu para entender? É meio complicado, mas é assim mesmo. 

-- Espera aí, poderoso Estado de São Paulo. Acho que você não pode ir embora assim, sem a chegada do anfitrião desse encontro, que nos mandou até aqui e disse que viria de qualquer forma. 

-- Mas a cadeira da cabeceira continua vazia. Você acha que vou ficar esperando até quando?

-- Não precisa esperar mais, porque cheguei. 

-- O que? Não é que chegou mesmo. Mas quem é você, toda emperequetada desse jeito? 

-- Espere aí, Estado de São Paulo. Não fale assim comigo não porque quem manda neste País sou eu, além de minhas duas filhas que estão aqui comigo. 

-- Mas quem é você, afinal, com essa roupa toda em preto, parecendo a madrasta do nosso Complexo de Gata Borralheira e suas duas filhas?

-- Vejam só, meus convidados, que São Bernardo matou na mosca. Sou mesmo a madrasta e essas são minhas filhas.

-- Não vai me dizer que é você que recolhe a maior parte dos nossos impostos, que gasta demais com uma máquina pública emperrada, que decide nossa macroeconomia, que acelerou demais a privatização das estatais e que abriu demais o mercado interno para os estrangeiros? Que jamais deu bola para a importância de tratar as regiões metropolitanas de forma diferenciada?

-- Vejo que Santo André sabe das coisas. Parabéns! 

-- Estou enganada, mas você, madrasta, é quem não tem políticas públicas voltadas para o desenvolvimento regionalizado, que não sabe o que é política industrial capaz de despertar a competição sem perder a dinamicidade interna do País? 

-- Também não exagera, querida Mauá.

-- Se é quem eu estou pensando, cara madrasta, bem que deveria dar uma espiada no que faço na área social para aplicar de forma organizada nos pontos mais carentes do País. Se faço isso com tão poucos recursos, imagine o quanto você poderia fazer com os impostos do País que já chegaram a 34% do PIB?

-- Já ouvi falar de você, Diadema, já ouvi. 

-- E de mim, cara madrasta, que dizem que sou rico mas estou perigando por causa da dependência da General Motors e das Casas Bahia? Será que não dá para elaborar um plano estratégico para quem é uma ilha de suposta prosperidade em meio ao caos urbano da Grande São Paulo? Até quando você acha que vou conseguir ficar incólume nesse quadro de embrutecimento da Região Metropolitana de São Paulo? 

-- Não chore de barriga cheia, São Caetano.

-- Até você, madrasta, vem com essa ladainha. 

-- E para mim, madrasta, que sofro como Capital automotiva do País? Você sabia que estou perdendo mais e mais indústrias, minha participação relativa no setor automobilístico nacional está em retração e tenho cada vez mais gente morando às margens da Billings? Minha situação é tão complicada que até gente da minha Prefeitura já disse, faz algum tempo, que estou à beira de uma ruptura social. Já imaginou como estou parecidíssimo com o Brasil?

-- Tem mais alguém para falar antes de apresentar o meu nome real e o das minhas filhas?

-- Tem sim, madrasta. Eu sou Ribeirão Pires e quero um plano intergovernamental para fazer de minha área ecológica o que chamam de desenvolvimento econômico sustentável. 

-- E eu sou Rio Grande da Serra. O que fizerem para a querida Ribeirão Pires, façam para mim também. 

-- Está bom, está bom. Vou anotar tudo isso, mas não garanto resultados porque sou muito burocrata, boa parte de minha representação no Congresso é conservadora, sou uma ilha de corporativismo, de lobbies, de tudo que vocês podem imaginar de um Estado carcomido. Mas o que vocês todos não podem esquecer é que sou exatamente o espelho fiel de tudo que vocês também representam. Sei que isso é dolorido, que causa trauma, mas seria absolutamente inédito que eu não refletisse todas as sequelas, todas as limitações, todo o jogo de interesses, toda a desídia que vocês e tantos outros municípios e Estados patrocinaram. 

-- Você não está querendo dizendo que somos iguaizinhos, certo?

-- Não é que estou querendo dizer, cara Diadema. Estou dizendo com todos os efes, os erres, as vírgulas e os pontos que somos iguaizinhos. Mas essa não é hora de fazer mais discurso nem de debates acalorados. Para acabar com o suspense, vocês já devem estar desconfiados de minha identidade. Meu nome é Brasília. Brasília, entenderam? A Capital da esperança. Ou não foi assim que o Juscelino me identificou quando de minha fundação?

-- Brasília, Brasília, é isso mesmo. Só podia ser Brasília. Mas me diga uma coisa, dona Brasília. Quem são suas duas filhas? Apresente-as para nós!

-- Pois não, São Paulo. São minhas filhas bastardas, mas mal consigo acompanhá-las porque elas são extremamente rebeldes e viajam pelo Brasil inteiro. De Norte a Sul, do Oiapoque ao Chuí. Por onde passam, provocam furor. Também, são tão lindinhas, não é verdade?

-- Então fale quem são, dona Brasília, fale quem são. 

-- Calma querida São Paulo, calma. 

-- Que calma nada, dona Brasília. Quero saber quem está do seu lado direito, esse verdadeiro exemplar de mambembice. Roupas rasgadas, cabelos em desalinho, magricela, analfabeta de pai e mãe. Como ela se chama, dona Brasília? 

-- O nome dela, caro Santo André, está na boca do povo, meus amigos. Até porque o povo não tem muito o que colocar na boca, não é verdade? Apresento-lhes ao vivo e em cores a famosa Exclusão Social. 

-- Exclusão Social? Só poderia ser mesmo, porque nós a conhecemos demais, dona Brasília, embora ela nunca tenha aparecido tão de frente, tão crua. Geralmente está na periferia. 

-- Pois é, São Bernardo, mas agora vou apresentar minha outra filha, que está do lado esquerdo. Não preciso descrevê-la, não é verdade?

-- Claro que não, dona Brasília. A gente está vendo a cara cruel dela. Quem não enxerga o que ela carrega na cintura. 

-- Está certo, Santo André. Está tão na cara o nome dela que talvez nem fosse preciso falar, porque você, Santo André, foi tão duramente atingido por ela em janeiro último. Disso ninguém esquece. O Brasil não esquece. 

-- Fale logo o nome dela, dona Brasília, porque eu não estou conseguindo identificá-la. 

-- Está bom São Caetano, está bom. Não precisa mostrar mais uma vez que é privilegiado nesse assunto. Senhoras e senhores, com vocês, o que existe de mais conhecido no nosso País, líder absoluta nas paradas de sucesso do Ibope e alegria dos programas de sensacionalismo. Com vocês, apresento a minha filha imbatível, estonteante e inigualável. Seu nome é Violência. Violência!!!

-- Violência! Violência! Violência? Violência?



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