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Regionalidade

Escalar um time é arte
também no setor público

DANIEL LIMA - 12/02/2019

O prefeito Paulinho Serra escalou um zagueiro como centroavante para comandar o dia a dia do Clube dos Prefeitos como secretário-executivo. Edgard Brandão é um profissional errado na hora errada no lugar errado, escrevi sexta-feira. E repito. Mas pode ser escalado, bem escalado, no mesmo Clube dos Prefeitos. A articulação junto aos agentes públicos seria um bom encaminhamento.

Basta que as qualificações de Edgard Brandão como conhecedor da máquina pública ganhem o espaço adequado. Escalar um time, qualquer time, não apenas time de futebol ou de outra modalidade esportiva, é uma arte. E um longo aprendizado.

Se a TV Globo comete bobagens umas atrás das outras ao remanejar profissionais, por que Paulinho Serra ficaria imune?

Não preciso dar nomes aos bois para exemplificar o quanto se erra na escalação de equipes em qualquer atividade humana. Como citei a Globo, vamos a exemplos da Globo, portanto.

De repórter a apresentadora

Uma senhora repórter de política em Brasília, que encantava telespectadores, virou apresentadora muito aquém das expectativas no Fantástico. A distância entre uma repórter cativante transposta à condição de apresentadora que prenda a atenção é enorme.

Há uma fase de adaptação que pode atropelar diagnósticos supostamente precoces, mas invariavelmente as primeiras apresentações no novo espaço já revelam a inaptidão. Está certo que o bom senso indica que se pode esperar um pouco, mas quem conhece mesmo o indicado dificilmente escala errado.

O problema é que falta combinar com os russos, ou seja, para indicar corretamente não basta apenas o convívio profissional. É precisa entender do riscado. Quase sempre um craque de bola não dá certo como treinador. E uma perna de pau faz carreira vitoriosa no banco de reservas. É muito raro ser um Tostão, craque tricampeão do mundo e o melhor cronista esportivo do País.

Também a Globo inventou de tornar um apresentador esportivo narrador esportivo. Caíram os dois do cavalo. A linguagem mais ou menos debochada, informal demais, não emplacou. Além do ritmo da narrativa, que tem tradicionalismo próprio e quem ousa contrariar dá com os burros nágua. Redes sociais e críticos de televisão estigmatizaram o experimento. O moço foi às profundezas.  

Poderia dar muito mais exemplos só com profissionais da maior emissora de televisão do País. São trocas nos últimos tempos que rebaixaram tremendamente a qualidade do produto final. Saíram vozes experientes e entraram ou saltaram à função de destaque gente pouco preparada à mudança. Ser um bom profissional nas transmissões predominantemente estaduais não é garantia de que teremos a demanda atendida em nível nacional.

A TV Globo também passou a ter o péssimo hábito de queimar gente talentosa da dramaturgia, inserindo-as em programas humorísticos. Não há quem resista a tamanho contraste.

Perda compensada

A perda de William Waack só não é irreparável na Globo News Painel e também no Jornal da Globo porque Renata Lo Frete é uma profissional e tanto, mesmo com outras características. Renata concilia conhecimento e discrição em doses perfeitas. Não exala ideologização.

Isso não quer dizer que Waack não fizesse doutrinação mais à direita, em defesa entre outras da economia de mercado e do Estado enxuto. Do meu gosto, se querem saber. De esquerdista estou cansado. Não que não me interessem; é que eles são a maioria nos meios de comunicação. Uma maioria de esquerdistas com mania de subestimar a inteligência alheia, por mais que tentem parecer neutros. O uso de determinados verbetes não segura a barra da tentativa de driblar o distinto público. Determinados tratamentos viram manifestação subliminar de militante.

Os direitistas são mais respeitosos, por assim dizer. Já foram mais envergonhados, também. Agora, com a eleição de Jair Bolsonaro, saíram da toca. No que fizeram muito bem. Democracia não comporta apenas um lado ideológico. Qualquer que seja. A vitalidade da sociedade depende de pontos e contrapontos. E de deslocamento ao desmanche de teorias e posicionamentos típicos de fundamentalismo.

Há nuances no conceito de saber escalar um time, derivadas de circunstâncias e contextos. Na revista LivreMercado, meu laboratório de liderança de 20 anos, tinha tanto controle técnico da Redação que tornava a equipe sempre numericamente modesta muito produtiva. Sabia porque sabia, e sabia porque sabia porque era um atento observador de cada parágrafo dos jornalistas, que havia quem se desse melhor como construtor de histórias pessoais, de personagens da região, do que como referenciador de políticas públicas de entrevistados. Devo ter cometido erros de avaliação, claro.

Também sem citar nomes, na LivreMercado que, repito, comandei por duas décadas, explorava no bom sentido o máximo das virtudes de cada um. É impossível encontrar um jornalista sequer que tenha muita abrangência para imprimir em cada movimento um talento inquestionável. Há determinadas temáticas que não cabem no figurino de gente brilhante, enquanto em outras podem esperar que vem show de bola.

Por isso, o princípio que sempre me moveu como jornalista na chefia de redação (e fora assim durante 15 anos no Diário do Grande ABC, além dos 20 de LivreMercado) era vasculhar as qualidades e as imperfeições de cada profissional.

Individual e coletivo

É impossível escalar um bom time sem que o princípio da individualidade a serviço do coletivismo do produto final não seja observado atentamente. Quando escrevi acima que Edgard Brandão é um zagueiro travestido de centroavante no Clube dos Prefeitos, quero dizer que ele não vai render o que naturalmente poderia. E que poderá se queimar. Tudo vai depender do aparato do entorno que lhe daria sustentação.

Voltando aos meus tempos de revista LivreMercado, porque foram aqueles 20 anos os mais sensacionais de minha vida de faz-tudo numa redação, o time jogava por música porque havia alguém a apurar as vocações individuais.

Chegamos ao ponto extremo da gestão de talentos, resultado de política de casamento entre estilo e temática, que até criei o que chamei de Teoria da Produtividade Editorial. Tratava-se de metodologia que media de forma sinérgica, elucidativa, esclarecedora, a produção, a produtividade e a qualidade de cada texto e seus respectivos autores.

De fato, acho que o rótulo que criei deixou de ser atualizado e modificado, porque a teoria pretendida se tornou programa de fato. A cada edição de LivreMercado, que era mensal, contava com planilha recheada de números que, em seguida, interpretava e analisava como resultado de um escultor que, da massa bruta, produziu a imagem de algo com que tanto sonhou ou, contrariamente, viu-se diante de uma grande surpresa que o levaria, em seguida, a correções.

Teoria vira programa

A Teoria da Produtividade Editorial foi um modelo de identificação de qualidades e deficiências de recursos humanos de uma redação que aprimorou não só o produto chamado LivreMercado como também os valores monetários despendidos. Chegamos ao ponto de saber exatamente quanto custava cada 100 caracteres produzido pelos jornalistas, bem como a nota média de cada texto integral. Cada edição contava em média com 350 mil caracteres. Era a união da economicidade e da qualificação.

Para quem não é do ramo editorial pode parecer árido e incompreensível um diagnóstico praticamente intocável que reunisse, repito, produção, produtividade e qualidade de textos.

Para quem é do ramo editorial, provavelmente esse mesmo diagnóstico seria uma aberração, algo inatingível, porque no mundo do jornalismo jamais houve inquietude com o mensurar de custos combinado com qualidade.

A burrice se instalara em redações a ponto de se medir cada profissional pelo prisma furado de produção exclusivamente física de textos. Uma aberração que, por exemplo, o Diário do Grande ABC sempre cultivou.

Uniformizando subjetividades

Mostramos que a Teoria de Produtividade Editorial era uma ferramenta possível e extraordinária de gestão. Claro que só poderia ser resultado do trabalho de alguém que metesse com fundamentalismo religioso a mão na massa, dedicando horas a fio para controlar de ponta a ponta uma concepção carregada de subjetividades.

Nada melhor para reduzir o impacto analítico de subjetividades do que ter apenas um controlador do processo. Dessa forma, a subjetividade deixa de carregar octanagem desclassificatória e entra na zona de avaliação sensível à realidade.

Uma nota sete a determinada matéria (atribuía notas a cada uma) estava associada a todas as demais de cada edição. E por trás de cada nota havia uniformidade de ponderações que somente a experiência no ramo permitiria, além de vetores internos, de embrenhamento cultural da publicação.

Traduzindo: um trecho de uma matéria sobre regionalidade que colidisse com os aspectos exaustivamente publicados mereceria reparo imediato, antes da edição, exceto no caso de ter sido de autoria de terceiros, no caso de entrevistados. Mas, mesmo assim, a característica de LivreMercado era de alertar os leitores sobre eventuais equívocos de terceiros. Claro que havia exceções à regra que não implodiam o legado da publicação.

Saber escalar um time, qualquer time, é muito mais complexo do que imaginam os simplistas. A sintonia fina entre o que se pretende e aqueles que executarão a tarefa permeia todo o processo.

É impossível sensibilizar, por exemplo, os agentes econômicos privados tendo à frente da bateria alguém que só entende de administração pública e mesmo assim com limitações quanto a uma especificidade de raríssimos protagonistas, como é o caso de regionalismo.

Dessa forma, um zagueiro potencialmente competente pode ver-se na condição de centroavante improdutivo.  



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