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Gata Borralheira

QUEM PARTICIPA?

DANIEL LIMA - 16/04/2002

-- Muito bem, Rio Grande da Serra, mas deixe botar minha colher nessa conversa e voltar ao empenho sindical para combater nosso Complexo de Gata Borralheira. Santo André e São Paulo têm razão. Ninguém melhor que São Bernardo para sair do casulo sindicalista e colocar a questão da metropolização da Grande São Paulo na pauta dos 39 municípios. Posso fazer pouco nessa mobilização, porque praticamente só tenho trabalhadores da General Motors e de uma meia dúzia de fábricas. São Bernardo é diferente. Podem contar com o apoio moral de São Caetano, mas a ferramenta da pressão popular tem de partir de São Bernardo. Ou será que São Bernardo vai continuar querendo ser conhecido no Brasil inteiro apenas como exemplo de sindicalismo moderno? Os tempos são outros, as pautas são outras, o mundo é outro. Agora é hora de cidadania.

-- Não posso admitir, como Município que fez de Celso Daniel a figura nacional em que se transformou, em vida e em morte, ficar de fora desse compromisso. O crime que cometeram contra nosso prefeito não pode ser esquecido jamais. Nem suas obras materiais e teóricas. Acho que o dia 20 de janeiro de cada novo ano que surgir deve ser uma data mais que regional de reverência à memória de Celso Daniel: deve ser um grito contra a violência, uma homenagem ao administrador público que pensou na integração do Grande ABC. Por isso, estou nessa também. 

-- Ninguém me tira da cabeça, caro Santo André, que São Paulo também é parte decisiva nesse processo. Não adianta desconversar, porque se tenho a massa crítica de trabalhadores que sabem como ninguém reivindicar seus direitos, São Paulo tem a força da mobilização da mídia. Sem mídia não se faz nada, não se mexe uma palha institucional. A barulheira toda e as transformações que fizemos nas relações entre capital e trabalho no ABC foram possíveis porque a mídia nacional, a partir da repercussão da mídia de São Paulo, nos deu o devido respaldo. Quanto a Santo André e a São Caetano, que se meteram na nossa conversa, vou dar um recado curto e grosso: que Santo André faça de sua propalada liderança cultural atos concretos, principalmente agora com a herança deixada por Celso Daniel; e que São Caetano coloque sua classe média abastada nas ruas, nos eventos de integração, e não continue confortavelmente alheio a tudo o que acontece na região, como se fosse uma ilha inatingível. São Caetano precisa sair de seus guetos de imigrantes, que estão na terceira e quarta gerações. Italianos, armênios, espanhóis, portugueses e outros representantes do Primeiro Mundo que construíram famílias em São Caetano precisam se entregar mais às causas regionais. Se a Europa se uniu, porque São Caetano não se solta de uma vez? 

-- Senti firmeza na declaração de São Bernardo. Sobre o que falou de São Caetano, não corrijo uma vírgula. Já sobre você, São Paulo, acho que não pode mesmo abdicar de sua liderança política e cultural. 

-- É isso mesmo, Santo André. São Bernardo conseguiu sair do córner em que o colocamos. São Paulo tem responsabilidades que precisa assumir urgentemente. Agora, quanto à classe média do meu território, só tenho a dizer que se trata de gente exigente, conservadora, é verdade, mas não pode ser chamada de omissa não. Tanto é verdade que não é qualquer um que assume a Prefeitura. É preciso ter história no meu território. Aventureiro não tem vez. E muito menos gente que pretende fazer experimentos ideológicos. Não é como São Paulo, que também tem uma classe média conservadora, quatrocentona, como dizem, e de vez em quando elege cada cacareco que dá vergonha.

-- Está bem, São Caetano. Mas o que nos interessa mesmo é que sem São Paulo não dá para balançar as estruturas. 

-- Quase atropelei Diadema na pressa de me juntar a São Bernardo na defesa da tese de que São Paulo tem muita culpa no cartório sim. 

-- Faço de minhas palavras as palavras de Mauá. 

-- Faço de Mauá as palavras de Ribeirão Pires. 

-- Meu Deus, gente! Com Rio Grande da Serra completando o ciclo de saraivadas, a impressão que tenho é que vocês combinaram esse discurso contra mim.



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