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Gata Borralheira

Prefácios

DANIEL LIMA - 16/04/2002

 Gilberto Carvalho, Chefe de Gabinete da Prefeitura de Santo André

Gosto muito das alegorias. São capazes de nos ensinar lições, passar mensagens numa profundidade que o discurso racionalista jamais atingiria. Penso que Daniel Lima, no seu estilo apaixonado e naturalmente polêmico, foi muito feliz na escolha desse gênero para cumprir dois objetivos muito claros e oportunos: chamar a atenção para a necessidade de uma nova postura dos municípios do Grande ABC no que tange a seu desenvolvimento e prestar uma homenagem à altura ao nosso querido Celso Daniel.

Quem conviveu de perto com Celso sabe da paixão que ele nutria pela sua cidade e por este Grande ABC. Paixão que soube traduzir em gestos, como o empenho incansável pela construção do Consórcio de Prefeitos, da Câmara Regional e, mais recentemente, da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, cuja presidência ele exerceu até o momento em que nos deixou. Muitas vezes eu o provocava dizendo que a paixão dele pelo Grande ABC se assemelhava à que nutria pelo seu Corinthians (daquela maneira que só os corinthianos sabem fazer...). 

Como no caso de um torcedor fanático, Celso Daniel até fazia críticas à organização da região e admitia as queixas dos cidadãos do próprio Grande ABC. Mas quando um forasteiro apresentava crítica mal fundamentada à região ou repetia um dos velhos chavões -- como o simplismo de atribuir a crise do ABC ao sindicalismo combativo --, ele se insurgia com aquele jeito forte e cortante que o caracterizava nessas ocasiões.

Uma bela homenagem esta que Daniel Lima presta a Celso Daniel. Homenagem que será completa se, a partir das questões que o texto coloca de forma leve e clara, e a partir de tantas lições que temos aprendido, nos unirmos na região, superarmos os lamentos e individualismos e construirmos, não só no Grande ABC, mas em toda a Região Metropolitana, uma verdadeira integração e os consequentes caminhos de retomada de um crescimento equilibrado, justo e democrático.

Esta será, sem dúvida, a forma mais adequada de honrarmos a memória e a herança de Celso Daniel. 

 Euclydes Rocco, arquiteto e teatrólogo 

Não é novidade o espírito aguerrido e inovador de Daniel Lima. Isso se mostra muito nitidamente tanto nos trabalhos de jornalista e editor quanto nos movimentos sociais que promove. Acrescente-se que esses movimentos têm conseguido aglutinar os mais diversos segmentos da comunidade. Nas duas atividades, Daniel Lima tem demonstrado grande preocupação com a procura de propostas -- e/ou soluções -- que venham reerguer o tão debilitado e carente Grande ABC.

Nesta obra Complexo de Gata Borralheira é revelado um segredo de Polichinelo: sete municípios (não sete anões!) sentem-se inferiorizados diante da majestosa rainha Capital.

O crescimento da desindustrialização e o aumento brutal da violência urbana nos remetem, por oposição, à década de 60, quando o crime se resumia a um pular de muro seguido por um surrupiar de goiabas irresistíveis. A atividade industrial estava no apogeu. Havia na região grandes empresas, chamadas então estrangeiras, como Firestone, Rhodia, Willys (depois Ford), General Motors. E, também, grandes empresas nacionais de porte: Cerâmica São Caetano, Lanifício Kowarick, Tecelagem Tognato e quantas mais! Trabalhar nessas empresas dava status. O relacionamento entre patrões e empregados era o que se poderia chamar de paternal -- ou familiar. Desfrutava-se, na época, a desejada boa qualidade de vida.

Espera-se que as mazelas que Daniel Lima tão bem analisa neste livro venham a reforçar os argumentos daqueles que propugnam por uma vida melhor, não necessariamente -- e apenas -- com mais dinheiro no bolso. Vêem-se luzes no horizonte não só graças à força dos movimentos de trabalhadores, como também graças à lucidez dos novos administradores em face de uma nova -- velha (?) -- filosofia de relações custo/benefício, na qual o resultado vai muito além do que é apropriado de imediato -- no faturamento mensal ou no salário do fim do mês.

Certamente este livro, se editado há décadas, seria excelente obra de ficção. Hoje, seu realismo é contundente. Complexo de Gata Borralheira, composto por meio de criativos supostos diálogos entre os sete municípios da região e a Capital, é extremamente agradável de ler e extremamente difícil de digerir. Daniel Lima expõe, de maneira clara, alguns aspectos do individualismo que bloqueia a integração político-administrativa entre os municípios, dificultando, por um lado, a tomada de decisões importantes e, por outro, enfraquecendo o atendimento a reivindicações feitas aos poderes estadual e federal quando são necessárias verbas e melhorias para a região.   

Procurando saída para uma difícil realidade, o autor faz um exercício de volta ao passado. Sugere que as sete cidades se unam e se componham para conseguir, assim, maior força política, gestão mais eficiente de recursos e soluções mais integradas para a atender melhor a população. Utopia? Nem tanto. Cidades como México e Tókio, cada uma a seu modo e em tempos diferentes, legalizaram uniões entre vários de seus municípios, já que a conurbação mostrava-se como fato consumado.

É importante também em todo trabalho de Daniel Lima -- neste texto e nos movimentos sociais que organiza -- o papel que desempenha como preceptor dessa Gata Borralheira, na medida em que tem conclamado as cidades do Grande ABC ao fundamental um por todos, todos por um. Impossível não tomar ciência dos problemas que, por vezes literalmente, são sentidos na pele. Podemos dizer que, mutatis mutandis, este novo trabalho do jornalista é imprescindível a todos que se interessam pelas questões sociais e urbanas do Grande ABC e de outras regiões brasileiras, já que a todas podem ser aplicadas, na essência, as observações pertinentes que o autor faz.

Felizmente, já se tem verificado no País, através de manifestações das mais variadas, o surgimento da conscientização relativa à necessidade de se tomarem medidas sérias e profundas, já. Novas lideranças e novas gerações não poderão se furtar a enfrentar os graves problemas abordados neste Complexo de Gata Borralheira. Assim, teremos todos que não apenas revelar a Cinderela, como fazer com que o Príncipe Encantado desencante e tenha seu interesse voltado para ela.

Conhecendo o espírito que levou Daniel Lima a produzir este livro, posso afirmar com toda segurança que um de seus maiores desejos é de que os problemas com a desindustrialização e a violência tornem este seu trabalho anacrônico em breve espaço de tempo, já que seu maior temor é que esse tempo seja longo demais.

 Josué Catharino Ferreira, geógrafo, professor e andreense

Complexo de Gata Borralheira é uma obra corajosa escrita por um jornalista igualmente corajoso! Nas páginas deste livro leremos tantas coisas que nunca foram escritas, apesar de serem comentadas frequentemente à boca pequena. 

Obra corajosa, pois faltava alguém explicitar as mazelas econômicas, políticas e sociais existentes no Grande ABC, desde sua fragmentação ocorrida após a Segunda Guerra Mundial até nossos dias. Fragmentação que, além de beneficiar apenas restrito grupo de pessoas, ainda contribui para a baixa auto-estima dos 2,3 milhões de moradores da região.

Conforme se observará nas páginas seguintes, ainda somos sete pedaços, desunidos, bairristas e infelizmente comodistas, pois a maior parte dos habitantes do Grande ABC ainda age como se esperasse o Príncipe Encantado que viria na forma de empresas que se evadiram daqui, como se pudessem retornar a uma região que nunca as estimulou para aqui permanecerem.

Ou ainda, esse Príncipe Encantado viria como num passe de mágica e que, de uma hora para outra, trouxesse para o Grande ABC os milhares de empregos que perdemos, o retorno dos investimentos, a opção de empreendedorismo voluntário e um consequente mercado consumidor. Como está explícito, e algumas vezes implícito no livro, isso é apenas miragem. 

Os tempos mudaram e o mundo não está mudando -- já mudou. Somente após o momento em que todos os habitantes do Grande ABC se mobilizarem para o rejuvenescimento da maior concentração geográfica industrial do Brasil e com essa união eliminarmos todos os entraves políticos, administrativos, econômicos e concorrenciais que existem na região, é que poderemos superar o trauma de inferioridade em relação à cosmopolita Capital paulista.

O autor Daniel Lima é um jornalista corajoso: independentemente dos interesses econômicos e políticos que infestam a maioria dos meios de comunicação de nosso Brasil, optou por escrever nas próximas páginas uma obra que se tornará fundamental para o correto entendimento do cotidiano do Grande ABC. Há anos, Daniel Lima vem questionando este sentimento de inferioridade nas páginas da Revista LivreMercado e mais recentemente no boletim eletrônico Capital Social.

Tornada um tributo ao prefeito de Santo André, Celso Daniel, barbaramente assassinado e mais uma vítima da violência urbana impregnada em nossas terras tropicais, Complexo de Gata Borralheira é uma obra-prima sobre o Grande ABC. Daniel Lima desta vez ultrapassou os limites. Escreveu o que todos sabíamos, mas que não gostaríamos que fosse assim, tão explicitado.

Finalmente, esta obra pode também servir como sinal de alerta a todos os interessados em uma reestruturação do Grande ABC, na (re)construção de uma região forte, unida, rica, livre de uma situação de quase anomia.

O desafio de mudar foi lançado e, quem sabe, daqui a poucos anos poderemos ler um novo livro intitulado Como O Grande ABC Livrou-se do Complexo de Gata Borralheira e Encontrou-se Com O Príncipe Encantado?

 Nívio Roque, Diretor Industrial da Polietilenos União S/A

Quem quer encontrar pérolas tem que mergulhar fundo. Foi exatamente isso que o jornalista Daniel Lima fez ao escrever em Complexo de Gata Borralheira os aspectos políticos, sociais, econômicos e regionais entre as sete cidades que compõem o Grande ABC, quando comparados com a cidade de São Paulo. No diálogo que se desenrola entre a Capital e os sete municípios da região, o jornalista foi identificando, de forma didática, em cada uma das cidades, suas vulnerabilidades e o desejo que têm de transformar dificuldades em oportunidades.

O que o leitor irá observar de forma clara é que, agindo isoladamente, os municípios ficam totalmente fragilizados e sem poder político para, junto ao governo do Estado ou ao governo Federal, terem os pleitos atendidos. A Câmara Regional e a Agência de Desenvolvimento Econômico são instituições que devem ter ações direcionadas na busca de soluções individuais, tendo como foco a integração entre os municípios.

A integração regional, que tanto foi buscada pelo prefeito Celso Daniel, está muito longe de ser alcançada, pois já não temos mais entre nós o grande articulador e visionário, que dedicou grande parte de sua gestão às questões regionais. O Grande ABC perdeu rara oportunidade de se articular enquanto Celso Daniel esteve entre nós. Agora só nos resta lamentar. Caberá aos atuais gestores públicos retomar o caminho que um dia levará nossa região a sair do seu Complexo de Gata Borralheira.

O jornalista Daniel Lima muitas vezes é criticado por usar chamadas tintas escuras na pintura dos quadros socioeconômicos. Porém, sua determinação, sua capacidade de empreender e seu amor pela verdade são inquestionáveis. Aos leitores, sugiro que reflitam sobre as grandes verdades contidas nesta obra. E que Deus nos ajude a construir dias melhores para nossa sociedade.

Boa leitura.

 Rafael Guelta, jornalista 

Daniel Lima surpreende quem espera encontrar um relato jornalístico em Complexo de Gata Borralheira. É evidente que o livro oferece o melhor do melhor repórter-editor do Grande ABC: texto contundente, investigação, análise, crítica e polêmica. Mas o que temos diante dos olhos -- pasmem os contumazes leitores de Daniel! -- é dramaturgia, a boa e velha dramaturgia com todos os seus melhores ingredientes: tensão, sutileza, drama, irreverência, humor, tragédia, suspense.

É formidável como os diálogos fluem com naturalidade. Palavras, idéias, conceitos e objetividade se encaixam na medida exata para compor uma obra histórica, didática e definitiva. Quem não conhece o ABC paulista mergulha nas águas profundas de uma das mais emblemáticas regiões industriais do planeta. Quem nasceu ou migrou para o ABC percebe-se como parte da história e se enxerga no espelho do drama. 

O livro é cativante, prende a atenção, lê-se num fôlego só. É justa a homenagem a Celso Daniel, prefeito de Santo André tragicamente assassinado, único político do ABC a perceber de fato a regionalidade como item fundamental para o desenvolvimento dos sete municípios.

Ao trilhar a sofisticada e complexa via da dramaturgia, Daniel Lima nos apresenta uma forma inovadora de retratar o Grande ABC. Nosso melhor repórter-editor desafia com êxito as regras da velha academia. Dispensa números, datas e estatísticas. 

Tampouco recorre aos grandes feitos de personalidades históricas da região. O que salta em Complexo de Gata Borralheira é o espírito das cidades. Só mesmo um idealista convicto e resistente como Daniel, com mais de 30 anos de dedicação integral ao ABC, seria capaz de captar e traduzir o espírito das sete cidades. Sim, porque as cidades são a sua gente: aspiram, sentem e sonham.

Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra são expostas como se estivessem no divã de um analista (o leitor), cada qual com seus dramas, expectativas, rejeições, negações e, obviamente, qualidades. 

Complexo de Gata Borralheira inventa a terapia de cidades e escancara sentimentos sórdidos e arraigados -- como inveja, arrogância e complexos de inferioridade e superioridade -- que impedem o ABC de desenvolver sua plena regionalidade.

A obra de Daniel Lima cutuca velhas feridas e indica direções. Tem consistência para ser o agente transformador de que o ABC tanto necessita. É ler ou morrer.



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