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Política

Somos Bela Vista, Itaquera,
Mooca, Pinheiros e muito mais

DANIEL LIMA - 06/11/2018

Promessa feita, promessa cumprida: depois de revelar a cara geral da região nas eleições presidenciais deste ano, eis que mostro hoje a cara individual da região, correlacionando-a a distritos da Capital. E de novo faço um desafio aos leitores: Quem será capaz de associar à identificação de cada um dos municípios locais um bairro da Capital sem correr o risco de passar por vexame? Querem fazer um teste? Então vamos em frente.

Primeiro, vamos à relação dos municípios da região: 

 Santo André

 São Bernardo

 São Caetano

 Diadema

 Mauá

 Ribeirão Pires

 Rio Grande da Serra.

Feito isso, agora exponho sete bairros da Capital:

 Mooca

 Pinheiros

 Ermelino Matarazzo

 Casa Verde

 Itaquera

 Bela Vista

 Vila Mariana 

Destrinchando os desafios

Seguimos com o desafio. Os leitores serão capazes de associar cada Município da região a um bairro da Capital levando-se em conta a percepção de identidade eleitoral na disputa presidencial?

Um exemplo: a qual bairro da Capital, entre os listados, São Bernardo teria afinidade eleitoral? Afinidade eleitoral seria o placar final envolvendo os presidenciáveis Jair Bolsonaro e o petista Fernando Haddad.

Trocando ainda mais em miúdos: qual seria a alma eleitoral gêmea de cada um dos municípios da região tendo-se como referencial cada um dos bairros da Capital da lista acima?

Como expliquei cuidadosamente na matéria publicada na edição de ontem, não ouso invadir o terreno da análise mais apurada para produzir um diagnóstico ao menos consistente dos motivos culturais, econômicos, sociais e do ecossistema da Região Metropolitana de São Paulo que levaram à conclusão numérica de que a região outrora Grande ABC é a cara de três bairros da Capital (Perdizes, Pinheiro e Ipiranga) e de dois municípios vizinhos (Osasco e Barueri).

Nesses cinco endereços, os resultados finais do segundo turno apresentaram percentuais semelhantes ao do conjunto dos eleitores da região no critério de votos válidos endereçados aos dois finalistas presidenciais.

Caras das individualidades

O resultado geral da região está longe de ser constituído de uniformidade entre os municípios. Há discrepâncias internas que, lançadas ao recipiente único de dados, desemboca no que poderia ser chamado de perfil eleitoral socialmente interessante. Ou alguém tem dúvidas de que é melhor que no conjunto a região tenha a cara de um Bairro Pinheiros, por exemplo, como tem, do que o sempre discriminado Itaquera, na Zona Leste da Capital?

Fiz esse trololó todo para dar tempo aos leitores a meditarem sobre o vetor principal deste artigo: afinal, com quais bairros da vizinha Capital cada Município da região se parece eleitoralmente, sempre levando em conta os resultados presidenciais do dia 28 de outubro?

Quem não conhece o básico sobre os bairros da Capital, convém lembrar que dos sete listados para encaixe em forma de espelhos, Mooca, Vila Mariana e Pinheiros são fortemente de classe média tradicional, Casa Verde e Bela Vista ficariam em posição intermediária enquanto Itaquera e Ermelino Matarazzo se situariam no espectro mais popular, de classe média baixa para baixo, por assim dizer.

Feita essa breve caracterização socioeconômica, simplificadíssima por assim dizer, mas nem por isso desprovida de fundamentação para quem conhece a Região Metropolitana de São Paulo, vamos então às respectivas conexões eleitorais.

Santo André- Casa Verde

Com quem os eleitores acham que Santo André se parece nos votos aos dois finalistas, sempre dentro da lista dos sete bairros da Capital? Com 66,84% dos votos a Jair Bolsonaro, Santo André é a cara da Casa Verde, cujo resultado foi muito próximo, de 66,05% para o pesselista.

Se Santo André é a Casa Verde eleitoral, o que seria São Caetano, então, que destinou 75,11% dos votos válidos a Jair Bolsonaro? Uma moleza acertar essa correlação. São Caetano é a cara da vizinha Mooca.

São Bernardo- Itaquera

Cai do cavalo, entretanto, quem olha para São Bernardo (59,57% dos votos para Bolsonaro) e acredita que o espelho é algo que resulte em alguma proximidade com São Caetano. São Bernardo industrializada, mas em contínua decadência econômica já faz muito tempo, é Itaquera escarrada. O bairro da Zona Leste somou 59,53% votos válidos para Bolsonaro.

Duvido que algum leitor tenha acertado a alternativa de São Bernardo. A subjetividade do voto decidido tem tudo a ver com as condições de uma determinada localidade. Se São Bernardo pensou e agiu como Itaquera no campo político, está aí um bom tema para os chamados cientistas sociais e quem sabe, mesmo os cientistas políticos (esses seres que erram muito mais que acertam) meditarem sobre as transformações sociais na Capital Econômica da região. Já imaginaram um mote do tipo “São Bernardo virou Itaquera com o sindicalismo bravio”? Ou: “São Bernardo virou Itaquera por incúria histórica de seus dirigentes políticos”?

Sei que podem tentar descontruir esses enunciados, os quais não são definitivos, claro. São apenas exploratórios no sentido mais especulativo possível. Mas, convenhamos, uma especulação que tem fundamentos mencionados no artigo anterior sobre o comportamento eleitoral dos eleitores da região.

Mauá-Pinheiros

Qual seria, então, a cara de Mauá. Os 62,07% de votos válidos no Município para Jair Bolsonaro são semelhantes aos 62,07% de Perdizes, aos 63,21% de Pinheiros ou mesmo aos 63,26% do Ipiranga. Assustado com o resultado? Também estou. Explicações: se as tivesse com segurança não estaria a queimar as pestanas. Foi o que deu nas urnas presidenciais. Mauá virou bairro de classe média alta no comportamento eleitoral, vejam só. Tem nexo?

Diadema- Bela Vista

E Diadema sindicalista e popular, cuja ocupação foi e continua fortemente influenciada pela migração nortista e nordestina, além de mineira, com quem se parece na cabeça dos eleitores? Jair Bolsonaro ganhou raspando de Fernando Haddad por 52,00% a 50,00% dos votos válidos. Resultado semelhante ao da Bela Vista, bairro do Centro da Capital. Um resultado também surpreendente ou que tem tudo a ver com a o fluxo demográfico do bairro paulistano, um dos endereços preferidos de migrantes de todos os pontos do País? Diadema virou Bela Vista, quem diria. Antes era a maior República Socialista da região.

Faltam Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.  Qual é o bairro paulistano irmão gêmeo de Ribeirão Pires nas urnas presidenciais? Ribeirão Pires deu 66,69% dos votos a Jair Bolsonaro. Semelhantemente aos 678,09% da Vila Mariana, na Capital. E Rio Grande da Serra, que garantiu 59,16% dos votos a Jair Bolsonaro, tem tudo a ver com o bairro popular de Ermelino Matarazzo, que reservou 59,48% para o presidente eleito.

Voto é secreto

Como afirmei no artigo de ontem, não tenho e não vejo quem tenha elementos suficientes para frases definitivas que assegurem a existência consistente de almas eleitorais gêmeas como resultado final de uma série de indicadores em vários campos. Poderia enveredar por uma gigantesca teia de dados sociais e econômicos para moldar uma estrutura supostamente sustentável de argumentos. Entretanto, não seria honesto com os leitores. O escrutínio dos votos em cada localidade, levando-se em conta renda, sexo, escolaridade, religião e outros quesitos certamente daria uma resposta cientificamente mais próxima da realidade. Para tanto, seria preciso quebrar o sigilo do voto. Ou seja: faltaria combinar com os russos da legalidade e da ética.



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