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Sociedade

Solidariedade e
versatilidade juntos

CLAUDETE REINHART - 05/12/1998

Mauro Andrietta, sócio-proprietário da New Sun de Santo André, é o que se convencionou chamar de polivalente: aos 34 anos acumula dois diplomas universitários, de Engenharia e Belas Artes, foi fotógrafo, modelo, surfista, desenhista e, de três anos para cá, empresário. Percebe-se nele, entretanto, que não foi tocado pela frieza inerente ao mundo dos negócios, em que cifras e competitividade são obsessivas: Mauro conserva aquele jeito antigo e saudável de ser solidário a amigos ou não. Ele carrega no porta-malas do carro estojo bem equipado de pronto-socorro com intuito especial de socorrer vítimas de acidentes que vez por outra encontra nas muitas andanças pelas ruas e avenidas da região e de São Paulo. Seu espírito benemerente faz com que não se contente em apenas parar o carro e oferecer ajuda. Mauro socorre a vítima, coloca-a em seu carro, leva ao hospital, espera passar o pior e depois desaba, que ninguém é de ferro!

Pensativo, ele comenta: "Gostaria muito, se um dia precisar desse tipo de ajuda, que haja alguém para me socorrer". Essa solidariedade irrestrita estende-se também aos amigos, evidentemente. Se algum deles o procura por estar com problemas, Mauro Andrietta abandona o que está fazendo, coloca-se no lugar da pessoa e faz tudo ao alcance para ajudar. "Não sossego enquanto não resolver o problema" -- inquieta-se.

O empresário confessa que quase não teve infância devido à criação severa do pai, que o queria como exemplo para o irmão e a irmã menores. Esmerava-se para ser o melhor, ou estar pelo menos entre os três melhores alunos da classe. Teve na mãe, arquiteta e artista plástica, uma presença forte, e no pai, designer de jóias, cobrança inflexível de atitudes e de vitórias que na época ele não entendia, mas que, quando adulto, lhe valeram grandes subsídios profissionais. Sua medalha de ouro olímpica foi ouvir do pai, recentemente, o cumprimento: "Parabéns, você é um vencedor!"

Mauro define assim a filosofia de vida do pai: "Se a vida é cheia de pedras, meu pai colocava outras mais no caminho para que eu pudesse aprender, no futuro, a passar por cima de todas". Ele também se autodefine: "Sempre fui muito solitário, de poucos amigos na infância, poucas brincadeiras. Graças à memória fotográfica, não precisava anotar nada durante as aulas e passava de ano facilmente. Gostava e gosto muito de desenhar e ganhei muitos concursos, quando garoto, com trabalhos que na época eram acadêmicos. Praticava esportes, todos os quais pudesse aprender e treinar, e também ginástica. Até fui aprender a ser trapezista na Escola de Circo do Pacaembu".  

Sempre ligado em esporte, Mauro Andrietta foi surfista e seu primeiro emprego foi o de fabricante de pranchas à época em que energia e proezas do Menino do Rio de Caetano Veloso eram o must. Viajava muito, conheceu muitas praias e surfou muito também. Isso, aos 14 anos. Aos 16 foi trabalhar com a mãe e ingressou na Faculdade de Engenharia Mauá. Aprendeu na prática com a mãe o que a teoria ensinava. Nessa época trabalhava, estudava, fotografava para algumas revistas, desenhava, fazia esculturas e chegou a dar aulas (na parte da manhã) para alunos do ano anterior sobre Desenho de Observação. Chegou a fazer alguns trabalhos como modelo -- comerciais e fotos --, mas sem querer ser profissional. Insatisfeito com a profissão de engenheiro, que lidava apenas com números e medidas exatas, Mauro ingressou na Faculdade de Arquitetura da Belas Artes.

Apesar de realizar o sonho de lidar com criação, sendo arquiteto, Mauro lamenta: "As coisas mudaram muito. Hoje há pouca criação. Tudo é modismo. O trabalho é limitado por clientes que pagam e querem opinar no processo criativo. Na realidade, o dinheiro mudou de mãos -- os clientes de antigamente tinham alto poder aquisitivo, acompanhavam os movimentos culturais, tinham grandes noções de bom gosto. Hoje não é bem assim, pois mudou a forma de enriquecimento: não é bem pela competência e, sim, pela esperteza que muitas fortunas são conseguidas. O resultado é que esse tipo de pessoa sem habilidade intelectual trata um arquiteto não como alguém que irá criar um belo projeto, mas como empregado. Afinal ele é rico e tem o poder nas mãos! Esse tipo de pessoa traz um monte de revistas de decoração ao arquiteto e escolhe vários estilos, sem a menor parcimônia. Como estão pagando, querem daquele jeito e pronto!"

Foi a desilusão com certos conceitos na fase de arquiteto que levou Mauro Andrietta a instalar a New Sun em Santo André, clínica de bronzeamento e de resultados (com médicos e equipamentos de alta tecnologia) que inova não apenas nos tratamentos de beleza e saúde, mas no próprio espaço. No mês passado, por exemplo, ganhou novo visual com a incorporação do Café-Charutaria e do Restaurante Dona Carlota, uma área privê na piscina com 60 lugares que atenderá mediante reservas.

A New Sun é comandada pela esposa Adriana. Ao citar Adriana, os olhos de Mauro imediatamente se iluminam. Ele dispara a falar sobre a paixão fulminante que brotou há oito anos em uma boate no Guarujá. Foram quatro anos de namoro e estão no quarto ano de casamento. Ele reforça a grande paixão: "Sou católico e casamento para mim representa ficar junto, se amando, até bem velhinhos. Sou um cavalheiro à moda antiga: gosto de mandar flores, abrir a porta do carro, falar coisas legais para a Dri. Depois da morte do meu irmão mais novo, aos 25 anos, após um ano de muito sofrimento, tornei-me uma pessoa ainda mais circunspecta. Por isso, uma das coisas que mais me encantam na Adriana é aquela alegria, a vitalidade, o sorrisão despreocupado. Conhecer e amar a Dri me fez aprender a conhecer e gostar muito do ABC. Sou de São Paulo e ela, de São Bernardo". 

Durante os quatro anos em que namoraram, Mauro encontrava dificuldade de, por exemplo, comprar cigarros de madrugada (foi antes do advento das agora comuns lojas de conveniências). Por ser muito observador, começou a perceber o potencial aquisitivo do Grande ABC e a falta de opções em vários serviços. "Resolvi instalar em Santo André uma unidade da New Sun para oferecer qualidade e produtos diferenciados para um público que sabe o que é bom e que os procurava em São Paulo" -- diz.

Uma das manias de Mauro, desde criança, é a de ler com avidez enciclopédias e livros sobre Medicina. Tanto que chega ao ponto de participar, como observador, de cirurgias dificílimas, daquelas que duram horas e as quais acompanha com inusitado interesse. A paixão por cirurgia vem da infância. Certa vez, ao praticar mergulho, machucou-se feio: "Não percebi e chutei uma parede de ouriços. Ao bater numa craca, tive a batata da perna cortada. O ferimento infeccionou, passei remédio e parecia que havia melhorado. Então, fui passar três dias numa ilha. Quando cheguei percebi que estava com febre alta e que, apesar de cicatrizado, o corte estava com grande infecção interna. Como sempre carrego estojo de pronto-socorro, resolvi eu mesmo fazer a cirurgia na perna. Abri um corte com bisturi, cavoquei toda a carne infectada, retirei tudo até chegar na coloração rosa, que é a saudável, coloquei bastante pomada antiinflamatória e costurei o corte com oito pontos".

Mauro aguentou a dor, já que é alérgico a anestesia. Já passou por outros apuros. Certa vez, a quilha de uma prancha rasgou-lhe desde o dente da frente até o céu da boca. A cirurgia demorou duas horas e meia e custou-lhe 300 pontos, sem anestesia, apenas apertando uma toalha nas mãos. "Já estava acostumado com cortes e pontos, desde os inevitáveis acidentes da infância, por isso consegui aguentar. Sabe o que me dá aflição? Uma lasquinha de madeira sob a unha. De coisas maiores não tenho medo" -- surpreende.

O empresário é quase obsessivo com relação a desafios: é adrenalina pura! Uma das provocações prediletas é conhecer as pessoas por dentro: não o que falam sobre si mesmas, mas por informações que ficam escondidas na mente. Ele adora descobrir o que as pessoas pensam, porque agem de determinadas maneiras, como digerem uma informação. Essa curiosidade sobre a mente humana tem ajudado muito no outro segmento profissional que também aprecia: a intermediação de negócios.

Mauro Andrietta confessa não ter problema algum com solidão. Desde pequeno sempre foi um garoto precoce e sozinho, que gostava de ler muito, de pensar e analisar sobre tudo e sobre todos. Depois da morte do irmão mais novo, sua escala de prioridades deu mais valor às pequenas coisas da vida, um sorriso realmente feliz, um dia bonito, uma companhia sincera. Entre essas prioridades está o trio amor-respeito-consideração, que ele sente por pessoas das quais realmente gosta e quer privar da amizade.

Às vezes, Mauro parece ser meio sonhador, mas tem na ponta da língua a resposta: "A pessoa deve sonhar sem tirar os dois pés do chão. É fácil a gente, por exemplo, querer ter um avião. O duro é se planejar e obter meios para ter esse avião. Não tem dinheiro? Não importa. Tendo boas idéias e sabendo aplicá-las, a pessoa chega lá".

Hoje ele está empenhadíssimo em grandes planos para o próximo ano. Seu compromisso é promover a subida no cenário artístico de cantoras como Débora Brasil (lembram da primeira morena do Tchan?), da filha de Vanusa, Aretha, considerada a Ed Motta de saias, e da dupla sertaneja Marcelo e Maçuan. Com seus contatos na TV e amigos do meio artístico como Carla Perez e Oscar Magrini, entre muitos outros, não vai ser difícil que os afilhados ganhem projeção. Carla Perez é amiga pessoal do casal Andrietta, ao ponto de trocar confidências com Adriana.



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