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Sociedade

Descobrir talentos
também é uma arte

CLAUDETE REINHART - 05/09/1998

Quem vê Irany Marques Rosalino com jeitinho de tia carinhosa ou vovó que enche de mimos os netinhos não imagina que por trás da aparência caseira e pacata está uma das mulheres mais ativas no assessoramento de crianças, jovens e adultos que almejam aparecer na telinha, seja em comerciais ou em programas de TV. Produtores de programas e chefes de elenco das emissoras de São Paulo, antes de iniciar a chamada para testes de elenco, com frequência entram em contato com Irany na Prytt Produções, em São Caetano, para solicitar candidatos. Isso acontece há 38 anos, exatamente desde que a agência foi fundada, em maio de 1960.

O começo foi quase que por acaso. Aos quatro anos de idade, o filho João Carlos -- hoje professor de História em Belo Horizonte -- foi levado por ela ao programa Pullman Jr. na TV Record. Como o garoto era muito esperto e inteligente e tinha facilidade de decorar tudo o que lhe chegasse como informação, Irany procurou Irineu Francisco, marido da atriz e comediante Nair Bello, que produzia um programa de perguntas e respostas. Irany saiu do prédio da Record com 50 perguntas que deveriam ser respondidas pelo filho. José Carlos decorou tudo e foi um sucesso no programa Telefone para o melhor. A partir daí, surgiram convites para participar de outros programas infantis, como a Gincana Kibon Não Durma no Ponto e Praça da Alegria (os dois últimos, de Manoel de Nóbrega).

Nessa época, Roseli, a filha caçula de Irany, com apenas um ano e um mês, começou a desfilar, já que era bastante desinibida. Foi a partir dai que a então dona-de-casa e professora primária Irany começou nova função: descobrir talentos para propaganda e para a TV. Produtores e chefes de elenco passaram a pedir-lhe para arranjar um garotinho japonês, uma graciosa menina negra ou uma criança gordinha e sardenta e por aí afora. Irany arregimentava as crianças entre filhos da vizinhança. Às vezes, os produtores solicitavam fotos. Com uma máquina fotográfica simples, ela fazia fotos da garotada e colava numa cartolina que levava sempre dentro da bolsa (vai que alguém pede uma criança para atuar em algum comercial, não é mesmo?). Assim começou a Prytt, a maior provedora de talentos infantis do SBT.

Seu casting começou a crescer. Pelas mãos de Irany passaram mais de cinco mil crianças e jovens. Entre eles, alguns muito famosos, como a apresentadora global Angélica. A loirinha de São Bernardo, aos quatro anos de idade, era muito tímida, com a agravante de estar, na época, bastante assustada por ter presenciado um assalto à mão armada contra o pai. Irany conta: "Angélica tinha vergonha daquela pinta na perna. Quando desfilava, dava um jeito de a roupinha cobri-la. Certa vez, pediram-me uma garotinha que fosse bonita, graciosa e que soubesse cantar. Pensei logo na Angélica, mas ela não aceitou, alegando que não sabia cantar. Hoje é um grande sucesso de vendas de disco".

Outra figura famosa na TV, Gugu Liberato, começou pelas mãos da Tia Irany. O apresentador tinha uns 13, 14 anos de idade e era espécie de office-boy do programa Boa Noite Cinderela. A triagem das meninas candidatas a ocupar o trono do programa era feita em São Caetano, por Irany e os produtores. Gugu rodeava Tia Irany, com insistência: "Ah! Tia Irany, gostaria tanto de fazer um comercial!"

"Gugu era um jovem simples e não tinha condições financeiras de fazer algumas fotos para que mostrasse nas agências. Então eu mesma fiz as fotos e encaminhei Gugu para vários testes. Ele passava em alguns, em outros não. Quando não passava, ficava muito magoado. Não se conformava! Me lembro de um teste para a Garbo em que foi reprovado. Ficou supertriste. Hoje um dos seus melhores amigos e que também trabalha com ele é justamente Rui Lanzoni, responsável por sua reprovação e também diretor da Garbo na época".

Outra que não tinha sorte, entre seus oito e 14 anos de idade, é a Adriane Galisteu. Era linda, mas sua estrela não brilhava. A sorte chegou depois, quando adulta, por meio de Ayrton Senna.

Os irmão globais Selton e Danton  Mello (encarou o jornalista Roberto Drummond na minissérie Hilda Furacão) também iniciaram carreira de modelo na Prytt. Tanto um como outro gostava de cantar, mas a mãe queria que fizessem comerciais de TV. Depois de muitos comerciais, os irmãos Mello fizeram a novela Dona Santa e não pararam mais. Estão entre os atores jovens de maior sucesso na Globo. Muitos nomes conhecidos passaram pela Prytt: Patrícia Luchesi, Cíntia Raquel, Narjara Turetta, Sílvia Massari, Zildete Montiel, o cantor Ângelo...

Já aconteceu de achar que algum de seus pupilos merecesse o sucesso e não conseguiu alcançá-lo. Irany aponta o ator Danilo Faro, irmão de Rodrigo Faro. Ao contrário do irmão, Rodrigo está com a bola toda na novela Malhação, da Globo. Irany torce para que Danilo tenha o talento devidamente reconhecido.

Dentre as inúmeras lembranças de 38 anos de Prytt, Irany guarda uma muito triste -- a garotinha Talita, assassinada friamente durante assalto a banco em São Caetano. A mãe, também morta a tiros, estava no banco para depositar o cheque em pagamento ao cachê de uma foto de anúncio que Talita fizera.

Irany enxuga uma lágrima e volta a sorrir, para contar o que está fazendo atualmente. "Colaborei para o envio de candidatas para a novela Chiquititas do SBT e promovo o evento Descobrindo Talentos, em São Caetano e São Paulo, no qual apresento 250 candidatos por mês". Irany usa de muita franqueza para com as mães, principalmente àquelas que insistem em transformar, com maquiagem e roupas extravagantes, suas garotinhas em miniaturas de adultas. "Criança tem de ser criança" -- diz ela. "Tem de ser espontânea e natural. Tem de viver plenamente a infância e não se expor acintosamente em atitudes sensuais, que não combinam com a carinha  angelical que têm". Irany reconhece que a culpa é das mães, que insistem em que as filhas imitem bailarinas ou cantoras.

Quem também pensa assim é a apresentadora Eliana, do SBT, que recentemente pediu a Irany que arranjasse crianças (crianças-crianças e não crianças-adultas) para participar do novo quadro de dublagem de seu programa matinal.

Uma passagem com a qual Irany não se conforma: o ex-paquito de Xuxa e ex-cantor Xande, há um ano, juntou o que tinha da carreira -- centenas de álbuns de fotos, roupas de Paquito, 500 troféus - e colocou fogo em tudo, para dedicar-se a ser pastor de igreja evangélica de São Caetano. Ninguém conseguiu entender o motivo da mudança.

Colocando de lado essa interrogação, Irany fala com entusiasmo da filial da Prytt em Nova York, sob os cuidados da amiga Carolina Hollander. A agência ainda é pequena, mas já realiza cerca de dois a três trabalhos por mês, entre desfile para lojas de roupas e fotos para comerciais. Mas se depender de seu pique e know-how, a Prytt vai ser sucesso também na Big Apple!



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