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Economia

Sindicalismo de São Bernardo
segue atávico e corporativista

DANIEL LIMA - 05/10/2018

Como faço vez e outra, sobretudo quando respostas têm tudo para se transformarem em bumerangue, eis que decidi dar uma de penetra na entrevista que o Diário do Grande ABC publicou na última segunda-feira com o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana. Diz a reportagem que Wagner Santana é sindicalista há 30 anos. Tão sindicalista que Wagnão não é conhecido pelo próprio nome. Como a maioria dos antecessores. Lula, por exemplo. Mas isso não é importante. O sindicalismo de São Bernardo, um dos principais responsáveis pela desigualdade salarial monstro no Município (escrevi várias análises sobre isso, com dados estatísticos irrefutáveis) segue em busca de proteção do Estado, porque é eivado de um socialismo retrógrado.  

Na sequência, reproduzimos a entrevista publicada pelo Diário do Grande ABC. Entro com “meus comentários” porque o que chamo de responsabilidade social da prática jornalística assim o exige. Entregar a entrevistados liberdade total para dizerem o que querem e o que sentem é ótimo exercício democrático que jamais poderá ser negado a ninguém. Tanto quanto eventuais contrapontos. O grande erro da imprensa nacional é esquecer que a liberdade de expressão é uma estrada de mão dupla que precisa ser utilizada sempre que houver conhecimento antagônico às declarações interesseiras e corporativas.  

Diário -- Qual o fato mais marcante que vivenciou no sindicato? 

Wagner Santana -- Não tem apenas um fato mais marcante, porque cada momento é uma situação diferente. Nós vivemos, por exemplo, casos de ameaça de fechamento de empresas em que os trabalhadores se mobilizaram, fizeram greve e conseguiram uma vitória. Por exemplo, a Volkswagen já tinha tomado a decisão de se instalar em Goiânia, em Pernambuco, onde hoje está a Fiat. Isso já era decisão tomada pela sede na Alemanha e que nós conseguimos reverter. Então, isso é marcante para aquele momento? Muito marcante. Lembro de caso em que consegui, por meio de ida ao Ministério Público, carta para reverter demissão por justa causa de um companheiro lesionado. Isso, para mim, eu era cipeiro (ou seja, fazia parte da Cipa) na época, foi marcante porque era um colega que estava com filho recém-nascido. Então, não dá para dizer que isso é mais marcante do que aquilo. 

Meus comentários – O enredo da suposta deserção regional da Volkswagen é outro e completamente diferente, segundo quem acompanhou as negociações de perto sem ter ligações sindicais. A multinacional alemã ganhou a disputa pela redução de custos e melhoria da produtividade na envelhecida planta de São Bernardo ao acenar com a ameaça de mudar de endereço. O sindicalismo bravio da CUT (Central Única dos Trabalhadores) mediu bem as consequências e recuou. A intocabilidade de custos, entre outras improdutividades operacionais, cedeu espaço a uma flexibilização que se tornou rotina e ajuda a explicar a quebra constante do contingente de trabalhadores, bem como o desembarque de novos projetos. Ainda há um caminho longo a ser percorrido para que a planta da Volkswagen em São Bernardo responda às exigências do mercado consumidor.   

Diário -- Em sua opinião, qual a importância da cadeia automotiva para a economia regional?  

Wagner Santana -- Não há como falar do Grande ABC sem a indústria automobilística. A região nasce por essa proximidade, por estar entre o Porto de Santos e grande centro consumidor, que é a cidade de São Paulo. A indústria automobilística se instala aqui por conta dessa característica e se mantém como única região produtora de automóveis do País por décadas, desenvolvendo todo o entorno por conta disso. O que é interessante é que a Região Metropolitana de São Paulo ou a Capital paulista, que é muito maior do que o Grande ABC, acabou não absorvendo, ou seja, a região não é um apêndice da cidade de São Paulo, não sendo ‘contaminada’ pela Capital. As sete cidades conseguiram se manter como uma região e ter vida própria, culturalmente, regionalmente e politicamente. Por isso, o Grande ABC torna nossa regionalidade muito especial. A quantidade de trabalhadores que se concentraram nessa região, que propiciaram grande movimentos grevistas da década de 1980, fez com que a região surgisse politicamente para o Brasil e, aí, deu uma outra característica, fazendo a região surgir não apenas como o berço da indústria do automóvel, mas também como um polo criador de políticas. 

Meus comentários – O sindicalista pinta uma região coloridíssima, mas distante da realidade. É inegável a força econômica do setor automotivo na região e isso não é necessariamente uma boa notícia. Sofremos de Doença Holandesa Automotiva. Temos a pior das combinações possíveis: cada vez mais o setor automotivo da região perde participação na produção de veículos no País, com queda absoluta e igualmente relativa no bolo nacional, mas segue predominante na grade produtiva local. Uma combinação desastrosa porque expõe desigualdades empresariais e sociais originárias do predomínio sobrerrodas e de um processo incansável de empobrecimento da atividade na região, conforme estamos cansados de mostrar e provar com números incontestáveis. A importância política da região é uma mágica cujos efeitos se dissiparam e se descobriu a verdade: não foi o fato de Lula da Silva ter virado presidente da República e de vários quadros de esquerda ascenderem na hierarquia federal que colocam a região na rota do poder. Bobagem, porque se confunde temporário com estrutural. Não temos representação política no Senado e no Legislativo Federal. Somos quase nada. Tanto quanto no Legislativo Estadual. O problema do sindicalista é que só enxerga o próprio umbigo corporativista. Ele precisa de uma sacudidela de cidadania, contraponto ao corporativismo indomável dos sindicalistas. Já do ponto de vista cultural, explico no livro “Complexo de Gata Borralheira”, lançado em 2002, por que somos apêndice da capital em muitos vetores. A região é essencialmente suburbana. Como toda periferia de Capital. 

Diário -- Sabemos que, atualmente, o valor médio da mão de obra do Grande ABC é maior do que a média nacional. Esse número que, para muitos, contribui para elevar o chamado custo ABC, e para outros é sinônimo de excelência do trabalho, se deve em parte à atuação do sindicato?  

Wagner Santana -- Primeiramente, acredito que é por conta da excelência dos nossos trabalhadores por conta da capacitação e do know how adquirido. Temos uma indústria química, que exige especialização muito alta e que boa parte atende à indústria automobilística. Essa, por sua vez, tem que ter um know how no desenvolvimento, na ferramentaria, na produção de componentes para montagem das linhas e para que a fábrica opere. Isso exige muita qualificação e estudo. Não é à toa que o Grande ABC é bem servido de universidades e escolas técnicas. A qualificação dos nossos trabalhadores tem que ser paga de alguma forma, como salário. Aliado a isso, também tem a questão da combatividade do sindicato. Lutamos para que a categoria receba aquilo que merece. O salário que eles (os operários) recebem são cobrados durante as nossas negociações. Achamos que os trabalhadores ganham mais porque merecem e isso dá qualidade de vida melhor, o que entendemos que é a forma de distribuir o ganho que as empresas têm pelo fato de ter mão de obra altamente qualificada. 

Meus comentários – No mundo paralelo em que vive o sindicalismo de São Bernardo, principalmente de São Bernardo, tudo é um mar de rosas. Inclusive a ilusão de que a mão de obra industrial é competitiva. Brevemente apresentaremos uma nova análise provando o contrário. Aliás, isso é notório. Os investimentos no setor são cada vez mais escassos. Além dos vícios trabalhistas, registra-se enorme carga de pressão dos sindicalistas que tratam muito mal as empresas e contam sempre com suporte do Estado em forma de subsídios diretos e indiretos às montadoras de veículos. O sindicalismo de São Bernardo perdeu contato com a realidade desde muito tempo. A desindustrialização não é fruto do acaso. Tem peso expressivo a forma com que o capital é tratado. As pequenas e médias empresas comeram e comem o pão que o diabo amassou e, sobretudo as familiares, desapareceram nos últimos 30 anos. Mais de 100 comitês de fábricas espalhados por São Bernardo e Diadema criaram um ambiente socialista retrógrado de produção. Quem caia na armadilha retórica de que houve abrandamento sindical na região não sabe o que se passa nos interiores das indústrias. Mudou-se apenas a forma de agir, mas a essência permanece. 

Diário -- Quais são os riscos do futuro do setor automotivo no Grande ABC para a categoria? O que temos de mudar, uma vez que as fábricas têm investido cada vez mais em tecnologia e demandam outro tipo de profissional?  

Wagner Santana -- O risco é ficarmos parados no tempo e não buscarmos adequação às novas tecnologias. Na década de 1990, nós fomos atrás de nos aperfeiçoar e compreender o que era o sistema Toyota de produção, por exemplo, que era a grande novidade da época, O sindicato foi atrás para entender o que era esse modelo de produção, que incluía um processo de robotização e discutimos a reestruturação das empresas à luz dessas modificações. O que nós temos agora é o grande desafio da indústria 4.0, que introduz processo de digitalização. O que o sindicato e a indústria têm que fazer em parceria com as universidades é pensar essa nova indústria e como os trabalhadores podem aproveitar isso. Quais funções continuarão? Quais serão extintas? Quais serão criadas? A substituição deste trabalhador requer requalificá-lo? Parte desses trabalhadores tem capacidade de requalificação e outra não. Aí, o Estado tem papel importante em relação a esses operários, que não podem, simplesmente, ser largados na rua. Quanto à requalificação, quem a fará? O Estado ou as empresas? O sindicato tem papel importante nesse assunto. Nós queremos discutir quem vem e qual é o perfil desses trabalhadores porque nós queremos e iremos representá-los. Portanto, o movimento sindical, empresas, trabalhadores e poder público estadual e municipal têm que, de alguma forma, interagir para que a região não perca o bonde da história. Caso contrário, vamos estar fadados a assistir ao fechamento das nossas fábricas. Se uma das partes desistir, vamos assistir às empresas modificarem seus modelos de produção sem a nossa presença, fazendo do jeito que querem com o objetivo único de lucrar. 

Meus comentários – O sindicalismo cutista precisa abandonar os velhos clichês e se modernizar. A disputa pela indústria digital já começou a ser perdida e exigirá medidas protecionistas sempre contrárias à produtividade geral. Chamar o Estado a todo instante às relações privadas é um vício resiliente demais. Por mais realistas que sejam as constatações do sindicalista, não se vê em contrapartida até agora qualquer iniciativa concreta dos representantes dos trabalhadores à altura das preocupações de estudiosos e de executivos de empresas privadas com a chegada da indústria digital. O Brasil está completamente despreparado e sofrerá duras consequências. Particularmente a região será ainda mais impactada. Prevalece a ideia de que é o centro do mundo automotivo e a história recente tem provado e comprovado que não. O futuro nos reserva mais perdas de empregos no setor, menos da metade em termos proporcionais desde os anos 1990.  Contamos com apenas 22 trabalhadores industriais para cada grupo de 100 com carteira assinada em todas as atividades. São Bernardo está um pouco acima da média regional, mas vai sofrer novos golpes, desferidos principalmente pela modernização tecnológica. 

Diário -- Considerando o risco de a fábrica da Ford em São Bernardo fechar ou sair daqui, dado que todos os modelos de carros estão em Camaçari (Bahia), exceto o New Fiesta, que é, em sua maioria, exportado, como estão as conversas com a montadora? O sindicato tem pleito antigo de trazer mais um modelo de carro para cá, mas não é o que acontece. O que fazer, então?  

Wagner Santana -- Primeiramente, nós não consideramos o risco de a Ford fechar porque ela é empresa histórica na nossa categoria, que começou como Willys e, mais tarde, como Ford Willys. É uma empresa importante, que tem uma rede de fornecedores muito relevante e que precisa ser preservada. Na última conversa que tivemos com ela, nos foi garantido o cumprimento do acordo que fizemos, que prevê a manutenção dos empregos até novembro de 2019, o que nos dá a tranquilidade de um processo de negociação para a vinda de um novo produto. Continuamos acreditando na possibilidade, como aconteceu em outras oportunidades, de sermos vitoriosos. Até porque, a planta de caminhões se sustenta. Não pensamos na hipótese do fechamento. 

Meus comentários – O saudosismo evocado pelo sindicalista não casa com o pragmatismo empresarial. Até porque, se assim o fosse, não seria necessário à multinacional observar atentamente a mundialização dos negócios de veículos automotores como bússola a decisões de investimentos. Há notório voluntarismo argumentativo do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Uma empresa não precisa evadir-se completamente, fechar as portas em direção a outras geografias, para deixar um Município. Basta esvaziar a linha de produção de forma gradual. É o que a divisão de veículos de passeio e comercial da Ford promoveu ao longo dos tempos. A descentralização automovia é uma corrida permanente para fugir do chamado Custo ABC. 

Diário -- A publicação oficial do Rota 2030 está sendo ‘empurrada’, sendo que a projeção mais recente é que isso aconteça na primeira quinzena de janeiro de 2019. Quais são os prejuízos desta demora para o setor automotivo da região? 

Wagner Santana -- Não consideramos o Rota 2030 como uma política industrial. Isto porque não incentiva a produção nacional e este é o primeiro ponto que já destrói e joga por água abaixo qualquer argumento contrário a isso. O Inovar-Auto tinha a primazia de obrigar as empresas a produzir localmente, pois 60% do conteúdo de um veículo tinham que ser feitos no Brasil, sem importar a origem a automobilística. O Rota 2030 não traz essa condição. Então, se as peças serão importadas da China, Coreia, Vietnã ou Índia, não importa. O programa é um emaranhado de discussão tributária que não fala em produção. Quando se discute números, percentual tributário e taxação de imposto, não se fala sobre pessoas, sobre emprego, sobre quem vai trabalhar e onde. Essa é a nossa questão. Qualquer lugar do País, isso que é interessante, você vê empresas que nunca imaginou no Brasil. Se você for para o Rio de Janeiro, em Resende, há a Volkswagen e a Nissan. Se você passar por Itatiaia, tem a Land Rover, e quem imaginaria que o País teria a Land Rover produzindo aqui? O Inovar-Auto a trouxe. Outro ponto é que nós conseguimos, a muito custo, colocar a discussão do carro elétrico no Rota 2030, mas o programa acabou prevendo a diminuição do imposto para importação dele. É um absurdo, porque, ao invés de incentivar a produção do veículo elétrico no Brasil, incentivou a importação. Essa lógica está totalmente errada, portanto, para nós, o Rota 2030 não serve para nada. 

Meus comentários – Embora economistas de viés esquerdista tentem manipular os números, a realidade é que o aclamado Inovar-Auto não passou de uma pirataria que levou a instituição-chefe do comércio internacional a ameaçar medidas retaliadoras duras que culminaram na eliminação do programa. Ainda não se definiu com clareza o que vem para valer como instrumento substituto. A choradeira do sindicalista segue a linha-mestra de incentivos fiscais à iniciativa privada de grande porte porque, dessa forma, será mais fácil conservar privilégios a trabalhadores do setor sob a guarda do sindicato. O grosso dos trabalhadores da região e os contribuintes do País que  se lixem. O corporativismo insano dos metalúrgicos faz parte do Brasil sucateado que ainda não enxergou mudanças econômicas em todo o mundo. Competitividade com muletas protecionistas do Estado não é algo que se possa chamar de capitalismo moderno, porque se manterão os privilegiados em detrimento dos demais. 

Diário -- Quanto ao projeto de apoio à ferramentaria, que prevê devolução de parte do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) ao setor automotivo como incentivo às ferramentarias do Grande ABC, e está no papel há mais de um ano, qual a situação atual?  

Wagner Santana -- Na verdade, ele é um programa que permite que se utilize o crédito de ICMS por conta de uma diferença cobrada nos produtos exportados em relação aos vendidos internamente. Nossa proposta é incentivar um setor extremamente importante, que é a ferramentaria. Ela está na base da construção de equipamentos para produção de veículos. Esse setor vem definhando com o tempo porque eles preferem comprar ferramenta na China, Coreia e outros locais, pois acham que é mais barato ou também porque parte dos acordos que as grandes empresas multinacionais automobilísticas fazem inclui compras de pacotes de produtos para todas as unidades do mundo. Então, a questão da liberação do crédito visa, justamente, incentivar a compra direta de ferramentas produzidas no Brasil. No início de setembro, conseguimos reativar a conversa com o governo de São Paulo para retomar essa discussão. Já existe um modelo acertado entre governo, Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) e movimento sindical, bastando apenas a decisão política para bater o martelo e fazer com que a ferramentaria deslanche novamente. 

Meus comentários – O mundo é o limite para as negociações entre empresas, sobremodo as multinacionais. Acabaram as fronteiras há muito tempo. O melhor preço de insumos à produção é uma equação complexa que leva em conta muitos fatores, inclusive o custo da mão de obra e do modelo de aplicação de impostos. A desindustrialização do Brasil é um processo histórico que se agrava ao se insistir em desprezar o universo produtivo em transformação. Os limites de produção são elásticos e começam com imensidão de quesitos cujos custos comparativos estão nas planilhas das grandes companhias de resultados cobrados pelos acionistas. Não há espaço ao romantismo. Esse é o capitalismo que temos como fonte geradora de riqueza. A alternativa é o socialismo que costuma dar certo nos primeiros tempos, até que a corrente da felicidade se rompe porque não tem almoço de graça. 



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