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Sociedade

Carta Aberta ao governador que
vai assumir o Estado Paulista

DANIEL LIMA - 03/09/2018

Caro governador do Estado que vai tomar posse em janeiro do ano que vem. Com todo o respeito aos missivistas que acabaram de lhe enviar um elenco de propostas do mesmo forno do ecossistema universitário específico e sem contraditório, bem diferente de tempos multifacetados do passado, não caia na armadilha de considerar o calhamaço como algo que seja espelho da demanda regional e, mais que isso, nem se deixe levar pelos excessos pré-eleitorais. Não saia a distribuir sinal verde a tudo e a todos. 

O que os acadêmicos da USCS (Universidade de São Caetano) lhe encaminharam é um documento que contempla muitos pleitos do passado sempre assombroso da região em cidadania e responsabilidade social. Algumas pitadas de coisas novas também não são tão novas assim. Somos uma região em processo degenerativo físico, social e sobretudo cognitivo. 

Aqui os bandidos sociais dão as cartas e jogam de mão. Contra eles, raros são aqueles que se manifestam. No meio universitário, então, a ideologia domina o palco para satisfazer egos exacerbados. 

Diferentemente de outros tempos, estamos céticos com o apanhado de desejos dos professores da USCS. Se no passado de dinheiro menos escasso os governos estaduais tucanos jamais se importaram com o que saiu destas bandas em forma de reinvindicações, o que esperar agora com os cofres vazios? Com raras exceções, os governos tucanos sempre deram de ombros.  

Dos governos federais petistas, também só colecionamos decepções. Muitos encaminhamentos prioritários a São Bernardo do primeiro-amigo de Lula da Silva, o então prefeito Luiz Marinho, foram sabotados pela política fiscal irresponsável do governo Dilma Rousseff. O sonho petista de tornar viável a candidatura de Luiz Marinho ao governo do Estado ruiu também ao sabor da Operação Lava Jato. Como se uma Rousseff fosse pouco. 

Contrapartidas a exigir 

Por gentileza, governador, não engrosse a lista dos fraudadores de esperança regional. Jogue duro com todos que se apresentarem como representantes da região. Eles não o serão na plenitude da regionalidade sonhada. São facções ideológicas, quando não partidárias, travestidas de uniformidade de pensamento de quase três milhões de habitantes.

Sei que o senhor recebeu a carta dos autores das propostas da Universidade de São Caetano e deve até acenar com soluções, porque é assim que se faz política – acenando para um futuro que jamais chega. Não custa nada, entretanto, entender essas linhas. Pretendemos evitar que o passado irresolvido mostre a cara como novo formato, mas os mesmos resultados finais. 

Se não me perco com a memória às vezes rebelde, foi há 21 anos a última vez que de fato se fez uma ação regional em defesa de demandas diversas. O governador de São Paulo era Mário Covas. Aquele 1997 fervia como o pontapé inicial de uma guinada extraordinária na relação entre esta Província, então Grande ABC, e o governo do Estado. Acabávamos de criar a Câmara Regional do Grande ABC. O evento fora o ancoradouro conclusivo de iniciativas fabulosos reunindo gestores públicos, empreendedores privados, legisladores estadual e federal e gente graduada da sociedade. 

Exemplos não faltam

O documento que publicamos em detalhes na revista LivreMercado, antecessora deste CapitalSocial, foi resultado da composição da Câmara Regional. Muito mais adensado, ecumênico e respeitável do que o que se vê agora. Os especialistas da USCS, bem-intencionados é verdade, usaram metodologia semelhante de eixos estruturantes utilizada pelo prefeito Celso Daniel, condutor daquele movimento que, como tudo nessa região, fracassou gradual e inexoravelmente. 

Pensando como um político que o senhor representa, caro governador, não teria dúvidas em engabelar os provincianos locais. Eles são loucos por manchetes de mídias sem sintonia fina com a sociedade. Uma migalha aqui, outra ali, e o senhor ganhará as manchetes como o grande salvador da Pátria. 

Está aí Geraldo Alckmin que não me deixa mentir. Ele nos deu um presente de grego em forma do trecho sul do Rodoanel, que nos rouba investimentos e riquezas com acessibilidade restritíssima, e os estúpidos provincianos o aplaudem. “Melhor esquina do Brasil”, disse Alckmin sobre o trecho que passa tangencialmente pela região, especificamente em São Bernardo. E todos acreditaram. 

Os estragos do trecho sul do Rodoanel estão metrificados, caro governador. Se desejar, lhe encaminho em forma de dossiê. Nenhuma mídia escreveu jamais sobre o assunto porque nossa mídia, em geral, é especializada em fazer média. 

Estágio macunaímico  

Agora, se o senhor for um agente público que honre as calças da cidadania, segue um conselho: ofereça com garantias algumas respostas positivas às intervenções solicitadas. Faça um esforço de reportagem e contemple ao longo dos próximos quatro anos algumas obras que há muito esperamos. Mas cobre contrapartidas da sociedade como um todo, sobretudo de quem detém o poder de decidir. Faça a Província sair do estágio macunaímico que a devora há pelo menos duas décadas. Somos uma sociedade preguiçosa institucionalmente, espertíssima individualmente e, quando em grupos de interesse, saia de baixo. Temos espertalhões a dar com pau. Gente inescrupulosa que não respeita a ética e o amanhã. Gente boa de conversa fiada. 

Sei caro governador que não deveria lhe dirigir uma carta com termos menos diplomáticos que o usual. Sei disso, claro. Mas como essa é uma relação que precisa ser construída sem dar margem a lantejoulas de hipocrisia, nada melhor que ser claro e cristalino, sobretudo porque não tenho rabo preso com qualquer uma das instituições da região. E muito menos com partidos políticos. 

Definir prioridades 

Certamente o senhor não vai contar com um interlocutor tão verdadeiro e bem informado, embora a região tenha muitos outros, os quais, entretanto, temem retaliações.  Enfrentar mandachuvas e mandachuvinhas locais não é algo que estimule quem tem juízo no lugar. 

Não se deixe impressionar, caro governador do Estado, com os frequentes clichês dos triunfalistas da região. Eles adoram enaltecer o quanto somos grandes em população, em votos, em PIBs, em tudo o que o senhor está cansado de ver porque as demandas regionais são sempre as mesmas, recheadas de dados, de investimentos, mas frágeis de viabilidade orçamentária. 

Não tenha medo, caro governador, de contrariar a região. Diga não a tudo que o senhor e seu grupo entenderem como supérfluos à aplicação de recursos. Vou explicar o que é supérfluo, caso o senhor eventualmente não saiba. Torna-se pouco proveitoso na escala de valores de um governador de Estado tudo que deixe o caráter de prioridade e vire complemento ante o confronto estadual de demandas. Governar, sabe bem o senhor, é estabelecer prioridades. E prioridades, politicamente falando, também tem componente subjetivo: a região que se auto intitula politizada não passa mesmo de uma Província. Vivemos o pior estágio de municipalismo e de regionalismo da história. 

A população está se lixando para coisas importantes ou supostamente importantes. Provas maiores: os dados consolidados de que o trecho sul do Rodoanel é um desastre para a região, o desprezo da Universidade Federal do Grande ABC a conceitos de integração econômica regional, a algazarra logística provocada por mercadores imobiliários sempre impunes e governos municipais que abrem as porteiras a irregularidades no uso e ocupação do solo. E vai aí afora, caro governador. 

Não quero lhe tomar mais tempo, caro governador. Sei que o senhor está em campanha e se acha vencedor como os demais 11 concorrentes. Receba a carta enviada pelos acadêmicos da Universidade de São Caetano com fidalguia e curiosidade, porque é um trabalho sério. Tão sério quanto limitado. E também enviesado ideologicamente. 

Dinossauros à solta 

Isso mesmo governador, contamos aqui com dinossauros que não entendem as regras do jogo econômico internacional. Muito menos conhecem minúcias de um regionalismo que precisa se integrar à metrópole. Temos gente que protege os amiguinhos de cores partidárias e não perde a oportunidade para, num documento que se esperava soberano na vontade de representar a regionalidade, reúne intervenções mal-ajambradas. Mas isso, caro governador, é assunto nosso, que vou destrinchar aqui no momento que me der na telha.

O que a Universidade de São Caetano quer nesse recente surto de regionalismo que incorporou a seus projetos (e isso é maravilhoso, ótimo, mas não pode ser tratado como uma tradição, um espetáculo que vem desde sempre) é um paraíso de resoluções inviáveis entre outras razões porque o orçamento estadual é escasso e o panorama nacional para os próximos anos será pouco melhor do que vivemos nos últimos anos. Sairemos do lamaçal pibiano para um terreno ainda escorregadio. Uma situação bem diferente, portanto, dos idos do final do século passado, quando Celso Daniel e centenas de representantes da sociedade, especialmente dos governos municipais, lançaram-se a uma empreitada inédita, e praticamente nada saiu do papel. 



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