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Economia

Sindicalismo reage e quem
paga a conta é a sociedade

DANIEL LIMA - 15/05/2018

Você não vai ler em lugar nenhum (entenda-se por lugar nenhum a Imprensa como um todo) a frase que se segue, que coloco entre aspas apenas como destaque: “o comitê de fábrica da Mercedes-Benz, em São Bernardo, é um agente nefasto nas relações entre capital e trabalho”. Para arredondar a afirmativa, complemento: “Muito mais, aliás, que tantos outros comitês de fábricas espalhados por indústrias de São Bernardo e da região por um sindicalismo retrógrado, contraditório, oportunista e sem compromisso com a sociedade”. 

O movimento grevista na fábrica da Mercedes-Benz em São Bernardo mostra o tamanho e a profundidade do corporativismo sindical. Bastou o mercado automotivo iniciar recuperação, sobretudo de veículos pesados, para a ramificação do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo na fábrica da companhia alemã usar de coerção para obter vantagens. Sempre foi assim nas montadoras de veículos locais. 

As empresas sempre cedem porque buscam e conseguem no governo federal compensações fiscais para seguir em frente com lucros fabulosos. Quem paga? O restante da sociedade, claro. Inclusive da sociedade regional que, ignorante, não se dá conta de que o desequilíbrio entre montadoras e demais setores de produção está na raiz da debandada industrial. 

A cultura do confronto instaurada pelos sindicalistas a partir de Lula da Silva, ao final dos anos 1970, ajuda a explicar a desindustrialização e a debacle da região. Some-se a isso a discriminação às pequenas e médias indústrias da cadeia automotiva patrocinada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e temos o resumo da ópera do empobrecimento regional. Antes disso, as pequenas e médias indústrias enfrentaram a uniformização generalizada de reivindicações trabalhistas, mais tarde reconhecida como danosa pelo então presidente Lula da Silva. 

Ambiente deteriorado 

As hostilidades ao capital, a pregação à apatia como medida tática de comedimento na produção e a discriminação a trabalhadores que ousarem romper receituários socialistas são marcas registradas dos comitês de fábricas espalhados pela região depois que o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Luiz Marinho, assim definiu uma das estratégias de fortalecimento da categoria sem se incomodar com o restante da sociedade. 

Coincidentemente, estamos reproduzindo hoje o ensaio de Luiz Marinho impresso no livro “Nosso Século XXI”, publicado em dezembro de 2001, obra cuja responsabilidade de edição dividi com a jornalista Malu Marcoccia. “Nosso Século XXI” é o retrato da flexibilidade ideológica deste jornalista. Entre os 29 ensaístas, o que temos como ponto em comum é a diversidade de pensamento. Algo que falta sobremodo aos esquerdistas e aos direitistas desde sempre.  

Não vou entrar em detalhes sobre a nova pauta de reivindicações dos metalúrgicos de São Bernardo.  O resumo da ópera, mais uma vez, é que o elenco de propostas coloca os trabalhadores da Mercedes-Benz num patamar extraordinariamente favorável, distinguindo-os da maioria dos trabalhadores brasileiros não vinculados às montadoras de veículos da região. 

O sindicalismo pretensamente socialista dos metalúrgicos de São Bernardo é um discurso furado que, voltando ao ensaio de Luiz Marinho, vem desde muito tempo. Essa história de sindicalismo cidadão é papo furado para boi dormir. As lideranças metalúrgicas da região jamais se preocuparam com o outro lado da moeda social, o lado da moeda de uma sociedade que não conta com o protecionismo combinado entre metalúrgicos das montadoras e as benesses de governo federal. Daí ter sintetizado tudo isso na expressão “Doença Holandesa Automotiva”, à qual acrescentei recentemente outra enfermidade, a “Síndrome de Estocolmo”. 

O leitor não vai encontrar nada crítico à greve dos metalúrgicos da Mercedes-Benz porque o jornalismo verde e amarelo é francamente defensor dos trabalhadores das montadoras de veículos, cuja média salarial na região é muitas vezes maior que a média salarial dos jornalistas remunerados que restaram na praça. 

O lobby sindical vem de longe. Quem ousar enfrentá-lo no campo da informação será execrado e perseguido. Ficará fora da rota de informações cujas fontes sejam as lideranças sindicais. Entrará na lista negra do esquerdismo mais radical. Os setoristas das montadoras de veículos (e automaticamente dos sindicalistas em ação) sabem que não podem ultrapassar determinados limites informativos quando o que está em jogo é a relação capital-trabalho. 

Farra fiscal favorece 

Só existe um antídoto para combater os privilégios históricos cristalizados pelos sindicatos dos metalúrgicos locais associados às montadoras: acabar com a farra fiscal e derivativos bancados pelo governo federal à custa dos contribuintes em geral. Como o fará agora, embora em menor volume, com a chamada Rota 2030, em substituição ao banido programa Inovar-Auto. 

As autoridades públicas ainda não se deram conta de uma interpretação fundamentada que produzimos neste espaço e ignorada (no sentido lato da palavra) por todo o mundo ligado ou não à cadeia automotiva, inclusive acadêmicos, estudiosos, consultorias especializadas: os privilégios aos trabalhadores de montadoras de veículos significam (e já comprovei isso empiricamente) pernicioso desequilíbrio nas relações trabalhistas, empresariais, econômicas, fiscais e tributárias, com danos profundos ao conjunto da sociedade impactada. 

Ao idiota de plantão que supostamente utiliza o contraditório de que a melhor resposta ao desequilíbrio seria mobilização semelhante das demais categorias profissionais, respondo com tolerância: não haveria Estado capaz de financiar novos privilégios. 

Desarrumação geral 

A Província do Grande ABC (e provei isso) é a vítima preferencial dessa distorção porque reúne a maior concentração de empresas do setor e um sindicalismo acostumado a encontrar facilidades de negociação. A média salarial de trabalhadores industriais na região (sobretudo em São Bernardo) é tremendamente superior às das demais atividades econômicas. Há um fosso entre os metalúrgicos da elite, ou seja, das montadoras de veículos, e os demais profissionais da indústria de transformação e, sobretudo, das atividades de comércio e serviços.

Incensado por jornalistas acomodados e mal informados, quando não agentes enrustidos das lideranças sindicais num esquema de patotas mais que conhecido na classe, o movimento sindical intimamente relacionado ao setor metalúrgico é uma vanguarda do atraso explicitada na baixíssima produtividade internacional. 

O espirito de corpo prevalece acima de qualquer outro indicador. A Mercedes-Benz de São Bernardo passou por rigorosa dieta de competitividade nos últimos anos, na qual incluiu a demissão de cinco mil trabalhadores, mas agora entrou no radar de estocadas do comitê de fábrica sob as ordens do Sindicato dos Metalúrgicos comandado pelos cutistas. Desse mato saem muitos novos coelhos de vantagens corporativas. 



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