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Regionalidade

Montadoras deveriam ajudar
na reestruturação regional

DANIEL LIMA - 09/05/2018

Sei porque sei e fiz questão que tudo se encaminhasse no sentido que se caminhou: há gente cética em relação à possibilidade de as montadoras de veículos sediadas na região darem uma força à recuperação econômica e social de que tanto precisamos. Claro que não faltam obstáculos para o sucesso da empreitada. Mas a saída é mais simples e certeira do que se imagina. 

As multinacionais de veículos (outras atividades produtivas também podem engrossar o caldo de soluções) não precisam fazer nada além de garantirem o patrocínio de um Planejamento Estratégico com condicionantes de aplicação que obrigariam instituições locais a seguirem à risca os pressupostos determinados pelos especialistas em competitividade econômica.  

Trocando em miúdos, o que quero dizer sem lantejoulas verbais que costumam enganar o distinto público é que as montadoras da região liderariam um movimento para entregar de presente à região uma consultoria especializada em competitividade. Essa é uma antiga demanda diante do aparvalhamento regional. Sem partir de algo consistente, com nexo, viabilidade e tudo o mais, só restaria chorar na calçada. É o que estamos fazendo desde sempre com retalhos de medidas que tropeçam nas próprias pernas de imprevidências. 

Apenas patrocinadores 

Ainda sendo mais preciso e claro, para não dizer contundente: as montadoras não dariam dinheiro algum a quem quer que seja como representação regional para debelar o incêndio no porão da baixa competitividade no setor produtivo. Seus dirigentes determinariam o financiamento de estudos e propostas de consultoria em competitividade sem necessariamente interferir no processo de soluções viáveis. 

O que quero dizer “sem interferir necessariamente no processo de soluções viáveis” é que a reconfiguração do tecido produtivo da região não passaria obrigatoriamente por arranjos que inseririam as montadoras de veículos e o setor automotivo como um todo. 

É claro que essa liberalidade é de cunho diplomático porque é impossível acreditar que a Província do Grande ABC chegará ao intento reestruturante de redução dos efeitos da Doença Holandesa e da Síndrome de Estocolmo sem passar pelas empresas do setor automotivo que contaminam o ambiente social da região. 

Se houver algum movimento de aproximação com executivos das montadoras por parte de alguma organização da região ou mesmo de um grupo de profissionais de áreas distintas que já não suporta mais a apatia institucional da região é improvável que não se efetivem os passos a uma ação inédita. 

Dívida antiga 

Não vou parar de especular no bom sentido sobre o que chamaria de obrigação das multinacionais automotivas em darem uma força para valer à recuperação desta Província. 

Trata-se de caminho muito melhor, mais cosmopolita, mais pragmático, mais tudo, do que sair em defesa dessas mesmas empresas para que continuem a beneficiar-se do protecionismo fiscal do governo federal em parceria com a nata dos trabalhadores locais, os metalúrgicos de primeira classe das linhas de montagem das montadoras de veículos. 

Aliás, as distorções de tratamento trabalhista às montadoras em relação às demais empresas estão na raiz regional como fonte de desigualdades empresariais e sociais.  As montadoras protegidas e as demais empresas jogadas às traças são incompatíveis num mesmo ambiente geográfico. Os estilhaços econômicos e sociais são compulsórios. Só não os vê quem pensa que enxerga, ou seja, o pior tipo de cego. 

Tentativa frustrada 

Puxando pela memória, com muito esforço, somente uma vez houve tentativa, e mesmo assim com conotação diferente da que estou a propor, entre agentes locais e representantes das montadoras. 

Estive juntamente com lideranças do Fórum da Cidadania do Grande ABC na sede da General Motors do Brasil, em São Caetano, em meados dos anos 1990. A comitiva pretendia chamar as montadoras para aquela entidade, reforçando-a. 

Os desdobramentos foram desanimadores. A GM não passou de promessa verbalizada pelo então mandachuva André Beer. Procurei recuperar textos daquela iniciativa, mas dei com os burros nágua. Mas não desisti. Provavelmente encontre. 

Defendo a ideia preliminar e por isso mesmo suscetível a mudança de que o Clube dos Prefeitos de presente tão tenebroso seja o agente de articulação no âmbito restrito de alguns dos associados da Anfavea, o Clube das Montadoras com sede em São Paulo. Ali onde os representantes locais das automotivas se encontram poderia ser a plataforma de embarque dessa iniciativa. 

O resgate da fratura histórica entre as montadoras e a sociedade deveria servir de carro-chefe à aprovação da proposta. Ficaria bem para a imagem de Ford, Mercedes-Benz, Volkswagen, General Motors e Scania colaborarem com a instalação desta região nos trilhos da eficiência econômica sistematizada tendo como elemento-chave dos estudos o princípio pétreo de que as divisas locais do bicho de sete cabeças seriam sumariamente desconsideradas, da mesma forma que determinadas vocações municipais poderiam ser aperfeiçoadas. 

Cestari é a liderança 

É uma pena que não exista na região nenhuma instância de poder não-oficial, ou seja, à parte do desenho herdado de Celso Daniel, que possa assumir interlocução com as montadoras. Ou no mínimo dividir essa tarefa com o Clube dos Prefeitos. O que se pode fazer se estamos à deriva? 

Não existe uma entidade econômica que, isoladamente, teria estofo para agir com vigor e poder de persuasão para chegar às lideranças das montadoras. 

Mas é possível sim achar um caminho se houver um esforço dos representantes da Fiesp na região, no caso as diretoriais do Ciesp. Contando inclusive com a cobertura da Avenida Paulista, a aproximação com o Clube das Montadoras seria facilitada. Entretanto, o Clube das Indústrias da região, que se divide em quatro territórios geográficos (São Caetano, Diadema, São Bernardo e Santo André, que incorpora Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra) são cidadelas que pouco se comunicam. São divisões de um mesmo organismo, como as autárquicas associações comerciais. 

O dirigente Fausto Cestari, do Ciesp de Santo André e também do conglomerado da Avenida Paulista, poderia ser o agente a liderar ou a compor as lideranças industriais da região na busca por um novo modelo produtivo que facilitasse, finalmente, a vida dos pequenos e médios empreendedores dentro do planejamento estratégico a ser estudado e proposto. Fausto Cestari tem experiência de sobra, conhecimento de sobra e articulação de sobra para exercer a função. Ele está tecnicamente muito mais habilitado à interlocução com os eventuais patrocinadores do Planejamento Estratégico Regional que qualquer prefeito dos prefeitos do Clube dos Prefeitos. 

Portanto, essa alternativa empresarial em substituição à reticente possibilidade de sucesso de uma ação liderada pelo Clube dos Prefeitos, me apetece muito mais. Até porque, convenhamos, teria a facilidade de dialogar na mesma língua dos representantes das montadoras. E também dos especialistas em competitividade.  

Uma linha de frente político-institucional do Clube dos Prefeitos em pandarecos e uma frente de empresários que sabem o quanto dói a dor da engrenagem disforme da competitividade regional talvez seja a melhor pedida. Só não podemos continuar na pasmaceira que vem de longe.



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